Os Heróis de Hoje ou Os Indiferentes

rainha

“13 de agosto

Afirma-se que se o poema de Homero ressurge em Joyce sob uma forma degradada é por ser o nosso mundo incapaz de gerar outra Odisséia.  Sugeriria igualmente Julia Marquezim Enone, com mordacidade e desencanto, não sermos hoje capazes de engendrar heróis como os de ontem? Hipótese admissível e que o exame da nossa realidade atual parece consagrar. Os últimos heróis nacionais surgiram há meio século e desde então caíram no esquecimento, na rotina ou na dubiedade. Quando morreram, a notícia apenas perpassou por nós  — como perpassa a brisa — e pode ser que algum tenha expirado sem que o país soubesse. Um deles, remanescente de um pequeno grupo de dezoito que saíra à rua em 1924, de armas na mão, dispostos a morrer e talvez invocando uma bala inimiga, no coração se possível, para que o fluir da vida não negasse o fulgor daquele instante único, vinte anos depois cruzaria o país, envolto na sua legenda ainda clara e que, antes de todos, começaria a esquecer. Nem sequer do fumo da segunda Guerra nasceriam heróis. Muitos foram mortos e jazem em Pistóia, enterrados junto com os seus nomes, ninguém sabe onde estão os mutilados e os nomes dos que os comandavam nada significam para nós. A ação política tem levado muitos ao exílio, à morte e aos negócios — e a verdade é que, de todos, só os últimos conservam ainda certo fulgor mítico. isto não deve surpreender. Os heróis nacionais, hoje, todos circunscritos à televisão e ao esporte profissional, ganham num dia o que ninguém come em um ano. Agravando o desacerto, esses nossos mitos, sem um único exemplo discordante, professam indiferença absoluta por todos os problemas que afligem os humanos. Nenhum, como o peso-pesado Cassius Clay, arriscaria a carreira e o título por nada neste mundo — uma causa, ou um princípio, ou uma idéia, ou uma teimosia. A neutralidade, luxo e equívoco, é sua norma e isto em nada os fere no conceito geral.”

A rainha dos cárceres da Grécia, Osman Lins – Edições Melhoramentos, 1976, pp. 170-171.

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Venha ver o pôr do sol – Lygia Fagundes Telles

01/04/2013 12 comentários

 

Ela subiu sem pressa a tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em terrenos baldios. No meio da rua sem calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro, algumas crianças brincavam de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na quietude da tarde.

Ele a esperava encostado a uma árvore. Esguio e magro, metido num largo blusão azul-marinho, cabelos crescidos e desalinhados, tinha um jeito jovial de estudante.

– Minha querida Raquel.

Ela encarou-o, séria. E olhou para os próprios sapatos.

– Veja que lama. Só mesmo você inventaria um encontro num lugar destes. Que idéia, Ricardo, que idéia! Tive que descer do taxi lá longe, jamais ele chegaria aqui em cima.

Ele riu entre malicioso e ingênuo.

– Jamais? Pensei que viesse vestida esportivamente e agora me aparece nessa elegância. Quando você andava comigo, usava uns sapatões de sete-léguas, lembra?

– Foi para me dizer isso que você me fez subir até aqui?- perguntou ela, guardando o lenço na bolsa. Tirou um cigarro.- Hein?!

– Ah, Raquel…- ele tomou-a pelo braço. – Você está uma coisa de linda. E fuma agora uns cigarrinhos pilantras, azul e dourado. Juro que eu tinha que ver ainda uma vez toda essa beleza, sentir esse perfume. Então? Fiz mal?

– Podia Ter escolhido um outro lugar, não? – Abrandara a voz – E que é isso aí? Um cemitério?

Ele voltou-se para o velho muro arruinado. Indicou com o olhar o portão de ferro, carcomido pela ferrugem.

– Cemitério abandonado, meu anjo. Vivo e mortos, desertaram todos. Nem os fantasmas sobraram, olha aí como as criancinhas brincam sem medo – acrescentou apontando as crianças na sua ciranda.

Ela tragou lentamente. Soprou a fumaça na cara do companheiro.

