A Motora Beleza

18/11/2012 2 comentários

No meio de dias sem um sorriso – o cotidiano me dominando com rédeas apertadas -, ganhei um presente de uma amiga. A Danda Almeida me enviou pelo facebook um vídeo de um flashmob com trecho da 9ª Sinfonia de Beethoven.

Foi gostoso ver as reações das pessoas. Algumas vezes, eu fechei os olhos e imaginei a sensação de estar caminhando por uma rua e deparar-se com aquela música, e com os músicos, e com a multidão embevecida.

O poema de Schiller e a música de Beethoven são realmente, em seu conjunto, uma das mais belas expressões de elogio à vida.

Ode à Alegria

Ó, amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais prazeroso
E mais alegre!

Alegria, formosa centelha divina,
Filha do Elíseo,
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Tua magia volta a unir
O que o costume rigorosamente dividiu.
Todos os homens se irmanam
Ali onde teu doce vôo se detém.
Quem já conseguiu o maior tesouro
De ser o amigo de um amigo,
Quem já conquistou uma mulher amável
Rejubile-se conosco!
Sim, mesmo se alguém conquistar apenas uma alma,
Uma única em todo o mundo.
Mas aquele que falhou nisso
Que fique chorando sozinho!
Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza:
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.
Ela nos deu beijos e vinho e
Um amigo leal até a morte;
Deu força para a vida aos mais humildes
E ao querubim que se ergue diante de Deus!

Alegremente, como seus sóis voem
Através do esplêndido espaço celeste
Se expressem, irmãos, em seus caminhos,
Alegremente como o herói diante da vitória.

Abracem-se milhões!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Irmãos, além do céu estrelado
Mora um Pai Amado.
Milhões, vocês estão ajoelhados diante Dele?
Mundo, você percebe seu Criador?
Procure-o mais acima do Céu estrelado!
Sobre as estrelas onde Ele mora!

Há muitos anos, disseram-me que essa sinfonia seria uma reflexão musical sobre a Criação, desde o Big-bang até o universo formado, quando o Criador, olhando o que havia criado, contemplaria em júbilo tudo aquilo, e festejaria junto com as criaturas.

Nos meus 19 anos de idade, quando me mudei para São Paulo, eu costumava, no apartamento de meu tio Newton, ficar ouvindo música enquanto estava sozinho. Uma das coisas que eu mais escutava era a 9ª Sinfonia. No momento do coral, eu fechava os olhos e ouvia extasiado – muitas vezes, ouvia tomado de uma tristeza sem fundo; uma tristeza que as coisas muito belas nos dão. De certo modo, a tristeza de não ser nossa aquela beleza.

Mas, essa música não deve ser apenas ouvida à distância, como se contemplássemos algo do outro – ela deve ser ouvida para nos lembrar a participação nessa beleza. A beleza das coisas miúdas. A beleza clichê de saber-se vivo.

A beleza e a alegria que senti quando (acho que no Natal de 1993), passando em frente ao Teatro Municipal de São Paulo e indo pela Barão de Itapetininga, me deparei com um som crescendo tímido até se impor e exigir minha presença contente: num coreto (acho que havia um coreto improvisado), algumas crianças cantavam Adeste Fidelis. Parei, ouvi-as – e saí de lá agradecido por estar vivo para apreciar aquilo. Saí de lá cantarolando e desejando silencioso um Feliz Natal para todos.

Diversas vezes, a minha decisão em fazer arte partiu de não querer ser espectador do Belo, mas de querer ser partícipe dele. Ser escritor é muito árduo, porque a beleza criada está fora do autor – ela passeia pelas mãos dos leitores, mas são as palavras que passeiam. Ser ator alimenta um pouco mais essa sede de ser belo – mas, contra esse ofício depõem a fugacidade do instante e a inevitável solidão após o instante.

Uma vez, eu adolescente, vi na televisão uma apresentação de balé. Ao fim, eu chorava convulsivamente.

Por muitos anos, minha busca maior foi a de ser santo – a de fazer de minha vida uma obra de arte. Depois, coloquei isso de lado e passei a querer fazer obras de arte. Não sei o que buscarei amanhã – mas, a Beleza está no centro de minha busca.

É um exercício constante a busca de não olhá-La como algo externo. E talvez ajude nisso ouvir a Sinfonia Coral; ouvi-la de olhos fechados, deixando que o corpo celebre a simples e enorme beleza de estar no mundo.

enJoy!

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O que há de verdade em tanta mentira : à maneira de nota de rodapé

Há pouco, visitando o site da editora Estação Liberdade (de catálogo sempre visitado e desejado), deparei-me com um título de Yasunari Kawabata: O mestre de Go (traduzido diretamente do japonês por Meiko Shimon).

Lendo a sinopse do livro, vi que eu já conhecia o Go, e que eu tive um mestre disso na minha infância: Manoel, meu avó materno. Baseando-me nas lembranças dele, eu criei o avô de “A ceia“: o seu costume de cheirar rapé, o seu corpo, o tabuleiro e o jogo de tentar cercar os feijões. Pois agora sei o nome do jogo, “o jogo que meu avô me ensinou e para o qual me convidou em tantas tardes”.

“Ganhei!”

Aqui, imagens do jogo e suas regras: na Wikipédia; na Ilha do Tabuleiro. Não me lembro de como jogávamos (se seguíamos a regra chinesa ou a japonesa),  mas foi esse o jogo que nos distraiu em diversos momentos. E também esse o jogo que nos unia (sim, nós dois não nos dávamos muito bem). Mas, antes que digam que o conto é autobiográfico, aviso que meu avô também aparece no conto “A canção e a sombra”, travestido de avó, quando conta a história da onça esperta e maravilhosa. Nos contos, estão meus avós, meu pai, minha mãe, minhas irmãs (elas aparecem nas fotografias de “Não é tempo de maçãs”)… está um anônimo vendedor de uma mercearia:

Após o jantar, havíamos comido paca e arroz de leite, eu adorava arroz de leite, fomos para o alpendre ouvir as histórias da minha vó, umas de mal-assombro, outras de fadas azuladas. Impressionou-me a da onça que virou cerca e, depois, pneu de caminhão. Pneu de caminhão? É, pneu de caminhão, disse a vó. Porque a onça era esperta e se disfarçava do que queria, cheia de artifícios para conseguir agarrar a presa que era o dono da fazenda, que tentava atravessar sua propriedade, mas havia-se deparado com a danada, um enorme pneu escondendo os dentes longos e finos como punhais. Tudo verdade!, a vó disse. E eu falei acredito, acredito, vó. E ria. E ela me olhava com a cara séria.

E agora, vendo minhas ficções, o passado olha para mim com um sorriso, denunciando as coisas, catalogando-as, e eu olho para ele com a cara séria, como se pedisse que ele não denuncie as coisas, mas deixe-as como estão e como agora realmente são, uma névoa quase sólida, embotando visão e tato.

