Entre o carneiro e o touro, a amizade: Lygia Fagundes Telles e Hilda Hilst

19/04/2014 2 comentários

Hoje, em 19 de abril, Lygia Fagundes Telles completa 91 anos. Depois de amanhã, em 21 de abril, Hilda Hilst completaria 84 anos. Lygia é ariana, Hilda era taurina. Após uma espera de sete anos para que ambas existissem, apenas um dia ficou separando-as.

Hilda & Lygia

Em 1998, Hilda deu um depoimento sobre sua amiga de longa data — elas se conheceram em 1949, numa homenagem a Lygia, que já era uma contista premiada, pois seu livro “O cacto vermelho” havia recebido o Prêmio Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras. Conheceram-se em uma festa na Casa Mappin; Lygia conduzia “a bela Cecilia Meireles (usava um turbante negro, no estilo indiano)”, quando apareceu Hilda, “uma jovem muito loura e fina, os grandes olhos verdes com uma expressão decidida. Quase arrogante. Como acontece hoje, eram poucas as louras de verdade, e essa era uma loura verdadeira, sem maquiagem e com os longos cabelos dourados presos na nunca por uma larga fivela. Vestia-se com simplicidade. Apresentou-se: ‘Sou Hilda Hilst, poeta. Vim saudá-la em nome da nossa Academia do Largo de São Francisco’. Abracei-a com calor. ‘Minha futura colega!’, eu disse, e ela sorriu. Quando se levantou, bastante emocionada para fazer o seu discurso, ocorreu-me de repente a poética imagem da haste delicada de um ramo tremente de avenca […]” (Lygia Fagundes Telles sobre Hilda Hilst, no número 08 dos Cadernos de Literatura Brasileira do Instituto Moreira Salles, publicado em 1999).
Hilda, em seu depoimento, ao falar sobre a amiga, revela-a e revela-se. E é um trecho de sua fala que coloco aqui, como homenagem às duas mulheres e à amizade entre elas — como homenagem à literatura e à amizade.

Disse Hilda:
“Todo mundo fez tudo pra criar uma animosidade entre nós. Os nossos universos são parecidos, mas se expressam de modos totalmente diferentes. Por exemplo, eu nunca entendi o que quer dizer o ponto-e-vírgula. Eu perguntava pra Lygia, ela me explicava. Eu dizia: ‘Não entendo o ponto-e-vírgula’. Tanto é que nunca na minha vida eu escrevi com ponto-e-vírgula. Nunca entendi. Acho uma besteira. Pensei que não poderia escrever prosa porque não entendia o ponto-e-vírgula. Até que depois de 20 anos eu resolvi escrever.

Eu falo tudo claro. A Lygia se encobre. Quando ela está comigo, por exemplo, a Lygia sozinha, ela é ela. Mas ela tem um certo respeito pelo outro. Eu não tenho o menor respeito. Isto não é um defeito da Lygia, é um defeito meu. Mas ela teve também uma vida muito mais difícil que a minha. O pai dela era um jogador… Foi uma moça com a vida difícil. Eu sempre tive dinheiro e tal. Tudo isso é complicado de dizer.

Nós não falamos sobre literatura. É um assunto que nos irrita. Eu não falo porque gosto muito dela e tenho uma amizade profunda, afetiva mesmo, por ela. A gente não conversa sobre literatura. E somos muito tristes, o tempo todo. Telefono pra ela e digo assim: ‘Você acha normal a mulher que pariu num avião e teve a criança sugada pela turbina? Quer dizer que eu posso levar uma criançada na cabeça!’ Ela fala: ‘Como sugou!? Hilda, as pessoas estão loucas!’ A gente tenta falar coisas agradáveis, mas não consegue. Ou então a gente faz humor negro pra não ficar muito mal.

Ela sempre me disse que fica nua diante de mim. Eu também. Digo: ‘Lygia, eu estou péssima. Estou doentíssima, acho que vou morrer, venha me ver, pelo amor de Deus!’ Quero demais morrer segurando a mão da Lygia, porque sei que ela vai entender tudo na hora H. Ela vai dizer: ‘Hilda, fica calma e tal que é assim mesmo.’

A gente tem uma amizade, sei lá, pode ser até de outras vidas, embora sejamos muito diferentes. Aí Por exemplo, eu bebo muito, ela não bebe nada. Ela diz: ‘Eu vou beber um vinhozinho’. Mas eu já estou bebendo uma garrafa e vários uísques. Ela é muito ativa, é uma mulher mais velha do que eu, mas muito mais ativa. Ela vai ao Rio de Janeiro, corrige livros… Eu não quero corrigir livros nunca mais.

