A terra deu, a terra dá, a terra cria

O Grande Poder da Música Popular Alagoana Nordestina Brasileira Universal.

Mestra Hilda e Mestre Verdelinho

Mestre Verdelinho, falecido em 18 de março de 2010, é parte de nosso patrimônio e está cravado em nossa memória afetiva. Mostra disso é sua composição Grande Poder, gravada por diversos artistas e certeza de cantoria e de dança se tocada em algum show em Maceió ou em outra cidade alagoana.

Aqui, o Grande Poder (letra e gravações).

O nosso Deus corrige o mundo pelo seu dominamento
Sei que a terra gira com o seu grande poder
Grande poder com o seu grande poder
Deus corrige o mundo pelo seu dominamento
A terra gira com o seu grande poder
Grande poder com o seu grande poder
A terra gira com o seu grande poder

A terra deu, a terra dá, a terra cria
A terra cria, a terra deu, a terra dá
A terra voga, a terra fica, a terra há
A terra acaba com toda má alegria
A terra acaba com inseto que a terra cria
Nascendo na terra, nessa terra há de viver
Morrendo na terra, para essa terra é de comer
Tudo que vive nesse mundo pra essa terra é alimento
Deus corrige o mundo pelo seu dominamento
Sei que a terra gira com o seu grande poder
Grande poder com o seu grande poder
Sei que a terra gira com o seu grande poder
Grande poder com o seu grande poder
A terra gira com o seu grande poder

Porque no céu a gente ver uma estrelinha
Aquela estrela começa a se mudar
Aquela estrela começa a passear
Tem uma mais acesa outra mais apagadinha
Tem uma maior tem outra mais miudinha
E ás seis horas da manhã ela começa a se esconder
Às seis horas da noite é que torna a aparecer
Só é quando ela brilha em cima no firmamento
É porque Deus corrige o mundo pelo seu dominamento
Home a terra gira com o seu grande poder
Deus corrige o mundo pelo seu dominamento
Sei que a terra gira com o seu grande poder

O homem aplanta um rebolinho de maniva
Aquela maniva com dez dias ta inchada
Começa nascer aquela folha orvalhada
Ali vai se criando aquela obra positiva
Muito esverdeada muito linda e muito viva
Embaixo cria uma batata que engorda e faz crescer
Aquilo dá farinha pra todo mundo comer
Para toda criatura vai servir de alimento
Deus corrige o mundo pelo seu dominamento
Sei que a terra gira com o seu grande poder
Deus corrige o mundo pelo seu dominamento
Sei que a terra gira com o seu grande poder

O meu amigo em você eu me confio
Eu me confio que meus olhos correm n’águas
Eu admiro uma piaba dentro d’água
Ela faz a morada não sente calor nem frio
Se o sol esquenta ela precura um sombrio
Na toca de uma barqueira pro mode se esconder
Arruma lodo começa a comer
Quer dizer daquele lodo vai servir de alimento
Nosso Deus corrige o mundo pelo seu dominamento
A terra gira com o seu grande poder
Deus corrige o mundo pelo seu dominamento
A terra gira com o seu grande poder

Mestre Verdelinho

Wado e o Realismo Fantástico

Déa Trancoso

Comadre Fulôzinha

Fogueira das Rosas

Informações sobre Mestre Verdelinho, aqui: Site da Secretaria de Estado da Cultura.

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traduzione, tradizione

pots flan pudim

Ao se falar sobre tradução, muitas vezes vem à língua a expressão “traduttori, traditori”. Há uns dias, pensando sobre o assunto — por não traduzir, apenas penso —, achei que “traduzione, tradizione” seria uma expressão que deveria ter seu lugar de relevo.

Não posso falar se a primeira expressão é realmente correta ou incorreta, deixando isso para os estudiosos da arte tradutória, que sabem das nuances da coisa, já havendo em muitas situações discutido a esse respeito (traduttori, traditori).
A mim, permito falar apenas a segunda expressão — tradução, tradição —, posto parecer tão afeita aos gostos, à passagem do tempo, a uma determinada época. Por vezes, uma tradição movida por gosto; por outras, movida pela circunstância de ter sido aquela tradução a única a existir ou aquela que nos chegou à mão. Alfredo Monte, por exemplo, fala em seu blog Monte de Leituras sobre como gosta da tradução de Crime e Castigo feita por Rosário Fusco, e  que por décadas foi a tradução mais celebrada do romance de Fiódor Dostoiévski no Brasil.

