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“Amanhã recomeço.”

O Elefante

Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos móveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
é a parte mais feliz
de sua arquitetura.
Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.

Eis meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê nos bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa
as formas naturais.

Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.
É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há na cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.

Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das árvores
ou no seio das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos,
esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.

E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
e todo o seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão,
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.
Amanhã recomeço.

(de “A rosa do povo” – Carlos Drummond de Andrade)

 

“Um teto todo meu” e adendo

O Jean Albuquerque está fazendo uma série de entrevistas com pessoas que escrevem aqui em Alagoas, e eu fui um dos entrevistados. Posto aqui a entrevista na íntegra. Mas, ela pode ser visitada em seu endereço original, bastando você clicar aqui.

Posto aqui a entrevista porque quis dar a ela um adendo – e aos que reclamarem, digo: eu reviso meus livros depois de publicados, não vou revisar uma entrevista?

É que me esqueci (de esquecimento mesmo) de citar uma pessoa quando falei das obras escritas aqui em Alagoas: a Fabiana Freitas. Gosto muito de seu livro “João e seus ais miúdos”, que é um livro que eu não pegaria para ler e que é um livro que eu não escreveria, porque é muito distante e distinto do que eu faço. Mas, a capacidade e o talento dela em capturar um instante de sua personagem e nos dar isso tão economicamente e tão ironicamente e com tanto humor é algo que eu tenho de admirar. Acho que o livro ficou um pouco prejudicado por conta de, em sua capa, estar classificado como “poesia”. Um amigo meu disse que não gostou do livro, então eu lhe disse: releia, pensando nele como livro de prosa. Aí ele disse: fica melhor; continuo não gostando, mas fica melhor. Acho que ela devia ter discutido com a editora, batido o pé. Talvez nem ela mesma tenha pensado em classificar a obra. É cousa difícil e chata e até ridícula classificar. Mas, se a editora vai colocar algo na capa, o autor tem de estar atento e conversar ou brigar: a obra é dele. Acho que o “João” da Fabiana é um romance com minúsculos capítulos, ou, se quiserem, um conjunto de contos com uma mesma personagem. Mas, deixemos para lá as classificações. É um livro gostoso. A questão é que não gosto de microcontos – não gosto mesmo. Pra mim, no fim das contas, parece uma piada, uma piada com esmero em relação à linguagem. No caso da Fabiana, gostei porque há um livro com a narrativa sobre uma personagem vivendo todas aquelas “piadas”. E assim como falei do Ari Denisson quanto a ele nos dar algo para além do humor e da técnica, quando li o livro da Fabiana eu me perguntei se ela conseguiria escrever uma obra mais longa e em que houvesse o humor tão inteligente presente em seus textos atuais. Me perguntei se ela conseguiria ou teria até o interesse em escrever algo como alguns autores ingleses, que nos dão uma fábula entremeada de humor. Mas, isso é com ela. Ela que diz e sabe e decide o que vai escrever. Ela, Ari Denisson, todos. Eu, ao falar de qualquer um deles, sou apenas um leitor que quer ser agradado. E por isso, tudo que digo é relativo e pouco.

Logo abaixo, a entrevista concedida ao Jean.

 

São Paulo, 2016

Por Jean Albuquerque

Entrar em casa depois de faltar energia no quarteirão, tatear e perceber tudo ao redor até conseguir pôr a chave na fechadura e abrir a casa, logo em seguida achar uma vela para clarear um pouco a sala. Essa é a sensação quando se lê o livro de contos, Diabolô (2011); vencedor do prêmio LEGO em 2009, do escritor alagoano e professor universitário, Nilton Resende, 46.

Há uma ambientação sólida, um mundo físico. Como se fosse impossível não se imaginar nas ruas do bairro Prado do passado, o mesmo da sua infância. A obra ainda traz algumas questões, como a perda da infância em um dos contos, abusos sexuais em outro e um certo erotismo, voyeurismo.

O autor também lançou em duas versões o livro de poesias, O orvalho e os dias (1998/2006), além da tese de doutorado lançada ano passado durante a bienal do livro em São Paulo e que em breve terá lançamento em Alagoas, A construção de Lygia Fagundes Telles: edição crítica de Antes do Baile Verde (2016). Participa de vários projetos literários. “Projetos, tenho milidoze – quero nem falar sobre eles. Prefiro que eles apareçam quando existirem; só digo que estou às voltas com a escrita de romances, assim no plural mesmo, porque há projetos antigos de que nunca dei conta, e agora todos se acumularam, novos e velhos”, defende.

Outro projeto engatilhado, também para este ano, é a coletânea de poesias Ouriço, sem previsão de lançamento, que virá ilustrada com as fotografias da jornalista, Vanessa Motta. O livro contém dez poemas que dividem as páginas com fotos de nu artístico masculino de modelos maceioenses especialmente convidados.

Publicou o conto Manual do como manusear, no site Cronópios (janeiro de 2008); A ceia, no jornal Rascunho; O oco, na Revista Invisível (2011); A ceia, na revista Ficções, nº 19 (abril de 2010); La cena, tradução de Pablo Cardellino Soto para o espanhol a partir do conto “A ceia”; na Machado de Assis Magazine: literatura brasileira em tradução, lançada na Feira de Frankfurt (outubro de 2012); The crack, tradução de Alison Entrekin para o inglês do conto A fresta, na revista londrina LITRO, nº 114 (outubro de 2012) e também publica em seu blog, o trajeslunares.wordpress.com.

Entrevistei o escritor e o bate papo vocês conferem abaixo.

Jean Albuquerque – A sua estreia foi na poesia, com o livro o Orvalho e Os DiAs (1998) e logo após lançou Diabolô (2011), livro de contos. Há diferenças em escrever os dois gêneros? Fala um pouco sobre o processo de produção dos livros.

Nilton Resende – Eu acho prosa mais difícil do que poesia. Não que eu ache fácil escrever poesia, você me entende? Eu acho mais difícil escrever uma boa prosa do que uma boa poesia. É que a poesia, por seu caráter econômico, parece evidenciar mais a sua qualidade. A prosa… o seu caráter mais linear, de se desenvolver com o passar do tempo… isso é fogo. Imagine duas belezas: uma pessoa levanta um braço e abre a mão de um jeito como nunca visto; uma pessoa levanta um braço, abre a mão, faz circunvoluções com ela, desce o braço, repousa a mão, levanta agora o cotovelo. O abrir de mão é instantâneo; o outro gestual, mais alargado, permite haver hiatos de beleza, permite que nem todos os pequenos gestos tenham a mesma força. A prosa é isso. É tentar manter a beleza num gesto continuado. A prosa é o gesto continuado.

Eu demorei para escrever ambos os livros. O de poemas teve três versões – a primeira, felizmente, recusada pela EDUFAL. Naquela época, a EDUFAL publicava textos literários que fossem aprovados por seus pareceristas. A carta de quem fez o parecer foi bem dura – tanto que a Leda Almeida, que estava na direção da editora naquele período, fez questão de me entregar o parecer pessoalmente e conversar comigo. Ela tinha receio de que eu desistisse da escrita. Mas não desisti. Discordei de muita coisa no parecer – discordei de quase tudo – mas foi bom para que o livro não fosse publicado, e eu pudesse revisá-lo. Ainda tenho guardado esse parecer. De vez em quando leio e acho interessante e fico agradecendo – se eu descobrir a identidade do parecerista vou dizer: “ó, discordo de praticamente tudo que você disse naquela carta, mas agradeço por ter dito e impedido que eu publicasse aquela coisa tão imatura”.

“Diabolô” só nasceu por causa do Milton Rosendo e da Brisa Paim, que ficaram no meu pé para que me inscrevesse no LEGO. Eu tinha 5 contos prontos e vários textos inacabados. Eles me pressionaram, e me pus a trabalhar. Um dos contos estava parado havia muitos anos, porque eu pretendia que ele fosse um romance, mas eu não conseguia continuar. Quando retornei a ele, percebi que estava com dificuldade simplesmente porque ele não era o embrião de um romance, mas um conto em sua metade. “Diabolô” foi escrito durante 15 anos.

Universidad de Salamanca – 2013

Diabolô dialoga com as temáticas como perda da infância, abusos sexuais, voyeurismo, além de ter uma história sólida, bem ambientada. Esses temas marcam a tua literatura?

Marcam sim, e muito. Na verdade, marca meus textos a perda da inocência, seja por que via for. Quanto à história “sólida, bem ambientada”, isso é uma obsessão. Preciso construir um mundo físico, não necessariamente explicitado, mas pelo menos aludido. É preciso que haja solidez, quase fisicalidade. Minha cabeça é muito fluida, volátil, volúvel, muito gasosa ou aquosa, e preciso de algo sólido. Como tenho dificuldade de apreender esta coisa redemoinhando aqui dentro, preciso ao menos segurar um objeto sólido, para que haja algo em que eu possa acreditar.

Tento escrever com essa preocupação porque preciso acreditar em algo, preciso acreditar naquele mundo que escrevo, ele não pode parecer vago demais. Se nem aquilo que escrevo tiver presença física ao ponto de eu dizer “é”, eu tô ferrado.

De certo modo, isso é porque busco fugir de mim, do que seria eu, ao escrever – busco, mas não sei se consigo. Sempre tive dificuldade em me querer e isso se manifesta também na literatura. Por isso, geralmente não gosto quando meu texto parece ser um fluxo de minha consciência, uma confissão. Claro, há textos literários maravilhosos que são dessa natureza, mas sempre tentei fugir de escrever assim, porque não me agradava me ver nos textos, eu sempre buscando que fossem “um outro para bem além de mim”. Apesar disso, sei que isso tudo é bobo e em vão. Um dos contos de “Diabolô” que agrada mais as pessoas é justamente um que quase não entrou lá – entrou porque amigos me disseram para mantê-lo: “Manual do como manusear”. Aquilo é extremamente confessional, eu estava tentando dizer a mim mesmo algo, e no final, tive de desdizer. Eu estava numa paixão da porra, e precisei escrever aquilo. Quando terminei de digitá-lo, eu estava tremendo, realmente tremendo, tendo espasmos e chorando, lacrimejando muito em frente ao computador, as mãos tesas e tremendo sobre o teclado.

Sei que possivelmente meus melhores textos, no futuro, serão aqueles em que eu não tenha medo de me querer. Um dos romances que estou escrevendo trata justamente dessa relação entre autor escritor e autor objeto da escrita. Preciso me libertar desse temor e ver que eu também posso ser matéria de minha arte, ver que eu não sou de todo desinteressante. Algo que me ajudou nisso foi o período em que fiz a série de performances “Hóstia”. Aquela exposição foi lasca. Eu sofri muito, eu passava mal, tinha dores de cabeça, febre, porque a exposição é muito grande. Ali, eu era um ator que recitava os próprios textos. Ali, tive consciência de uma coisa no trabalho de um ator que não é alguém de ego enorme, mas é alguém que abre mão do próprio ego para que a personagem exista. Na performance, no palco, não estou ali porque quero me mostrar, mas porque preciso mostrar algo, e esse não é eu. São palavras, são alguém… É doloroso e é solitário.

O Diabolô (2011) chegou a ser considerado como um dos destaques entre os lançamentos daquele ano. Você ainda colhe os frutos do livro? O que ele te possibilitou no meio literário?

Fiquei muito contente com a resenha que o Alfredo Monte escreveu em seu blog, o Monte de Leituras. O Alfredo foi um leitor muito importante para mim. Ele leu o livro antes de ser publicado e suas observações me ajudaram muito. Alfredo fez uma resenha sobre o livro  e também o citou como um dos destaques ficcionais do ano de 2011 .

Também foi falado sobre o livro no programa Leituras da TV Senado, apresentado pelo Aguinaldo Tadeu, com comentários de Maurício Melo Júnior a respeito de obras literárias.

A publicação de “A ceia” na Machado de Assis Magazine rendeu-me contato com uma agente literária alemã. Há alguns anos, ela me procurou, interessada em um romance meu para tentar colocá-lo no mercado europeu. Eu lhe falei do livro de contos, mas ela me disse que as editoras e o mercado não queriam contos e sim romances. Então, quando eu tiver escrito, enviarei para ela – o que não posso é forçar um romance apenas por causa da possível publicação na Europa ou por causa de algum prêmio cujo período de inscrição vai até um determinado mês. Os livros sairão quando for a hora deles.

Eu disse isso acima, mas disse com muita dúvida, afinal há tantos livros escritos rapidamente, numa sentada… Tenho dúvidas se o que digo é real ou é desculpa para a preguiça, se é real ou é mais uma das muitas sabotagens que faço comigo mesmo. Mas, atualmente há dois romances sendo gestados simultaneamente, e sairão quando for a hora. De repente, posso parir gêmeos. Sobre eles, digo apenas que se passam em Maceió. Tudo meu se passa aqui em Alagoas, principalmente no Prado – o Prado é minha principal geografia.

São Paulo, 2014

Tanto o livro de poesia como o de contos têm temáticas que giram em torno da infância. Essa referência é intencional ou o tema é um problema e você tenta tratá-lo na literatura? Como foi a tua infância?