Sobre essa relação entre ficção e realidade, e a relação estabelecida com o leitor, fiz uma postagem há alguns meses, valendo-me de um texto de Thomas Mann: Ficção e Realidade : Quem? Onde? (tomando Thomas Mann por mote). Aqui, reproduzo o que havia colocado nessa postagem, e o que sinto necessidade de repetir agora, quando falei do “jogo que meu avô me ensinou e para o qual me convidou em tantas tardes”:

[…] uso as palavras de Mann não apenas para expor esse problema de que ele trata; uso-as para quando as pessoas olham a obra e, em vez de ter a vista dirigida para o mundo, buscam ver no texto o seu autor, gerando perguntas tais como: “é você esse menino?”; ”aquela é sua avó, não?”; “como você era maldoso quando criança”; ”reconheço essa rua”…

Perguntas e afirmações desse tipo ouço-as quando algum leitor vem comentar sobre os contos de diabolô. E o que eu digo? Que ali há sentimentos que um dia senti ou percebi; que ali há uma geografia que eu já vi ou percorri. Pois, sim, ali há o bairro do Prado em Maceió, há seu cemitério; há o mercado cheio de lama; há as barbearias… Eu vou falar das vielas de Estocolmo? Há vielas em Estocolmo? Como são? 

E as pessoas? Em quem eu me inspirei? Por favor, que eu informe, pois seria tão interessante saber da fonte, saber quem eu talvez tenha vampirizado para colocar na escrita. Vampirizo o mundo, sugo-o, ele que me suga.

Creio ser mais interessante, ao ler um livro, não buscar ali o autor, mas buscar ali a si mesmo. Do contrário, de que adianta passar horas aventurando-se em ler um livro se não for também para se auto-conhecer?

Parece-me haver, na verdade, um temor. Um medo de enxergar-se. Por isso, o olhar fito na direção do autor, para se desviar de si mesmo. Melhor que nas páginas esteja o horror do outro e não o do próprio leitor.

Mas, ao se deparar o leitor com um livro que se apresenta como uma obra de ficção, acho que ler e esquecer o autor, vendo apenas a história ali apresentada e suas personagens, podendo daí haver, talvez, uma experiência vicária, isso é para mim uma coisa tão mais sábia, tão mais bela. Tão mais corajosa.

Agora, sabendo o nome do jogo, posso explicar melhor quando algum leitor me perguntar a respeito dele. Mas, no conto, ele continuará sem nome, porque aquele avô não sabia nomeá-lo, e nem aquele garoto e o homem em que mais tarde ele se tornaria. Dele, saberiam dizer apenas “o jogo de um tentar prender o outro”. Go.

Mostras de Cinema e Teatro Alagoanos : Para desfazer a Ladainha

Em outubro, tivemos a 3ª Mostra Sururu de Cinema Alagoano; em novembro, teremos a 1ª Mostra do Teatro Alagoano. Dois gandes motivos para comemorarmos; dois grandes motivos para sairmos de casa; duas grandes respostas para aqueles que vivem repetindo a enjoada ladainha: “tem nada de arte acontecendo aqui”;  “tem peça boa na cidade?”; “tem teatro no interior?”; “existe curso de teatro?”; “cinema?! deixe de sonhar, bote o pé no chão”.

A última parte da ladainha, eu ouvi duas vezes, vindo da mesma pessoa. Ela me disse que eu estava sendo ingênuo, bobo, sonhador demais quando eu lhe disse que ia investir em uma carreira no cinema. “Cinema, Nilton? Diz uma coisa: você faz literatura, teatro, cinema… Finalmente, o que você quer? Bote o pé no chão”.

Na hora, fiquei mal, muito mal. Na hora, não me lembrei de um trecho de um poema do Jorge de Lima que devo sempre carregar na memória:

Noite longa alongai-me
como uma figura de Greco
para eu respirar em cima.

Lembrando-me do poema, digo: devo sim ter o pé no chão. Todos nós que fazemos arte devemos ter o pé no chão. Mas, “como uma figura de Greco”, que pisa o chão mas tem o olhar no alto. Respira no sonho e anda na terra. É justamente esse diálogo que nos permite o ofício artístico.

São Jerônimo Penitente / El Greco

Daí, quando digo “cinema”, sou um sonhador, mas como essa figura ampla. Todos nós, aqui, somos como figuras de El Greco. Então, após essas diversas figuras desfilarem nas telas do Cine Sesi, teremos mais delas espalhando-se por diversos teatros e espaços no mês de novembro.

Nós do grupo Ganymedes somos assim alongados, e apresentaremos, na Mostra, o espetáculo As Muitas Últimas Coisas.  Também estarão lá, além de nós, diversos outros grupos, com pessoas alongadas, que respiram em cima e pisam o nosso chão.

Apareça, prestigie-nos, prestigie-se. Dê a você mesmo a oportunidade de mudar a ladainha.

Por 500 anos, um Grito : Carta da comunidade Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay-Iguatemi-MS para o Governo e Justiça do Brasil

Reproduzo aqui a Carta da comunidade indígena que vem sendo gradativamente dizimada em favor de interesses políticos, econômicos. Nessa carta, expõe-se uma parte do genocídio que vem sendo praticado no Brasil contra os Índios, que nele habitam desde antes de isto aqui ser Brasil.

Indígenas Guarani-Kaiowá ameaçam morrer coletivamente caso ordem de despejo seja efetivada

Aqui, um vídeo com depoimentos dos indígenas:

Carta da comunidade Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay-Iguatemi-MS para o Governo e Justiça do Brasil

 Nós (50 homens, 50 mulheres e 70 crianças) comunidades Guarani-Kaiowá originárias de tekoha Pyelito kue/Mbrakay, viemos através desta carta apresentar a nossa situação histórica e decisão definitiva diante de da ordem de despacho expressado pela Justiça Federal de Navirai-MS, conforme o processo nº 0000032-87.2012.4.03.6006, do dia 29 de setembro de 2012. Recebemos a informação de que nossa comunidade logo será atacada, violentada e expulsa da margem do rio pela própria Justiça Federal, de Navirai-MS.

Assim, fica evidente para nós, que a própria ação da Justiça Federal gera e aumenta as violências contra as nossas vidas, ignorando os nossos direitos de sobreviver à margem do rio Hovy e próximo de nosso território tradicional Pyelito Kue/Mbarakay. Entendemos claramente que esta decisão da Justiça Federal de Navirai-MS é parte da ação de genocídio e extermínio histórico ao povo indígena, nativo e autóctone do Mato Grosso do Sul, isto é, a própria ação da Justiça Federal está violentando e exterminado e as nossas vidas. Queremos deixar evidente ao Governo e Justiça Federal que por fim, já perdemos a esperança de sobreviver dignamente e sem violência em nosso território antigo, não acreditamos mais na Justiça brasileira. A quem vamos denunciar as violências praticadas contra nossas vidas? Para qual Justiça do Brasil? Se a própria Justiça Federal está gerando e alimentando violências contra nós.  Nós já avaliamos a nossa situação atual e concluímos que vamos morrer todos mesmo em pouco tempo, não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui na margem do rio quanto longe daqui. Estamos aqui acampados a 50 metros do rio Hovy onde já ocorreram quatro mortes, sendo duas por meio de suicídio e duas em decorrência de espancamento e tortura de pistoleiros das fazendas.

Moramos na margem do rio Hovy há mais de um ano e estamos sem nenhuma assistência, isolados, cercado de pistoleiros e resistimos até hoje. Comemos comida uma vez por dia. Passamos tudo isso para recuperar o nosso território antigo Pyleito Kue/Mbarakay. De fato, sabemos muito bem que no centro desse nosso território antigo estão enterrados vários os nossos avôs, avós, bisavôs e bisavós, ali estão os cemitérios de todos nossos antepassados.