[…]

Hilda

Mas a gente ri muito. Ela diz coisas incríveis. Um dia ligaram pra ela dizendo que um conhecido nosso, meio distante, tinha acabado de morrer. Eu estava lá. Ela perguntou assim: ‘Mas, me diga uma coisa, ele estava bem?’ Aí o cara disse: ‘Lygia, ele estava morto!’ Ela tinhas distrações assim, ‘Mas como ele estava no caixão, ele estava bem?’ ‘Não, ele estava morto!’ Aí eu tinha ataques de riso, porque não era isso que ela queria dizer, ela queria saber se ele estava com uma parecença arrumada, porque tem aqueles bossa Oscar Wilde, caindo aos pedaços. Ela quis saber se a parecença dele era normal ou de assustar. Ela era distraída com essas coisas todas e eu ria muito. E outras coisas divertidíssimas.” (Hilda Hilst sobre Lygia Fagundes Telles, no número 04 dos Cadernos de Literatura Brasileira do Instituto Moreira Salles).

Lygia

Sobre dois importantes livros das autoras, há resenhas em Monte de Leituras: “A obscena senhora d.” (Hilda), “As horas nuas” (Lygia).
No mesmo site, o autor, Alfredo Monte, ao tratar do romance “Verão no aquário”, tece comentários sobre a amizade entre Hilda Hilst e Lygia Fagundes Telles, fazendo uma perspicaz aproximação entre essa relação e a que havia entre Herman Hesse e Thomas Mann — seus modos, suas obras, a recepção delas.

Não existe amor em SP – Criolo

Não existe amor em SP
Um labirinto místico
Onde os grafites gritam
Não dá pra descrever
Numa linda frase
De um postal tão doce
Cuidado com doce
São Paulo é um buquê
Buquês são flores mortas
Num lindo arranjo
Arranjo lindo feito pra você

Não existe amor em SP
Os bares estão cheios de almas tão vazias
A ganância vibra, a vaidade excita
Devolva minha vida e morra afogada em seu próprio mar de fel
Aqui ninguém vai pro céu

Não precisa morrer pra ver Deus
Não precisa sofrer pra saber o que é melhor pra você
Encontro duas nuvens em cada escombro, em cada esquina
Me dê um gole de vida
Não precisa morrer pra ver Deus

 

Preparação de elenco, a primeira vez (porque I can’t keep it in)

06/08/2013 5 comentários

Minha primeira relação profissional com o cinema foi através da preparação de atores, a convite da Lis Paim, para o filme Um vestido para Lia, de Regina Barbosa e Hermano Figueiredo.

Lia

A relação minha e de Lis (produtora de elenco e assistente de direção) com a jovem Fabrícia Avelino (Lia) foi muito enriquecedora. Foram dias de alegrias, temores, certezas, dúvidas…

Tínhamos conosco uma adolescente talentosa, mas que nunca tinha feito um trabalho em vídeo; uma menina cheia de energia, mas que costumava andar com o olhar baixo.

Lembro-me de “exercícios” que foram utilizados (pensados à noite, antes de dormir, por causa de questões/problemas com que tínhamos nos deparado durante o ensaio do dia; pensados de imediato, no calor do problema ou no frio do frio na barriga); exercícios para que o andar fosse menos tímido, para que os braços fossem mais soltos, para que houvesse alguma musicalidade no corpo; para que o olhar estivesse de acordo com a personalidade de Lia, menina forte, longe de qualquer apatia. Era preciso também arrumar um jeito de postar as mãos, os braços, os antebraços, na caminhada e na corrida; e também precisávamos encontrar um modo de pisar.

Mestre Benon, Preta, Naéliton Santos, Fabrícia Avelino

Não estávamos desconstruindo a Fabrícia, mas construindo a Lia, valendo-nos de elementos já possíveis no corpo daquela menina.

Num dos exercícios, numerei alguns pontos no espaço em que ensaiávamos, e Fabrícia tinha de caminhar e estar atenta aos números que eu falava: se eu falava “um”, ela tinha de dirigir-se até lá; eu falava “três”, ela ia até o ponto “três”. Nesse exercício, não treinávamos tanto a atenção dela, mas o modo de andar, o olhar, o modo como o corpo se comportava. Daí, ela percebeu a diferença entre andar a esmo e andar com um foco. Lia era uma personagem com um foco, um objetivo, um desejo, e esse exercício foi feito numa busca de imprimir ao olhar/corpo da personagem uma postura condizente com essa condição.

Fabrícia Avelino, Diva Gonçalves, Ane Oliva

Fabrícia é muito disciplinada e concentrada, e uma tarde nesse exercício foi o suficiente para que os modos do corpo de Lia começassem a se formar.

Outro exercício referiu-se a conseguir alguma graça numa cena bastante curta do filme, mas importante para a personagem: ela à margem da lagoa, com as fitas do guerreiro. Aí, buscamos imprimir leveza ao corpo, ao riso. No ensaio, ela iria correr pelo espaço em que ensaiávamos, mas, antes, seria necessário que houvesse um motor interno, e isso conseguimos através de música e dança.