Rapaz, a infância é o sopro que o vidraceiro dá sobre o vidro líquido. Infância é lasca.

Veja: acho lindo quando vejo pessoas (adolescentes, jovens adultos, adultos) que se gostam muito, pessoas que não estariam nas capas de revista de “beleza” e se acham bonitas. Olho para elas e digo: que massa, que inveja delas, como isso é lindo, alguém simplesmente ver-se no espelho e dizer: “eu me amo, eu me comeria, eu daria pra mim”. Muitas dessas pessoas, quando crianças, ouviam os pais dizerem que elas eram lindas, que eram isso, que eram aquilo. Agora vai a mãe ficar falando o tempo todo: tome remédio, tá muito magro, você é burra, você nunca vai acertar isso… breu, breu, breu. Lascou foi tudo. A pessoa vai precisar de muita força pra soprar forte de dentro e reenformar o vidro.

Minha infância foi rica, rica de tudo: Praia do Sobral, rua de barro, quadrilhas juninas, ida a pé até o centro, cinema São Luiz, cinema Lux (entrando sem pagar, escondido), cinema Ideal (a Paixão de Cristo, o cinema lotado, e a Fernanda Montenegro de Samaritana)… foi ter medo de sair de casa porque algum menino mais velhos iam me bater, porque um adulto ia me chamar de viado, porque um menino da minha idade ia ser instigado pelos mais velhos para correr atrás de mim e me bater… foi ser apaixonado pela vizinha dos 04 aos 14 anos de idade, e ela dizer um dia, quando eu tinha entre 09 e 11 anos, logo após ela começar a namorar com o menino mais belo da rua: “eu gosto dele pra namorar, mas gosto de você pra sarrar” e eu me ver ali, naquele instante, como objeto e como alguém que não poderia ser assumido e/ou mostrado para os outros… foi muita sexualidade desenfreada, adultos nus na frente de crianças, crianças soltas na rua… A infância foi um caldeirão e tinha tanta coisa lá, que não sei distinguir os gostos. Só sei que nada existe igual àquilo.

O livro de poesia Ouriço, ainda sem lançamento previsto, contém dez poemas que trazem imagens sobre sexo, paixão e outras sensações entre dois homens. A homossexualidade hoje é um tabu na literatura? Aproveita para falar sobre a obra.

Rapaz, sexo é uma coisa, né? Ora é proibido, e ninguém pode falar a respeito, ora é “o barato da hora”, e ganha programa televisivo em horário nobre da TV aberta.

Poxa, sexo é uma força enorme, é nossa maior força material – sendo assim, alguém/ algo que vise a dominar as pessoas vai sim querer culpabilizar o sexo ou enfraquecê-lo, domá-lo. Geralmente, as pessoas que mais me meteram medo ou que me pareceram mais fortes foram justamente as mais liberadas sexualmente. Uma pessoa liberada sexualmente é indomável.

Então, demoniza-se isso, de modo a sequer podermos falar palavras relacionadas a esse âmbito.

Uma vez, dando aula num cursinho, eu disse um “palavrão”. Pouco depois, recebi um bilhetinho de um aluno ou uma aluna, reclamando do palavrão. Então, respondi algo mais ou menos assim: “A palavra que eu disse refere-se a uma parte do corpo humano. É apenas uma palavra para dizer essa parte. Escutem: se a pessoa que me escreveu o bilhete não consegue se relacionar com um nome de uma coisa, então não sei como ela poderá se relacionar com a coisa”.

O livro terá muita nudez, imagética e verbal. E minha busca nos poemas, e a busca minha e de Vanessa Motta nas fotos, foi a de tratar do corpo masculino e do sexo entre homens de modo a expressar a beleza que há ali.

Como digo nuns versos do livro: “quanto de leveza / pode haver sob o áspero // o peito do ouriço, acaso, tem espinhos?”.

O livro busca – talvez – mostrar o que há de delicado sob a capa ríspida que nossa cultura exige que se jogue sobre o homem.

Mesmo morando em Alagoas, você é um escritor conhecido nacionalmente, chegou a ter um conto publicado na revista Litro, da Inglaterra, junto com os escritores João Paulo Cuenca, Adriana Lisboa e Angélica Freitas, entre outros. Como foi essa experiência?

Homem, isso que você falou de eu ser conhecido nacionalmente me provocou foi riso – sério! Sou conhecido nada, rapaz. Sou conhecido como todos nós somos conhecidos nestes tempos de redes sociais. Todos já “ouvimos falar de”, “já vimos algo de”, daí a ser conhecido acho que vai uma boa distância.

A publicação na revista foi algo que aconteceu assim: eu queria publicar no meu blog um conto meu traduzido para outro idioma. Pesquisei nomes de tradutores profissionais, pedi sugestões – a Denise Bottmann sugeriu-me alguns nomes, dentre eles, o da australiana Alison Entrekin. Li entrevistas dela, gostei do currículo, pois ela já havia traduzidos livros do Chico Buarque, Cristóvão Tezza, Paulo Lins, e estava traduzindo “Perto do coração selvagem”, da Clarice Lispector (depois, ela veio a traduzir os contos completos da Clarice para o inglês, na edição que foi tão elogiada internacionalmente).

Bem, olhei para ela e pensei: “é essa”! Escrevi-lhe um email, tratamos de questões de preço, escolhemos o conto a ser traduzido. A experiência foi muitíssimo interessante, as conversas via Skype atrás de possíveis soluções para as construções do texto original foi algo muito gostoso.

Após ter terminado o trabalho, Alison disse que poderia ser bom eu não publicar no blog, mas tentar publicações em revistas estrangeiras. Sugeriu-me uns nomes, dando destaque a alguns deles. Tempos depois, “A fresta”, como “The crack”, saiu na Litro. Mas, nunca sabemos até onde chegamos, até que distância nosso nome alcança. O palpável e muito gostoso é, por exemplo, receber pelo whatsapp uma mensagem de alguém dizendo que leu um conto e gostou muito – e mandar junto à mensagem uma foto do livro. Isso sim é palpável, isso sim é real.

Poxa, quantas vezes vi, vimos ou vemos nos jornais títulos como “a grande revelação da literatura”, “o novo nome da literatura”, e a pessoa meses depois nunca mais é citada? Deus me proteja da ilusão de acreditar em algo assim. Quero solidez, que de vago basta eu.

Além de escritor, você também é roteirista, dramaturgo, ator e preparador de elenco. A experiência no teatro e no cinema te ajudou de alguma forma a construir suas narrativas?

Muitas vezes me cobrei e me cobro por essa multiplicidade; muitas vezes me digo ou me dizem: faz monte de coisa, faz nada direito; faz de tudo, nada fica ótimo; faz isso e aquilo, nunca se aprofunda.

“Que porra: Charles Dickens foi escritor e ator” – é o que fico me dizendo – para deixar de pensar nisso como um problema.

Na verdade, todas essas coisas lidam com algo que é o seguinte: a criação de personagens. Eu trabalho com criar/ ser/ dar vida/ ajudar a dar vida a personagens, seja como escritor, ator, diretor, preparador de elenco… O que eu quero e preciso fazer é criar personagens, não pela simples vontade se ser personagens, mas por conta da grande riqueza que temos em nós, do grande arsenal de afetos, do imenso açude de vazios e quereres. E materializar isso é uma maravilha.

Qual sua impressão sobre a literatura nacional contemporânea? Ainda há bons escritores e muito para ser dito?

Tudo que é contemporâneo é um pouco difícil de ser apreendido, pela muita proximidade. Na verdade, tudo parece difícil de ser apreendido, seja por estar perto ou por estar longe. Claro que há bons escritores e boas escritoras. E claro que há muito para ser dito. E mesmo que não se diga algo novo, é interessante ver como uma determinada pessoa falou sobre algo muitas vezes já tão batido.

A literatura nacional contemporânea é muito diversa, e isso é bom. Há livros para todos os gostos, e isso é bom. Há escritores e escritoras jovens e que possivelmente nos darão ótimos livros futuramente. Há quem lançou livros não incríveis, mas que vem amadurecendo. É bom isto de escrever mesmo sem nos dar uma obra-prima, e ir amadurecendo enquanto escreve e lança novos livros.

Melhor isso do que o medo, melhor isso do que esperar escrever o “imenso novo grande indiscutível livro” que a pessoa nunca consegue escrever.

O que é ser escritor em 2017 morando num dos estados com maiores índices de analfabetismo do país?

A questão não é “ser escritor” em Alagoas, mas ser alguma coisa em Alagoas. O analfabetismo é apenas um dos tentáculos do enorme polvo que é Alagoas, e que joga constantemente tinta sobre nós, para nos confundir, aturdir… para empreender fuga, ficar inapreensível.

Qual a sua impressão sobre a literatura alagoana, essa galera nova que vem surgindo e nomes já consagrados. Costuma ler esses autores conterrâneos?

Gosto de que esteja havendo muita gente publicando. Gente escrevendo, sempre houve. E também havia gente publicando, mas apenas quem tinha grana para pagar edições particulares. Com os editais e com o advento da internet, mais pessoas podem publicar e mostrar seus trabalhos. Isso é bom.

Temos uma grande diversidade, temos diversos modos de escrever literatura, dialogando com diversas pessoas que escreveram antes de nós, dialogando mesmo que seja para dizer “não”.

Tenho lido algumas das pessoas que estão publicando por aqui. Leio menos do que deveria, mas é que tenho há anos uma enorme dificuldade para dar cabo de qualquer leitura. Minha ansiedade só me tem permitido ler mensagens no whatsapp, capas dos livros que eu gostaria de um dia ler, ou placas de carro – para ver se o Über é aquele carro que tá chegando perto de mim.

Mas, há umas pessoas que eu não poderia deixar de citar. Gosto muito dos livros do Sidney Wanderley, gosto da poesia dele. Gosto da prosa da Arriete Vilela – a poesia dela não me pega, mas a prosa eu acho que tem uma força danada, uma coragem danada. Parece que a Arriete, na poesia, edulcora as coisas, enquanto na prosa ela arremete sem dó. Na primeira edição do Prêmio Lego, tivemos três nomes que têm de ser ditos aqui, alfabeticamente: Brisa Paim, Milton Rosendo, Tázio Zambi.

“A morte de paula d.”, é uma paulada, é uma porrada, na linguagem e no tema. Acho difícil uma mulher ler aquilo e ficar impassível. E não falo isso porque seja “livro para mulheres”, mas por causa do que se conta ali, por causa do drama da narradora. Acho que a possibilidade de identificação é enorme, e certamente trará consequências para quem o ler. Ela também é ótima poeta, e espero ver lançados os seus poemas. O Milton Rosendo é um poeta monstruoso, ele é um monstro! “Caos-totem”, recém lançado, é um livro que eu amo desde que escutei os primeiros poemas dele, ao telefone. Eu torcia muito pela publicação desse livro , tanto que não consegui escrever sobre “Os moinhos”, porque, quando foi lançado, eu já havia lido “Caos-totem”. O Milton ficava puto comigo por causa disso. Acho que ele é um dos maiores autores da nossa língua. Mas, “Moinhos”, por sua característica antologizante, não é um livro tão grande quanto o seu autor. Ele é uma amostra do que ainda viria. Nesse livro, estão em gérmen o que o Milton publicou ou publicará após sua estreia. Há poemas incríveis, lindos, que nos humilham, mas é um livro que carrega poemas escritos em diferentes fases, e com qualidades distintas. É um livro bastante heterogêneo, no que diz respeito aos tipos de poemas e a suas qualidades, mas ali há muita coisa que muitos de nós lamentamos não termos escrito. Quanto ao Tázio, eu gosto demais de “Retráteis”, que, para mim, é um romance, e não um livro de contos. É uma prosa muito densa, quase mesquinha. Tázio nos dá muito com muito pouco. As elipses, ali, dão nó na nossa cabeça. Um dia, eu disse a ele, e já disse a outras pessoas, que, ao ler o livro, eu me disse que, possivelmente, João Cabral de Melo Neto, se escrevesse prosa, escreveria daquele jeito. Gosto mais da prosa do Tázio do que dos poemas. Os poemas dele parecem querer alguma evanescência. Por isso, gosto tanto de “Retráteis” e da sua natureza meio pétrea.

Gosto de “Baroque.doc”, do Ari Denisson, premiado na segunda edição do Lego. Gosto por causa do modo como ele brinca e gosto por causa do enorme domínio técnico que o Ari demonstra ter. É um livro para se ler com um riso na cara e também com uma admiração pela técnica. Mas, já me perguntei algumas vezes se ele conseguirá sair do compasso da técnica e do riso. Acho que um próximo livro de poemas poderá me responder isso.

Os editais da Imprensa Oficial permitiram que muitos autores fossem publicados. Gosto muito das obras de alguns deles. De outras, não gosto, não me pegam, mas sei que devem ser boas, porque há pessoas que gostam bastante, e pessoas que são leitoras exigentes. Tento me vigiar para não dizer que um livro é bom ou ruim, mas apenas que gosto ou não gosto. Meu gosto não é critério para a qualidade de algo. Sempre me parece o seguinte: uma pessoa que elogia muito aquilo de que ela gosta está, na verdade, tentando elogiar-se como quem é boa leitora, como quem sabe reconhecer o que é bom etc.