Cientes desse fato histórico, nós já vamos e queremos ser mortos e enterrados junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje, por isso, pedimos ao Governo e Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas solicitamos para decretar a nossa morte coletiva e para enterrar nós todos aqui.

Pedimos, de uma vez por todas, para decretar a nossa dizimação e extinção total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para  jogar e enterrar os nossos corpos. Esse é nosso pedido aos juízes federais. Já aguardamos esta decisão da Justiça Federal. Decretem a nossa morte coletiva Guarani e Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay e enterrem-nos aqui. Visto que decidimos integralmente a não sairmos daqui com vida e nem mortos.

Sabemos que não temos mais chance em sobreviver dignamente aqui em nosso território antigo, já sofremos muito e estamos todos massacrados e morrendo em ritmo acelerado. Sabemos que seremos expulsos daqui da margem do rio pela Justiça, porém não vamos sair da margem do rio. Como um povo nativo e indígena histórico, decidimos meramente em sermos mortos coletivamente aqui. Não temos outra opção esta é a nossa última decisão unânime diante do despacho da Justiça Federal de Navirai-MS.

Atenciosamente, Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay

Relatório do conselho Aty Guasu explica a situação dos Guarani Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay

Este relatório é do conselho da Aty Guasu Guarani e Kaiowá, explicitando a história e situação atual de vida dos integrantes das comunidades Guarani-Kaiowá do território tradicional Pyelito Kue/Mbarakay, localizada na margem de Rio Hovy, 50 metros do rio Hovy, no município de Iguatemi-MS. O acampamento da comunidade guarani e kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay começou no dia 08 de agosto de 2011.

É importante ressaltar que os membros (crianças, mulheres e idosos) dessa comunidade proveniente de uma reocupação, no dia 23 de agosto de 2011, às 20h00, foram atacados de modo violentos e cruéis pelos pistoleiros das fazendas. A mando dos fazendeiros, os homens armados passaram permanentemente a ameaçar e cercar a área minúscula reocupada pela comunidade Guarani-Kaiowá na margem do rio que este fato perdura até hoje.

Em um ano, os pistoleiros que cercam o acampamento das famílias guarani-kaiowá, já cortaram/derrubaram 10 vezes a ponte móvel feito de arame/cipó que é utilizada pelas comunidades para atravessar um rio com a largura de 30 metros largura e mais de 3 metros de fundura. Apesar desse isolamento pistoleiros armados ameaçam constantemente os indígenas, porém 170 comunidades indígenas reocupante do território antigo Pyelito kue continuam resistindo e sobrevivendo na margem do rio Hovy na pequena área reocupada até os dias de hoje, estão aguardando a demarcação definitiva do território antigo Pyelito Kue/Mbarakay.

No dia 8 dezembro de 2009, este grupo já foi espancado, ameaçado com armas de fogo, vendado e jogado à beira da estrada em uma desocupação extra-judicial, promovida por um grupo de pistoleiros a mando de fazendeiros da região de Iguatemi-MS. Antes, em julho de 2003, um grupo indígena já havia tentado retornar, sendo expulso por pistoleiros das fazendas da região, que invadiram o acampamento dos indígenas, torturaram e fraturaram as pernas e os braços das mulheres, crianças e idosos. Em geral os Guarani e Kaiowa são hoje cerca de 50 mil pessoas, ocupando apenas 42 mil hectares. A falta de terras regularizadas tem ocasionado uma série de problemas sociais entre eles, ocasionando uma crise humanitária, com altos índices de mortalidade infantil, violência e suicídios entre jovens.

No último mês a Justiça Federal de Navirai-MS, deferiu liminar de despejo da comunidade Guarani e Kaiowá da margem do rio Hovy solicitado pelo advogado dos fazendeiros e, no despacho cita “reintegração de posse”, mas observamos que o grupo indígena está assentado na margem do rio Hovy, ou seja, não estão no interior da fazenda como alega o advogado dos fazendeiros. De fato, não procede à argumentação dos fazendeiros e por sua vez do juiz federal de Navirai sem verificar o fato relatado, deferir a reintegração de posse. Não é possível despejar indígenas da margem de um rio. Por isso pedimos para Justiça rever a decisão de juiz de Navirai-MS.

No sentido amplo, nos conselhos da Aty Guasu recebemos a carta da comunidade de Pyelito Kue/Mbarakay em que consta a decisão da comunidade que passamos divulgar a todas as autoridades federais e sociedade brasileira.

Tekoha Pyelito kue/Mbarakay, 08 de outubro de 2012

Atenciosamente,

Conselho/Comissão de Aty Guasu Guarani e Kaiowá do MS.

Egon Heck

Povo Guarani Grande Povo

Cimi 40 anos, 10 de outubro de 2012

Tomei conhecimento da carta no blog do Bernardo Freire: Acídia.

Mais informações podem ser encontradas no site do Cimi – Conselho Indigenista Missionário.

Também a Associação Brasileira de Antropologia – ABA move-se para divulgar o caso e pedir soluções.

Aqui, uma petição em favor da Causa Indígena.

A foto que ilustra esta postagem foi retirada da página da Anistia Internacional Brasil no facebook.

Revista Machado de Assis / Literatura Brasileira em espanhol e em inglês

Em 2013, o Brasil será o convidado de honra da Feira de Frankfurt.

Como preparação para o próximo ano, foi lançada no dia 10, durante a feira, a edição impressa da Revista Machado de Assis, fruto de uma parceria entre a Fundação Biblioteca Nacional e o Itaú Cultural. A versão online ficou disponível na internet a partir do dia anterior.

Nela, está meu conto “A ceia“, traduzido para o espanhol pelo Pablo Cardellino Sotto, sob o título “La cena“.

Outros autores presentes na revista, com seus textos traduzidos para espanhol e inglês, são Machado de Assis, Alberto Mussa, Andrea del Fuego, Bernardo Carvalho, Ronaldo Correia de Brito, Cristóvão Tezza, Eucanaã Ferraz, Flávia Lins e Silva, André de Leones, João Amzanello Carrascoza, João Paulo Cuenca, Joca Reiners Terron, Luisa Geisler, Luiz Ruffato, Paloma Vidal, Aluísio Azevedo, Ronaldo Wrobel, Rubens Figueiredo, Silviano Santiago, Carola Saavedra.

Na Revista, há os textos traduzidos e  informações sobre os livros e seus autores (no formato comum e em pdf).

Um bom exercício de leitura de nossa literatura e de apreciação do trabalho tradutório é ler os textos no original e suas traduções.

Até o próximo ano, o Brasil e sua literatura serão vistos de diversos modos, numa tentativa de seduzir os editores e leitores estrangeiros. Diversas estratégias estão sendo criadas com esse fim. Espero que a sedução dê certo.

A Revista Machado de Assis terá duas periodicidades: semestral, para a versão impressa; trimestral, para a versão online.

Boa leitura.