Como eu e Lis ficamos muitos dias trabalhando juntos, tivemos tempo para, à noite, antes de dormir, conversar sobre muitos assuntos: cinema, literatura, música, amizade, comida, pessoas… Era comum colocarmos nossas músicas para tocarem em nossos notebooks. Foi num desses momentos que escutei I cant’ keep it in, do Cat Stevens, que, acho, eu já havia escutado nas atingas, mas agora vai estar sempre ligada à figura da Lis.

Agora, quando escuto I cant’ keep it in, I cant’ keep it in.

Dentre as músicas do set de Lis, uma outra (dentre várias) me chamou a atenção: Nantes, do Beirut.
Apaixonei-me por ela.

Um dia, estávamos no momento de imprimir ao corpo de Fabrícia/Lia mais leveza, menos timidez. No exercício de leveza, utilizei Nantes: coloquei uma venda em Fabrícia e dei play na música. Pedi que Fabrícia se esquecesse de nossa presença e apenas ouvisse a música, sentisse a música (vai aí o clichê). Pedi que fosse soltando o corpo, e que dançasse, se sentisse vontade; que sorrisse, se quisesse sorrir.

Instantes depois, tínhamos uma linda menina de olhos vendados e corpo ondulando, braços sinuosos, sorriso aberto. E um preparador de elenco chorando, vendo-a. E uma produtora de elenco emocionada, admirando-a.

Depois, tínhamos uma menina sem vendas nos olhos, correndo pelo espaço onde ensaiávamos, com a doçura e força e leveza sempre possíveis nos adolescentes, mas muitas vezes encobertas.

Ela colocou a música em seu pendrive, para escutá-la em casa,  e Nantes tornou-se, entre nós, o Tema de Lia.

Não à toa, ao término das filmagens, chorei muito quando, na kombi que levava a equipe para suas casas, tocou Nantes no aparelho de som.

Fechei os olhos e me lembrei de Fabrícia, de olhos vendados, dançando… de Lis, amiga e companheira durante todo o período de preparação… de todos os dias no set de filmagem, com toda a equipe.

Sempre que ouço Nantes, lembro-me daqueles dias, primeiros dias de algo que quero fazer muito, ainda. Os primeiros dias do futuro de minha vida.

Outra música do Beirut também me inspira a atuar, a dirigir/preparar atores, e é com ela que finalizo este post tão pessoal (porque é bom terminar com um sorriso): A sunday smile.

Performance circense de Nínive, na festa Popiparque III, ao som de A sunday smile (foto de Michel Rios)

Lembrar-me desses dias e do que fizemos e do que ainda pretendemos fazer só me faz sonhar ainda mais e sorrir, porque I cant’ keep it in.

Esta postagem começou como pretexto para divulgar um post da Ana Maria Bahiana, que cito abaixo. Mas, acabou virando outra coisa. Termino-a agradecendo a Lis Paim, Regina Barbosa, Hermano Figueiredo e toda a equipe de Um vestido para Lia. Agradeço aos atores Diva Gonçalves, Ane Oliva, Naéliton Santons, Bete Miranda.
Agradeço principalmente a Fabrícia, por ter sido uma escola, para mim.  Ela e os atores com que eu ainda viria  a trabalhar ensinaram-me que o diretor/preparador não deve apenas preparar o elenco, mas estar preparado para o elenco.
Num outro dia, quem sabe, falo sobre como um olhar foi decisivo para a escolha de uma atriz para um papel, e sobre trabalhar com uma mulher que nunca havia ido a um cinema, mas que engoliu a todos em um set. Afinal, uma mulher de 74 anos pode não saber coisa alguma sobre interpretação, mas sabe muitíssimo sobre humanidade – e personagens são pessoas.

Anita das Neves e Ivana Iza, em “O que lembro, tenho”, de Rafhael Barbosa

Fabrícia Avelino não parou após ser Lia, e agora é Luzia, num curta-metragem dirigido por Leandro Alves: Flamor.

Fabrícia Avelino (Luzia), em “Flamor”, de Leandro Alves

Pensei nesta postagem por causa de uma publicação que vi há pouco no blog da Ana Matia Bahiana, e cujo link coloco aquiNova presidente da Academia cria departamento para diretores de elenco.

Um furacão não é só vento

19/06/2013 2 comentários

Cyclone – Barry Moser

Algo que vem tomando as redes sociais é a crítica a manifestantes que, aproveitando os protestos contra o aumento nas tarifas de ônibus, estariam diluindo esse primeiro protesto, a sua força, puxando a brasa para outras questões. Alguns são criticados como coxinhas, almofadinhas que estariam ali apenas porque o sapato apertou no seu calo; outros porque não teriam entendido a real da questão, contribuindo para um desvio do foco inicial.