Apenas há um ou dois meses vim ler o livrão Odisseia, de Homero. Li-o na tradução de Christian Werner editada pela Cosac Naify. É a melhor tradução do livro? Eu jamais saberia dizer, podendo responder apenas que foi a que me apaixonou assim que li trechos divulgados na imprensa. Durante dias, li apaixonadamente a aventura de Odisseu. Durante dias, troquei mensagens com um amigo, pelo whatsapp, mandando fotos de trechos, fotos das construções sintáticas, das imagens. A Odisseia dita a mim pelo Christian Werner me encantou e encantou a esse meu amigo. E falamos dela a outras pessoas, e a coisa se espalha. E daqui a anos, quando eu pensar em Ítaca, estarei pensando na Ítaca de Homero dada a mim por Christian Werner.
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Do mesmo modo eu me lembrarei de Ao Farol, de Virginia Woolf, que me foi dado por Denise Bottmann, e de que falei a amigos, a alunos. A imagem do silêncio sendo quebrado pelas botinas da sra. McNab. A imagem da escuridão como que lambendo o interior da casa. Daqui a anos, o To the lighthouse de Virginia Woolf será aquele que me foi dado por Denise Bottmann. Um livro que levei comigo num fim de semana, para me ser companhia quando eu não conseguisse escrever — eu me recolhera para escrever —, mas que se tornou o centro dos dias, pois não conseguia parar de ler, mergulhando obsessivamente na vida dos Ramsay e de seus visitantes. Aquele início do romance; aquela parte intermediária, mostrando o passar do tempo; aquele belo, melancólico, elegíaco final. Nunca esquecerei. Aqueles dias foram uma leitura e uma experiência inesquecíveis.
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Paulo Henriques Britto me deu o final surpreendente de O Som e a Fúria, de William Faulkner. Não fosse ele me falando todas aquelas páginas, eu não teria visto o Benji e a flor de caule quebrado, tudo sendo como sempre foi, a agonia imutável. Meus amigos e alunos leem O Som  e a Fúria de William Faulkner dito a nós por Paulo Henriques Britto. Eu tinha de falar do livro a eles, um livro de leitura árdua, lenta. Passei seis meses para terminá-la. E para conseguir, porque o livro queria atenção integral, fui a uma pousada passar um fim de semana dedicado apenas ao livro. No final da leitura, tive de ir a um telefone público telefonar para a um amigo, contando-lhe sobre como era belo, impactante, terrível o seu final.

post o som e a fúriaQuando quero comentar sobre algo que se distingue dos demais, por vezes refiro-me a uma fala da Avó de José Cemí, no Paradiso, de José Lezama Lima, dado a nós por Josely Vianna Batista: “Hoje estou com vontade de fazer um creme, não como os que se comem hoje, que parecem de botequim, mas os que têm algo de flan, algo de pudim”.
Josely lançou uma nova tradução do livro. Encontrei-o numa livraria e busquei esse trecho. Eu prefiro como ele está na primeira tradução. Não terminei de ler o livro que tenho, mas não comprarei a nova tradução e também não comprarei a de Olga Savary — porque esse trecho em específico me disse muito. E confio na jovem Josely, confio no quanto de beleza ela pôde nos dar. Para mim, lembrar-me de Paradiso é lembrar-me dessa frase, e não quero perdê-la.

post paradisoE falando em beleza, vejo a imagem de Virgílio chegando ao porto de Brundísio, na voz de Herbert Caro dando-nos a voz de Hermann Broch em seu A Morte de Virgílio. E Vera Pedrosa me dando, na adolescência, o amor e a danação de Cathy e Heathcliif em O Morro dos Ventos Uivantes, da Emily Brontë — aí, a primeira tradição de que pude participar: diversos alunos do colégio lendo e comentando sobre o romance,  parando uns aos outros nos corredores e perguntando que livro era aquele sobre o qual tanta gente estava falando. Lembro-me agora de uma tarde em que ficamos sentados num corredor, à porta de um dos laboratórios de química, tratando das personagens, lendo trechos, falando das sensações.
post a morte de virgíliopost o morro 03