Sobre os publicados pela Imprensa… Gosto do livro “Das horas”, do Bruno Ribeiro, que me parece ter encontrado uma dicção bem própria. O Bruno escreve com uma economia invejável, com imagens certeiras e belíssimas. Ele me parece o mais lírico de nossos poetas. Mas, de um lirismo nada fácil, nada raso, nada convencional. Há o Sérgio Prado Moura, que estreou com “Apuê”, um livro de contos que, para mim, ainda não é um grande livro, mas é um livro “correto”, e que mostra que o Sérgio nos dará ótimos livros. Os seus textos atuais têm bastante força, a sua linguagem está cada dia mais densa. E ele também se tem aventurado na seara dos poemas – alguns de seus hai-cais são deliciosos. Richard Plácido, com “Entre ratos & outras máquinas orgânicas”, nos deu uma poesia deliciosamente desagradável, umas pauladas, umas imagens… Richard tem uma força enorme. Há outros que li ou folheei, e são elogiados e têm qualidade, mas cujos livros não são “do tipo que me pega”, mas sei que preciso/devo dar atenção, porque são bons, têm qualidade, e preciso ter coragem e deixar de lado a preguiça e a mesquinhez de ler apenas o que se afina com meus gostos imediatos: Ana Maria Vasconcelos, Arthur Buendía, Gabriela Hollanda, Magno Andrade. Eles são um pessoal que conheço e de que gosto muito, mas cujos primeiros livros não me deram onda. E agora, escrevendo isto, me pergunto se eu não deveria relê-los ou lê-los com mais atenção – “sim”, eu me respondo que “sim”.

Cito agora uma frase que acabei de ler, frase de uma entrevista do António Lobo Antunes: “É uma chatice. Há escritores de quem eu gosto que não são bons, e há escritores bons de quem eu não 
gosto…”. Acho isso arretado demais. Arretado. A questão do gosto é algo que precisamos sempre levar em conta.

Continuando: há também quem ainda não teve seus textos publicados em livro, mas a cujos escritos eu tive acesso, e torço para que sejam editados. Há a Amanda Prado, que tem um livro de contos inéditos, com uma prosa que acho incrível, de uma força pouco encontrada entre os que escrevem narrativas por aqui. Há muita gente escrevendo, e isso é muito bom. Da Lyslei Nogueira, por exemplo, já vi textos que me mostraram uma prosa que era como se alguém quisesse dar um golpe econômico e fatal.

E há o Wibsson Lopes, cuja ficção ainda está sendo gestada, mas que nos tem dado textos de crítica publicados regularmente na internet. Acho até que ele poderia ser um dos entrevistados aqui. Não como escritor de ficção, mas como leitor e crítico.

Casa do Sol, entre 1998 e 2003

Você morou uma época da sua vida em São Paulo e chegou ter contato com as escritora Hilda Hilst e Lygia Fagundes Telles.

Meu contato com a Lygia vem desde março de 1987, quando li o romance “As meninas” e me apaixonei – eu estava prestes a completar 17 anos. Depois, fui lendo toda a sua obra. Nesse mesmo 1987, tentei entrar em contato com ela, através de sua editora. No final do ano, Lygia me mandava livros. Daí, começamos a nos corresponder. Em 1990, conheci-a pessoalmente.

Hilda, eu conheci quando li “A obscena senhora d.”, num exemplar que comprei no Sebo Nossa Senhora da Conceição, que ficava perto da Santa Casa de Misericórdia, e era administrado pelo seu Roberto. Li em 1988. Não sabia da amizade entre ela e a Lygia. Li e gamei.

Em 1990, na Bienal do Livro, Lygia me apresentou à Hilda. Levei o livro, ela autografou, colocando nele o seu endereço e telefone e me dizendo para ir visitá-la. Algumas semanas depois, eu fui.

A partir de então, sempre ia à Casa do Sol. Dos cachorros que moravam lá, o de que eu mais gostava era o Marujo. Ele me reconhecia quando eu chegava, e ficava festivo. Foi lá que pela primeira vez comi lentilhas – no final do ano, na virada do ano, havia lá o costume de se comerem lentilhas. Íamos ao quintal, abraçávamos a figueira, fazíamos nossos pedidos, celebrávamos.

A casa era muito frequentada. Mas, perto de ela morrer, quase ninguém aparecia por lá. Ela morreu em 2004. Nos dois últimos anos, eu costumava visitá-la, visitar Olga e Mora Fuentes, seus grandes companheiros.

No réveillon anterior à queda da Hilda, fui a Campinas – a queda que depois lhe trouxe complicações na saúde. Decidi que passaria lá a virado do ano. Foi jóia. Tenho fotos dessa noite. Fui porque queria, de certo modo, me isolar do mundo, pensar em Deus, cuidar da parte espiritual, mas o corpo não me deixava quieto. Eu estava na Casa do Sol, e pensava nas festas em São Paulo, pensava na Avenida Paulista. Decidi então que no ano seguinte eu passaria o réveillon em São Paulo, e iria para a Casa do Sol no outro dia. Fiz como pretendido, e no ano seguinte, após o réveillon, telefonei para a casa da Hilda, dizendo que iria visitá-los, então recebi a notícia de que ela havia caído durante a noite, e estava no hospital. Nunca mais eu a vi lúcida. Na última vez que a visitei, ela estava deitada numa cama de hospital em Campinas, sedada e com pneumonia. Fomos visitá-la eu, Olga, Mora Fuentes.

São Paulo, 1990

Os anos em que visitei a Casa do Sol foram muito ricos e variaram bastante, porque nossa relação foi mudando à medida que eu mesmo mudava. De início, eu era um rapaz de 20 anos de idade e que queria ser ator: então, sempre que eu estava lá, a Hilda, à noite, me pedia que eu lesse trechos de seus textos. Adorava quando eu lia o começo de um dos textos de “Fluxo-Floema”, eu acho que era o “Osmo”. Eu amava ler os textos. Uma vez, a Lygia havia me dado um livro de sonetos do Shakespeare durante o Natal (ela sempre me dava livros no Natal: Shakespeare, Tchekhov, Ismail Kadaré, Philip Roth…). Levei o livro, e a Hilda me disse para ler um dos poemas. Eu li, achando que estava arrasando. Ela me tomou o livro das mãos, dizendo: “Você não sabe ler poesia”. Depois, leu o poema a seu modo. Confesso que, naquele momento, não vi diferença alguma entre nossas leituras, mas certamente havia diferenças, só que eu ainda não era capaz de perceber.

Outro momento interessante era quando ela lia trechos dos livros que estava escrevendo: “Bufólicas”, “Contos de Escárnio”, “Cartas de um sedutor”. “Bufólicas”, ela tinha planos de que fizéssemos uma apresentação no teatro. Falando em teatro, adaptei “A obscena senhora d.” durante uma noite em que dormi lá. Amanheci tremendo, a experiência foi muito forte. Amanheci chorando. Mais tarde, mostrei a ela. Ela gostou muito. Pediu que eu mostrasse a adaptação a dois grupos que estavam montando espetáculos baseados nele: um era de Santa Catarina; o outro era formado pelo José Mayer e por sua esposa – mas, eu não dei valor a isso, e levei o texto para o grupo de teatro da faculdade.

Sobre “Cartas de um sedutor”, eu estou no livro. Há um trecho em que o narrador fala de uma pensão e das pessoas que moravam lá. Era a pensão em que morávamos eu e o Jurandy Valença, e as coisas sobre a pensão eram as histórias que contávamos para ela. Num trecho do livro, está isto: “Digo: um colar de anêmonas te circunda a cara e aos meus olhos ganhas definitivamente uma moldura. Olha-me lânguido… É, isso é bonito. E Valença e Resende que chegaram há pouco repetem juntos, pausados: um colar de anêmonas te circunda a cara e aos meus olhos ganhas definitivamente uma moldura…”.

Na primeira versão, ela colocou mais ou menos assim: “Digo: um colar de anêmonas te circunda a cara e aos meus olhos ganhas definitivamente uma moldura. Olha-me lânguido… É, isso é bonito. E Jurandy e Nilton que chegaram há pouco repetem juntos, pausados: que massa…” – e o texto continuava, mas eu, no cotidiano, falava “massa” tantas vezes, que um dia a Hilda me disse, repreendendo-me: “Não aguento mais ouvir essa palavra. Vou até cortar do livro, não aguento mais” – e cortou, huahuhauhaua. De início, ela achou tão “massa” a palavra, eu falando, que colocou no livro – mas o excesso fez com que começasse a detestar, haha. Desde então, eu ficava sempre me vigiando para ver se uma “massa” não me escapava da boca. Me vigiava também para não coçar o saco. Um dia, ela me disse: “Para com essa mania de ficar coçando o saco. Por acaso você faz isso na frente da Lygia?”.

Só uma vez estivemos juntos os três, e foi quando fomos apresentados. Nas outras vezes, estávamos juntos por telefone, quando Hilda telefonava para Lygia e ficávamos nos alternando ao telefone. Eu não sei dirigir, não tenho habilitação. Elas duas nunca foram ótimas no volante. Hilda disse, um dia, que seria um desastre se dessem um fusca para cada um de nós e nos colocassem dentro do Maracanã. Ia ser um acidente terrível, com certeza.

Sobre literatura, ela me falava que eu lesse os grandes, os que trabalhavam a linguagem. E me falava de três romances: “Grande sertão: veredas”, do João Guimarães Rosa; “O pássaro da escuridão”, da Eugenia Sereno; “A madona dos páramos”, do Ricardo Guilherme Dicke.

Em poesia, ela amava Jorge de Lima. A primeira vez que folheei “Invenção de Orfeu”, foi no exemplar dela, uma edição antiga da Coleção Prestígio, da Ediouro.

Nossas conversas, com o tempo, foram mudando de tom. Tive minha experiência mística, e depois disso ficávamos falando sobre Deus. Havia encontros em que ficávamos em silêncio um em frente ao outro, apenas sentindo a presença um do outro. Quando ela estava no hospital, e eu estava na Casa do Sol, as pessoas estranharam quando eu falei que a morte seria para ela o grande evento, e que não poderíamos ficar tristes. Estranharam, olharam-me assim assim. E eu disse que toda a obra dela era uma grande pergunta a Deus, e agora finalmente ela O encontraria, então não poderíamos nos entristecer, porque seríamos egoístas.

Ah, eu gosto de perfumes, ela gostava de perfumes, e me dava uns de presente. Sobre a mesa do escritório, havia um boião com um perfume muito gostoso. Às vezes, quando eu entrava lá, ela colocava uma mão dentro do boião, molhava-a e passava-a em mim, perfumando-me. Isso era uma delícia.

No ano em que fui passar o réveillon em São Paulo, para depois visitar a Hilda, levei um perfume para presenteá-la. Mas, ela não iria poder usá-lo. Dei-o então à Olga. Era um perfume suave, gostoso, daquele que tem cheiro de banho tomado.

Tenho saudades dela.

Tenho saudades de muita coisa, e também tenho saudades de muitos livros. Uma tarde, visitando a Lygia, ela disse que estava se desfazendo de parte da biblioteca, e iria me dar uns livros. Daí, deu-me algumas obras que foram importantes para sua formação. Deu-me a obra completa do Jorge Luís Borges em espanhol, editada pela Emece; a obra completa de Edgar Allan Poe, em capa dura, livros grandes, acho que em dois volumes, com toda a prosa, poesia e ensaios; coletâneas de contos norte-americanos, com Melville, Faulkner… Ela me deu caixas de livros, que dias depois eu iria vender em sebos de São Paulo, porque eu estava tendo uma experiência religiosa e queria ser santo e não tinha dinheiro e precisava ajudar no sustento da família com quem eu estava morando e queria ser santo e os livros eram algo tão importante que eu teria de abrir mão deles como abri mão de fotografias e cartas e tudo que me ligasse à minha vida antes de quando eu disse para mim que queria ser santo. Breu: vendi todos os livros que ganhei da Lygia, vendi todos os meus livros que minha mãe levou a São Paulo, numa sacola enorme… Porque naquele período eu tinha ganas de absoluto, eu disse não a tudo que pudesse me desviar do que eu perseguia naquele momento.

Já disse à Lygia sobre isso, há alguns anos. E ela me entendeu.