– Ricardo e suas idéias. E agora? Qual é o programa?

Brandamente ele a tomou pela cintura.

– Conheço bem tudo isso, minha gente está enterrada aí. Vamos entrar um instante e te mostrarei o pôr do sol mais lindo do mundo.

Ela encarou-o um instante. E vergou a cabeça para trás numa risada.

– Ver o pôr do sol? Ah, meu Deus…Fabuloso, fabuloso! Me implora um último encontro, me atormenta dias seguidos, me faz vir de longe para esta buraqueira, só mais uma vez, só mais uma! E para quê? Para ver o pôr do sol num cemitério.

Ele riu também, afetando encabulamento como um menino pilhado em falta.

– Raquel minha querida, não faça assim comigo. Você sabe que eu gostaria era de te levar ao meu apartamento, mas fiquei mais pobre ainda, como se isso fosse possível. Moro agora numa pensão horrenda, a dona é uma Medusa que vive espiando pelo buraco da fechadura.

– E você acha que eu iria?

– Não se zangue, sei que não iria, você está sendo fidelíssima. Então pensei, se pudéssemos conversar um pouco numa rua afastada…- disse ele, aproximando-se mais.

Acariciou-lhe o braço com as pontas dos dedos. Ficou sério. E aos poucos inúmeras rugazinhas foram-se formando em redor dos seus olhos ligeiramente apertados. Os leques de rugas se aprofundaram numa expressão astuta. Não era nesse instante tão jovem como aparentava. Mas logo sorriu e a rede de rugas desapareceu sem deixar vestígio. Voltou-lhe novamente o ar inexperiente e meio desatento

– Você fez bem em vir.

– Quer dizer que o programa… E não podíamos tomar alguma coisa num bar?

– Estou sem dinheiro, meu anjo, vê se entende.

– Mas eu pago.

– Com o dinheiro dele? Prefiro beber formicida. Escolhi este passeio porque é de graça e muito decente, não pode haver passeio mais decente, não concorda comigo? Até romântico.

Ela olhou em redor. Puxou o braço que ele apertava.

– Foi um risco enorme, Ricardo. Ele é ciumentíssimo. Está farto de saber que tive meus casos. Se nos pilha juntos, então sim, quero só ver se alguma das suas fabulosas ideias vai me consertar a vida.

– Mas me lembrei deste lugar justamente porque não quero que você se arrisque, meu anjo. Não tem lugar mais discreto do que um cemitério abandonado, veja, completamente abandonado – prosseguiu ele, abrindo o portão. Os velhos gonzos gemeram. – Jamais seu amigo ou um amigo do seu amigo saberá que estivemos aqui.

– É um risco enorme, já disse . Não insista nessas brincadeiras, por favor. E se vem um enterro? Não suporto enterros.

– Mas enterro de quem? Raquel, Raquel, quantas vezes preciso repetir a mesma coisa? Há séculos ninguém mais é enterrado aqui, acho que nem os ossos sobraram, que bobagem. Vem comigo, pode me dar o braço, não tenha medo.

O mato rasteiro dominava tudo. E não satisfeito de ter-se alastrado furioso pelos canteiros, subira pelas sepulturas, infiltrara-se ávido pelos rachões dos mármores, invadira alamedas de pedregulhos esverdinhados, como se quisesse com sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos vestígios da morte. Foram andando pela longa alameda banhada de sol. Os passos de ambos ressoavam sonoros como uma estranha música feita do som das folhas secas trituradas sobre os pedregulhos. Amuada mas obediente, ela se deixava conduzir como uma criança. Às vezes mostrava certa curiosidade por uma ou outra sepultura com os pálidos medalhões de retratos esmaltados.

– É imenso, hem? E tão miserável, nunca vi um cemitério mais miserável, que deprimente – exclamou ela, atirando a ponta do cigarro na direção de um anjinho de cabeça decepada. – Vamos embora, Ricardo, chega.

– Ah, Raquel, olha um pouco para esta tarde! Deprimente por quê? Não sei onde foi que eu li, a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da tarde, está no crepúsculo, nesse meio-tom, nessa ambigüidade. Estou lhe dando um crepúsculo numa bandeja e você se queixa.