Não falo dos coxinhas ― interessam-me os que, da multidão, bradam por causa de outros problemas além do aumento na tarifa dos ônibus. Difícil dizer que não é verdadeira e espontânea sua manifestação; difícil dizer que, na manifestação, eles não gritem contra o mau uso dos impostos, as leis eleitorais, os problemas na saúde. Devemos falar para eles que o trem deles não é este, que deverá passar mais tarde, e eles ali não poderão gritar o nome do outro itinerário? Ou há um grande itinerário, com diversos pontos de parada?

 

Acredito na possibilidade da diminuição da força do protesto por conta da diluição das reivindicações, mas não se pode criticar um povo por gritar suas fomes. Há, claro, além dos coxinhas, inúmeros partidos políticos, forças midiáticas, empresários tentando desvirtuar o que está sendo construído; há os opositores da Dilma, querendo tirá-la do cargo para assumirem eles o poder; mas, há também um povo faminto e que, muitas vezes, não sabe dar nome a suas fomes.

As manifestações são algo como estar uma pessoa num ônibus ― ônibus sempre lotado, desconfortável, e que essa pessoa toma há anos, nos mesmos horários.

Um dia, alguém pisa no pé dessa pessoa; ela solta um grito e reclama do pisão no pé. Se ela fala apenas nesse instante, há apenas a reclamação sobre o pisão; se ela continua falando, daqui a pouco diz de o como ônibus está lotado, diz de seu desconforto, reclama dos desodorantes vencidos, fala mal da empresa em que trabalha e do patrão, fala que os pais dela bem poderiam ter escolhido outro emprego quando jovens, para que ela tivesse nascido numa família mais abastada… reclama que é uma pessoa insegura por causa do pai sempre repressor… E o que era apenas uma reclamação sobre um pisão no pé transforma-se numa pública sessão em um divã escancarado.

Querer dizer quais fomes podem ou devem ser gritadas é desconsiderar que uma manifestação lida com uma massa e que é agregadora, é um ímã humano em movimento.

Se temos dificuldade em dirigir e digerir o torvelinho que é uma alma individual, como a presunção de fazer o mesmo com o furacão que é uma alma coletiva?

E um furacão nunca é só vento.

“e começaram a roer o edifício”

Manifestação em  Maceió

Manifestação em
Maceió

estamos indo às ruas. lá, nós, tão distintos, assemelhamo-nos. lá, dizemos que não aceitamos o aumento no valor das passagens de ônibus, mas o fazemos como quem diz:

 

 nosso transporte público, como tudo que no Brasil leva essa adjetivação, não leva em consideração nossa dignidade. transportes, escolas, postos de saúde… em todas essas instâncias, somos agredidos e chamados de burros, inertes, indignos.

 

Pia do banheiro em escola do município de Boca da Mata

 

visitemos uma escola pública e procuremos o banheiro dos alunos: em geral, são fétidos, não têm material de higiene básico, não têm água nas torneiras.  e…

 

 nós cidadãos, se sonegamos impostos, somos punidos. mas, não são punidos os administradores municipais e/ou estaduais ou federais que não aplicam devidamente os impostos recolhidos.

 

Buraco na Av. Sen. Rui Palmeira

 

em Maceió, se investigássemos o IPVA recolhido nos últimos 20 anos, nesta cidade que é uma das que têm o maior número de veículos per capita, ficaríamos estarrecidos com o abismo entre o dinheiro recolhido e o dinheiro devidamente aplicado.

 

se um de nós comete estelionato, é preso. mas, os políticos cometem-no constantemente. o estelionato é institucionalizado, e motivo para riso, em vez de provocar indignação.

 

Riacho Salgadinho, para cujo tratamento (?) a administração (?) de Kátia Born gastou uma fortuna

 

por que não é impugnada a candidatura daquele que promete o impossível, ou punido o político que trai a plataforma eleitoral ou mente descaradamente?

 

 algumas pessoas estão temendo participar das manifestações, num medo de serem manipuladas por partidos políticos que estariam orquestrando esses eventos, apenas planejando serem eles a tomar o poder que agora é do outro. mas, talvez o povo esteja mais maduro e consiga usar isso a seu favor.

 

Manifestação em São Paulo

Manifestação em São Paulo

 

seríamos maduros se não apenas caíssemos na ladainha do “fora você que está no poder”, mas se cobrássemos uma reforma geral, com mudanças nas leis eleitorais, na mudança do fato de os políticos terem a liberdade de legislar em favor próprio, na queda das regalias dos políticos, na instituição do “político como representante a serviço”.

 

 

 

não são apenas uns centavos. é um grito há muito engasgado.

são os ratos roendo e ruindo a estrutura. por décadas mantidos sob domínio, no subterrâneo, em condições adversas, comendo das migalhas que caem das mesas dos soberanos, eles sobem à superfície.

 

Manifestação no Rio de Janeiro

 

Que século, meu Deus! – exclamaram os ratos e começaram a roer o edifício.” (Carlos Drummond de Andrade).