Ainda não disse à minha mãe que me dói muito quando eu a imagino viajando de Maceió a São Paulo para atender os caprichos do filho de 21 anos de idade, que de repente quer com ele os principais livros que estavam na sua estante. Eu não disse, ainda, porque tenho medo de bater o tapete e de repente a poeira nos sufocar. Olha, eu me esbofetearia muitas vezes se eu pudesse me encontrar comigo naquele idade. Eu era um idiota arrogante, arrogante com minha família, com meus amigos. Arrogante com minhas irmãs, minha mãe, meu pai… Minha mãe levou os livros que estavam na minha estante-escrivaninha, que eu ganhei dela aos 16 anos de idade, quando passei pela primeira vez no vestibular. Até hoje eu tenho esse móvel, que é a coisa/ lugar mais importante de minha casa. Durante a adolescência, eu deitava no chão e estirava as pernas, apoiando-as no móvel. Eu e minhas irmãs brincávamos de adivinhar onde estavam os livros – eu sabia a localização de todos, pois eu limpava os livros semanalmente. Deitava-os sobre a cama, limpava-os, e depois ia rearrumando-os nas prateleiras, cheias dos livros comprados por mim, por meu pai…

Eu me desfiz dos livros que a Lygia me deu, mas a literatura dela, com os autores de que gostamos, está tão encravada em mim, que não sai mais. Uma tarde, no apartamento dela, ela tocou minha mão e me disse: “Você pegou o bastão” – referindo-se a uma corrida de revezamento em que ela já tivesse feito sua parte e eu agora pisasse os pés na pista. Eu respondi: “Peguei, Lygia”.

Sobre meus escritos, eu nunca fui de mostrá-los a elas. Eu sempre quis que meus livros vencessem sem a intervenção delas. Quando escrevi meus primeiros poemas, eu os mostrei à Hilda. Antes disso, passei um tempo deprimido, sofrendo por amor. Ela me lia trechos engraçados de seus novos livros, e eu não conseguia rir, porque ali havia sexo, havia corpos, e tudo que estava ligado a sexo me fazia sofrer. Numa leitura de um trecho do “Cartas de um sedutor”, ela parou, rindo, olhou para mim, esperando que eu também risse, e perguntou o que eu achei. Eu falei: “Hilda, eu não consigo rir”. Ela explodiu: “Ah, vá ler Almanaque do Pensamento, porra”. Anos depois, mostrei a ela alguns poemas que escrevi naquele período. Ela me disse: “Nilton, você amou”. Sobre a prosa, a Lygia havia lido o “Diabolô”. Então, me telefonou para falar sobre ele. Ela me disse que eu havia “cavalgado as palavras”. E depois de falarmos mais um pouco, ela baixou a voz e falou, imitando o garoto do conto “A ceia”: “Ganhei, ganhei”. Poxa, ouvir a Lygia repetindo para mim a fala do garoto foi algo muito louco, muito bom. De vez em quando, tento escutar de novo, fecho os olhos e busco aquele momento, busco a Hilda passando perfume no meu rosto, busco a Lygia sorrindo para mim enquanto a Hilda autografa o meu “A obscena senhora d.”.Eu as amo muito.

O que acho muito interessante é ver as diferenças entre as duas. Uma vez, em 1991, Hilda me convidou para morar na Casa do Sol – eu iria sair do emprego e morar lá, ficar lendo, ficar escrevendo… Mas, havia um problema no qual eu não queria/conseguia pensar: minha família não tinha grana, e eu estaria totalmente à mercê da Hilda. No período em que morei em São Paulo, minha família aqui em Maceió passava por muitas dificuldades financeiras, e eu, lá em Sampa, alienava-me totalmente dessa situação. Eu vivia como um idiota deslumbrado e insensível que não estava atento aos enormes sacrifícios feitos pela minha família – inclusive, sacrifícios para que eu me mantivesse em Sampa. Quando Hilda me convidou, fui a uma agência da Telesp próxima à pensão em que eu morava, ao lado da Brig. Luiz Antônio, comprei umas fichas e liguei para a Lygia, de um orelhão público. Comprei muitas fichas, porque julguei que a conversa seria bem longa. Eu disse a ela sobre o convite da Hilda, e ela me perguntou o que eu iria ficar fazendo lá. Eu disse que ia ler, escrever… Ela disse que aquilo era romantismo. Eu disse que não, que seria ótimo… e eu disse que não era isso, que eu iria ler e escrever. Então, ela me perguntou a grande pergunta: “Nilton, me diga uma coisa: quando sua cueca rasgar, quem vai comprar uma nova pra você?” – isso me desmontou, isso me deu a real noção de tudo. E por causa da cueca, não fui morar na Casa do Sol. E depois eu fiquei contente por isso, porque certamente eu teria sido engolido pela presença da Hilda, e talvez tivesse me transformado num pastiche dela. Se eu tivesse ido morar lá, não teria tido a experiência religiosa que me marcou a vida. No fim, tudo foi melhor daquele jeito. E a conversa foi curta e certeira – saí da agência da Telesp com montes de fichas telefônicas. Quando a Lygia me liga até hoje me pergunta: “Nilton, e o emprego?”.

Na última conversa com Hilda, eu estava pensando em largar tudo para me dedicar à arte, então ela me disse o que Lygia já sabia e já havia me dito antes, quando me perguntou sobre a “cueca”: “Nilton, não largue o emprego”, me disse a Hilda. “Eu pude me dedicar inteiramente à arte porque tive sorte, fui uma herdeira. Mas são poucos que têm isso. Eu fui uma exceção. Não se torture por isso. Eu não sou um exemplo, sou uma exceção. São poucos os que podem se dedicar inteiramente à arte. Mas, esta casa aqui também é sua, você pode vir sempre que quiser; quem estiver aqui sempre vai deixar você vir aqui, se hospedar, ficar quanto tempo quiser, porque esta casa também é sua”. Foi nossa última conversa, e não retornei à Casa do Sol depois de sua morte.

Prestando atenção ao episódio do convite da Hilda para eu morar na Casa do Sol e à intervenção da Lygia para me impedir, constato o seguinte: Hilda se preocupava com eu estar num “lugar ideal para ser escritor”; Lygia sempre se preocupou e ainda se preocupa com eu estar “vivo e livre o suficiente para ser escritor” – o “teto todo meu” não me seria dado na casa de outra pessoa, mas teria de ser construído por mim mesmo.

Elas são duas das pessoas mais importantes da minha vida.

Qual o melhor momento para escrever. Costuma ter alguma rotina? Escreve diariamente? Quais são tuas influências?

O melhor momento para escrever é quando eu consigo escrever. Há tempos tento ter uma rotina, mas é difícil. Toda semana prometo conseguir, mas é difícil. Comprei uma máquina elétrica, para não ter de usar o computador, para poder ficar menos perto da internet – a internet me ferra direitinho.

As minhas influências são várias, na prosa e na poesia. Tudo que a gente lê vira influência. Mas, há os principais, né? Na poesia: Hilda Hilst, Jorge de Lima, T. S. Eliot, Cecília Meireles, Adélia Prado, John Milton, Homero, Carlos Drummond de Andrade, G. Manley Hopkins e alguém de que me esqueci. Na prosa: Lygia Fagundes Telles, Cornélio Pena, Henry James, Emily Brontë, William Faulkner, Graciliano Ramos, Thomas Mann, Charles Dickens e outros alguéns de que me esqueci.

Entrando na onda das listas, indica 5 livros lidos em 2016 e comenta um pouco sobre eles.

Não direi lista de lidos, porque há anos eu não consigo finalizar a leitura de um livro. Todos estão inacabados. Eu apenas beijo os livros, afago – trepar com eles, que seria muito bom, isso não acontece.

Para finalizar. Quais são os próximos projetos?

Publicar o “Ouriço”. Escrever os dois romances que estão me atormentando e me dando o prazer de estar pensando neles. Escrever os outros romances rascunhados. Atuar como ator, em cinema ou teatro. Dirigir algum filme. Ter menos medo, exercitar ter menos medo, até não ter medo, até restar apenas o medo do que possa realmente me destruir, e de que não deverei ter medo, mas apenas deverei evitar.

chame a tristeza pra dançar

jardineira(Fábio, Grace, Audijan, Eu, Solange, Isabel, Luciano – Marcos estava tirando a foto)

 

Em 2012, fomos (um grupo de amigos) passar o carnaval no Rio de Janeiro. Um grupo lindo e muito heterogêneo — em comum, o carinho/amor mútuo e a vontade de celebrar os dias de festa.

Mas, já na primeira noite, logo após nos arrumarmos na casa e irmos  às ruas (estávamos no bairro de Santa Teresa), a alegria imensa do lugar e a empolgação nos rostos de todos e a beleza dos corpos, em vez de me alegrarem, encheram-me de uma tristeza imensa — o desejo de celebrar a festa deu lugar a uma repentina depressão. Eu não conseguia beber, eu não conseguia me incluir no grupo, eu não conseguia pular, eu não conseguia sambar, eu não conseguia dançar.

Voltei para a casa e, tremendo, chorei muito. Telefonei para o eMe (meu amiguirmão Milton Rosendo), dizendo que queria voltar, que ia ser um tormento estar tão triste no meio de tanta gente alegre, estar tão acabado no meio de tanta beleza desfilante, estar tão paralisado no meio dos corpos dançantes. Ele me disse que eu aguentasse, que não tomasse alguma decisão até o outro dia; que eu desse à vida a oportunidade de me surpreender.

No outro dia, fomos tomar café num restaurante. As ruas estavam cheias, quentes, divertidas — mas, eu não me divertia. Saindo do restaurante, passamos por um brechó. Lá, deparei-me com uma roupa engraçada que poderia me salvar. Confesso: no carnaval, só me divirto se me vestir de uma fantasia. Eu sozinho, sem personagem, sou pouco para muita alegria.

A roupa era uma “jardineira”. E vendo-a, logo foi-se construindo em minha cabeça o que eu seria nos próximos dias: uma jardineira. Comprei-a, levei-a para a casa, vesti-me com ela, coloquei uma peruca. E o lindo de tudo foi que meus amigos me compreenderam. Eles sabiam da minha tristeza mas não me violentavam exigindo uma alegria impossível. Eles não me violentaram querendo que eu sentisse o que eles sentiam. Sou grato, muito grato a eles. Meus amigos e minha irmã Solange, protetora mór — naqueles dias, todos se tornaram, de algum modo, meus protetores. Nossa outra irmã, a Sandra, não foi conosco — espero um dia estarmos os três juntos, em algum lugar, bebendo e dançando o carnaval, a tempestade.

Era o primeiro dia, e nós, todos fantasiados, saímos para o carnaval. À frente da casa, a fantasia ainda se construindo em minha mente, peguei uns galhos de planta e coloquei numa boina que passou a servir de vaso. Fomos.

Assumi a tristeza, caricaturando-a. Andávamos todos pela rua, e eu andava bem lento, com a cabeça pendendo para o lado, como pendiam os ramos do galho da planta.

Num trecho, uma moça, vendo-me andar tão cabisbaixo, saiu do lugar em que trabalhava e me perguntou por que eu estava daquele jeito, afinal, era carnaval. E eu lhe disse, fingindo a tristeza que realmente sentia: “foi a camélia que caiu do galho, deus dois suspiros e depois morreu”. Ela riu, alegrou-se, eu ri com ela, todos rimos. E então, meu carnaval inteiro, por todos os dias, foi a jardineira triste pela queda da camélia. E como jardineira, pendi a cabeça, ergui-a, dancei, bebi, paquerei, abracei, corri, pulei. Eu e meus amigos, eu e os desconhecidos repentinamente íntimos nas rodas do carnaval.

A tristeza estava comigo; mas era carnaval, e a imaginação me permitiu carnavalizá-la. Não conseguindo vencê-la, não podendo escondê-la, não tentando negá-la, abracei-me a ela e coloquei-a para dançar. A tristeza foi meu par; estando ela dentro de mim, coloquei-a para fora, usei-a como fantasia, vesti-a. Carnavalizando-a, converti-me em personagem, converti-a em alegria. E, sinceramente, uma real alegria.