– Não gosto de cemitério, já disse. E ainda mais cemitério pobre.

Delicadamente ele beijou-lhe a mão.

– Você prometeu dar um fim de tarde a este seu escravo.

– É, mas fiz mal. Pode ser muito engraçado, mas não quero me arriscar mais.

– Ele é tão rico assim?

– Riquíssimo. Vai me levar agora numa viagem fabulosa até o Oriente. Já ouviu falar no Oriente? Vamos até o Oriente, meu caro…

Ele apanhou um pedregulho e fechou-o na mão. A pequenina rede de rugas voltou a se estender em redor dos seus olhos. A fisionomia, tão aberta e lisa, repentinamente escureceu, envelhecida. Mas logo o sorrisso reapareceu e as rugazinhas sumiram.

– Eu também te levei um dia para passear de barco, lembra?

Recostando a cabeça no ombro do homem, ela retardou o passo.

– Sabe, Ricardo, acho que você é mesmo tantã… Mas apesar de tudo, tenho às vezes saudade daquele tempo. Que ano aquele. Quando penso, não entendo até hoje como aguentei tanto, imagine, um ano!

– É que você tinha lido A Dama das Camélias, ficou assim toda frágil, toda sentimental. E agora? Que romance você está lendo agora?

– Nenhum – respondeu ela, franzindo os lábios. Deteve-se para ler a inscrição de uma laje despedaçada: – À minha querida esposa, eternas saudades– leu em voz baixa. – Pois sim. Durou pouco essa eternidade.

Ele atirou o pedregulho num canteiro ressequido.

– Mas é esse abandono na morte que faz o encanto disto. Não se encontra mais a menor intervenção dos vivos, a estúpida intervenção dos vivos. Veja – disse, apontando uma sepultura fendida, a erva daninha brotando insólita de dentro da fenda – o musgo já cobriu o nome na pedra. Por cima do musgo, ainda virão as raízes, depois as folhas… Esta a morte perfeita, nem lembrança, nem saudade, nem o nome sequer. Nem isso.

Ela aconchegou-se mais a ele. Bocejou.

– Está bem, mas agora vamos embora que já me diverti muito, faz tempo que não me divirto tanto, só mesmo um cara como você podia me fazer divertir assim – Deu-lhe um rápido beijo na face.- Chega, Ricardo, quero ir embora.

– Mais alguns passos…

– Mas este cemitério não acaba mais, já andamos quilômetros! – Olhou para atrás. – Nunca andei tanto, Ricardo, vou ficar exausta.

– A boa vida te deixou preguiçosa? Que feio – lamentou ele, impelindo-a para frente. – Dobrando esta alameda, fica o jazigo da minha gente, é de lá que se vê o pôr do sol. Sabe, Raquel, andei muitas vezes por aqui de mãos dadas com minha prima. Tínhamos então doze anos. Todos os domingos minha mãe vinha trazer flores e arrumar nossa capelinha onde já estava enterrado meu pai. Eu e minha priminha vínhamos com ela e ficávamos por aí, de mãos dadas, fazendo tantos planos. Agora as duas estão mortas.

– Sua prima também?

– Também. Morreu quando completou quinze anos. Não era propriamente bonita, mas tinha uns olhos…Eram assim verdes como os seus, parecidos com os seus. Extraordinário, Raquel, extraordinário como vocês duas…Penso agora que toda a beleza dela residia apenas nos olhos, assim meio oblíquos, como os seus.

– Vocês se amaram?

– Ela me amou. Foi a única criatura que…- Fez um gesto. – Enfim, não tem importância.

Raquel tirou-lhe o cigarro, tragou e depois devolveu-o.

– Eu gostei de você, Ricardo.

– E eu te amei. E te amo ainda. Percebe agora a diferença?

Um pássaro rompeu o cipreste e soltou um grito. Ela estremeceu.

– Esfriou, não? Vamos embora.

– Já chegamos, meu anjo. Aqui estão meus mortos.