A última entrevista de Graciliano Ramos

07/10/2012 2 comentários

Acabei de compartilhar no facebook a última entrevista de Graciliano Ramos. Com medo de depois perdê-la, resolvi postá-la aqui, com os devidos créditos.
Decidi não perdê-la de vista porque Graciliano é/foi um homem/artista/político exemplar. E é bom, vez ou outra, olhar para ele, para tomá-lo como modelo e perder um pouco a sede de glórias; lê-lo e ter a certeza de como escrevemos pouco e mal; olhá-lo e pensar como devemos ter vergonha na cara. Mas, vergonha mesmo!

A entrevista, eu a roubei daqui: Jornal Opção.

Eis (copiada e colada):

A última entrevista de Graciliano Ramos

Numa manhã de dezembro de 1948, dez anos após a publicação de “Vidas Secas”, Graciliano Ramos se confessa ao jornalista e escritor Homero Senna, em sua última longa entrevista

Principio por pedir a Graciliano Ramos que me diga alguma coisa sobre os começos de sua vida, no interior de Alagoas, na cidade de Quebrangulo (não Quebrângulo, como geralmente se diz), onde nasceu. “Mas isso tudo está contado em ‘Infância’. Valeria a pena repetir?” E como eu dissesse que sim, resumiu: “De minha cidade natal não guardo a menor lembrança, pois saí de lá com um ano. Criei-me em Buíque, zona de indústria pastoril, no interior de Pernambuco, para onde, a conselho de minha avó, meu pai se transferiu com a família. Em Buíque morei alguns anos e muitos fatos desse tempo estão contados no meu livro de memórias”.

Abro o volume, para conferir, e, entre outras coisas, lá encontro este perfil psicológico do velho Ramos, traçado pelo filho: “Tinha imaginação fraca e era bastante incrédulo. Aborrecia os ateus, mas só acreditava nas contas correntes e nas faturas. Desconfiava dos livros, que papel aguenta muita lorota, e negou obstinadamente os aeroplanos. Em 1934 considerava-os duvidosos”.

De quem o romancista teria herdado, então, o gosto pela literatura? Talvez do avô paterno,  cujo retrato desbotado costumava admirar no álbum que se guardava no baú, e de quem admite que tenha recebido em legado “a vocação absurda para as coisas inúteis”. De sua mãe, o espírito infantil recolheu esta impressão: “Uma senhora enfezada, agressiva, ranzinza, sempre a mexer-se, várias bossas na cabeça mal protegida por um cabelinho ralo, boca má, olhos maus que em momentos de cólera se inflamavam com um brilho de loucura”, ente difícil que na harmonia conjugal “se amaciava, arredondava as arestas, afrouxava os dedos que batiam no cocuruto, dobrados, e tinham a dureza de martelos”.

De Buíque, onde o romancista frequentou a primeira escola, experimentou os primeiros desânimos diante dos livros didáticos do Barão de Macaúbas e viveu algumas das inesquecíveis aventuras de sua meninice, a família mudou-se para Viçosa, não a de Minas, terra do presidente Bernardes, mas a açucareira do interior de Alagoas. O que foi a extensa caminhada, de dezenas de léguas, desde os campos ralos, povoados de xiquexiques e mandacarus, até uma nova paisagem, de vegetação densa e muito verde, longa viagem feita em lombo de animal, está contada numa das melhores páginas de “Infância”.

De Viçosa, Graciliano passou a Maceió, onde frequentou um colégio mau; voltou e, aos 18 anos, foi morar em Palmeira dos Índios, no interior do Estado. Em Palmeira dos Índios chegaria a prefeito, e foi graças a dois relatórios que escreveu que se tornou conhecido.  Mas não precipitemos os acontecimentos.

Estamos ainda em 1914. Nesse ano realiza Graciliano sua primeira viagem ao Rio, tendo trabalhado como foca de revisão. No “Correio da Ma­nhã” e no “O Século”, de Brí­cio Filho, não passou de suplente de revisor, trabalhando apenas quando o revisor efetivo faltava. Em “A Tarde”, porém, um jornal surgido naquela época para defender Pinheiro Ma­chado, chegou a revisor efetivo. Morou em várias pensões, naquele Rio dos princípios do século, que tantos cronistas já têm descrito. Os antigos endereços ficaram-lhe na memória, e sem qualquer esforço o romancista os vai citando: Largo da Lapa 110; Maranguape 11, Riachuelo 19. Todos numa zona então muito pouco recomendável, porque bairros de meretrício, de desordeiros e boêmios.

Nessa sua primeira viagem à Corte procurou aproximar-se de algum escritor, fez camaradagem literária?

Nenhuma.  Os escritores daquele tempo eram cidadãos que, nas livrarias e nos cafés, discutiam colocação de pronomes e discorriam sobre Taine. Machado e Euclides já haviam morrido, e os anos de 1914 e 1915, em que estive no Rio, assinalam, na literatura brasileira, uma época cinzenta e anódina, de que é bem representativo um tipo como Osório Duque Estrada, que então pontificava.

Ficou aqui até quando?

Até 1915. Depois de curta e nada sedutora permanência na capital, achei melhor voltar para Palmeira dos Índios, onde já havia deixado um caso sentimental e onde minha família estava toda sendo dizimada pela peste bubônica. Num só dia perdi dois irmãos. Alarmado, e também desgostoso com a vida que levava, tratei de voltar para Alagoas. Em outubro de 1915 casei-me e estabeleci-me com loja de fazendas em Palmeira dos Índios. A mesma loja que fora de meu pai.

Nessa ocasião já tinha preocupações literárias?

Lia muito e escrevia coisas que inutilizava ou publicava com pseudônimos.

Quer revelar alguns desses pseudônimos?

Você é besta.

Fazia versos?

Aprendi isso, para chegar à prosa, que sempre achei muito difícil. Tendo vivido quinze anos completamente isolado sem visitar ninguém, pois nem as visitas recebidas por ocasião da morte de minha mulher eu paguei, tive tempo bastante para leituras. Depois da Re­volução Russa, passei a assinar vários jornais do Rio. Desse modo me mantinha mais ou menos informado, e os livros, pedidos pelos catálogos, iam-me do Alves e do Garnier, e principalmente de Paris, por intermédio do Mercure de France.

Então, se procurava manter-se tão bem informado a respeito do que se passava no Rio e no resto do mundo, deve ter acompanhado, lá de Palmeira dos Índios, o movimento modernista?

Claro que acompanhei. Já não lhe disse que assinava jornais?

E que impressão lhe ficou do modernismo?

Muito ruim. Sempre achei aquilo uma tapeação desonesta. Salvo raríssimas exceções, os modernistas brasileiros eram uns cabotinos. Enquanto outros procuravam estudar alguma coisa, ver, sentir, eles importavam Marinetti.

Não exclui ninguém dessa condenação?

Já disse: salvo raríssimas exceções. Está visto que excluo Ban­deira, por exemplo, que aliás não é propriamente modernista. Fez sonetos, foi parnasiano. E o “Solau do Desamado” é como as “Sex­tilhas de Frei Antão”. Por dever de ofício, pois estou organizando uma antologia de contos brasileiros, antologia que rola há mais de três anos, tive de reler toda a obra de um dos próceres do modernismo. Achei dois contos de cinco ou seis páginas cada um. E pergunto: isso justifica uma glória literária?