AnonymousBrasil

 

Manifestação em Maceió

Manifestação em Maceió

 

Eleições Municipais ou o Estelionato Institucionalizado

Maceió em caos – trânsito, manguezais (um banquete de um lambendo o rabo do outro). E rogos de pragas e maldições

Alagoas : Que intervenção queremos? De que intervenção precisamos?

Tortura / Torturas

Os Heróis de Hoje ou Os Indiferentes

rainha

“13 de agosto

Afirma-se que se o poema de Homero ressurge em Joyce sob uma forma degradada é por ser o nosso mundo incapaz de gerar outra Odisséia.  Sugeriria igualmente Julia Marquezim Enone, com mordacidade e desencanto, não sermos hoje capazes de engendrar heróis como os de ontem? Hipótese admissível e que o exame da nossa realidade atual parece consagrar. Os últimos heróis nacionais surgiram há meio século e desde então caíram no esquecimento, na rotina ou na dubiedade. Quando morreram, a notícia apenas perpassou por nós  — como perpassa a brisa — e pode ser que algum tenha expirado sem que o país soubesse. Um deles, remanescente de um pequeno grupo de dezoito que saíra à rua em 1924, de armas na mão, dispostos a morrer e talvez invocando uma bala inimiga, no coração se possível, para que o fluir da vida não negasse o fulgor daquele instante único, vinte anos depois cruzaria o país, envolto na sua legenda ainda clara e que, antes de todos, começaria a esquecer. Nem sequer do fumo da segunda Guerra nasceriam heróis. Muitos foram mortos e jazem em Pistóia, enterrados junto com os seus nomes, ninguém sabe onde estão os mutilados e os nomes dos que os comandavam nada significam para nós. A ação política tem levado muitos ao exílio, à morte e aos negócios — e a verdade é que, de todos, só os últimos conservam ainda certo fulgor mítico. isto não deve surpreender. Os heróis nacionais, hoje, todos circunscritos à televisão e ao esporte profissional, ganham num dia o que ninguém come em um ano. Agravando o desacerto, esses nossos mitos, sem um único exemplo discordante, professam indiferença absoluta por todos os problemas que afligem os humanos. Nenhum, como o peso-pesado Cassius Clay, arriscaria a carreira e o título por nada neste mundo — uma causa, ou um princípio, ou uma idéia, ou uma teimosia. A neutralidade, luxo e equívoco, é sua norma e isto em nada os fere no conceito geral.”

A rainha dos cárceres da Grécia, Osman Lins – Edições Melhoramentos, 1976, pp. 170-171.

Venha ver o pôr do sol – Lygia Fagundes Telles

01/04/2013 12 comentários

 

Ela subiu sem pressa a tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em terrenos baldios. No meio da rua sem calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro, algumas crianças brincavam de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na quietude da tarde.

Ele a esperava encostado a uma árvore. Esguio e magro, metido num largo blusão azul-marinho, cabelos crescidos e desalinhados, tinha um jeito jovial de estudante.

– Minha querida Raquel.

Ela encarou-o, séria. E olhou para os próprios sapatos.

– Veja que lama. Só mesmo você inventaria um encontro num lugar destes. Que idéia, Ricardo, que idéia! Tive que descer do taxi lá longe, jamais ele chegaria aqui em cima.

Ele riu entre malicioso e ingênuo.

– Jamais? Pensei que viesse vestida esportivamente e agora me aparece nessa elegância. Quando você andava comigo, usava uns sapatões de sete-léguas, lembra?

– Foi para me dizer isso que você me fez subir até aqui?- perguntou ela, guardando o lenço na bolsa. Tirou um cigarro.- Hein?!

– Ah, Raquel…- ele tomou-a pelo braço. – Você está uma coisa de linda. E fuma agora uns cigarrinhos pilantras, azul e dourado. Juro que eu tinha que ver ainda uma vez toda essa beleza, sentir esse perfume. Então? Fiz mal?

– Podia Ter escolhido um outro lugar, não? – Abrandara a voz – E que é isso aí? Um cemitério?

Ele voltou-se para o velho muro arruinado. Indicou com o olhar o portão de ferro, carcomido pela ferrugem.

– Cemitério abandonado, meu anjo. Vivo e mortos, desertaram todos. Nem os fantasmas sobraram, olha aí como as criancinhas brincam sem medo – acrescentou apontando as crianças na sua ciranda.

Ela tragou lentamente. Soprou a fumaça na cara do companheiro.

– Ricardo e suas idéias. E agora? Qual é o programa?

Brandamente ele a tomou pela cintura.

– Conheço bem tudo isso, minha gente está enterrada aí. Vamos entrar um instante e te mostrarei o pôr do sol mais lindo do mundo.

Ela encarou-o um instante. E vergou a cabeça para trás numa risada.