Pararam diante de uma capelinha coberta de alto a baixo por uma trepadeira selvagem, que a envolvia num furioso abraço de cipós e folhas. A estreita porta rangeu quando ele a abriu de par em par. A luz invadiu um cubículo de paredes enegrecidas, cheias de estrias de antigas goteiras. No centro do cubículo, um altar meio desmantelado, coberto por uma toalha que adquirira a cor do tempo. Dois vasos de desbotada opalina ladeavam um tosco crucifixo de madeira. Entre os braços da cruz, uma aranha tecera dois triângulos de teias já rompidas, pendendo como farrapos de um manto que alguém colocara sobre os ombro do Cristo. Na parede lateral, à direita da porta, uma portinhola de ferro dando acesso para uma escada de pedra descendo em caracol para a catacumba.

Ela entrou na ponta dos pés, evitando roçar mesmo de leve naqueles restos da capelinha.

– Que triste que é isto, Ricardo. Nunca mais você esteve aqui?

Ele tocou na face da imagem recoberta de poeira. Sorriu, melancólico.

– Sei que você gostaria de encontrar tudo limpinho, flores nos vasos, velas, sinais da minha dedicação, certo? Mas já disse que o que eu mais amo neste cemitério é precisamente esse abandono, esta solidão. As pontes com o outro mundo foram cortadas e aqui a morte se isolou total. Absoluta.

Ela adiantou-se e espiou através das enferrujadas barras de ferro da portinhola. Na semiobscuridade do subsolo, os gavetões se estendiam ao longo das quatro paredes que formavam um estreito retângulo cinzento.

– E lá embaixo?

– Pois lá estão as gavetas. E nas gavetas, minhas raízes. Pó, meu anjo, pó – murmurou ele.

Abriu a portinhola e desceu a escada. Aproximou-se de uma gaveta no centro da parede, segurando firme na alça de bronze, como se fosse puxá-la.

– A cômoda de pedra. Não é grandiosa?

Detendo-se no topo da escada, ela inclinou-se mais para ver melhor.

– Todas estas gavetas estão cheias?

– Cheias? Só as que tem um retrato e a inscrição, está vendo? Nesta está o retrato da minha mãe, aqui ficou minha mãe – prosseguiu ele, tocando com as pontas dos dedos num medalhão esmaltado, embutido no centro da gaveta.

Ela cruzou os braços. Falou baixinho, um ligeiro tremor na voz.

– Vamos, Ricardo, vamos.

– Você está com medo?

– Claro que não estou é com frio. Suba e vamos embora, estou com frio!

Ele não respondeu. Adiantara-se até um dos gavetões na parede oposta e acendeu um fósforo. Inclinou-se para o medalhão frouxamente iluminado.

– A priminha Maria Emília. Lembro-me até do dia em que tirou esse retrato, duas semanas antes de morrer… Prendeu os cabelos com uma fita azul e vejo se exibir, estou bonita? Estou bonita? – Falava agora consigo mesmo, doce e gravemente. – Não é que fosse bonita, mas os olhos…Venha ver, Raquel, é impressionante como tinha olhos iguais aos seus.

Ela desceu a escada, encolhendo-se para não esbarrar em nada.

– Que frio faz aqui. E que escuro, não estou enxergando!

Acendendo outro fósforo, ele ofereceu-o à companheira.

– Pegue, dá para ver muito bem… – Afastou-se para o lado. – Repare nos olhos.

– Mas estão tão desbotado, mal se vê que é uma moça… – Antes da chama se apagar, aproximou-a da inscrição feita na pedra. Leu em voz alta, lentamente: – Maria Emília, nascida em vinte de maio de mil oitocentos e falecida… – Deixou cair o palito e ficou um instante imóvel. – Mas esta não podia ser sua namorada, morreu há mais de cem anos! Seu menti…

Um baque metálico decepou-lhe a palavra pelo meio. Olhou em redor. A peça estava deserta. Voltou o olhar para a escada. No topo, Ricardo a observava por detrás da portinhola fechada. Tinha seu sorriso meio inocente, meio malicioso.

– Isto nunca foi o jazigo da sua família, seu mentiroso!  Brincadeira mais cretina! – exclamou ela, subindo rapidamente a escada. – Não tem graça nenhuma, ouviu?