(Franze a testa, detém-se um instante, mas logo prossegue.)

Os modernistas brasileiros, confundindo o ambiente literário do país com a Academia, traçaram linhas divisórias rígidas (mas arbitrárias) entre o bom e o mau. E querendo destruir tudo que ficara para trás, condenaram, por ignorância ou safadeza, muita coisa que merecia ser salva. Vendo em Coelho Neto a encarnação da literatura brasileira — o que era um erro — fingiram esquecer tudo quanto havia antes, e nessa condenação maciça cometeram injustiças tremendas. Nas leituras que tenho feito, para a organização da antologia a que me referi, encontrei vários contos, de autores propositadamente esquecidos pelos modernistas e que seriam grandes em qualquer literatura. Lembro-me de alguns: “O Ratinho Tique-Taque”, de Medeiros e Albu­quer­que; “Tílburi de Praça”, de Raul Pompéia; “Só”, de  Domício da Gama; “Coração de Velho”, de Mário de Alencar; “Os Brincos de Sara”, de Alberto de Oliveira. Nas antologias que andam por aí essas produções geralmente não aparecem, e de alguns dos autores citados são transcritos contos que não dão a ideia exata do seu talento e do domínio que tinham do gênero. Só posso atribuir isso, como já disse, à desonestidade. Porque se os compararmos aos produtos dos líderes modernistas, estes se achatam completamente.

Quer dizer que não se considera modernista?

Que ideia! Enquanto os rapazes de 22 promoviam seu movimentozinho, achava-me em Palmeira dos Índios, em pleno sertão alagoano, vendendo chita no balcão.

E como foi que chegou a prefeito da cidade?

Assassinaram o meu antecessor. Escolheram-me por acaso. Fui eleito, naquele velho sistema das atas falsas, os defuntos votando (o sistema no Brasil anterior a 1930), e fiquei vinte e sete meses na prefeitura.

Consta que, como prefeito, soltava os presos para que fossem abrir estradas…

Não era bem isso. Prendia os vagabundos, obrigava-os a trabalhar. E consegui fazer, no município de Palmeira dos Índios, um pedaço de estrada e uma terraplenagem difícil.

Em que ano foi isso?

Em 1930.

O ano do relatório…

Os relatórios são dois: há o de 1929 e o de 30.

Relatórios do prefeito ao governador do Estado, dando contas de sua administração, não é?

Justo. Apenas, como a linguagem não era a habitualmente usada em trabalhos dessa natureza, e porque neles eu dava às coisas seus verdadeiros nomes, causaram um escarcéu medonho. O primeiro teve repercussão que me surpreendeu. Foi comentado no Brasil inteiro. Houve jornais que o transcreveram integralmente.

E assim nasceu o escritor…

Não. Nasceu antes. Mas tinha o bom senso de queimar os romances que escrevia. Queimaram-se diversos. “Caetés”, infelizmente, escapou e veio à publicidade.

Numa edição Schmidt…

Exato. Por intermédio de Rômulo de Castro, Schmidt, que aqui no Rio lera os meus relatórios, pediu-me que lhe enviasse artigos para a imprensa. Como não me interessasse fazer carreira no jornalismo, nem construir nome literário, recusei-me. Aliás, nessa ocasião já estava de mudança para Maceió, pois fora nomeado diretor da Imprensa Oficial. Com a revolução, quis demitir-me, mas não pude. E lá fiquei até dezembro de 1931. Não suportando os interventores militares que por lá andaram, larguei o cargo e voltei para Palmeira dos Índios, onde, numa sacristia, fiz “São Ber­nardo”. Estava no capítulo 19, capítulo que escrevi já com febre, quando adoeci gravemente com uma psoíte e tive de ir para o hospital. Do hospital ficaram-me impressões que tentei fixar em dois contos: “Paulo” e “O Relógio do Hospital” — e no último capítulo de “An­gús­tia”. No delírio, julgava-me dois, ou um corpo com duas partes: uma boa, outra ruim. E queria que salvassem a primeira e mandassem a segunda para o necrotério. Estava convalescendo, em janeiro de 1933, quando tive notícia da minha nomeação para diretor da Instrução Pú­blica. Não acreditei.

Qual o interventor que o nomeou?

O capitão Afonso de Car­valho, hoje coronel.  Foi disparate. Permaneci no cargo até 3 de março de 1936. Em 1933 Sch­midt lançara “Caetés”, que eu trazia na gaveta desde muito tempo. Naquele dia do mês de março de 1936, porém, sem qualquer explicação, fui preso e remetido para o Recife. onde passei dez dias incomunicável. Depois fui metido no porão do “Manaus” e vim para cá.  Tive dez ou doze transferências de cadeia.

Qual o motivo da prisão?

Sei lá! Talvez ligações com a Aliança Nacional Libertadora, ligações que, no entanto, não existiam. De qualquer maneira, acho desnecessário rememorar estas coisas, porque tudo aparecerá nas “Memórias da Prisão”, que estou compondo.

Foi assim, então, que veio para o Rio?

Foi.  Arrastado, preso.

Mas valeu a pena, não?

Sinceramente, não sei. Nun­ca tive planos na vida, muito menos planos de sucesso. De­pois daquela experiência da mocidade, o Rio não me atraía. No entanto vim, no porão do Manaus, e aqui vivo.

(Estávamos, portanto, diante de um antipará. Os “parás”, na saborosa classificação de Jaime Ovale, são “esses homenzinhos terríveis que vêm do Norte para vencer na capital da República; são habilíssimos, audaciosos, dinâmicos e visam primeiro que tudo o sucesso material, ou a glória literária, ou o domínio político”. Que pensaria Graciliano dessa fauna? Lanço a pergunta e a resposta não tarda.)

Está claro que existe um “exército do Pará”.  Na maioria dos casos, porém, os seus milicianos já chegam feitos do Norte. Aqui vêm apenas colher os louros, ou, mais positivamente, as vantagens. E no Rio em geral definham, tornam-se mofinos. Ignoro se também sou “Pará”. Nunca fiz coisa que prestasse, mas ainda assim o pouco que fiz foi lá e não aqui, onde a vida não nos deixa tempo para nada. Hoje leio apenas jornais, um ou outro ro­mance. De manhã escrevo; à tarde saio para as minhas ocupações (inclusive para o “papo” na livraria); à noite trabalho.  Onde iria achar tempo para leituras? E se não tivesse lido um pouco no interior, onde os dias são intermináveis, seria inteiramente analfabeto.

Quer dizer que acha preferível, para o escritor, a vida na província?

No Nordeste não podemos falar em “provincianismo”, luxo dos Estados grandes: São Paulo, Minas, Rio Grande do Sul. Nós, do Nordeste, temos de ser “municipais” ou “nacionais”. E, a ter de morar em qualquer dos Estados daquela região, acho preferível o interior às capitais, porque estas, seus mexericos, seus grupinhos literários, suas academiazinhas, seus institutos históricos, são sempre muito ruins. Já no interior poderá um homem entrar em contato íntimo com a terra e o povo. É, por exemplo, de onde vem a força de um José Lins do Rego, de uma Raquel de Queirós, de um Jorge Amado.

Sabe que é apontado como um dos nossos escritores modernos que melhor manejam o idioma?