 

 

 

 

 

“viado”

viado

Era a janela do quarto, e dava para a rua. Ele era um dos meninos mais bonitos da rua e entrou por ela e fechou-a. Tudo rápido, logo estava nu e me abraçava e esfregava o pinto em mim e tirava meu calção e se esfregava no meu pinto. Ele tinha uns 15 anos e iria casar-se pouco depois; eu não sei quantos anos eu tinha, mas tinha menos de dez, menos de nove, acho que foi antes de eu ver um rapaz ainda mais velho que ele mijando na parede e chamando minha atenção para eu ver ele balançar o pinto; foi antes de um dos meninos da minha idade correr atrás de mim, gritando pela rua, para me bater, sob os gritos dos maiores, que o apoiavam; mas foi depois de eu apanhar quase todos os dias na escola, durante o recreio, eu o mais novo da sala sendo jogado no chão em rodopio pelo menino mais velho, que segurava minha camisa e puxava-a e me rodava até que eu caísse, quando não apenas me empurrava, pelo simples prazer de me ver no chão, eu o mais novo da sala, mas o que era querido da professora e da diretora e tirava notas boas e gostava de fazer leitura em voz alta. Foi antes de eu ir à praia com uma amiga e um homem se masturbar sob um caminhão enquanto nós passávamos. Foi antes de eu sentir com mais ênfase a fúria dos machos. Ele entrou pela janela e fechou-a e ficou se esfregando em mim, nós dois no meio do meu quarto, ele mandando eu encostar o pinto na bunda dele e ele encostando o pinto na minha bunda, e depois nós dois frente um ao outro, até ele mandar eu botar a boca no pinto dele e de repente sair uma coisa e cair no chão e eu achar estranho que de repente o chão estivesse com gotas de catarro e eu me perguntar se ele estava doente, porque eu não sabia que saía catarro do pinto da gente, e eu achava catarro nojento, eu nem gostava de vitamina de abacate, porque o liquidificador parecia um monte de catarro. Daí ele vestiu o calção e eu fiquei olhando o chão. Ele foi pra janela, olhou se tinha gente por perto e pulou pra fora, e olhou pra mim e disse “você tá lascado; se você falar pra alguém eu vou falar que você é viado”. E eu o vi afastar-se e entrar na casa dele e eu fiquei me perguntando por que eu tava lascado, se foi ele que pulou a janela, se ele que me abraçou. E tive medo de que alguém olhasse pra mim e descobrisse o que havia acontecido, e nunca mais olhei para ele direito, e ele nunca mais olhou para mim direito, e guardei aquilo como um crime que eu tivesse cometido, porque eu tinha medo de que alguém soubesse e dissesse de novo aquilo que ele me disse de modo tão agressivo, porque mesmo dizendo baixo era agressivo: “viado”. E antes de o medo se estender para o resto dos anos, eu fechei a janela e olhei o quarto, olhei para os lados, olhei para o chão e fiquei tentando entender como podia ter sido aquilo de ali, em frente a meus pés, haver aquelas gotas de catarro.

Lygia Fagundes Telles ou A Arte da Surdina

18/06/2015 2 comentários
Lygia, 2012

Lygia, 2012

Hoje eu leio muito pouco ou quase nada, porque vivo tão ansioso que tenho de soltar fogos se consigo terminar um romance de 112 páginas. Mas, houve um tempo em que eu lia bastante, ou, como diria o povo de casa, eu vivia lendo. Minha mãe reclamava porque eu era um viciado e em casa não havia mais espaço para livros; minha avó dizia que eu parasse de ler, senão ia ficar abilolado. A ambas eu não dei ouvido: comprava livros e lia o tempo todo. E possivelmente fiquei abilolado.

Inquietação

Aos dezesseis anos, um romance me chegou às mãos e me marcou muito: As meninas, de Lygia Fagundes Telles. Livro que eu estava paquerando havia meses, mas nunca conseguia pegar: na revista do Círculo do Livro, dizia-se que o livro tinha uma linguagem refinada, exigente e um final irônico. Isso bastou para me atrair; além da capa, que para mim era estranha e bela. Eis a capa aqui abaixo.

Edição pelo Círculo do Livro

Edição pelo Círculo do Livro

Pois então: a revista elogiava o livro, que me parecia meio difícil, e eu adorava ir atrás dos livros difíceis — os difíceis e grossos, apesar de nunca terminá-los. De tanto eu falar nele, a amiga de minha irmã lembrou-se de que havia o livro na casa de uma prima dela, e que ia pedir emprestado, mas a prima havia falado que o livro era chato demais, complicado de ler. Ok, que ela havia achado chato — eu queria ler mesmo assim. Mas, a prima mudou de endereço, foi morar longe. Finalmente, encontrei um exemplar na biblioteca do Sesc. Eu sempre ia por lá para pegar textos teatrais, que eu achava arretados, porque eu era ao mesmo tempo leitor e ator: lia e imaginava as cenas, modos de interpretar as personagens. Um dia, viajando de Maceió a São Paulo para um encontro nacional de escoteiros, levei comigo O tartufo, de Molière, e O rinoceronte, de Ionesco. Levei-os comigo, mas li coisa alguma, afinal, era um encontro de escoteiros!, com pioneirias, cantos, festas, coisas e coisas; além disso, não devolvi os livros no prazo, levando uma multa. Pois: nessa biblioteca, encontrei um exemplas de As meninas. Não o li; peguei emprestado e apenas folheei por uns dias, paquerando-o. Numa das folheadas, vi a expressão “nhenhém”. Achei aquilo o máximo, pois era uma expressão falada por Miro na novela Selva de pedra, sucesso na televisão. Miro, um malandrão vivido por Miguel Fallabella, falava “nhenhém” quando queria se referir a “sexo” — então o livro devia ser uma maravilha, porque tinha sexo lá dentro, e com uma linguagem diferente do que eu já havia lido, uma coisa meio parecida com o jeito mesmo de falar. Eu mostrava o “nhenhém” para o povo do colégio, que achava aquilo muito massa. Mas, devolvi o livro. E depois vi que o “nhenhém” do livro era uma outra coisa, sendo um modo de a personagem Ana Clara referir-se à amiga Lorena, evocando seu jeito fresco de ser.

Tempo depois, ganhei-o numa promoção do Círculo do Livro. Lembro-me de quando chegou e eu fui andando até o quarto enquanto abria o pacote. Abri-o, cheirei o livro, me deitei perpendicularmente na cama, apoiando a cabeça num travesseiro que eu colocara encostado à parede, e comecei a leitura: “Sentei na cama. Era cedo para tomar banho. Tombei para trás, abracei o travesseiro e pensei em M. N., a melhor coisa do mundo não é beber água de coco verde e depois mijar no mar, o tio da Lião disse isso mas ele não sabe, a melhor coisa mesmo é ficar imaginando o que M. N. vai dizer e fazer quando cair meu último véu. O último véu!, escreveria Lião, ela fica sublime quando escreve […]”. E eu já estava seduzido: o começo que coincidia comigo deitado na cama, o que não era grande coisa, mas eu julguei ser; a linguagem coloquial, a pontuação diferente da dos outros livros; as referências sexuais.

Por dias, as meninas foram minhas companheiras: no quarto, com a empregada batendo na porta porque precisava entrar para varrer o chão, e deitado no chão, entre a cama e o guarda-roupa, isolando-me o mais possível, e abrindo a porta apenas sob a condição de o quarto seria varrido bem rápido; caminhando na rua; em pé ou sentado nos ônibus — num deles, cheguei a um dos pontos altos do livro, já no final, faltando um ponto para minha descida. Antes de descer, fechei as páginas, agoniado sem acreditar no que estava lendo. Levantei-me, doido pra caminhar para casa a fim de continuar a leitura.

Eu amo as meninas, Ana Clara, Lia, Lorena, e amo As meninas. Durante a leitura, tive contato com personagens muito vívidas, com ambientes muito bem descritos, com comuns e terríveis dores do cotidiano, com uma juventude à época da ditadura militar. Além de um livro com grande apuro em sua linguagem. Após lê-lo, procurei por outras obras. Uma de minhas irmãs trouxe do colégio um exemplar da coleção Para gostar de ler; nele, os contos “Dezembro no bairro” e “Natal na barca”. Eu nunca havia lido contos. Depois, comprei Filhos pródigos, na última prateleira de uma das estantes da finada livraria Segal, estante encostada na parede. Livro encardido, edição de 1978. Comecei a ler já no ônibus: “A medalha”. Ao terminar o livro, ficava a sensação de entender nada daquilo. Eu ficava meio me perguntando o que havia acontecido ali. Havia as histórias, havia os eventos, a moça sofrendo preconceito no conto “O espartilho”, mas era como se algo faltasse acontecer. Ainda na Segal, depois, viria a encomendar Verão no aquário.

Aos poucos, fui lendo toda a obra. Os romances eram mais palatáveis, as coisas estavam mais visíveis. Os contos, esses eu lia sem saber por quê. Havia neles algo que me atraía, mas eu ainda não compreendia.

Col. Literatura Comentada - série 1980

Col. Literatura Comentada – série 1980

Bom investimento foi o Literatura comentada dedicado a ela: nele, li trechos dos romances que não conhecia, contos de livros que eu ainda não tinha. .Ano seguinte, comprei A metamorfose nos contos de Lygia Fagundes Telles, da Vera Maria Tietzmann Silva, dissertação de mestrado publicada em livro. Caramba!, aquilo foi um acontecimento. Ela me mostrava coisas que viviam sob as palavras, para além das histórias, o que tornou a obra mais fascinante ainda. Os contos de Lygia passaram a ter um motivo claro para minha admiração: a artesania, a linguagem cuidada como quem erige uma construção em que todas as suas partes não apenas estão erigindo o prédio ou compondo-lhe a aparência — essas partes também falavam sobre o prédio, como se os tijolos dissessem o que eles são e os que são as  janelas e as portas e os que transitam por ali. E isso sem deixarem de ser tijolos, janelas, portas. Característica não apenas da obra de Lygia, mas era primeira em que eu via isso.

Depois, aos 29 anos, tornei-me professor do 1º ano do Ensino Médio, dando aulas de Redação e Arte & cultura. Durante uma das aulas, li o conto “Venha ver o pôr do sol”, podendo ser ali professor e ator. Como julgo que um professor é alguém que ama tanto uma coisa que não consegue guardar para sim, dar aula tornou-se um exercício da paixão. Li o conto, conversei sobre ele com os alunos. Depois, levei para eles uma súmula do que eu já havia lido sobre ele, no livro da Vera Tietzmann e em artigos acadêmicos. Os olhos da pivetada cresciam à medida que a superfície do texto ia sendo tomada pelo que havia sob ela. Depois, durante todo o ano, eu lia outros contos. Até hoje, toda minha primeira aula é com “Venha ver o pór do sol”, um conto que não é apenas uma bem tecida trama de vingança, mas uma teorização ficcional sobre a leitura do texto literário, sobre nosso comportamento no encontro com o texto.

Analisando esse conto e mais outros, tive a justificativa para admirar a obra de Lygia. Mas, eu não sabia que havia ainda uma outra, distinguindo-a então dos outros autores. Eu não me conhecia o suficiente para ver que meu fascínio adolescente por aqueles contos devia-se a uma recôndita identificação para com suas personagens: mentirosas, medrosas, inseguras, dissimuladas, carentes, cruéis… Procurando, nas aulas para o Ensino Médio (e algumas para o Fundamental), tratar das questões da forma e das questões humanas que nos eram dadas por essa forma, fui vendo que eu adolescente lia aquilo por espelhamento, talvez para um dia me salvar.

O conto “A medalha”, exímio amálgama de drama e ambientação, objetos, gestos,  tornou-se modelar no sentido de equilíbrio entre a preocupação formal e a preocupação com o drama humano. Esse conto salvou a relação entre mim e minha mãe. Analisando o texto, lendo o ambiente como elemento narrador do subterrâneo do conto, enxerguei-me na protagonista, Adriana. Por conta do que estava velado sob aquela história de terrível embate entre mãe e filha, mudei minhas atitudes, pois eu não queria continuar sendo como Adriana e não queria que minha história com minha mãe terminasse do mesmo modo.  E não falo do que está imediatamente apreensível na fábula, pois a melhor compreensão das personagens precisa que também se veja  como é caracterizada a casa em que o embate se dá, como ela é e o que está nela. Apenas depois de analisar os detalhes do ambiente eu pude entender que drama era aquele.

(mais à frente, falarei das revisões de Lygia sobre seus textos
— para a gravação deste vídeo, usaram uma versão do conto anterior à que estava em voga quando da filmagem)

Nas aulas, falei de como esse conto interferiu na minha relação com minha mãe. Alguns anos depois, uma aluna do Ensino Médio me disse que o mesmo aconteceu na casa dela. Depois, dei aulas em faculdades, onde lia os contos, claro. Passados uns cinco anos, em outra faculdade, há numa turma uma ex-aluna minha e também sua mãe. Numa oportunidade, cada uma em um momento, elas me disseram que “A medalha” havia sido importante para que a relação delas não ruísse.

Então, devo a essa obra minha formação humana e minha formação profissional, o reconhecimento que alcancei. Uma obra tecida com sutilezas que só fui conhecer e/ou perceber 10 anos depois, 20 anos depois. Hoje, 28 anos após começar a ler essas histórias com personagens tão mesquinhas e pequenas e admiráveis, pois, como disse um dia Urbano Tavares Rodrigues, “os anjos de Lygia são demônios, os demônios são anjos”.  Ela nos dá personagens cruéis, mas de modo a não nos permitir julgá-las. A sua arte, dando-nos o avesso das pessoas, é uma arte da compaixão. Mas sem açúcar.

[…] em cada personagem que amassa (mais do que inventa) com os dados da sua experiência cotidiana, com sua rara receptvidade mediúnica e seu instinto de raiz. […] contos compostos de escritos com sagaz economia de meios e lacunas intencionais, que solicitam o leitor a implicar-se na ação e a perfazer ele próprio a história em meio de sinais alusivos […].  

(Urbano Tavares Rodrigues, Suplemento Literário de O Estado de S.Paulo, em 1972).

Em 1999, Urbano Tavares Rodrigues, agora comentando A noite escura e mais eu, afirma: “Lygia não é uma educadora. É uma cética carregada de amor”. Por isso não há “lições de vida”, explícitas “morais da história” — o leitor, com seu arcabouço, seja generoso e se dê ao texto, para enfim poder, de certo modo, tê-lo. O seus contos não gritam, apenas sussurram. E o que sussurram não é agradável.

