Construção: a Cena, a Atmosfera

24/02/2013 5 comentários

O livro Seminário dos ratos, de Lygia Fagundes Telles, parece ser aquele em que há a maior presença do onírico. Neles, como no geral da obra de sua autora, há um minucioso trabalho na construção do ambiente, na criação de atmosferas que de imediato nos jogam no mundo que ora se constrói.

Aqui, os primeiros parágrafos de “A mão no ombro”, conto onírico por excelência:

 

O homem estranhou aquele céu verde-cinza com a lua de cera coroada por um fino galho de árvore, as folhas se desenhando nas minúcias sobre o fundo opaco. Era uma lua ou um sol apagado? Difícil saber se estava anoitecendo ou se já era manhã no jardim que tinha a luminosidade fosca de uma antiga moeda de cobre. Estranhou o perfume úmido de ervas. E o silêncio cristalizado como num quadro, com um homem (ele próprio) fazendo parte do cenário. Foi andando pela alameda atapetada de folhas cor de brasa mas não era outono. Nem primavera porque faltava às flores o hálito doce avisando as borboletas, não viu borboletas. Nem pássaros. Abriu a mão no tronco da figueira viva mas fria: um tronco sem formigas e sem resina, não sabia por que motivo esperava encontrar a resina vidrada nas gretas, não era verão. Nem inverno, embora a frialdade limosa das pedras o fizesse pensar no sobretudo que deixou no cabide do escritório. Um jardim fora do tempo mas dentro do meu tempo, pensou.
O húmus que subia do chão impregnava do mesmo torpor da paisagem. Sentiu-se oco, a sensação de leveza se misturando ao sentimento inquietante de um ser sem raízes: se abrisse as veias não sairia nenhuma gota de sangue, não sairia nada. Apanhou um folha. Mas que jardim era esse? Nunca estivera ali nem sabia como o encontrara. Mas sabia – e com que força – que a rotina fora quebrada porque alguma coisa ia acontecer, o quê?! Sentiu o coração disparar. Habituara-se tanto ao cotidiano sem imprevistos, sem mistério. E agora, a loucura desse jardim atravessado em seu caminho. E com estátuas, aquilo não era uma estátua?
Aproximou-se da mocinha de mármore arregaçando graciosamente o vestido para não molhar nem a saia nem os pés descalços. Uma mocinha medrosamente fútil no centro do tanque seco, pisando com cuidado, escolhendo as pedras amontoadas em redor. Mas os pés delicados tinham os vãos dos dedos corroídos por uma época em que a água chegava até eles. Uma estria negra lhe descia do alto da cabeça, deslizava pela face e se perdia ondulante no rego dos seios meio descobertos pelo corpete desatado. Notou que a estria marcara mais profundamente a face, devorando-lhe a asa esquerda do nariz, mas por que a chuva se concentrara só naquele percurso numa obstinação de goteira? Ficou olhando a cabeça encaracolada, os anéis se despencando na nuca que pedia carícia. Me dá sua mão que eu ajudo, ele disse e recuou: um inseto penugento, num enrodilhamento de aranhas, foi saindo de dentro da pequenina orelha.
Deixou cair a folha seca, enfurnou as mãos nos bolsos e seguiu pisando com a mesma prudência da estátua. Contornou o tufo de begônias, e vacilou entre os dois ciprestes (mas o que significava essa estátua?) e enveredou por uma alameda que lhe pareceu menos sombria. Um jardim inocente. E inquietante como o jogo de quebra-cabeça que o pai gostava de jogar com ele: no caprichoso desenho de um bosque estava o caçador escondido, tinha que achá-lo depressa para não perder a partida, vamos, filho, procura nas nuvens, na árvore, não está ele enfolhado naquele ramo? No chão, veja no chão, não forma um boné a curva ali do regato?

***

Editora Companhia das Letras. Capa de Beatriz Milhazes.

“Córidon, um pastor, pelo formoso Aléxis, delícias do seu dono, em desespero ardia-se.” / “[…] me queima o amor: do amor qual a medida?”

das Bucólicas de Virgílio, a écloga II

 