Conversa. Talvez, se houvesse alguma verdade nisso, eu devesse muito aos caboclos do Nordeste, que falam bem. É lá que a língua se conserva mais pura. Num caso de sintaxe de regência, por exemplo, entre a linguagem de um doutor e a do caboclo — não tenha dúvida, vá pelo caboclo, e não erra. Note que me refiro ao caboclo do sertão. O do litoral vai-se estrangeirando.

Mas não me venha dizer que seu aprendizado da língua se fez apenas com os caboclos de Buíque e Palmeira dos Índios.

Claro que não. Muitas coisas não poderiam eles ensinar-me. Está visto que tive de chatear-me lendo gramáticas. E arrepiei-me com a leitura dos frades.

Consta que você, como Euclides da Cunha e Monteiro Lobato, é grande leitor de dicionários.

Consta e é verdade. Dicio­nário, para mim, nunca foi apenas obra de consulta. Costumo ler e estudar dicionários. Como escritor, sou obrigado a jogar com palavras. Logo, preciso conhecer o seu valor exato.

Acha isso uma qualidade?

Não sei. O que sei é que não há talento que resista à  ignorância da língua.

Poderia, hoje, deixar de escrever?

Quem me dera poder deixar.

Sua obra de ficção é autobiográfica?

Não se lembra do que lhe disse a respeito do delírio no hospital? Nunca pude sair de mim mesmo. Só posso escrever o que sou. E se os personagens se comportarem de modos diferente, é porque não sou um só. Em determinadas condições, procederia como esta ou aquela das mi­nhas personagens.

Já se pode viver, no Brasil, da profissão de escritor?

Não creio. A última edição de minhas obras rendeu-me 50 contos. Da edição americana de “Angústia”, recebi 10 contos apenas. Tenho também três livros traduzidos para o espanhol. Mas os negócios na Argentina e no Uruguai andaram mal. Como não tenho o hábito de frequentar os suplementos e as revistas ilustradas, a literatura me rende pouco.

Que outras atividades exerce?

Trabalho no “Correio da Manhã” e sou inspetor de ensino secundário no ginásio São Bento.

Gosta do emprego que tem?

É-me indiferente. Trata-se de uma sinecura como outra qualquer. Em todo caso, nunca tive uma falta nem tirei licença.

E no “Correio da Manhã”, qual o seu serviço?

Corrijo a gramática dos repórteres e noticiaristas.

Gosta de jornalismo?

Não.  Nem me considero jornalista.

Com essa vida de jornal, naturalmente dorme tarde.

À uma hora. E me levanto às sete.

Nos seus livros trabalha, portanto, apenas de manhã.

Exato.  Até às onze, mais ou menos.

E para trabalhar, exige um bom ambiente ou não liga a isso?

Trabalho em qualquer parte. “Angústia” foi escrito em palácio, quando eu era diretor da Instrução Pública de Alagoas. “São Ber­nardo”, em péssimas condições, numa igreja. Qualquer canto me serve. Mas disponho, hoje, em casa, de uma confortável sala de trabalho: isso que os burgueses costumam chamar “escritório”.

Gosta da casa onde mora?

Em qualquer lugar estou bem. Dei-me bem na cadeia. Tenho até saudades da Colônia Correcional.  Deixei lá bons amigos.

(Casado duas vezes, Graciliano tem seis filhos e duas netas. Pergunto-lhe se costuma ajudar a mulher em casa, e ele se espanta.)

Já faço muito em pagar as despesas. Aliás, tenho horror a compras. E quando ouço o telefone, tranco-me.

Aos domingos, o que costuma fazer?

Em geral escrevo pela manhã e à tarde durmo.

(O autor de “Vidas Secas” não faz visitas, não vai a concertos nem a conferências e não gosta de música. Tem, entretanto, um velho hábito: vai diariamente à Livraria José Olympio, na Rua do Ouvidor, e fica lá várias horas, num banco que já é quase propriedade sua, localizado no fundo da loja.)

Muitas vezes vou lá dormir. Mas aparecem amigos, conhecidos, e toca-se a conversar.

(Em virtude desse hábito, muita gente pensa que Graciliano dá a vida por um “papo”. Ele, porém, desfaz-me essa impressão.)

Quase sempre converso forçado, porque chegam pessoas. Mas na verdade muitos dias preferiria ficar quieto, sem trocar palavra. Também é fato que lá aparecem bons amigos, desses que a gente revê com prazer.

(Como Manuel Bandeira, Graciliano recebe inúmeros originais, para ler e dar opinião. A Bandeira dirigem-se sobretudo os jovens poetas ainda incertos quanto à própria vocação. E os que se iniciam na prosa, geralmente procuram mestre Graciliano. Este, assim, tem sempre uma quantidade enorme de originais para ler.)

É maçada. Recebo dezenas de originais. São principiantes, geralmente dos Estados, que desejam, é claro, alguns elogios. Já me aconteceu receber, na mesma semana, originais do Piauí e de Goiás. Eu devia fazer como José Lins: afirmar, sem leitura, que tudo é magnífico.

(Os escritores jovens do Brasil, que dos mais distantes Estados remetem originais para Graciliano Ramos, em busca de uma opinião, e nem sempre recebem resposta, ou a resposta que esperavam, podem, entretanto, considerar-se vingados: na própria casa do romancista surgem originais, e originais que ele tem, forçosamente, de ler, e talvez percorra com olhos mais benignos: os contos de seu filho Ricardo, de 19 anos, e de sua filha Clara, quatro anos mais moça que o irmão. Ambos têm vocação para as letras. Ricardo, jornalista, já tem publicado alguma coisa, naturalmente com a chancela paterna. E, ainda que Graciliano nos afirme o contrário, nos diga que nenhum deles lhe pede opinião, é divertido imaginar o romancista, cansado de emendar o português dos noticiaristas do “Correio da Manhã”, e de ler originais que lhe chegam, às dezenas, de todo o país, ter, em casa, de dar opinião sobre os trabalhos dos filhos.)

(Pergunto qual a sua impressão dos contos de Ricardo Ramos, e ele não se nega a opinar.)

Regulares. Tem jeito e poderá fazer coisa que preste.

E Clara?

É ainda criança. Tem 15 anos apenas e está concluindo o curso secundário.

(Despedindo-me de Graciliano, depois da longa conversa que aqui tentei reproduzir, faço-lhe uma última pergunta: Acredita na permanência de sua obra? E sem qualquer pose, sem nada que deixasse transparecer falsa modéstia, antes dando a impressão de que falava com absoluta sinceridade, esse pessimista seco e amargo respondeu-me.)

Não vale nada; a rigor, até, já desapareceu.
Nota: Entrevista publicada na “Revista do Globo”, edição nº 473, em 18 de dezembro de 1996. E posteriormente no livro “República das Letras”, de Homero Senna, editora Civilização Brasileira.

O Fingimento do Urso ou “A fotografia do meu antigo amor dançando tango”

30/09/2012 6 comentários

Assumo: não sou crítico literário – sou um leitor que diz suas impressões sobre algo que leu. Não sou crítico porque não tenho os aparatos do crítico – fui/sou preguiçoso, e a preguiça não condiz com um crítico, que tem de ter investido em sua formação o suficiente para poder criticar. Tenho amigos críticos, mas eu não o sou.

