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“Um teto todo meu” e adendo

O Jean Albuquerque está fazendo uma série de entrevistas com pessoas que escrevem aqui em Alagoas, e eu fui um dos entrevistados. Posto aqui a entrevista na íntegra. Mas, ela pode ser visitada em seu endereço original, bastando você clicar aqui.

Posto aqui a entrevista porque quis dar a ela um adendo – e aos que reclamarem, digo: eu reviso meus livros depois de publicados, não vou revisar uma entrevista?

É que me esqueci (de esquecimento mesmo) de citar uma pessoa quando falei das obras escritas aqui em Alagoas: a Fabiana Freitas. Gosto muito de seu livro “João e seus ais miúdos”, que é um livro que eu não pegaria para ler e que é um livro que eu não escreveria, porque é muito distante e distinto do que eu faço. Mas, a capacidade e o talento dela em capturar um instante de sua personagem e nos dar isso tão economicamente e tão ironicamente e com tanto humor é algo que eu tenho de admirar. Acho que o livro ficou um pouco prejudicado por conta de, em sua capa, estar classificado como “poesia”. Um amigo meu disse que não gostou do livro, então eu lhe disse: releia, pensando nele como livro de prosa. Aí ele disse: fica melhor; continuo não gostando, mas fica melhor. Acho que ela devia ter discutido com a editora, batido o pé. Talvez nem ela mesma tenha pensado em classificar a obra. É cousa difícil e chata e até ridícula classificar. Mas, se a editora vai colocar algo na capa, o autor tem de estar atento e conversar ou brigar: a obra é dele. Acho que o “João” da Fabiana é um romance com minúsculos capítulos, ou, se quiserem, um conjunto de contos com uma mesma personagem. Mas, deixemos para lá as classificações. É um livro gostoso. A questão é que não gosto de microcontos – não gosto mesmo. Pra mim, no fim das contas, parece uma piada, uma piada com esmero em relação à linguagem. No caso da Fabiana, gostei porque há um livro com a narrativa sobre uma personagem vivendo todas aquelas “piadas”. E assim como falei do Ari Denisson quanto a ele nos dar algo para além do humor e da técnica, quando li o livro da Fabiana eu me perguntei se ela conseguiria escrever uma obra mais longa e em que houvesse o humor tão inteligente presente em seus textos atuais. Me perguntei se ela conseguiria ou teria até o interesse em escrever algo como alguns autores ingleses, que nos dão uma fábula entremeada de humor. Mas, isso é com ela. Ela que diz e sabe e decide o que vai escrever. Ela, Ari Denisson, todos. Eu, ao falar de qualquer um deles, sou apenas um leitor que quer ser agradado. E por isso, tudo que digo é relativo e pouco.

Logo abaixo, a entrevista concedida ao Jean.

 

São Paulo, 2016

Por Jean Albuquerque

Entrar em casa depois de faltar energia no quarteirão, tatear e perceber tudo ao redor até conseguir pôr a chave na fechadura e abrir a casa, logo em seguida achar uma vela para clarear um pouco a sala. Essa é a sensação quando se lê o livro de contos, Diabolô (2011); vencedor do prêmio LEGO em 2009, do escritor alagoano e professor universitário, Nilton Resende, 46.

Há uma ambientação sólida, um mundo físico. Como se fosse impossível não se imaginar nas ruas do bairro Prado do passado, o mesmo da sua infância. A obra ainda traz algumas questões, como a perda da infância em um dos contos, abusos sexuais em outro e um certo erotismo, voyeurismo.

O autor também lançou em duas versões o livro de poesias, O orvalho e os dias (1998/2006), além da tese de doutorado lançada ano passado durante a bienal do livro em São Paulo e que em breve terá lançamento em Alagoas, A construção de Lygia Fagundes Telles: edição crítica de Antes do Baile Verde (2016). Participa de vários projetos literários. “Projetos, tenho milidoze – quero nem falar sobre eles. Prefiro que eles apareçam quando existirem; só digo que estou às voltas com a escrita de romances, assim no plural mesmo, porque há projetos antigos de que nunca dei conta, e agora todos se acumularam, novos e velhos”, defende.