– Ver o pôr do sol? Ah, meu Deus…Fabuloso, fabuloso! Me implora um último encontro, me atormenta dias seguidos, me faz vir de longe para esta buraqueira, só mais uma vez, só mais uma! E para quê? Para ver o pôr do sol num cemitério.

Ele riu também, afetando encabulamento como um menino pilhado em falta.

– Raquel minha querida, não faça assim comigo. Você sabe que eu gostaria era de te levar ao meu apartamento, mas fiquei mais pobre ainda, como se isso fosse possível. Moro agora numa pensão horrenda, a dona é uma Medusa que vive espiando pelo buraco da fechadura.

– E você acha que eu iria?

– Não se zangue, sei que não iria, você está sendo fidelíssima. Então pensei, se pudéssemos conversar um pouco numa rua afastada…- disse ele, aproximando-se mais.

Acariciou-lhe o braço com as pontas dos dedos. Ficou sério. E aos poucos inúmeras rugazinhas foram-se formando em redor dos seus olhos ligeiramente apertados. Os leques de rugas se aprofundaram numa expressão astuta. Não era nesse instante tão jovem como aparentava. Mas logo sorriu e a rede de rugas desapareceu sem deixar vestígio. Voltou-lhe novamente o ar inexperiente e meio desatento

– Você fez bem em vir.

– Quer dizer que o programa… E não podíamos tomar alguma coisa num bar?

– Estou sem dinheiro, meu anjo, vê se entende.

– Mas eu pago.

– Com o dinheiro dele? Prefiro beber formicida. Escolhi este passeio porque é de graça e muito decente, não pode haver passeio mais decente, não concorda comigo? Até romântico.

Ela olhou em redor. Puxou o braço que ele apertava.

– Foi um risco enorme, Ricardo. Ele é ciumentíssimo. Está farto de saber que tive meus casos. Se nos pilha juntos, então sim, quero só ver se alguma das suas fabulosas ideias vai me consertar a vida.

– Mas me lembrei deste lugar justamente porque não quero que você se arrisque, meu anjo. Não tem lugar mais discreto do que um cemitério abandonado, veja, completamente abandonado – prosseguiu ele, abrindo o portão. Os velhos gonzos gemeram. – Jamais seu amigo ou um amigo do seu amigo saberá que estivemos aqui.

– É um risco enorme, já disse . Não insista nessas brincadeiras, por favor. E se vem um enterro? Não suporto enterros.

– Mas enterro de quem? Raquel, Raquel, quantas vezes preciso repetir a mesma coisa? Há séculos ninguém mais é enterrado aqui, acho que nem os ossos sobraram, que bobagem. Vem comigo, pode me dar o braço, não tenha medo.

O mato rasteiro dominava tudo. E não satisfeito de ter-se alastrado furioso pelos canteiros, subira pelas sepulturas, infiltrara-se ávido pelos rachões dos mármores, invadira alamedas de pedregulhos esverdinhados, como se quisesse com sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos vestígios da morte. Foram andando pela longa alameda banhada de sol. Os passos de ambos ressoavam sonoros como uma estranha música feita do som das folhas secas trituradas sobre os pedregulhos. Amuada mas obediente, ela se deixava conduzir como uma criança. Às vezes mostrava certa curiosidade por uma ou outra sepultura com os pálidos medalhões de retratos esmaltados.

– É imenso, hem? E tão miserável, nunca vi um cemitério mais miserável, que deprimente – exclamou ela, atirando a ponta do cigarro na direção de um anjinho de cabeça decepada. – Vamos embora, Ricardo, chega.

– Ah, Raquel, olha um pouco para esta tarde! Deprimente por quê? Não sei onde foi que eu li, a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da tarde, está no crepúsculo, nesse meio-tom, nessa ambigüidade. Estou lhe dando um crepúsculo numa bandeja e você se queixa.

– Não gosto de cemitério, já disse. E ainda mais cemitério pobre.

Delicadamente ele beijou-lhe a mão.

– Você prometeu dar um fim de tarde a este seu escravo.

– É, mas fiz mal. Pode ser muito engraçado, mas não quero me arriscar mais.

– Ele é tão rico assim?

– Riquíssimo. Vai me levar agora numa viagem fabulosa até o Oriente. Já ouviu falar no Oriente? Vamos até o Oriente, meu caro…

Ele apanhou um pedregulho e fechou-o na mão. A pequenina rede de rugas voltou a se estender em redor dos seus olhos. A fisionomia, tão aberta e lisa, repentinamente escureceu, envelhecida. Mas logo o sorrisso reapareceu e as rugazinhas sumiram.

– Eu também te levei um dia para passear de barco, lembra?

Recostando a cabeça no ombro do homem, ela retardou o passo.

– Sabe, Ricardo, acho que você é mesmo tantã… Mas apesar de tudo, tenho às vezes saudade daquele tempo. Que ano aquele. Quando penso, não entendo até hoje como aguentei tanto, imagine, um ano!