Virgílio

Virgílio

Córidon, um pastor, pelo formoso Aléxis,
delícias do seu dono, em desespero ardia-se.
A um denso faial, de vértices sombrios,
vinha assíduo; aí, só, às selvas e montes
lançava, num esforço inane, estes delírios:
Não escutas, cruel Aléxis, os meus cantos:
Nem tens pena de mim? me forças a morrer.
Agora o gado goza o frescor de uma sombra;
agora o espinhal verde lagarto oculta,
e Téstiles prepara, aos ceifeiros exaustos
pelo estio voraz, alho e serpilho olentes.
Mas, enquanto persigo o teu rastro, cigarras
roucas, sob o sol ardente, em arbustos ressoam.
Melhor não era, ira amara de Amarílis,
seu soberbo desdém, sofrer? Ou de Menalcas,
embora ele seja um negro, e tu tão branco?
Ó formoso rapaz, não fies tanto em cor!
Alfena branca jaz, negro jacinto colhe-se.
Não perguntas quem sou, ignorando-me, Aléxis,
nem o quanto sou rico em gado e níveo leite.
Mil crias minhas vão por montes da Sicília;
não me falta, no inverno ou verão, leite fresco.
Canto o que, ao guiar o seu gado, cantava
Anfion, o dirceu, em ático Aracinto.
Nem sou tão feio assim: há pouco me vi n’água,
quando o mar era calmo; até Dáfnis não temo,
tendo-te por juiz, se não mente a imagem.
Ah! Se só te aprouvesse estes meus pobres campos
e uma cabana humilde habitar, caçar cervos
e os cabritos guiar rumo ao hibisco verde!
Em par cantando, Pã na selva imitaríamos.
Pã, primeiro, colar vários caules com cera
ensinou. Cuida Pã de ovelhas e pastores.
Não lamentes ferir o teu lábio na flauta.
para isto saber, que não faria Amintas?
A minha flauta tem sete tubos distintos;
pois, outrora este dom Dametas me ofertou,
declarando, ao morrer: “És o meu sucessor”.
Dametas disse; o tolo Amintas invejou-me.
E mais, em vale incerto achei dois cabritinhos,
pêlo ainda malhado e secando dois ubres
por dia, cada um; para ti os conservo.
Téstiles, desde algum tempo insiste em levá-los,
e o fará, já que meus presentes não te aprazem.
“Vem, formo rapaz: para ti Ninfas trazem
muito lírio em buquês, para ti branca Náiade,
pálida violeta e alta papoula alçando,
junta o narciso e a flor do aneto bem olente:
e trançando o alecrim e outras ervas suaves,
orna de cravo flavo o macio jacinto.
Frutos alvos terás, de lanugem bem tenra,
castanha e noz, que a minha Amarílis amava.
Ameixas juntarei, das pretas, em destaque,
mas também a vós, mirto e louro, colherei,
pois, dispostos assim, tereis odor suave.
“Aléxis não que teus dons, ó Córidon rústico,
nem Iolas cederá, mesmo se deres muitos.
Ai, infeliz, o que fiz? Sobre as flores o Austro
e em fontes javalis, perdido, eu impeli.
De quem foges, demente? Habitam selvas deues
e Páris, o dardânio. Entre muralhas palas
mora. porém, a mim, só as selvas aprazem.
Torva leoa segue o lobo; o lobo a cabra;
lasciva cabra a flor do codesso; a ti, Córidon:
a cada qual atrai seu próprio gozo, Aléxis.
Vê, os novilhos vão com arados suspenso,
e o pôr-do-sol duplica as já crescidas sombras:
mas me queima o amor: do amor qual a medida?
“Córidon, que demência apossou de ti, Córidon?
Manténs a vide mal podada em olmo alto.
Por que não te propões a fazer algo útil,
trançando com o vime e o junco maleável?
Se este te repele, acharás outro Aléxis”.

***

 

Tradução de Raimundo Carvalho (Esta edição bilíngue traz duas traduções primorosas deste clássico da poesia. Uma inédita, de Raimundo Carvalho – que compôs ainda um belo ensaio-comentário sobre o poema e a tradução de poesia – e uma antiga, de Odorico Mendes, cuja única edição conhecida era de 1858.).

 

Κωνσταντίνος Πέτρου Καβάφης : trabalha agora como possas, cérebro

Eis a beleza triste de Konstantino Kaváfis: no alfabeto grego: Κωνσταντίνος Πέτρου Καβάφης, (Alexandria, 29 de abril de 1863 — Alexandria, 29 de abril de 1933) foi um poeta grego, geralmente considerado o maior nome da poesia em idioma grego moderno. Por vezes, seu nome aparece creditado como Constantine P. Cavafy. Em sua poesia, 154 poemas reelaborados durante a vida inteira, unia citações eruditas à fala cotidiana.

Konstantino Kaváfis

Konstantino Kaváfis

Os poemas abaixo foram traduzidos por José Paulo Paes.

Ao fim, um depoimento.

***

UM JOVEM ARTISTA DA PALAVRA – 24 ANOS DE IDADE

Trabalha agora como possas, cérebro. –
Um prazer incompleto o dilacera.
É enervante a sua condição.
Beija o rosto do amado todo dia,
sua mãos lhe acariciam os membros admiráveis.
Jamais na vida amou assim, com tal
paixão. Porém lhe falta a bela plenitude
do amor, a plenitude que há sempre de existir
entre dois amantes com desejos intensos.

(Não têm, os dois, igual pendor para os prazeres anômalos,
que só a um domina por inteiro.)

E ele se irrita, e ele se atormenta.
Além do mais, está desempregado; e isso conta.
Uma pequenas somas de dinheiro
a duras penas consegue (quase as tem
de mendigar, por vezes) e vive pobremente.
Beija os lábios adorados; sobre
o corpo admirável – que, só agora entende,
apenas consente – se deleita.
E depois bebe e fuma, fuma e bebe,
e pelos cafés arrasta, o dia todo,
com tédio arrasta a dor da sua formosura. –
Trabalha agora como possas, cérebro.