De Moby Dick, de Hermann Melville, dito a nós por Irene Hirsch, saiu o título de uma peça da companhia de teatro de que faço parte, por conta deste trecho: “O sol já tinha nascido. Em pouco tempo a tripulação subiu a bordo, de dois em dois ou de três em três; os armadores estavam atarefados; os imediatos trabalhavam ativamente; e muitos dos trabalhadores estavam ocupados trazendo a bordo as muitas últimas coisas. Durante esse tempo, o capitão Ahab permaneceu invisível no santuário de sua cabine”.

post moby dickNão fosse por Aulyde Soares Rodrigues, eu não teria ido ao abismo com Adrienne Mesurat, personagem do livro homônimo de Julien Green.

post adrienne mesurat

Por conta de Maria Deling, saí correndo do quarto do pensionato em que morava em São Paulo, para telefonar a uma amiga, falando que havia lido algo emocionante, de uma beleza que eu nunca tinha visto  —  e que ficou repercutindo na minha cabeça por anos. E ainda hoje repercute: Aschenbach admirando Tadzio em Morte em Veneza, de Thomas Mann. Trecho com que acabo esta postagem que quer apenas agradecer aos tradutores por nos darem suas traduções.

Morte Em Veneza 01Morte Em Veneza 02Morte Em Veneza 03


Nota 1: enquanto escrevia, procurei na internet “traduzione, tradizione” e encontrei este site italiano sobre tradução: Traduzionetradizione.

Nota 2: de todos os livros, busquei as capas das edições que li (ou que comecei a ler). De O Morro dos Ventos Uivantes, a capa do livro que li não foi essa; mas a que postei aqui também é uma edição da mesma tradutora. Sobre esse livro, há neste blog uma postagem aqui: “O morro dos ventos uivantes” : nova tradução e coisas mais. E também relacionado ao livro há esta outra postagem, em que faço uma brincadeira musical unindo Emily Brontë, Hilda Hilst, Elvis Presley e Pet Shop Boys: Heathcliff is always on my mind.

Nota 3: sobre Adrienne Mesurat, há esta postagem: Adrienne Mesurat ou A Solidão Desesperada.

Entre o carneiro e o touro, a amizade: Lygia Fagundes Telles e Hilda Hilst

19/04/2014 2 comentários

Hoje, em 19 de abril, Lygia Fagundes Telles completa 91 anos. Depois de amanhã, em 21 de abril, Hilda Hilst completaria 84 anos. Lygia é ariana, Hilda era taurina. Após uma espera de sete anos para que ambas existissem, apenas um dia ficou separando-as.

Hilda & Lygia

Em 1998, Hilda deu um depoimento sobre sua amiga de longa data — elas se conheceram em 1949, numa homenagem a Lygia, que já era uma contista premiada, pois seu livro “O cacto vermelho” havia recebido o Prêmio Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras. Conheceram-se em uma festa na Casa Mappin; Lygia conduzia “a bela Cecilia Meireles (usava um turbante negro, no estilo indiano)”, quando apareceu Hilda, “uma jovem muito loura e fina, os grandes olhos verdes com uma expressão decidida. Quase arrogante. Como acontece hoje, eram poucas as louras de verdade, e essa era uma loura verdadeira, sem maquiagem e com os longos cabelos dourados presos na nunca por uma larga fivela. Vestia-se com simplicidade. Apresentou-se: ‘Sou Hilda Hilst, poeta. Vim saudá-la em nome da nossa Academia do Largo de São Francisco’. Abracei-a com calor. ‘Minha futura colega!’, eu disse, e ela sorriu. Quando se levantou, bastante emocionada para fazer o seu discurso, ocorreu-me de repente a poética imagem da haste delicada de um ramo tremente de avenca […]” (Lygia Fagundes Telles sobre Hilda Hilst, no número 08 dos Cadernos de Literatura Brasileira do Instituto Moreira Salles, publicado em 1999).
Hilda, em seu depoimento, ao falar sobre a amiga, revela-a e revela-se. E é um trecho de sua fala que coloco aqui, como homenagem às duas mulheres e à amizade entre elas — como homenagem à literatura e à amizade.

Disse Hilda:
“Todo mundo fez tudo pra criar uma animosidade entre nós. Os nossos universos são parecidos, mas se expressam de modos totalmente diferentes. Por exemplo, eu nunca entendi o que quer dizer o ponto-e-vírgula. Eu perguntava pra Lygia, ela me explicava. Eu dizia: ‘Não entendo o ponto-e-vírgula’. Tanto é que nunca na minha vida eu escrevi com ponto-e-vírgula. Nunca entendi. Acho uma besteira. Pensei que não poderia escrever prosa porque não entendia o ponto-e-vírgula. Até que depois de 20 anos eu resolvi escrever.