– É que você tinha lido A Dama das Camélias, ficou assim toda frágil, toda sentimental. E agora? Que romance você está lendo agora?

– Nenhum – respondeu ela, franzindo os lábios. Deteve-se para ler a inscrição de uma laje despedaçada: – À minha querida esposa, eternas saudades– leu em voz baixa. – Pois sim. Durou pouco essa eternidade.

Ele atirou o pedregulho num canteiro ressequido.

– Mas é esse abandono na morte que faz o encanto disto. Não se encontra mais a menor intervenção dos vivos, a estúpida intervenção dos vivos. Veja – disse, apontando uma sepultura fendida, a erva daninha brotando insólita de dentro da fenda – o musgo já cobriu o nome na pedra. Por cima do musgo, ainda virão as raízes, depois as folhas… Esta a morte perfeita, nem lembrança, nem saudade, nem o nome sequer. Nem isso.

Ela aconchegou-se mais a ele. Bocejou.

– Está bem, mas agora vamos embora que já me diverti muito, faz tempo que não me divirto tanto, só mesmo um cara como você podia me fazer divertir assim – Deu-lhe um rápido beijo na face.- Chega, Ricardo, quero ir embora.

– Mais alguns passos…

– Mas este cemitério não acaba mais, já andamos quilômetros! – Olhou para atrás. – Nunca andei tanto, Ricardo, vou ficar exausta.

– A boa vida te deixou preguiçosa? Que feio – lamentou ele, impelindo-a para frente. – Dobrando esta alameda, fica o jazigo da minha gente, é de lá que se vê o pôr do sol. Sabe, Raquel, andei muitas vezes por aqui de mãos dadas com minha prima. Tínhamos então doze anos. Todos os domingos minha mãe vinha trazer flores e arrumar nossa capelinha onde já estava enterrado meu pai. Eu e minha priminha vínhamos com ela e ficávamos por aí, de mãos dadas, fazendo tantos planos. Agora as duas estão mortas.

– Sua prima também?

– Também. Morreu quando completou quinze anos. Não era propriamente bonita, mas tinha uns olhos…Eram assim verdes como os seus, parecidos com os seus. Extraordinário, Raquel, extraordinário como vocês duas…Penso agora que toda a beleza dela residia apenas nos olhos, assim meio oblíquos, como os seus.

– Vocês se amaram?

– Ela me amou. Foi a única criatura que…- Fez um gesto. – Enfim, não tem importância.

Raquel tirou-lhe o cigarro, tragou e depois devolveu-o.

– Eu gostei de você, Ricardo.

– E eu te amei. E te amo ainda. Percebe agora a diferença?

Um pássaro rompeu o cipreste e soltou um grito. Ela estremeceu.

– Esfriou, não? Vamos embora.

– Já chegamos, meu anjo. Aqui estão meus mortos.

Pararam diante de uma capelinha coberta de alto a baixo por uma trepadeira selvagem, que a envolvia num furioso abraço de cipós e folhas. A estreita porta rangeu quando ele a abriu de par em par. A luz invadiu um cubículo de paredes enegrecidas, cheias de estrias de antigas goteiras. No centro do cubículo, um altar meio desmantelado, coberto por uma toalha que adquirira a cor do tempo. Dois vasos de desbotada opalina ladeavam um tosco crucifixo de madeira. Entre os braços da cruz, uma aranha tecera dois triângulos de teias já rompidas, pendendo como farrapos de um manto que alguém colocara sobre os ombro do Cristo. Na parede lateral, à direita da porta, uma portinhola de ferro dando acesso para uma escada de pedra descendo em caracol para a catacumba.

Ela entrou na ponta dos pés, evitando roçar mesmo de leve naqueles restos da capelinha.

– Que triste que é isto, Ricardo. Nunca mais você esteve aqui?

Ele tocou na face da imagem recoberta de poeira. Sorriu, melancólico.

– Sei que você gostaria de encontrar tudo limpinho, flores nos vasos, velas, sinais da minha dedicação, certo? Mas já disse que o que eu mais amo neste cemitério é precisamente esse abandono, esta solidão. As pontes com o outro mundo foram cortadas e aqui a morte se isolou total. Absoluta.

Ela adiantou-se e espiou através das enferrujadas barras de ferro da portinhola. Na semiobscuridade do subsolo, os gavetões se estendiam ao longo das quatro paredes que formavam um estreito retângulo cinzento.

– E lá embaixo?

– Pois lá estão as gavetas. E nas gavetas, minhas raízes. Pó, meu anjo, pó – murmurou ele.

Abriu a portinhola e desceu a escada. Aproximou-se de uma gaveta no centro da parede, segurando firme na alça de bronze, como se fosse puxá-la.

– A cômoda de pedra. Não é grandiosa?

Detendo-se no topo da escada, ela inclinou-se mais para ver melhor.