Muitas vezes, ao ler um de seus contos, vamos logo julgando as personagens. No entanto, uma leitura mais atenta, vagarosa, uma leitura com vontade de descoberta, em que se preste atenção ao que está sendo sussurrado num objeto de cena, esse tipo de leitura nos vai dizer que nosso julgamento foi falho porque errado ou porque inconcluso.

Agora, estendo-me sobre alguns aspectos da obra de Lygia Fagundes Telles, “meu contista preferido”.

 

A construção do cânone pessoal

Em 1938, aos 15 anos de idade, estreava na literatura a atual decana de nossos autores: Lygia Fagundes Telles, nascida em São Paulo em 19 de abril de 1923.

Nesse ano de 1938, ela publicou seu primeiro livro de contos, Porão e sobrado, e começou a colaborar para o jornal Folha da Manhã. Em suas duas primeiras colaborações, os contos “Cai-cai” e “Historia do rojão”, publicados respectivamente em 04 de dezembro de 1938 e 20 de agosto de 1939, o leitor deparava-se com características que futuramente estariam presentes nos textos da maturidade da autora: a presença de temas desagradáveis, do erotismo e da preocupação com a criação de personagens “vivas, nítidas”.  Durante toda sua carreira, teremos uma autora buscando dar conta de temas que aparecerão de modo reiterado, com personagens vivendo situações semelhantes, com a linguagem tentando outras maneiras de dar conta de similares questões humanas; durante toda sua carreira, teremos uma autora às voltas com a revisão de seus textos (em especial, os contos) e a não reedição de alguns de seus livros. Marco dessa sua característica foi a publicação do livro Antes do baile verde (1970), trazendo contos inéditos e contos publicados anteriormente, revisados pela própria autora para essa nova edição, dando início à criação de um cânone pessoal, ao renegar alguns textos e alterar aqueles que permaneceriam. Desse modo, esse livro nos aparece como uma espécie de crítica à própria obra — crítica que se dá não apenas em relação à revisão dos contos, mas também do próprio livro, cuja configuração alterou-se por mais de uma década, até atingir a forma atual.

1ª Edição - Editora Bloch, 1970

1ª Edição – Editora Bloch, 1970

O conto “Os mortos”, publicado pela primeira vez no livro O cacto vermelho (1949), fez parte de Antes do baile verde até sua 8ª edição (1983), pela Livraria José Olympio Editora. A partir da publicação do livro pela Editora Nova Fronteira, esse conto não foi mais publicado, e alguns fatores parecem servir de justificativa para isso: o tom melodramático, grandiloquente, presente nesse conto de 1949 e que o  tornava destoante dos outros contos do volume; o fato de ele se assemelhar bastante a um conto mais recente, Apenas um saxofone  (1968), no qual também temos uma mulher na situação-limite de assumir a culpa pela perda do homem amado. Comparando-se os dois textos, temos trechos semelhantes, daí  Os mortos parecer uma espécie de gérmen de Apenas um saxofone, incorrendo em redundância a presença de ambos num único volume e contribuindo a presença daquele conto para um decréscimo da qualidade do conjunto, por não mais atender às exigências estéticas da autora, que durante as quatro primeiras décadas de sua carreira foi-se obstinadamente construindo, lapidando, aparando as arestas.

Companhia das Letras, 2009

Companhia das Letras, 2009

Nesse aparar de arestas, ela buscou, por exemplo, distanciar seu modo narrativo daquele percebido em autores que foram  influências muito marcantes, leituras importantes para sua formação, como é o caso de Edgar Allan Poe. Em seus primeiros livros, não raro o leitor vai-se deparar com contos de tom grandiloquente e bastante vocativo. Com o passar do tempo, no entanto, foram sendo limadas as influências recebidas, mantendo-se delas o que não datasse sua obra, o que não desse a ela algum ranço de coisa muito antiga, embora ainda se perceba uma pontinha de alguma dessas farpas estilísticas assomando em um ou outro conto. De autores de literatura de terror do século XIX, ficou então, no lugar da linguagem quase cópia (como presente em alguns de seus contos renegados), a atmosfera, a agonia, o senso de mistério, a ambiguidade, a certeza do impalpável. Aspectos esses presentes não apenas nos textos cuja fábula toca o âmbito do sobrenatural, mas também nos flagrantes do cotidiano, todos eles geralmente sob esses signos (agonia, mistério, ambiguidade, impalpabilidade), todos eles revolvendo o que há sob a superfície das aparências, apontando alguma rachadura nas estruturas das relações.

 

Literatura de risco

Algo importante a se considerar na produção de Lygia Fagundes Telles é o fato de a autora estar sempre colocando seus textos à prova, estar sempre os mantendo em perigo, sejam eles contos ou romances. Ela parece assumir o risco de dar ao leitor textos cujas maiores qualidades poderão não ser percebidas de imediato ou não ser percebidas ou só serem percebidas se o texto for considerado em relação ao conjunto da obra, por conta de o leitor dar-se conta de elementos que se repetem, pois formam seu mundo simbólico próprio ou dialogam com símbolos já cristalizados em nossa cultura. Mas, tenhamos o seguinte: isso não torna os textos ilegíveis, pois a produção de Lygia Fagundes Telles não é enigmática ou criptografada. Ela apenas — apenas? —lança um véu sobre a própria obra, um véu sobre algumas qualidades da obra, permitindo a possibilidade da falência de algo que pode ser o grande trunfo de um texto; ela joga arriscadamente com a possibilidade de esse véu não ser levantado. Uma frase de Ricardo, personagem do conto “Venha ver o pôr do sol”, serve de resumo a respeito disso: “Não sei onde foi que eu li, a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da noite, está no crepúsculo, nesse meio-tom, nessa ambiguidade. Estou-lhe dando um crepúsculo numa bandeja e você se queixa”.

A produção de Lygia — e tratemos agora de seus contos — tem a qualidade de poder ser lida por pré-adolescentes e de poder servir a investigações de estudiosos/pesquisadores da literatura. Diversos de seus contos foram/são publicados em livros escolares, sendo lidos em classe e tendo a atenção dos leitores dirigida para aspectos da fábula desses textos, o que coloca em evidência o poder de fabulação da autora e pode fazê-la parecer uma mera contadora de histórias.

[…] Nada mais contrário à índole desta literatura do que o escândalo, a algazarra.

São estórias em que a situação inicial é sempre em foco pequeno, em surdina, em espaço restrito, bem íntimo, às vezes. Nada de grandes angulares, de cena alentada, de palco escancarado. Nada de épico. Tudo muito pontual, muito preciso, muito na mosca. Nenhuma entrada que ameace drama [a não ser o drama antevisto nos objetos significativos]. Tudo muito disfarçado, tudo muito sorrateiro. […].

[E]la murmura, fala baixinho. Aproxima-se do leitor como seus gatos, de que ela gosta tanto. Parece até que são apenas estórias em torno daquelas mesas de barzinhos refinados, em fim de tarde de verão. Não as mesinhas da calçada, propícias ao chope, à algazarra, à voz elevada. Mas aquelas protegidas pelo ar-condicionado e pela luz indireta, nem um pouco solar. Não se engane com essa sinuosidade felina, felpuda. Não vá na conversa, não relaxe. Fique esperto. Porque, quando você menos espera, as unhas retráteis aparecem e, logo depois delas, o risco na carne, o filetinho de sangue escorrendo. Nada muito profundo, mas o suficiente para incomodar, na hora e por tempo extenso, cravadas na memória. O suficiente para se lembrar de que, nas próximas vezes, você não deve se aproximar tão desguarnecido e confiante, porque o bote pode vir, quando menos se espera, não se sabe de onde. A cada aproximação, um aprendizado, independentemente do conto que você escolha.

Fique esperto! Não confie no ron-ron de Lygia Fagundes Telles.

(Antonio Dimas, Garras de veludo, posfácio a Antes do baile verde, 2009).

No entanto, essa é a face aparente — sob ela, há o tenaz domínio da arte narrativa, evidenciado se atentamos para como se foi construindo seu cânone pessoal, se atentamos para a revisão que ela empreendeu em seus textos, tornando explícita, por exemplo, a consciência que, como autora, ela tem a respeito do corpo das personagens. Nas revisões, sutis mudanças gestuais mostram o domínio na construção da cena, sua duração, seu espaço, suas ações.

Os romances

Os seus romances podem ser divididos em dois grupos, se considerando o que foi dito acima sobre o véu a cobrir a grande qualidade do texto: Ciranda de pedra (1954) e As meninas (1973); Verão no aquário (1964) e As horas nuas (1989).

Editora Nova Fronteira

Editora Nova Fronteira

Num grupo, temos seus dois romances mais celebrados pelo público e pela crítica: o primeiro é um romance de formação em que se opta por uma narração cuja grande qualidade está justamente em sua simplicidade, com a autora manejando um instrumental já consagrado por autores como Henry James e dando-nos um belo e impactante drama; o segundo é um livro em que Lygia Fagundes Telles alcança o ponto alto de sua obra no que diz respeito ao uso da linguagem, tendo como sua grande característica o poder de emprestar a cada personagem narradora um modo específico de falar, ao ponto de abrirmos o livro em qualquer página e sabermos quem está narrando — essa qualidade de construir um livro com diversas vozes e conseguir dar a cada voz uma identidade própria, não apenas no âmbito das ideias, mas da própria sintaxe e do léxico, não é algo fácil de se encontrar, e As meninas  constitui-se possivelmente no ponto mais alto de nossa literatura no que diz respeito a esse aspecto.

Editora José Olympio, 1973

Editora José Olympio, 1973

No outro grupo, temos romances em situações peculiares: o primeiro está imprensado entre o romance de estreia e o romance de consagração, parecendo, por vezes, uma preparação ou uma peça de transição entre um e outro; o segundo é motivo de divergência entre críticos e leitores, ora sendo apontado como um livro falho ora como, dentre os romances, a obra máxima da autora. E é a respeito desses dois livros que  pretendo tratar agora, por servirem para o que se disse acima: o risco a que Lygia Fagundes Telles submete sua criação.

 

Linguagem e contaminação

Editora Nova Fronteira

Editora Nova Fronteira

O romance Verão no aquário é por vezes criticado por conta de sua linguagem, tida como artificial, pouco crível, principalmente se comparada com a empregada em Ciranda de pedra. Nesse livro, a protagonista, Raíza, tem uma relação conturbada com sua mãe, a escritora Patrícia. A todo tempo vivendo à sombra materna, Raíza chega a criticar os escritos de Patrícia, afirmando haver neles um tom “sublime”. No entanto, o próprio Verão no aquário tem esse tom: todo narrado em primeira pessoa, como se dito num divã, ele não tem uma linguagem fluida como a do romance que o precedeu ou como a do que o sucederia. Mas, parece não se dever isso a um possível defeito do livro, mas a uma ironia, a uma arriscada aposta da autora, como outras que ela faria em sua obra. Raíza critica a mãe, a linguagem de seus romances, mas é tão dependente da imagem materna que termina por cunhar sua fala com as mesmas características que critica. Assim, o romance não apenas critica um modo narrativo, mas reproduz esse modo. Na narrativa de Raíza, reproduz-se  um dos grandes problemas da protagonista: a distância entre o pensamento/desejo de algo e sua realização, tornando-se Verão no aquário uma narrativa crítica que cristaliza a distância entre consciência e ato, problema comum na produção de Lygia.

Isso tornará a acontecer em As meninas, onde a personagem Lorena, referindo-se aos rascunhos de um romance escrito por Lia (Lião), fala que a amiga “fica sublime quando escreve” — das três personagens narradoras, Lorena é a que tem a fala mais próxima de uma linguagem sublime.

O riso de si

1ª Edição - Nova Fronteira, 1989

1ª Edição – Nova Fronteira, 1989

As horas nuas é possivelmente o livro mais ambicioso e arriscado de Lygia: nele, como muito bem mostrado por Vera Maria Tietzmann Silva no livro Dispersos & inéditos: estudos sobre Lygia Fagundes Telles, a autora se autoparodia, dando-nos um romance em que temas, personagens, falas  presentes em textos anteriores reaparecem sob a forma da releitura, e releitura desencantada com o mundo, mas como se dita por um desencantado que risse de si próprio. Um livro em que uma das personagens principais, a atriz Rosa Ambrósio, ensaiando sua volta aos palcos, diz: “A decadência está na moda. Sou uma atriz decadente; logo, estou no auge”. E é a decadência que dará o tom ao livro: nele, tudo rui. Principalmente as certezas: em relação à narrativa feita por um gato, inteligente, arisco e invejoso (“Um gato que sonha com o homem como o homem sonha com Deus”); em relação à narração feita por Rosa, no mais das vezes ditando suas memórias sob efeito de álcool; em relação à narração em terceira pessoa, quando o foco é a psiquiatra Ananta Medrado, personificação do controle da razão sobre o instinto, mas cuja história é justamente a mais envolta em mistério, principalmente quando seu vizinho do andar superior parece-lhe metamorfosear-se em um cavalo. Como disse Nelly Novaes Coelho ao tratar desse romance, temos nele um exemplo da “falência da razão ordenadora”. E Lygia, por ser ficcionista e não ensaísta, dá-nos isso sob o véu da ficção, representado na fábula e no texto, sem explicitações.