Ele esperou que ela chegasse quase a tocar o trinco da portinhola de ferro. Então deu uma volta à chave, arrancou-a da fechadura e saltou para trás.

– Ricardo, abre isto imediatamente! Vamos, imediatamente! – ordenou, torcendo o trinco. – Detesto esse tipo de brincadeira, você sabe disso. Seu idiota! É no que dá seguir a cabeça de um idiota desses. Brincadeira mais estúpida!

– Uma réstia de sol vai entrar pela frincha da porta, tem uma frincha na porta. Depois, vai se afastando devagarinho, bem devagarinho. Você terá o pôr do sol mais belo do mundo.

Ela sacudia a portinhola.

– Ricardo, chega, já disse! Chega! Abre imediatamente, imediatamente! – Sacudiu a portinhola com mais força ainda, agarrou-se a ela, dependurando-se por entre as grades. Ficou ofegante, os olhos cheios de lágrimas. Ensaiou um sorriso.- Ouça, meu bem, foi engraçadíssimo, mas agora preciso ir mesmo, vamos, abra…

Ele já não sorria. Estava sério, os olhos diminuídos. Em redor deles, reapareceram as rugazinhas abertas em leque.

– Boa noite, Raquel.

– Chega, Ricardo! Você vai me pagar!… – gritou ela, estendendo os braços por entre as grades, tentando agarrá-lo. – Cretino! Me dá a chave desta porcaria, vamos! – exigiu, examinando a fechadura nova em folha. Examinou em seguida as grades cobertas por uma crosta de ferrugem. Imobilizou-se. Foi erguendo o olhar até a chave que ele balançava pela argola, como um pêndulo. Encarou-o, apertando contra a grade a face sem cor. Esbugalhou os olhos num espasmo e amoleceu o corpo. Foi escorregando. – Não, não…

Voltado ainda para ela, ele chegou até a porta e abriu os braços. Foi puxando as duas folhas escancaradas.

– Boa noite, meu anjo.

Os lábios dela se pregavam um ao outro, como se entre eles houvesse cola. Os olhos rodavam pesadamente numa expressão embrutecida.

– Não…

Guardando a chave no bolso, ele retomou o caminho percorrido. No breve silêncio, o som dos pedregulhos se entrechocando úmidos sob seus sapatos. E, de repente, o grito medonho, inumano:

– NÃO!

Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de um animal sendo estraçalhado. Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra. Assim que atingiu o portão do cemitério, ele lançou ao poente um olhar mortiço. Ficou atento. Nenhum ouvido humano escutaria agora qualquer chamado. Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda.

Publicado em Antes do baile verdeCompanhia das Letras.

Construção: a Cena, a Atmosfera

24/02/2013 5 comentários

O livro Seminário dos ratos, de Lygia Fagundes Telles, parece ser aquele em que há a maior presença do onírico. Neles, como no geral da obra de sua autora, há um minucioso trabalho na construção do ambiente, na criação de atmosferas que de imediato nos jogam no mundo que ora se constrói.

Aqui, os primeiros parágrafos de “A mão no ombro”, conto onírico por excelência:

 