– Todas estas gavetas estão cheias?

– Cheias? Só as que tem um retrato e a inscrição, está vendo? Nesta está o retrato da minha mãe, aqui ficou minha mãe – prosseguiu ele, tocando com as pontas dos dedos num medalhão esmaltado, embutido no centro da gaveta.

Ela cruzou os braços. Falou baixinho, um ligeiro tremor na voz.

– Vamos, Ricardo, vamos.

– Você está com medo?

– Claro que não estou é com frio. Suba e vamos embora, estou com frio!

Ele não respondeu. Adiantara-se até um dos gavetões na parede oposta e acendeu um fósforo. Inclinou-se para o medalhão frouxamente iluminado.

– A priminha Maria Emília. Lembro-me até do dia em que tirou esse retrato, duas semanas antes de morrer… Prendeu os cabelos com uma fita azul e vejo se exibir, estou bonita? Estou bonita? – Falava agora consigo mesmo, doce e gravemente. – Não é que fosse bonita, mas os olhos…Venha ver, Raquel, é impressionante como tinha olhos iguais aos seus.

Ela desceu a escada, encolhendo-se para não esbarrar em nada.

– Que frio faz aqui. E que escuro, não estou enxergando!

Acendendo outro fósforo, ele ofereceu-o à companheira.

– Pegue, dá para ver muito bem… – Afastou-se para o lado. – Repare nos olhos.

– Mas estão tão desbotado, mal se vê que é uma moça… – Antes da chama se apagar, aproximou-a da inscrição feita na pedra. Leu em voz alta, lentamente: – Maria Emília, nascida em vinte de maio de mil oitocentos e falecida… – Deixou cair o palito e ficou um instante imóvel. – Mas esta não podia ser sua namorada, morreu há mais de cem anos! Seu menti…

Um baque metálico decepou-lhe a palavra pelo meio. Olhou em redor. A peça estava deserta. Voltou o olhar para a escada. No topo, Ricardo a observava por detrás da portinhola fechada. Tinha seu sorriso meio inocente, meio malicioso.

– Isto nunca foi o jazigo da sua família, seu mentiroso!  Brincadeira mais cretina! – exclamou ela, subindo rapidamente a escada. – Não tem graça nenhuma, ouviu?

Ele esperou que ela chegasse quase a tocar o trinco da portinhola de ferro. Então deu uma volta à chave, arrancou-a da fechadura e saltou para trás.

– Ricardo, abre isto imediatamente! Vamos, imediatamente! – ordenou, torcendo o trinco. – Detesto esse tipo de brincadeira, você sabe disso. Seu idiota! É no que dá seguir a cabeça de um idiota desses. Brincadeira mais estúpida!

– Uma réstia de sol vai entrar pela frincha da porta, tem uma frincha na porta. Depois, vai se afastando devagarinho, bem devagarinho. Você terá o pôr do sol mais belo do mundo.

Ela sacudia a portinhola.

– Ricardo, chega, já disse! Chega! Abre imediatamente, imediatamente! – Sacudiu a portinhola com mais força ainda, agarrou-se a ela, dependurando-se por entre as grades. Ficou ofegante, os olhos cheios de lágrimas. Ensaiou um sorriso.- Ouça, meu bem, foi engraçadíssimo, mas agora preciso ir mesmo, vamos, abra…

Ele já não sorria. Estava sério, os olhos diminuídos. Em redor deles, reapareceram as rugazinhas abertas em leque.

– Boa noite, Raquel.

– Chega, Ricardo! Você vai me pagar!… – gritou ela, estendendo os braços por entre as grades, tentando agarrá-lo. – Cretino! Me dá a chave desta porcaria, vamos! – exigiu, examinando a fechadura nova em folha. Examinou em seguida as grades cobertas por uma crosta de ferrugem. Imobilizou-se. Foi erguendo o olhar até a chave que ele balançava pela argola, como um pêndulo. Encarou-o, apertando contra a grade a face sem cor. Esbugalhou os olhos num espasmo e amoleceu o corpo. Foi escorregando. – Não, não…

Voltado ainda para ela, ele chegou até a porta e abriu os braços. Foi puxando as duas folhas escancaradas.

– Boa noite, meu anjo.

Os lábios dela se pregavam um ao outro, como se entre eles houvesse cola. Os olhos rodavam pesadamente numa expressão embrutecida.

– Não…

Guardando a chave no bolso, ele retomou o caminho percorrido. No breve silêncio, o som dos pedregulhos se entrechocando úmidos sob seus sapatos. E, de repente, o grito medonho, inumano:

– NÃO!

Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de um animal sendo estraçalhado. Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra. Assim que atingiu o portão do cemitério, ele lançou ao poente um olhar mortiço. Ficou atento. Nenhum ouvido humano escutaria agora qualquer chamado. Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda.

Publicado em Antes do baile verdeCompanhia das Letras.

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