 

O sussurro

A obra de Lygia Fagundes Telles é uma obra violenta, mas de uma violência do sussurro e no sussurro, e não do grito. Não temos nela grandes eventos em que se fere o cotidiano, como a ocorrência de crimes. A violência, aí dá-se através das relações cotidianas, do escamoteamento dos afetos, dos medos, da tentativa de proteger-se, da queda da inocência — este, um tema bastante presente, como por exemplo nos contos “O menino” e “O segredo”, em que temos a queda de dois ídolos: a mãe e o pai, respectivamente.

No primeiro, um menino vai ao cinema com a mãe, deparando-se com uma troca de carinhos entre ela e seu amante. Um drama que se vai construindo lentamente, através das ações e da própria ambiência, em que os objetos também contam a história. O uso dos objetos, em sua obra, adquire um importante status, pelo fato de eles nos darem, como elementos narradores, as possíveis informações escamoteadas pelas personagens. Esses elementos exteriores estão ali para nos permitir uma porta de entrada na intimidade cerrada das pessoas que habitam o mundo lygiano.

Dentre estas qualidades, como uma das mais típicas e, do ponto de vista literário, mais importantes na carreira de L. F. T., o hábil contraste, o bem calculado desequilíbrio entre o peso dos acontecimentos narrados e o modo de comunicá-los. É bem característico de sua prosa, um frêmito escondido e que apenas adivinhamos dentro da ilusória placidez exterior.
E tal contraste, tal desequilíbrio, não são atingidos apenas através de um moderado uso da linguagem, da frase comedida, de uma sóbria adjetivação, de uma pontuação exata (porém de um vigor ardiloso e solerte). Há sempre um gesto breve, uma evocação, uma alusão, que se introduzem na cena e lhe dão um timbre próprio, às vezes irônico, às vezes poético, quase sempre pungente.

(Osman Lins, A evolução de Lygia Fagundes Telles, 1961).

No segundo conto, uma menina está brincando com uma amiga, e sua bola cai no terreno de uma casa em que moram mulheres que parecem ser prostitutas. Há um breve diálogo entre a menina e algumas das mulheres que vivem ali. Nada demais é dito, mas a garota sai dali com a informação de que aquelas mulheres conhecem seu pai. Sai dali após o diálogo fatal:

— Espera — ela disse. — Espera aí um pouco, queria que você me prometesse uma coisa, vai me prometer? Não diga a ninguém que esteve aqui. Promete?

— Prometo.

— Mas eu queria que você jurasse.

— Eu juro.

— Então vai ser o nosso segredo. Sabe o que é um segredo? Segredo é uma coisa que a gente não conta, nem o pai, nem a mãe, ninguém  no mundo fica sabendo, mas ninguém mesmo.

— Eu não vou contar.

[…] ela voltou a mão até o copo de dados que apertava contra o peito. Falou baixinho.

— É bom a gente ter segredos. Você não tem segredos?

— Não.

— Nenhum? Imagina só, uma menina sem segredos — espantou-se e olhou para o chão, mas parecia aflita, como se tivesse perdido alguma coisa. — Eu tinha tantos segredos! Você vai ver como é bom guardar só com a gente essas coisas que ninguém no mundo fica sabendo. Se a gente morrer essas coisas morrem com a gente entendeu?

— Eu não vou contar.

Nesses dois contos, temos duas crianças que nunca mais serão as mesmas; neles, temos o flagrante do instante da queda. E a queda é sempre presente na obra lygiana: seus textos nos dão o instante após ou o instante imediatamente anterior a ela, fazendo-nos testemunhas disso.

Os títulos

A obra contística de Lygia tem três livros chave: Antes do baile verde (1970), Seminário dos ratos (1977), A noite escura e mais eu (1995). Sua obra não é extensa, se considerarmos tanto tempo dedicado à literatura.

1ª Edição - José Olympio Editora, 1977

1ª Edição – José Olympio Editora, 1977

Se alguém me perguntasse o que ler da contista Lygia Fagundes Telles, eu diria para ler esses três livros — e um ou outro conto esparso, como alguns presentes em A estrutura da bolha de sabão, livro publicado para reunir alguns textos editados em livros anteriores e que não haviam entrado em Antes do baile verde (como “A medalha”) ou que haviam sido publicados depois em alguns periódicos, como o conto que dá título ao livro (ótimo conto!).

1ª Edição - Editora Nova Fronteira, 1995

1ª Edição – Editora Nova Fronteira, 1995

Lendo os três títulos acima, o leitor perceberá a trajetória da autora: histórias mais ligadas aos flagrantes do cotidiano, em Antes do baile verde; histórias em que há bastante ocorrência de estados oníricos, estados de incerteza, em Seminário dos ratos. Mas, a incerteza está presente também nas narrativas do cotidiano; afinal, não é privilégio do sonho a imprecisão. Em Seminário dos ratos há também a presença de contos com fábulas próximas às de Antes do baile verde, mas a autora tenta novas linguagens para dizê-las. Sobre Seminário, o Caderno 2 do Estado de S.Paulo disse, quando do lançamento do livro: “resultado de dois princípios na vida da escritora: o princípio da sedimentação de experiências literárias e o princípio do jogador que arrisca tudo em cada rodada. […] múltiplos universos de personagens, múltiplas adequações de estilo”.

Por fim, temos A noite escura e mais eu, em que o sussurro torna-se ainda mais baixo; em que, por vezes, terminamos a leitura sem sabermos bem a respeito de que tratava o conto — como se a autora tivesse apurado seu modo ao ponto de torná-lo ainda mais sutil. Exemplo disso é o belo e muito estranho“A rosa verde”.

 […] A noite escura e mais eu. A noite escura é a morte. quem a pressente e a governa no seu livro (ou por ela se deixa governar) e a sofre, sorrindo, em cada linha é Lygia, a sibilia a supernarradora, habilíssima feiticeira da palavra, que se desdobra em múltiplas narradoras, atribuindo a cada uma delas uma voz adequada, consoante a idade, o estatuto social e cultural.

(Urbano Tavares Rodrigues, A ambiguidade e a ironia na obra da escritora, Caderno 2, 1999).

Se ela fosse uma educadora, teríamos “lições de vida”, explícitas “morais da história”. Mas isso ela não nos dá

Atentando aos nomes dos livros, podemos enxergá-los como chaves de leitura do mundo ficcional de Lygia Fagundes Telles, que diriam as seguinte “dicas” ao leitor: (Antes do baile verde) o que acontece antes do baile verde, ou seja, o que acontece antes de a morte dar o tom para a vida; (Seminário dos ratos)o que acontece quando o que jazia sob a superfície vem à tona e contamina a existência, quando sai do esconderijo aquilo que teimamos em esconder; (A noite escura e mais eu) o que acontece quando a pessoa é tomada pelo sentimento de solidão que acomete os místicos, prescindindo, no entanto, da fé e da esperança de salvação que poderia servir como unguento. As personagens lygianas são personagens danadas, e praticamente não há, em suas histórias, o que nos dê a possibilidade de enxergar para elas alguma redenção. Se muito, apenas nós podemos nos salvar através delas.

[…] personagens “enredadas” presas na proverbial ciranda petrificada, no aquário (não por acaso os títulos dos seus romances iniciais, Ciranda de pedra, Verão no aquário). Apesar dos acordes dissonantes, é um mundo em que a estagnação e a decadência permeiam as relações de forma quase patológica, sinistra.

(Alfredo Monte, A poética do sorrateiro: “As meninas”, de Lygia Fagundes Telles, 2013).

São personagens diabólicas, no sentido de experimentarem uma profunda cisão interior. Por isso, por esse diabolismo, os objetos surgem como um elemento que vem em auxílio de fornecer aos textos alguma natureza oposta a isso (simbólica, em oposição a diabólica) — os objetos são; e isso de “ser” as personagens de Lygia não conseguem alcançar.

Grande exemplo disso está presente no conto “Anão de jardim”, último conto de A noite escura e mais eu — ou seja, último conto da obra contística de Lygia, pois os livros escritos após esse foram livros cujos textos pertencem ao gênero de “invenção e memória” (título de um dos livros). Para mim, “Anão de jardim” é um grande fecho de sua obra de contos, por trazer, encapsulados no drama da personagem principal, todos os dramas presentes anteriormente: Kobold, um ser que tem consciência, mas não tem qualquer ato à altura dela. Na personagem e na ambiência do conto, temos uma representação do ser decaído: no jardim de uma casa cujos donos morreram ou mudaram-se, um anão de pedra está prestes a ser destruído. Enquanto isso, ele conta sua história, tecendo impropérios contar os homens e rezando a Deus para que Ele lhe dê um corpo humano:  “Imploro o inferno do corpo (e o gozo) que inferno maior eu conheci aqui empedrado”.

Ficção e literatura

Muito se fala em metaliteratura, em narrações que discorrem sobre o ato de narrar. Em Lygia, isso está presente, mas a seu modo: na surdina. Há reflexão sobre o ato de escrever, mas isso se dá através das histórias, não apontando explicitamente para isso. Em “Venha ver o pôr do sol”, temos uma terrível história de assassinato, mas temos também um elogio à leitura; em “A caçada”, acontecimentos estranhos acometem um homem, mas há aí, também, uma representação do encontro entre a pessoa e um texto; em “O jardim selvagem”, uma menina lembra-se de estranhos eventos de sua infância, ao mesmo tempo que nos faz refletir sobre como o título se refere não apenas à fábula do conto, mas a sua própria tessitura.

Mestra da narrativa

Atentar para como se caracterizam os narradores em seus contos é ter uma aula de narração; lê-los é uma escola. Atentar para isso é ver como a escolha do narrador é importante para o que se conta e para o possível efeito que se pretende ter sobre o leitor. Lygia é mestra nisso, em ir muito além da simples distinção entre a história ser contada em primeira ou terceira pessoa — em seus textos, essas categorias de narradores são bastante exploradas. Ela é uma exímia escritora do narrador do tipo “showing”, aquele que mais mostra do que diz, em contraste com o do tipo “telling”, que diz bastante sobre as personagens e seus dramas. Enquanto este luta com a palavra para revelar a intimidade da personagem, aquele luta para que a intimidade não se explicite, mas esteja revelado nas ações, cenário, cenas; ou, de certo modo,que só se revele a partir da atenção do leitor para os detalhes narrativos.

Em “Venha ver o pôr do sol” temos uma sacana voz em terceira pessoa não onisciente que nos seduz e enreda até nos prender numa catacumba, junto a uma das personagens. Em “A medalha”, também uma terceira pessoa não onisciente não nos permite ter certeza sobre as falas da mãe de Adriana em relação à filha e em relação aos eventos imediatamente anteriores aos de que somos testemunhas; também por conta desse modo de narrar, vemo-nos praticamente impossibilitados de julgar as personagens, suas atitudes. Em “O menino”, a narração em terceira pessoa parcialmente onisciente dá-nos a visão do garoto, levando-nos a nos afeiçoar a ele e a julgar sua mãe; mas, uma releitura sem essa contaminação nos dirá que não podemos julgá-la, pois há mais fatores ali do que o exposto pela visão do garoto, fatores dados pelo narrador ao tratar do ambiente, da caracterização das personagens, do modo como transitam pelo ambiente. Em “O jardim selvagem”, a primeira pessoa contamina-nos de tal modo com sua visão dos fatos, com seus pensamentos não revelados, que ao fim do texto achamos que houve um assassinato; no entanto, a leitura criteriosa nos mostrará que a certeza é impossível, principalmente por ser todo o conto uma sequência de “disse me disse”, todo ele calcado em fofocas — a narradora do conto em momento algum foi testemunha dos principais fatos da história. Em “Tigrela”, temos um narrador übernaumconfiável (¬¬), uma vez que lemos/ouvimos uma narração em que se fala de um encontro num café, em que se bebia algo uísque; nele, a narradora fala muito pouco de si, atendo-se à história que ouve da amiga bêbada e que nos repassa — mais uma vez uma fofoca, não tendo como fator contrário à confiança o desejo de “ter algo interessante para contar”, como em “O jardim selvagem”, mas a ebriedade de uma das fontes de informação e a possível ebriedade da outra. Em “Um chá bem forte e três xícaras”, o narrador em terceira pessoa não onisciente dá-nos o drama das personagens apenas através de seus gestuais ou da ausência deles, através do ambiente, através dos silêncios. E por aí vai.
Como a interpretação dos contos está muito ligado a pequenas sutilezas no comportamento das personagens, lê-los é estar atento a como nos comportamos no cotidiano, transformando-nos em leitores do corpo. Uma das diversas revisões feitas no conto “As pérolas” (ela revisou todos os contos de Antes do baile verde, e isso mais de uma vez), mostra-nos isso através de uma ocorrência que novamente nos dá a interioridade da personagem através de seu gestual, concorrendo para isso uma pequena mudança, concernente ao tipo de roupão da personagem: antes, Tomás usava um roupão com bolsos laterais — “E por incrível que parecesse, ainda estava em suas mãos impedir. Crispou-as ferozmente”; agora, com um bolso frontal — “E estava em suas mãos impedir. Crispou-as dentro do bolso do roupão.”. Essa alteração no “corte da roupa” faz com que a personagem, em vez de ter as mãos uma de cada lado do corpo, o que lhe daria alguma altivez, coloque-as na frente, juntas, como se as guardando (elas) e guardando-se (ele) no regaço, num sutil sinal de fragilidade, desproteção. Isso demonstra a atenção para o detalhe e para a construção da situação-ambiente.