O homem estranhou aquele céu verde-cinza com a lua de cera coroada por um fino galho de árvore, as folhas se desenhando nas minúcias sobre o fundo opaco. Era uma lua ou um sol apagado? Difícil saber se estava anoitecendo ou se já era manhã no jardim que tinha a luminosidade fosca de uma antiga moeda de cobre. Estranhou o perfume úmido de ervas. E o silêncio cristalizado como num quadro, com um homem (ele próprio) fazendo parte do cenário. Foi andando pela alameda atapetada de folhas cor de brasa mas não era outono. Nem primavera porque faltava às flores o hálito doce avisando as borboletas, não viu borboletas. Nem pássaros. Abriu a mão no tronco da figueira viva mas fria: um tronco sem formigas e sem resina, não sabia por que motivo esperava encontrar a resina vidrada nas gretas, não era verão. Nem inverno, embora a frialdade limosa das pedras o fizesse pensar no sobretudo que deixou no cabide do escritório. Um jardim fora do tempo mas dentro do meu tempo, pensou.
O húmus que subia do chão impregnava do mesmo torpor da paisagem. Sentiu-se oco, a sensação de leveza se misturando ao sentimento inquietante de um ser sem raízes: se abrisse as veias não sairia nenhuma gota de sangue, não sairia nada. Apanhou um folha. Mas que jardim era esse? Nunca estivera ali nem sabia como o encontrara. Mas sabia – e com que força – que a rotina fora quebrada porque alguma coisa ia acontecer, o quê?! Sentiu o coração disparar. Habituara-se tanto ao cotidiano sem imprevistos, sem mistério. E agora, a loucura desse jardim atravessado em seu caminho. E com estátuas, aquilo não era uma estátua?
Aproximou-se da mocinha de mármore arregaçando graciosamente o vestido para não molhar nem a saia nem os pés descalços. Uma mocinha medrosamente fútil no centro do tanque seco, pisando com cuidado, escolhendo as pedras amontoadas em redor. Mas os pés delicados tinham os vãos dos dedos corroídos por uma época em que a água chegava até eles. Uma estria negra lhe descia do alto da cabeça, deslizava pela face e se perdia ondulante no rego dos seios meio descobertos pelo corpete desatado. Notou que a estria marcara mais profundamente a face, devorando-lhe a asa esquerda do nariz, mas por que a chuva se concentrara só naquele percurso numa obstinação de goteira? Ficou olhando a cabeça encaracolada, os anéis se despencando na nuca que pedia carícia. Me dá sua mão que eu ajudo, ele disse e recuou: um inseto penugento, num enrodilhamento de aranhas, foi saindo de dentro da pequenina orelha.
Deixou cair a folha seca, enfurnou as mãos nos bolsos e seguiu pisando com a mesma prudência da estátua. Contornou o tufo de begônias, e vacilou entre os dois ciprestes (mas o que significava essa estátua?) e enveredou por uma alameda que lhe pareceu menos sombria. Um jardim inocente. E inquietante como o jogo de quebra-cabeça que o pai gostava de jogar com ele: no caprichoso desenho de um bosque estava o caçador escondido, tinha que achá-lo depressa para não perder a partida, vamos, filho, procura nas nuvens, na árvore, não está ele enfolhado naquele ramo? No chão, veja no chão, não forma um boné a curva ali do regato?

***

Editora Companhia das Letras. Capa de Beatriz Milhazes.

“Córidon, um pastor, pelo formoso Aléxis, delícias do seu dono, em desespero ardia-se.” / “[…] me queima o amor: do amor qual a medida?”

das Bucólicas de Virgílio, a écloga II

 