Eu falo tudo claro. A Lygia se encobre. Quando ela está comigo, por exemplo, a Lygia sozinha, ela é ela. Mas ela tem um certo respeito pelo outro. Eu não tenho o menor respeito. Isto não é um defeito da Lygia, é um defeito meu. Mas ela teve também uma vida muito mais difícil que a minha. O pai dela era um jogador… Foi uma moça com a vida difícil. Eu sempre tive dinheiro e tal. Tudo isso é complicado de dizer.

Nós não falamos sobre literatura. É um assunto que nos irrita. Eu não falo porque gosto muito dela e tenho uma amizade profunda, afetiva mesmo, por ela. A gente não conversa sobre literatura. E somos muito tristes, o tempo todo. Telefono pra ela e digo assim: ‘Você acha normal a mulher que pariu num avião e teve a criança sugada pela turbina? Quer dizer que eu posso levar uma criançada na cabeça!’ Ela fala: ‘Como sugou!? Hilda, as pessoas estão loucas!’ A gente tenta falar coisas agradáveis, mas não consegue. Ou então a gente faz humor negro pra não ficar muito mal.

Ela sempre me disse que fica nua diante de mim. Eu também. Digo: ‘Lygia, eu estou péssima. Estou doentíssima, acho que vou morrer, venha me ver, pelo amor de Deus!’ Quero demais morrer segurando a mão da Lygia, porque sei que ela vai entender tudo na hora H. Ela vai dizer: ‘Hilda, fica calma e tal que é assim mesmo.’

A gente tem uma amizade, sei lá, pode ser até de outras vidas, embora sejamos muito diferentes. Aí Por exemplo, eu bebo muito, ela não bebe nada. Ela diz: ‘Eu vou beber um vinhozinho’. Mas eu já estou bebendo uma garrafa e vários uísques. Ela é muito ativa, é uma mulher mais velha do que eu, mas muito mais ativa. Ela vai ao Rio de Janeiro, corrige livros… Eu não quero corrigir livros nunca mais.

[…]

Hilda

Mas a gente ri muito. Ela diz coisas incríveis. Um dia ligaram pra ela dizendo que um conhecido nosso, meio distante, tinha acabado de morrer. Eu estava lá. Ela perguntou assim: ‘Mas, me diga uma coisa, ele estava bem?’ Aí o cara disse: ‘Lygia, ele estava morto!’ Ela tinhas distrações assim, ‘Mas como ele estava no caixão, ele estava bem?’ ‘Não, ele estava morto!’ Aí eu tinha ataques de riso, porque não era isso que ela queria dizer, ela queria saber se ele estava com uma parecença arrumada, porque tem aqueles bossa Oscar Wilde, caindo aos pedaços. Ela quis saber se a parecença dele era normal ou de assustar. Ela era distraída com essas coisas todas e eu ria muito. E outras coisas divertidíssimas.” (Hilda Hilst sobre Lygia Fagundes Telles, no número 04 dos Cadernos de Literatura Brasileira do Instituto Moreira Salles).

Lygia

Sobre dois importantes livros das autoras, há resenhas em Monte de Leituras: “A obscena senhora d.” (Hilda), “As horas nuas” (Lygia).
No mesmo site, o autor, Alfredo Monte, ao tratar do romance “Verão no aquário”, tece comentários sobre a amizade entre Hilda Hilst e Lygia Fagundes Telles, fazendo uma perspicaz aproximação entre essa relação e a que havia entre Herman Hesse e Thomas Mann — seus modos, suas obras, a recepção delas.

Não existe amor em SP – Criolo

Não existe amor em SP
Um labirinto místico
Onde os grafites gritam
Não dá pra descrever
Numa linda frase
De um postal tão doce
Cuidado com doce
São Paulo é um buquê
Buquês são flores mortas
Num lindo arranjo
Arranjo lindo feito pra você

Não existe amor em SP
Os bares estão cheios de almas tão vazias
A ganância vibra, a vaidade excita
Devolva minha vida e morra afogada em seu próprio mar de fel
Aqui ninguém vai pro céu

Não precisa morrer pra ver Deus
Não precisa sofrer pra saber o que é melhor pra você
Encontro duas nuvens em cada escombro, em cada esquina
Me dê um gole de vida
Não precisa morrer pra ver Deus

 

Preparação de elenco, a primeira vez (porque I can’t keep it in)

06/08/2013 5 comentários

Minha primeira relação profissional com o cinema foi através da preparação de atores, a convite da Lis Paim, para o filme Um vestido para Lia, de Regina Barbosa e Hermano Figueiredo.