Tem sido difícil conseguir levar uma leitura a cabo. Nos últimos anos, li por completo uns cinco livros, apenas. Felizmente, foram livros que me agradaram. Em 2010, li A caixa preta, do Amós Oz; em 2011, reli a morte de paula d., da Brisa Paim. Agora em 2012, acho que estou voltando a uma rotina de acabar um livro e começar um outro: Esperando Zilandada Tamara Sender;  Os passos em volta, do Herberto Helder (ainda inconcluso, por ser um livro de contos e por eu gostar de ler muito lentamente os livros de contos); O papagaio de Flaubert, do Julian Barnes. Eu ia começar agora Os moedeiros falsos, do André Gide – mas resolvi deixá-lo para mais tarde, porque toda a minha fidelidade agora tem de ser para com minha tese de doutoramento e para com a ficção que estou escrevendo no momento.  Os livros do Gide e do Helder eu ganhei de presente num amigo secreto. Eu os ganhei do Rodrigo Portella. Aproveito para dizer que o início de Os moedeiros falsos me impressiona (e impressiona também o Rodrigo, que me confessou isso certa vez). Eis: “É o momento de acreditar que ouço passos no corredor”, disse consigo Bernard (trad. de Mário Laranjeira).

Deixei para mais tarde o romance do Gide, mas estou terminando de ler um outro livro de contos: A fotografia do meu antigo amor dançando tango, de Diego Moraes. E esta postagem é sobre esse livro. É sobre ele porque estou lendo-o agora, e preciso aproveitar enquanto está quente. Eu me prometi uma postagem sobre A caixa-preta, sobre Esperando Zilanda, sobre O papagaio de Flaubert, sobre Os passos em volta, mas deixei o tempo passar, e agora teria de reler os livros para conseguir escrever sobre eles.

Agora já sei: tenho de escrever mesmo sem ter terminado a leitura, ou assim que terminar. Do contrário, breu.

Então, enquanto está quente, falo do livro de Diego Moraes.

(Confesso: nos últimos dias, tem sido difícil falar das coisas, dar-lhes qualquer qualificação, adjetivá-las, discorrer sobre elas. Percebi – e um amigo me ajudou a perceber isso – que minha linguagem está muito viciada, que uso o mesmo adjetivo para as mais diversas situações, que eu talvez sequer saiba dizer por que isto ou aquilo me agrada ou desagrada.  A crise – estou vivendo um momento agudo de crise da palavra, de crise das ideias e de suas representações).

O livro do Diego Moraes: começo dizendo que discordo do texto que está na orelha do livro.  Não gosto de textos longos em orelhas de livros, quando o autor ainda está estreando, ainda está mostrando-se. Prefiro que a obra apresente o autor, que a obra se apresente. Para mim, é melhor que haja uma sinopse do livro, em vez de elogios que, sabemos, geralmente vêm de amigos. Pior quando o texto fala mais sobre o autor do que sobre a obra – e quando fala aspectos não muito interessantes. Esse é o caso da orelha de A fotografia do meu antigo amor dançando tango.

Digo isso porque ela quer convencer que o livro deve ser lido porque (segundo ela) Diego Moraes é interessante.  Além disso, diz que ele é um cineasta, e não um escritor.  Ao fim da orelha (depois de muitos dados biográficos), tem-se o seguinte: “Leiam Fotografia do meu amor dançando tango. Mas o melhor seria filmá-lo”. Para mim, temos aí uma sequência de erros. E um deles é o vício de julgar atraente um livro que se aproxima do cinema – cinema é cinema; literatura é literatura (por mais que ambos possam dialogar). Os critérios para se julgar um filme não são os critérios para se julgar um livro.

Mas, o pior é a orelha esconder do leitor a grande verdade: Diego Moraes É um escritor.  E é um leitor.
Diego não é o neófito que a orelha pretende apresentar, dando-nos sempre um motivo para que não queiramos lê-lo. Afinal, duvido muito que uma pessoa se interesse em ler um livro cuja orelha diz isto sobre seu autor:  
Eu não entendia como sua vontade de escrever poderia ser tão diametralmente oposta à sua falta de leitura e de conhecimento literário. 
Porque na época Diego Moraes havia lido pouco e talvez nunca tivesse (até então) lido um único livro inteiro. Só que nele a ignorância se revelava não como defeito, mas qualidade. Pois do pouco que sabe Moraes extrai muito, e este “muito” chega às mãos do leitor sem os filtros teóricos do bom-senso ou do bom-gosto.
Esta falta de verniz literário cede às suas narrativas este ritmo abrupto, ingênuo, e conciso, que têm uma aparente falta de acabamento que Moraes aprendeu das lições que tomou de John Fantes. Aliás, “1933 foi um ano ruim” talvez tenha sido o único livro que Moraes leu inteiro.
[…]
De resto, Moraes escreve para se vingar – de ex-namoradas, de antigos e novos desafetos […]. E a vingança é o melhor combustível para a escrita. Sobretudo para Diego Moraes, que é um sujeito deliciosamente paranoico – ótima qualidade para um escritor. Tanto que você não gostaria de tê-lo como vizinho. Mas, obviamente, adoraria tê-lo na prateleira de sua biblioteca.

Mas, a orelha em alguns momentos trata de aspectos dos contos de Diego:

Notem como suas narrativas acabam quase todas subitamente, como se ainda sofressem da falta de jeito dos rascunhos. Podemos chamar esta técnica de estética do coito interrompido, que Moraes aprimorou intuindo contos cinematográficos para seus textos breves e enlouquecidos.
Em seus diálogos, por exemplo, Diego Moraes chega a atingir a perfeição entre imagem e ritmo. Só que esta perfeição não foi alcançada no estudo das peças de Beckett, mas assistindo aos filmes da Sessão da Tarde, a partir dos quais Moraes esmerilhou sua esgrima fraseada de interrupções (leiam Anais Nin do Butantã e concordem comigo).
[…]
O que temos então em Fotografia do meu amor dançando tango é uma colagem híbrida de narrativas que passeiam entre a Sessão da Tarde e a literatura consumida às pressas. 

Lendo tudo isso, apenas posso dizer que o autor da orelha subestimou o livro que tinha em mãos, subestimou o seu autor, deixando-se levar pela imagem da pessoa Diego Moraes – deixando-se talvez engabelar-se por essa imagem.
Qual a qualidade que se pode esperar de um livro cujos textos “passeiam entre a Sessão da Tarde e a literatura consumida às pressas”?!

O livro de Diego pode, sim, ser lido rapidamente, pela concisão dos textos e pelo seu ritmo, mas está longe da superficialidade que o autor da orelha usou como parâmetro para tratar da obra.
O livro A fotografia do meu antigo amor dançando tango foi escrito por um autor que sabe o que está fazendo – e faz muito bem. Um autor esteta, que toma as rédeas de uma técnica e utiliza-a para nos dar textos breves e de uma beleza acachapante (eis-me aqui adjetivando. Por isso, daqui a pouco eu vou parar de falar e colocarei trechos dos contos, para que eles digam por si).