Virgílio

Virgílio

Córidon, um pastor, pelo formoso Aléxis,
delícias do seu dono, em desespero ardia-se.
A um denso faial, de vértices sombrios,
vinha assíduo; aí, só, às selvas e montes
lançava, num esforço inane, estes delírios:
Não escutas, cruel Aléxis, os meus cantos:
Nem tens pena de mim? me forças a morrer.
Agora o gado goza o frescor de uma sombra;
agora o espinhal verde lagarto oculta,
e Téstiles prepara, aos ceifeiros exaustos
pelo estio voraz, alho e serpilho olentes.
Mas, enquanto persigo o teu rastro, cigarras
roucas, sob o sol ardente, em arbustos ressoam.
Melhor não era, ira amara de Amarílis,
seu soberbo desdém, sofrer? Ou de Menalcas,
embora ele seja um negro, e tu tão branco?
Ó formoso rapaz, não fies tanto em cor!
Alfena branca jaz, negro jacinto colhe-se.
Não perguntas quem sou, ignorando-me, Aléxis,
nem o quanto sou rico em gado e níveo leite.
Mil crias minhas vão por montes da Sicília;
não me falta, no inverno ou verão, leite fresco.
Canto o que, ao guiar o seu gado, cantava
Anfion, o dirceu, em ático Aracinto.
Nem sou tão feio assim: há pouco me vi n’água,
quando o mar era calmo; até Dáfnis não temo,
tendo-te por juiz, se não mente a imagem.
Ah! Se só te aprouvesse estes meus pobres campos
e uma cabana humilde habitar, caçar cervos
e os cabritos guiar rumo ao hibisco verde!
Em par cantando, Pã na selva imitaríamos.
Pã, primeiro, colar vários caules com cera
ensinou. Cuida Pã de ovelhas e pastores.
Não lamentes ferir o teu lábio na flauta.
para isto saber, que não faria Amintas?
A minha flauta tem sete tubos distintos;
pois, outrora este dom Dametas me ofertou,
declarando, ao morrer: “És o meu sucessor”.
Dametas disse; o tolo Amintas invejou-me.
E mais, em vale incerto achei dois cabritinhos,
pêlo ainda malhado e secando dois ubres
por dia, cada um; para ti os conservo.
Téstiles, desde algum tempo insiste em levá-los,
e o fará, já que meus presentes não te aprazem.
“Vem, formo rapaz: para ti Ninfas trazem
muito lírio em buquês, para ti branca Náiade,
pálida violeta e alta papoula alçando,
junta o narciso e a flor do aneto bem olente:
e trançando o alecrim e outras ervas suaves,
orna de cravo flavo o macio jacinto.
Frutos alvos terás, de lanugem bem tenra,
castanha e noz, que a minha Amarílis amava.
Ameixas juntarei, das pretas, em destaque,
mas também a vós, mirto e louro, colherei,
pois, dispostos assim, tereis odor suave.
“Aléxis não que teus dons, ó Córidon rústico,
nem Iolas cederá, mesmo se deres muitos.
Ai, infeliz, o que fiz? Sobre as flores o Austro
e em fontes javalis, perdido, eu impeli.
De quem foges, demente? Habitam selvas deues
e Páris, o dardânio. Entre muralhas palas
mora. porém, a mim, só as selvas aprazem.
Torva leoa segue o lobo; o lobo a cabra;
lasciva cabra a flor do codesso; a ti, Córidon:
a cada qual atrai seu próprio gozo, Aléxis.
Vê, os novilhos vão com arados suspenso,
e o pôr-do-sol duplica as já crescidas sombras:
mas me queima o amor: do amor qual a medida?
“Córidon, que demência apossou de ti, Córidon?
Manténs a vide mal podada em olmo alto.
Por que não te propões a fazer algo útil,
trançando com o vime e o junco maleável?
Se este te repele, acharás outro Aléxis”.

***

 

Tradução de Raimundo Carvalho (Esta edição bilíngue traz duas traduções primorosas deste clássico da poesia. Uma inédita, de Raimundo Carvalho – que compôs ainda um belo ensaio-comentário sobre o poema e a tradução de poesia – e uma antiga, de Odorico Mendes, cuja única edição conhecida era de 1858.).

 

Κωνσταντίνος Πέτρου Καβάφης : trabalha agora como possas, cérebro

Eis a beleza triste de Konstantino Kaváfis: no alfabeto grego: Κωνσταντίνος Πέτρου Καβάφης, (Alexandria, 29 de abril de 1863 — Alexandria, 29 de abril de 1933) foi um poeta grego, geralmente considerado o maior nome da poesia em idioma grego moderno. Por vezes, seu nome aparece creditado como Constantine P. Cavafy. Em sua poesia, 154 poemas reelaborados durante a vida inteira, unia citações eruditas à fala cotidiana.

Konstantino Kaváfis

Konstantino Kaváfis

Os poemas abaixo foram traduzidos por José Paulo Paes.

Ao fim, um depoimento.

***

UM JOVEM ARTISTA DA PALAVRA – 24 ANOS DE IDADE

Trabalha agora como possas, cérebro. –
Um prazer incompleto o dilacera.
É enervante a sua condição.
Beija o rosto do amado todo dia,
sua mãos lhe acariciam os membros admiráveis.
Jamais na vida amou assim, com tal
paixão. Porém lhe falta a bela plenitude
do amor, a plenitude que há sempre de existir
entre dois amantes com desejos intensos.

(Não têm, os dois, igual pendor para os prazeres anômalos,
que só a um domina por inteiro.)