Lia

A relação minha e de Lis (produtora de elenco e assistente de direção) com a jovem Fabrícia Avelino (Lia) foi muito enriquecedora. Foram dias de alegrias, temores, certezas, dúvidas…

Tínhamos conosco uma adolescente talentosa, mas que nunca tinha feito um trabalho em vídeo; uma menina cheia de energia, mas que costumava andar com o olhar baixo.

Lembro-me de “exercícios” que foram utilizados (pensados à noite, antes de dormir, por causa de questões/problemas com que tínhamos nos deparado durante o ensaio do dia; pensados de imediato, no calor do problema ou no frio do frio na barriga); exercícios para que o andar fosse menos tímido, para que os braços fossem mais soltos, para que houvesse alguma musicalidade no corpo; para que o olhar estivesse de acordo com a personalidade de Lia, menina forte, longe de qualquer apatia. Era preciso também arrumar um jeito de postar as mãos, os braços, os antebraços, na caminhada e na corrida; e também precisávamos encontrar um modo de pisar.

Mestre Benon, Preta, Naéliton Santos, Fabrícia Avelino

Não estávamos desconstruindo a Fabrícia, mas construindo a Lia, valendo-nos de elementos já possíveis no corpo daquela menina.

Num dos exercícios, numerei alguns pontos no espaço em que ensaiávamos, e Fabrícia tinha de caminhar e estar atenta aos números que eu falava: se eu falava “um”, ela tinha de dirigir-se até lá; eu falava “três”, ela ia até o ponto “três”. Nesse exercício, não treinávamos tanto a atenção dela, mas o modo de andar, o olhar, o modo como o corpo se comportava. Daí, ela percebeu a diferença entre andar a esmo e andar com um foco. Lia era uma personagem com um foco, um objetivo, um desejo, e esse exercício foi feito numa busca de imprimir ao olhar/corpo da personagem uma postura condizente com essa condição.

Fabrícia Avelino, Diva Gonçalves, Ane Oliva

Fabrícia é muito disciplinada e concentrada, e uma tarde nesse exercício foi o suficiente para que os modos do corpo de Lia começassem a se formar.

Outro exercício referiu-se a conseguir alguma graça numa cena bastante curta do filme, mas importante para a personagem: ela à margem da lagoa, com as fitas do guerreiro. Aí, buscamos imprimir leveza ao corpo, ao riso. No ensaio, ela iria correr pelo espaço em que ensaiávamos, mas, antes, seria necessário que houvesse um motor interno, e isso conseguimos através de música e dança.

Como eu e Lis ficamos muitos dias trabalhando juntos, tivemos tempo para, à noite, antes de dormir, conversar sobre muitos assuntos: cinema, literatura, música, amizade, comida, pessoas… Era comum colocarmos nossas músicas para tocarem em nossos notebooks. Foi num desses momentos que escutei I cant’ keep it in, do Cat Stevens, que, acho, eu já havia escutado nas atingas, mas agora vai estar sempre ligada à figura da Lis.

Agora, quando escuto I cant’ keep it in, I cant’ keep it in.

Dentre as músicas do set de Lis, uma outra (dentre várias) me chamou a atenção: Nantes, do Beirut.
Apaixonei-me por ela.

Um dia, estávamos no momento de imprimir ao corpo de Fabrícia/Lia mais leveza, menos timidez. No exercício de leveza, utilizei Nantes: coloquei uma venda em Fabrícia e dei play na música. Pedi que Fabrícia se esquecesse de nossa presença e apenas ouvisse a música, sentisse a música (vai aí o clichê). Pedi que fosse soltando o corpo, e que dançasse, se sentisse vontade; que sorrisse, se quisesse sorrir.

Instantes depois, tínhamos uma linda menina de olhos vendados e corpo ondulando, braços sinuosos, sorriso aberto. E um preparador de elenco chorando, vendo-a. E uma produtora de elenco emocionada, admirando-a.

