Da carne o aval

Publicado originalmente no Caderno Saber, do jornal Gazeta de Alagoas, em que foram publicados, por encomenda, textos de diversos autores a respeito do carnaval. Clique aqui para ver a matéria completa.

A:

“hum, aquele não é o vereador?”

“não. é o deputado.”

“é o vereador!” entre fumês .

desce do carro por instantes, de óculos solares, panos de flores e listras , algo tropical em blusa e camisa, bermuda, sandália de dedo. a banca de revistas tem batatas-fritas de cebola e salsa.

sai com sacola molhada de latas de cerveja. as batatas soltam farelos. bom pra chupar os dedos ao passar pelo ponto de ônibus e bêbados.olha para um rapaz:

“está indo para onde?”

“farol.”

“dou carona.” muitos se exaltam com a cena;

por não terem um caroneiro ou talvez um tal carona.

e nem viram o inclinar-se de bancos e corpos. nem tampouco a boca de barba se esmerando em língua e saliva. o rapaz de camiseta levantada até o queixo:

“ei, mas eu sou macho, porra. nunca nenhum homem…”

“eu te dou um agrado.” isso com o carro parado esquinas após.

e os pescoços suados de purpurina nem podem ver que o ford vez ou outra quase-quase estremece. e tecem:

“ai se eu tivesse carro.”

“recolhia tudo, né, bicha? rainha da sucata.”

B:

mas que roçares de pernas e braços.

e são peludos os ambos de todos que roçam. há os que afoitos empurram dedos por baixo dos panos, lânguidos de lânguidos pela noite que se esvai; e há os mais tristinhos, com ganas de verdades, poemando e poemando, com intuitos de beleza e alfaias:

“Se me tocas, tocas outro

que não eu. Que à tua cama

deitado, de assombro e frio

me faço, e de véu branco

me cubro, como se, todo

fingido, como se, todo

rubro, pudesse entregar-me

a ti. Mas me dando só

a pele, fica mantido

oculto o meu sangue, que este…”

e o poema assim brotado porque alguém se encostara às suas costas e se apertara e fora uma frufrulagem de tecidos e coxas, o poema logo cessa, que é tão triste, que é tão treva ver o jovem se beijando com a moça arlequina…

C:

Maceió, 26 de fevereiro de 2006

Serei breve.

Você esteve em Jaraguá estes dias? Eu não quis sair de casa.

Desde aquela sexta você não dá notícias. Perdeu meu celular?

Como está o folião mais belo da cidade? Hehehehehehe.

Não fosse você, eu teria tido mais raiva que alegria naquela noite.

Onde estava a administração desta cidade? Por que não deu mais apoio aos foliões? Que prévias, Senhor!, que prévias! Com o povo urinando pelas ruas…

Você é conhecido dessa gente? Fale com algum parente e diga pra terem mais respeito pelo povo, ora meu Deus.

Mas eu disse que ia ser breve.

Sei que é difícil pra você tudo aquilo. Por isso mando a carta por Sofia, que também curte, e uma hora vi ao seu lado (nem sei se você receberá, acho que é sua amiga).

Não se preocupe, não vou dizer nada pra mais ninguém (afinal, a quem diria?).

Você não mentiu quanto ao seu nome, mentiu?

Não se preocupe; nenhum rumor vai se espalhar e chegar ao ouvido da sua namorada.

Mas de tudo parece que, além da boa lembrança, ficou mais tristeza e uma coisa amarga.

Estava tudo tão belo, e era tão louçã a pele do seu ombro, em ferrugem e nácar, que engoli meu choro quando você se foi apenas por eu ter pedido que por um instante tirasse de seu rosto a máscara.

A:

“cansei.”

“oxe. vai a pé, é?”

“melhor! de repente, tem um caído na rua.”

“sim, ana néri. hauhauahauhaua”

“florence nightingale, amiga. nai-tin-GUEI-Ooouli.”

“ishushsishsushsisuheuhuhuhquh. você me mata.”

“eu mato mas cuido, né?”

“eu vou também.”

C:

Me liga.

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