E ele se irrita, e ele se atormenta.
Além do mais, está desempregado; e isso conta.
Uma pequenas somas de dinheiro
a duras penas consegue (quase as tem
de mendigar, por vezes) e vive pobremente.
Beija os lábios adorados; sobre
o corpo admirável – que, só agora entende,
apenas consente – se deleita.
E depois bebe e fuma, fuma e bebe,
e pelos cafés arrasta, o dia todo,
com tédio arrasta a dor da sua formosura. –
Trabalha agora como possas, cérebro.

***

ÍTACA
Se partires um dia rumo a Ítaca
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem os Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não o levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda espécie,
quando houver, de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha, velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso, não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.

***

JURA

A cada pouco jura começar vida nova.
Mas quando a noite vem com seus conselhos,
seus compromissos, com suas promessas;
mas quando a noite vem com sua força
(o corpo quer e pede), ele de novo sai,
perdido, atrás da mesma alegria fatal.

***

 

Depoimento:

[…] quantas vezes, no trabalho, me ocorre de súbito uma bela ideia, uma imagem rara ou versos inteiros prontos, e eu tenho de deixá-los de lado, porque o serviço não pode ser adiado! Subsequentemente, quando volto para casa e me recomponho e tento recordá-los, eles já se foram. E está certo que assim seja. É como se a Arte me dissesse: ‘Não sou nenhuma criada para que me enxotes quando eu me apresento nem para que me apresente quando me queiras. E se renegas – miserável traidor – pela tua desprezível bela casa, pelas tuas desprezíveis boas roupas e pela tua desprezível posição social, contenta-te então com elas (mas como poderás?), e, nas poucas vezes em que eu aparecer e estiveres pronto para receber-me, posta-te diante da porta da tua casa à minha espera, como o deverias fazer todos os dias’.

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Links: Cartilha de poesia, Wikipedia, Monte de leituras,

Os números de 2012 em Trajes Lunares

31/12/2012 2 comentários

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2012 deste blog.

Aqui está um resumo:

600 pessoas chegaram ao topo do Monte Everest em 2012. Este blog tem cerca de 8.700 visualizações em 2012. Se cada pessoa que chegou ao topo do Monte Everest visitasse este blog, levaria 15 anos para ter este tanto de visitação.

Clique aqui para ver o relatório completo

No Vale do Elwy, com Hopkins

30/12/2012 1 comentário

In the Valley of the Elwy (Gerard Manley Hopkins)

 

I REMEMBER a house where all were good
To me, God knows, deserving no such thing:
Comforting smell breathed at very entering,
Fetched fresh, as I suppose, off some sweet wood.
That cordial air made those kind people a hood
All over, as a bevy of eggs the mothering wing
Will, or mild nights the new morsels of spring:
Why, it seemed of course; seemed of right it should.

Lovely the woods, waters, meadows, combes, vales,
All the air things wear that build this world of Wales;
Only the inmate does not correspond:
God, lover of souls, swaying considerate scales,
Complete thy creature dear O where it fails,
Being mighty a master, being a father and fond.

 

No Vale do Elwy (traduzido por Aíla de Oliveira Gomes)

 

Eu me lembro de uma casa onde a bondade era geral
Para comigo, que, Deus sabe, tão não merecia;
Reconfortante perfume respirava-se no que a porta se abria,
Como trazido, em seu frescor, de um refrescante vergel.
Aquele ar cordial, para aquela boa gente, era um dossel,
Qual p’ro montinho d’ovos é abrigo a asa materna,
Qual recobre as nesgas da primavera a noite terna:
E tudo aquilo parecia de direito, parecia natural.

Belos os bosques, águas, prados, montes, vales,
O ar vestindo as coisas que criam esse mundo de Gales —
Somente o hóspede não corresponde e se retrai:
Ó Deus, que amas as almas, acerta os pratos da balança,
Completa tua criatura onde ela falha e não alcança —
Pois que és Senhor poderoso e amoroso Pai.


Há outra tradução, no livro A poesia difícil, com os poemas de Hopkins traduzidos por Augusto de Campos. Mas, emprestei o livro, não sei mais a quem, e não o tenho mais, para colocar aqui essa tradução.

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