***

ÍTACA
Se partires um dia rumo a Ítaca
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem os Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não o levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda espécie,
quando houver, de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha, velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso, não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.

***

JURA

A cada pouco jura começar vida nova.
Mas quando a noite vem com seus conselhos,
seus compromissos, com suas promessas;
mas quando a noite vem com sua força
(o corpo quer e pede), ele de novo sai,
perdido, atrás da mesma alegria fatal.

***

 

Depoimento:

[…] quantas vezes, no trabalho, me ocorre de súbito uma bela ideia, uma imagem rara ou versos inteiros prontos, e eu tenho de deixá-los de lado, porque o serviço não pode ser adiado! Subsequentemente, quando volto para casa e me recomponho e tento recordá-los, eles já se foram. E está certo que assim seja. É como se a Arte me dissesse: ‘Não sou nenhuma criada para que me enxotes quando eu me apresento nem para que me apresente quando me queiras. E se renegas – miserável traidor – pela tua desprezível bela casa, pelas tuas desprezíveis boas roupas e pela tua desprezível posição social, contenta-te então com elas (mas como poderás?), e, nas poucas vezes em que eu aparecer e estiveres pronto para receber-me, posta-te diante da porta da tua casa à minha espera, como o deverias fazer todos os dias’.

***

Links: Cartilha de poesia, Wikipedia, Monte de leituras,

Os números de 2012 em Trajes Lunares

31/12/2012 2 comentários

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2012 deste blog.

Aqui está um resumo:

600 pessoas chegaram ao topo do Monte Everest em 2012. Este blog tem cerca de 8.700 visualizações em 2012. Se cada pessoa que chegou ao topo do Monte Everest visitasse este blog, levaria 15 anos para ter este tanto de visitação.

Clique aqui para ver o relatório completo

No Vale do Elwy, com Hopkins

30/12/2012 1 comentário

In the Valley of the Elwy (Gerard Manley Hopkins)

 

I REMEMBER a house where all were good
To me, God knows, deserving no such thing:
Comforting smell breathed at very entering,
Fetched fresh, as I suppose, off some sweet wood.
That cordial air made those kind people a hood
All over, as a bevy of eggs the mothering wing
Will, or mild nights the new morsels of spring:
Why, it seemed of course; seemed of right it should.

Lovely the woods, waters, meadows, combes, vales,
All the air things wear that build this world of Wales;
Only the inmate does not correspond:
God, lover of souls, swaying considerate scales,
Complete thy creature dear O where it fails,
Being mighty a master, being a father and fond.

 

No Vale do Elwy (traduzido por Aíla de Oliveira Gomes)

 

Eu me lembro de uma casa onde a bondade era geral
Para comigo, que, Deus sabe, tão não merecia;
Reconfortante perfume respirava-se no que a porta se abria,
Como trazido, em seu frescor, de um refrescante vergel.
Aquele ar cordial, para aquela boa gente, era um dossel,
Qual p’ro montinho d’ovos é abrigo a asa materna,
Qual recobre as nesgas da primavera a noite terna:
E tudo aquilo parecia de direito, parecia natural.

Belos os bosques, águas, prados, montes, vales,
O ar vestindo as coisas que criam esse mundo de Gales —
Somente o hóspede não corresponde e se retrai:
Ó Deus, que amas as almas, acerta os pratos da balança,
Completa tua criatura onde ela falha e não alcança —
Pois que és Senhor poderoso e amoroso Pai.


Há outra tradução, no livro A poesia difícil, com os poemas de Hopkins traduzidos por Augusto de Campos. Mas, emprestei o livro, não sei mais a quem, e não o tenho mais, para colocar aqui essa tradução.

E hoje diria não ao paraíso

E hoje diria não
ao paraíso. Se ele

é, mãos dadas, imenso
clamor no riso. Tanto

correr rumo ao abraço,
tanto alvor no início.

E logo, monte e altura
mudam-se em precipício.

 

Natal : Ostranenie

Que um homem, sendo Deus, ressuscite após a morte, não me causa tanta comoção quanto Deus, fazendo-se homem, vir frágil como todos nós, sofrendo nossas contingências. Um Deus que é pequeno e indefeso; que chora, caga, sua, alimenta-se, santifica todos os nossos gestos.

Que Ele esteja lá-onde-não-vejo, não me comove tanto quanto saber que Ele caminhou por aqui.

Um dia, na História, Ele mesmo veio e andou por entre ela, transfigurando-a, trazendo para ela o verdadeiro estranhamento, que então dá-se, de algum modo, a conhecer. O Santo Santo Santo, o Kadosh, o Inteiramente Outro toma nossa forma.

Na História, a Ostranenie.

bebê

Missa de Angelis

Canto Gregoriano: Missa de Angelis, Pronúncia do Latim, Tons salmódicos.

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