Depois, tínhamos uma menina sem vendas nos olhos, correndo pelo espaço onde ensaiávamos, com a doçura e força e leveza sempre possíveis nos adolescentes, mas muitas vezes encobertas.

Ela colocou a música em seu pendrive, para escutá-la em casa,  e Nantes tornou-se, entre nós, o Tema de Lia.

Não à toa, ao término das filmagens, chorei muito quando, na kombi que levava a equipe para suas casas, tocou Nantes no aparelho de som.

Fechei os olhos e me lembrei de Fabrícia, de olhos vendados, dançando… de Lis, amiga e companheira durante todo o período de preparação… de todos os dias no set de filmagem, com toda a equipe.

Sempre que ouço Nantes, lembro-me daqueles dias, primeiros dias de algo que quero fazer muito, ainda. Os primeiros dias do futuro de minha vida.

Outra música do Beirut também me inspira a atuar, a dirigir/preparar atores, e é com ela que finalizo este post tão pessoal (porque é bom terminar com um sorriso): A sunday smile.

Performance circense de Nínive, na festa Popiparque III, ao som de A sunday smile (foto de Michel Rios)

Lembrar-me desses dias e do que fizemos e do que ainda pretendemos fazer só me faz sonhar ainda mais e sorrir, porque I cant’ keep it in.

Esta postagem começou como pretexto para divulgar um post da Ana Maria Bahiana, que cito abaixo. Mas, acabou virando outra coisa. Termino-a agradecendo a Lis Paim, Regina Barbosa, Hermano Figueiredo e toda a equipe de Um vestido para Lia. Agradeço aos atores Diva Gonçalves, Ane Oliva, Naéliton Santons, Bete Miranda.
Agradeço principalmente a Fabrícia, por ter sido uma escola, para mim.  Ela e os atores com que eu ainda viria  a trabalhar ensinaram-me que o diretor/preparador não deve apenas preparar o elenco, mas estar preparado para o elenco.
Num outro dia, quem sabe, falo sobre como um olhar foi decisivo para a escolha de uma atriz para um papel, e sobre trabalhar com uma mulher que nunca havia ido a um cinema, mas que engoliu a todos em um set. Afinal, uma mulher de 74 anos pode não saber coisa alguma sobre interpretação, mas sabe muitíssimo sobre humanidade – e personagens são pessoas.

Anita das Neves e Ivana Iza, em “O que lembro, tenho”, de Rafhael Barbosa

Fabrícia Avelino não parou após ser Lia, e agora é Luzia, num curta-metragem dirigido por Leandro Alves: Flamor.

Fabrícia Avelino (Luzia), em “Flamor”, de Leandro Alves

Pensei nesta postagem por causa de uma publicação que vi há pouco no blog da Ana Matia Bahiana, e cujo link coloco aquiNova presidente da Academia cria departamento para diretores de elenco.

Um furacão não é só vento

19/06/2013 2 comentários

Cyclone – Barry Moser

Algo que vem tomando as redes sociais é a crítica a manifestantes que, aproveitando os protestos contra o aumento nas tarifas de ônibus, estariam diluindo esse primeiro protesto, a sua força, puxando a brasa para outras questões. Alguns são criticados como coxinhas, almofadinhas que estariam ali apenas porque o sapato apertou no seu calo; outros porque não teriam entendido a real da questão, contribuindo para um desvio do foco inicial.

Não falo dos coxinhas ― interessam-me os que, da multidão, bradam por causa de outros problemas além do aumento na tarifa dos ônibus. Difícil dizer que não é verdadeira e espontânea sua manifestação; difícil dizer que, na manifestação, eles não gritem contra o mau uso dos impostos, as leis eleitorais, os problemas na saúde. Devemos falar para eles que o trem deles não é este, que deverá passar mais tarde, e eles ali não poderão gritar o nome do outro itinerário? Ou há um grande itinerário, com diversos pontos de parada?

 

Acredito na possibilidade da diminuição da força do protesto por conta da diluição das reivindicações, mas não se pode criticar um povo por gritar suas fomes. Há, claro, além dos coxinhas, inúmeros partidos políticos, forças midiáticas, empresários tentando desvirtuar o que está sendo construído; há os opositores da Dilma, querendo tirá-la do cargo para assumirem eles o poder; mas, há também um povo faminto e que, muitas vezes, não sabe dar nome a suas fomes.