Os diálogos são esteticizados e com muita dificuldade seriam filmados ou levados ao teatro – isso porque eles irão exigir um conceito em torno, que dê conta da estética presente nos contos, que têm um falso coloquialismo, uma falsa simplicidade.  Isso porque Diego Moraes (o Urso Congelado – ele tem um blog com esse nome) é um falso marginal. Ou talvez fique melhor tratarmos de fingimento, em vez de falseamento. Ele finge nos contos e finge nos textos que ele diz serem peças teatrais (ele também escreve peças), mas que são contos mais longos, porque mantêm as mesmas características dos contos:  a brevidade, os diálogos beirando o nonsense, as descrições/narrações/rubricas que são inserções poéticas em meio aos diálogos (eles também já cheios de poeticidade, embora valendo-se de uma poética do desespero).

As descrições/narrações/rubricas são impossíveis, impossíveis. Esse livro é cheio de beleza, e as rubricas não aparecem para apenas dar indicações a um possível encenador – elas têm existência própria, independente. Tudo no livro é escrito, é literatura – Literatura. E os textos não precisam ser aproximados a nenhuma outra linguagem para que suas qualidades sejam percebidas.

É um livro positivamente falso/fingido: é a obra de um falso/fingido marginal, é uma obra de uma falsa/fingida coloquialidade.  O autor se vale do que seria coloquial ou marginal e subverte essas categorias, que geralmente se pretendem acessíveis.
Podemos dizer, isto sim, que os textos de Diego Moraes passeiam entre os textos marginais ou coloquiais e os textos de autores considerados estetas da língua. Esse passeio os textos fazem. O outro, sugerido pela orelha, eles estão longe de fazer – o itinerário, aqui, é outro.

Voltando a tratar da orelha do livro, digo que, para mim, ela teria sido bastante útil se dissesse apenas isto (que está quase no término do texto): “São narrativas curtas, nas quais o autor não perde tempo com descrições, preferindo ir direto ao centro do tumulto no qual suas personagens respiram”. Disso, eu gostei.

Finalmente, coloco aqui trechos retirados dos contos:

– A gente não para de pensar nem um segundo: tipo submarino esquadrinhando cicatrizes alheias. (Abre um mar no espelho do banheiro, p. 13).

Dário: Respeita minha mulher seu filho da puta drogado do caralho!

Zumbidos amarelados. Socos desfocando para o chafariz do bicho morto. Silêncio de abatedouro sem patas. […]. (Anais Nin no Butantã, p. 19).

Fez silêncio de mãos partindo melancias num acampamento qualquer de 1977 […]. Algazarra. Flashs espalhafatosos ao luar. Gritinhos de bocetinhas ao embarcar. (Chuck Norris da vida real, p. 33).

Caminha assobiando blues até vislumbrar o grande Dramaturgo de coturnos com abas de fora. Anjos baleados brincam de mergulhar sorrindo na frente dele enquanto cães vão discutindo com Deus […]. (Sensibilidade, p. 42).

Paulo César: Antigamente respirava e sentia o gosto das cores, agora só vejo o vento enjoar de si mesmo e afrontar as vidraças. (Amizade de urso, p. 43).

Aqui, coloco um trecho de um dos contos, onde (creio) podem ser percebidas as características que citei mais acima:

Você não é Rocky Balboa

Diego:
Não sei o que é amar desde 2 de abril de 2005.

Paulo César:
Esboço para um conto?

Diego:
Saca aquele silêncio de noites perdidas e tudo o que sobra é a paisagem do trem cortando nuvens?

Paulo César:
Nunca entendo tuas metáforas, deve ser por isso que todo mundo te chama de “Sem pé nem cabeça”.

Diego:
É. Já falaram que sou um avião sem lugar pra pousar.

Paulo César:
Sei.

Diego:
Foda. Ela ouvia meus poemas sorrindo com a cabeça encostada nos meus ombros e fechava os olhos de tanta ternura no final da tarde.

Paulo César:
Cê precisa conhecer outra garota. Esquecer essa mulher, brother. Calçar tuas botas e escalar montanhas no Himalaia.

Diego:
Isso é coisa de corno chique.

Paulo César:
Sei lá. Tem algo de iluminação nisso.

Diego:
Quê?

Paulo César:
Em conversar com Deus em braile.
Silêncio de cavalos ruminando nos fundos da igreja.

Diego:
Esse papo de acampar perto do céu é coisa de veado, Paulo.

Paulo César:
Então tu é mais bicha do que eu brother. Fica aí plantando de romântico e escrevendo contos barra pesada como se fosse o Stallone…

Diego:
O que tem de errado nisso?

Paulo César:
Farsa do caralho.
Paulo tosse até respingar gotículas de sangue na camiseta branca.

Diego:
Cê ta bem?
Paulo revira-se no chão como Apollo arrebentado no 13º assalto.

Paulo César:
Faz o seguinte: continua escrevendo e para de se lamentar por mulher, valeu?

Diego:
Certo.
Diego dá a mão e Paulo se levanta.

Paulo César:
Desculpa te chamar de imitador do Balboa. É que os personagens dos teus contos sempre ganham no boxe e voltam pro cais sozinhos e chorando de desgosto.

[…]

Em A fotografia do meu antigo amor dançando tango, os contos muitas vezes são como piadas, há um riso ecoando todo o tempo, mas um riso quase de dor. Inclusive há a piada sobre a própria literatura. O livro é bastante metalingüístico, isso com leveza e ironia. Lendo-o, parece-nos mesmo que há ali o Diego Moraes, falando através de mais de um alter ego (tanto que, por vezes, o livro me parece um romance – e os contos seriam capítulos dele, desse romance. E talvez isso seja bem interessante, porque há no conjunto dos textos a recorrência de personagens e de questões, como se o livro as reencontrasse em diversas situações, às voltas com os mesmos dramas. Como se o livro e o leitor reencontrassem as personagens e as questões. Talvez isso seja um problema num livro de contos, talvez não seja um problema – ainda não sei o que dizer. Mas, pelo menos, o formato questiona os modos mais comuns de se fazer um livro de contos. Não que isso seja novidade, mas Diego o faz com qualidade).

Talvez haja mesmo uma profunda identificação entre Diego Moraes e suas personagens – mas, que o leitor não procure isso, que o leitor não alimente isso, porque os contos sobrevivem a essa comparação. Eles não são bons porque talvez tenham algo de autobiográfico – eles são bons porque subvertem alguns modos já cristalizados de se fazer literatura, porque são ricamente humanos, porque são extremamente poéticos, porque são uma das melhores novidades surgidas em nossa literatura nos últimos anos.

Eu espero que o autor impeça, em próximas edições, que as orelhas de seus livros tentem agregar o valor do livro à sua biografia. Porque os textos não precisam de seu autor.  Ou, como cantaria Marina Lima agora, para Diego Moraes: “As coisas não precisam de você”.

Um texto sobre o livro do Diego Moraes, aqui, no blog do Bruno Bandido.

A fotografia do meu antigo amor dançando tango, Diego Moraes, Juiz de Fora: Bartlebee, 1a. edição (2012), 92 págs. ISBN: 978-85-64914-13-1 .

Para comprar o livro é só clicar:

e

Boa leitura!

Alfredo Monte escreveu sobre o livro de poemas de Diego Moraes, A solidão é um deus bêbado dando ré num trator. Conferir aqui, em seu blog Monte de Leituras.

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