Literatura sobre cupins

Acredito que se Lygia Fagundes Telles fosse de outra nacionalidade e se não tivesse sido lida através dos livros didáticos, chegando de outra forma a muitos de nossos leitores, como chegam a eles os textos de tantos autores estrangeiros, a recepção de sua obra seria bem diferente. Mas, isso tem muito a ver com o risco assumido por ela, tem a ver com sua aposta: a de escrever uma obra cujas principais qualidades são percebidas quando nos permitimos enxergar, para além do prédio, o que há sob sua aparência, sua estrutura, a arquitetura do pântano. As rasuras na calmaria, os cupins roendo as estruturas.

Os livros de Lygia estão sendo publicados atualmente numa ótima coleção da Companhia das Letras, cujas capas trazem obras de Beatriz Milhazes.

as horas nuas companhia das letras

Sobre os livros de Lygia, indico a leitura destes textos de Alfredo Monte, de seu blog Monte de Leituras:

A poética do sorrateiro: “As meninas”, de Lygia Fagundes Telles

Uma prosa toda feita de delicadezas perigosas: Lygia Fagundes Telles

Raízes em águas paradas: os 50 anos de “Verão no aquário” nos 90 de Lygia Fagundes Telles

A tapeçaria e suas dimensões (sobre “As horas nuas”)

O teatro da inocência (sobre “A noite escura e mais eu”)

Inês não é morta, muito pelo contrário (sobre “Invenção e memória”)

Um clássico do romance brasileiro: “Ciranda de pedra”

E sobre “Meus contos preferidos”, há um texto descontraído do blog Livrada!, do Yuri.

Em minha dissertação de mestrado, analiso os contos “A medalha”, “Venha ver o pôr do sol” e “Anão de jardim”. Se tiver curiosidade e saco e paciência, peço que leia o capítulo sobre “Anão de jardim”.

A terra deu, a terra dá, a terra cria

O Grande Poder da Música Popular Alagoana Nordestina Brasileira Universal.

Mestra Hilda e Mestre Verdelinho

Mestre Verdelinho, falecido em 18 de março de 2010, é parte de nosso patrimônio e está cravado em nossa memória afetiva. Mostra disso é sua composição Grande Poder, gravada por diversos artistas e certeza de cantoria e de dança se tocada em algum show em Maceió ou em outra cidade alagoana.

Aqui, o Grande Poder (letra e gravações).

O nosso Deus corrige o mundo pelo seu dominamento
Sei que a terra gira com o seu grande poder
Grande poder com o seu grande poder
Deus corrige o mundo pelo seu dominamento
A terra gira com o seu grande poder
Grande poder com o seu grande poder
A terra gira com o seu grande poder

A terra deu, a terra dá, a terra cria
A terra cria, a terra deu, a terra dá
A terra voga, a terra fica, a terra há
A terra acaba com toda má alegria
A terra acaba com inseto que a terra cria
Nascendo na terra, nessa terra há de viver
Morrendo na terra, para essa terra é de comer
Tudo que vive nesse mundo pra essa terra é alimento
Deus corrige o mundo pelo seu dominamento
Sei que a terra gira com o seu grande poder
Grande poder com o seu grande poder
Sei que a terra gira com o seu grande poder
Grande poder com o seu grande poder
A terra gira com o seu grande poder

Porque no céu a gente ver uma estrelinha
Aquela estrela começa a se mudar
Aquela estrela começa a passear
Tem uma mais acesa outra mais apagadinha
Tem uma maior tem outra mais miudinha
E ás seis horas da manhã ela começa a se esconder
Às seis horas da noite é que torna a aparecer
Só é quando ela brilha em cima no firmamento
É porque Deus corrige o mundo pelo seu dominamento
Home a terra gira com o seu grande poder
Deus corrige o mundo pelo seu dominamento
Sei que a terra gira com o seu grande poder

O homem aplanta um rebolinho de maniva
Aquela maniva com dez dias ta inchada
Começa nascer aquela folha orvalhada
Ali vai se criando aquela obra positiva
Muito esverdeada muito linda e muito viva
Embaixo cria uma batata que engorda e faz crescer
Aquilo dá farinha pra todo mundo comer
Para toda criatura vai servir de alimento
Deus corrige o mundo pelo seu dominamento
Sei que a terra gira com o seu grande poder
Deus corrige o mundo pelo seu dominamento
Sei que a terra gira com o seu grande poder

O meu amigo em você eu me confio
Eu me confio que meus olhos correm n’águas
Eu admiro uma piaba dentro d’água
Ela faz a morada não sente calor nem frio
Se o sol esquenta ela precura um sombrio
Na toca de uma barqueira pro mode se esconder
Arruma lodo começa a comer
Quer dizer daquele lodo vai servir de alimento
Nosso Deus corrige o mundo pelo seu dominamento
A terra gira com o seu grande poder
Deus corrige o mundo pelo seu dominamento
A terra gira com o seu grande poder

Mestre Verdelinho

Wado e o Realismo Fantástico

Déa Trancoso

Comadre Fulôzinha

Fogueira das Rosas

Informações sobre Mestre Verdelinho, aqui: Site da Secretaria de Estado da Cultura.

traduzione, tradizione

pots flan pudim

Ao se falar sobre tradução, muitas vezes vem à língua a expressão “traduttori, traditori”. Há uns dias, pensando sobre o assunto — por não traduzir, apenas penso —, achei que “traduzione, tradizione” seria uma expressão que deveria ter seu lugar de relevo.

Não posso falar se a primeira expressão é realmente correta ou incorreta, deixando isso para os estudiosos da arte tradutória, que sabem das nuances da coisa, já havendo em muitas situações discutido a esse respeito (traduttori, traditori).
A mim, permito falar apenas a segunda expressão — tradução, tradição —, posto parecer tão afeita aos gostos, à passagem do tempo, a uma determinada época. Por vezes, uma tradição movida por gosto; por outras, movida pela circunstância de ter sido aquela tradução a única a existir ou aquela que nos chegou à mão. Alfredo Monte, por exemplo, fala em seu blog Monte de Leituras sobre como gosta da tradução de Crime e Castigo feita por Rosário Fusco, e  que por décadas foi a tradução mais celebrada do romance de Fiódor Dostoiévski no Brasil.

Apenas há um ou dois meses vim ler o livrão Odisseia, de Homero. Li-o na tradução de Christian Werner editada pela Cosac Naify. É a melhor tradução do livro? Eu jamais saberia dizer, podendo responder apenas que foi a que me apaixonou assim que li trechos divulgados na imprensa. Durante dias, li apaixonadamente a aventura de Odisseu. Durante dias, troquei mensagens com um amigo, pelo whatsapp, mandando fotos de trechos, fotos das construções sintáticas, das imagens. A Odisseia dita a mim pelo Christian Werner me encantou e encantou a esse meu amigo. E falamos dela a outras pessoas, e a coisa se espalha. E daqui a anos, quando eu pensar em Ítaca, estarei pensando na Ítaca de Homero dada a mim por Christian Werner.
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Do mesmo modo eu me lembrarei de Ao Farol, de Virginia Woolf, que me foi dado por Denise Bottmann, e de que falei a amigos, a alunos. A imagem do silêncio sendo quebrado pelas botinas da sra. McNab. A imagem da escuridão como que lambendo o interior da casa. Daqui a anos, o To the lighthouse de Virginia Woolf será aquele que me foi dado por Denise Bottmann. Um livro que levei comigo num fim de semana, para me ser companhia quando eu não conseguisse escrever — eu me recolhera para escrever —, mas que se tornou o centro dos dias, pois não conseguia parar de ler, mergulhando obsessivamente na vida dos Ramsay e de seus visitantes. Aquele início do romance; aquela parte intermediária, mostrando o passar do tempo; aquele belo, melancólico, elegíaco final. Nunca esquecerei. Aqueles dias foram uma leitura e uma experiência inesquecíveis.
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Paulo Henriques Britto me deu o final surpreendente de O Som e a Fúria, de William Faulkner. Não fosse ele me falando todas aquelas páginas, eu não teria visto o Benji e a flor de caule quebrado, tudo sendo como sempre foi, a agonia imutável. Meus amigos e alunos leem O Som  e a Fúria de William Faulkner dito a nós por Paulo Henriques Britto. Eu tinha de falar do livro a eles, um livro de leitura árdua, lenta. Passei seis meses para terminá-la. E para conseguir, porque o livro queria atenção integral, fui a uma pousada passar um fim de semana dedicado apenas ao livro. No final da leitura, tive de ir a um telefone público telefonar para a um amigo, contando-lhe sobre como era belo, impactante, terrível o seu final.

post o som e a fúriaQuando quero comentar sobre algo que se distingue dos demais, por vezes refiro-me a uma fala da Avó de José Cemí, no Paradiso, de José Lezama Lima, dado a nós por Josely Vianna Batista: “Hoje estou com vontade de fazer um creme, não como os que se comem hoje, que parecem de botequim, mas os que têm algo de flan, algo de pudim”.
Josely lançou uma nova tradução do livro. Encontrei-o numa livraria e busquei esse trecho. Eu prefiro como ele está na primeira tradução. Não terminei de ler o livro que tenho, mas não comprarei a nova tradução e também não comprarei a de Olga Savary — porque esse trecho em específico me disse muito. E confio na jovem Josely, confio no quanto de beleza ela pôde nos dar. Para mim, lembrar-me de Paradiso é lembrar-me dessa frase, e não quero perdê-la.

post paradisoE falando em beleza, vejo a imagem de Virgílio chegando ao porto de Brundísio, na voz de Herbert Caro dando-nos a voz de Hermann Broch em seu A Morte de Virgílio. E Vera Pedrosa me dando, na adolescência, o amor e a danação de Cathy e Heathcliif em O Morro dos Ventos Uivantes, da Emily Brontë — aí, a primeira tradição de que pude participar: diversos alunos do colégio lendo e comentando sobre o romance,  parando uns aos outros nos corredores e perguntando que livro era aquele sobre o qual tanta gente estava falando. Lembro-me agora de uma tarde em que ficamos sentados num corredor, à porta de um dos laboratórios de química, tratando das personagens, lendo trechos, falando das sensações.
post a morte de virgíliopost o morro 03

De Moby Dick, de Hermann Melville, dito a nós por Irene Hirsch, saiu o título de uma peça da companhia de teatro de que faço parte, por conta deste trecho: “O sol já tinha nascido. Em pouco tempo a tripulação subiu a bordo, de dois em dois ou de três em três; os armadores estavam atarefados; os imediatos trabalhavam ativamente; e muitos dos trabalhadores estavam ocupados trazendo a bordo as muitas últimas coisas. Durante esse tempo, o capitão Ahab permaneceu invisível no santuário de sua cabine”.

post moby dickNão fosse por Aulyde Soares Rodrigues, eu não teria ido ao abismo com Adrienne Mesurat, personagem do livro homônimo de Julien Green.

post adrienne mesurat

Por conta de Maria Deling, saí correndo do quarto do pensionato em que morava em São Paulo, para telefonar a uma amiga, falando que havia lido algo emocionante, de uma beleza que eu nunca tinha visto  —  e que ficou repercutindo na minha cabeça por anos. E ainda hoje repercute: Aschenbach admirando Tadzio em Morte em Veneza, de Thomas Mann. Trecho com que acabo esta postagem que quer apenas agradecer aos tradutores por nos darem suas traduções.

Morte Em Veneza 01Morte Em Veneza 02Morte Em Veneza 03


Nota 1: enquanto escrevia, procurei na internet “traduzione, tradizione” e encontrei este site italiano sobre tradução: Traduzionetradizione.

Nota 2: de todos os livros, busquei as capas das edições que li (ou que comecei a ler). De O Morro dos Ventos Uivantes, a capa do livro que li não foi essa; mas a que postei aqui também é uma edição da mesma tradutora. Sobre esse livro, há neste blog uma postagem aqui: “O morro dos ventos uivantes” : nova tradução e coisas mais. E também relacionado ao livro há esta outra postagem, em que faço uma brincadeira musical unindo Emily Brontë, Hilda Hilst, Elvis Presley e Pet Shop Boys: Heathcliff is always on my mind.

Nota 3: sobre Adrienne Mesurat, há esta postagem: Adrienne Mesurat ou A Solidão Desesperada.

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