As manifestações são algo como estar uma pessoa num ônibus ― ônibus sempre lotado, desconfortável, e que essa pessoa toma há anos, nos mesmos horários.

Um dia, alguém pisa no pé dessa pessoa; ela solta um grito e reclama do pisão no pé. Se ela fala apenas nesse instante, há apenas a reclamação sobre o pisão; se ela continua falando, daqui a pouco diz de o como ônibus está lotado, diz de seu desconforto, reclama dos desodorantes vencidos, fala mal da empresa em que trabalha e do patrão, fala que os pais dela bem poderiam ter escolhido outro emprego quando jovens, para que ela tivesse nascido numa família mais abastada… reclama que é uma pessoa insegura por causa do pai sempre repressor… E o que era apenas uma reclamação sobre um pisão no pé transforma-se numa pública sessão em um divã escancarado.

Querer dizer quais fomes podem ou devem ser gritadas é desconsiderar que uma manifestação lida com uma massa e que é agregadora, é um ímã humano em movimento.

Se temos dificuldade em dirigir e digerir o torvelinho que é uma alma individual, como a presunção de fazer o mesmo com o furacão que é uma alma coletiva?

E um furacão nunca é só vento.

“e começaram a roer o edifício”

Manifestação em  Maceió

Manifestação em
Maceió

estamos indo às ruas. lá, nós, tão distintos, assemelhamo-nos. lá, dizemos que não aceitamos o aumento no valor das passagens de ônibus, mas o fazemos como quem diz:

 

 nosso transporte público, como tudo que no Brasil leva essa adjetivação, não leva em consideração nossa dignidade. transportes, escolas, postos de saúde… em todas essas instâncias, somos agredidos e chamados de burros, inertes, indignos.

 

Pia do banheiro em escola do município de Boca da Mata

 

visitemos uma escola pública e procuremos o banheiro dos alunos: em geral, são fétidos, não têm material de higiene básico, não têm água nas torneiras.  e…

 

 nós cidadãos, se sonegamos impostos, somos punidos. mas, não são punidos os administradores municipais e/ou estaduais ou federais que não aplicam devidamente os impostos recolhidos.

 

Buraco na Av. Sen. Rui Palmeira

 

em Maceió, se investigássemos o IPVA recolhido nos últimos 20 anos, nesta cidade que é uma das que têm o maior número de veículos per capita, ficaríamos estarrecidos com o abismo entre o dinheiro recolhido e o dinheiro devidamente aplicado.

 

se um de nós comete estelionato, é preso. mas, os políticos cometem-no constantemente. o estelionato é institucionalizado, e motivo para riso, em vez de provocar indignação.

 

Riacho Salgadinho, para cujo tratamento (?) a administração (?) de Kátia Born gastou uma fortuna

 

por que não é impugnada a candidatura daquele que promete o impossível, ou punido o político que trai a plataforma eleitoral ou mente descaradamente?

 

 algumas pessoas estão temendo participar das manifestações, num medo de serem manipuladas por partidos políticos que estariam orquestrando esses eventos, apenas planejando serem eles a tomar o poder que agora é do outro. mas, talvez o povo esteja mais maduro e consiga usar isso a seu favor.

 

Manifestação em São Paulo

Manifestação em São Paulo

 

seríamos maduros se não apenas caíssemos na ladainha do “fora você que está no poder”, mas se cobrássemos uma reforma geral, com mudanças nas leis eleitorais, na mudança do fato de os políticos terem a liberdade de legislar em favor próprio, na queda das regalias dos políticos, na instituição do “político como representante a serviço”.

 

 

 

não são apenas uns centavos. é um grito há muito engasgado.

são os ratos roendo e ruindo a estrutura. por décadas mantidos sob domínio, no subterrâneo, em condições adversas, comendo das migalhas que caem das mesas dos soberanos, eles sobem à superfície.

 

Manifestação no Rio de Janeiro

 

Que século, meu Deus! – exclamaram os ratos e começaram a roer o edifício.” (Carlos Drummond de Andrade).

AnonymousBrasil

 

Manifestação em Maceió

Manifestação em Maceió

 

Eleições Municipais ou o Estelionato Institucionalizado

Maceió em caos – trânsito, manguezais (um banquete de um lambendo o rabo do outro). E rogos de pragas e maldições

Alagoas : Que intervenção queremos? De que intervenção precisamos?

Tortura / Torturas

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