Outro projeto engatilhado, também para este ano, é a coletânea de poesias Ouriço, sem previsão de lançamento, que virá ilustrada com as fotografias da jornalista, Vanessa Motta. O livro contém dez poemas que dividem as páginas com fotos de nu artístico masculino de modelos maceioenses especialmente convidados.

Publicou o conto Manual do como manusear, no site Cronópios (janeiro de 2008); A ceia, no jornal Rascunho; O oco, na Revista Invisível (2011); A ceia, na revista Ficções, nº 19 (abril de 2010); La cena, tradução de Pablo Cardellino Soto para o espanhol a partir do conto “A ceia”; na Machado de Assis Magazine: literatura brasileira em tradução, lançada na Feira de Frankfurt (outubro de 2012); The crack, tradução de Alison Entrekin para o inglês do conto A fresta, na revista londrina LITRO, nº 114 (outubro de 2012) e também publica em seu blog, o trajeslunares.wordpress.com.

Entrevistei o escritor e o bate papo vocês conferem abaixo.

Jean Albuquerque – A sua estreia foi na poesia, com o livro o Orvalho e Os DiAs (1998) e logo após lançou Diabolô (2011), livro de contos. Há diferenças em escrever os dois gêneros? Fala um pouco sobre o processo de produção dos livros.

Nilton Resende – Eu acho prosa mais difícil do que poesia. Não que eu ache fácil escrever poesia, você me entende? Eu acho mais difícil escrever uma boa prosa do que uma boa poesia. É que a poesia, por seu caráter econômico, parece evidenciar mais a sua qualidade. A prosa… o seu caráter mais linear, de se desenvolver com o passar do tempo… isso é fogo. Imagine duas belezas: uma pessoa levanta um braço e abre a mão de um jeito como nunca visto; uma pessoa levanta um braço, abre a mão, faz circunvoluções com ela, desce o braço, repousa a mão, levanta agora o cotovelo. O abrir de mão é instantâneo; o outro gestual, mais alargado, permite haver hiatos de beleza, permite que nem todos os pequenos gestos tenham a mesma força. A prosa é isso. É tentar manter a beleza num gesto continuado. A prosa é o gesto continuado.

Eu demorei para escrever ambos os livros. O de poemas teve três versões – a primeira, felizmente, recusada pela EDUFAL. Naquela época, a EDUFAL publicava textos literários que fossem aprovados por seus pareceristas. A carta de quem fez o parecer foi bem dura – tanto que a Leda Almeida, que estava na direção da editora naquele período, fez questão de me entregar o parecer pessoalmente e conversar comigo. Ela tinha receio de que eu desistisse da escrita. Mas não desisti. Discordei de muita coisa no parecer – discordei de quase tudo – mas foi bom para que o livro não fosse publicado, e eu pudesse revisá-lo. Ainda tenho guardado esse parecer. De vez em quando leio e acho interessante e fico agradecendo – se eu descobrir a identidade do parecerista vou dizer: “ó, discordo de praticamente tudo que você disse naquela carta, mas agradeço por ter dito e impedido que eu publicasse aquela coisa tão imatura”.

“Diabolô” só nasceu por causa do Milton Rosendo e da Brisa Paim, que ficaram no meu pé para que me inscrevesse no LEGO. Eu tinha 5 contos prontos e vários textos inacabados. Eles me pressionaram, e me pus a trabalhar. Um dos contos estava parado havia muitos anos, porque eu pretendia que ele fosse um romance, mas eu não conseguia continuar. Quando retornei a ele, percebi que estava com dificuldade simplesmente porque ele não era o embrião de um romance, mas um conto em sua metade. “Diabolô” foi escrito durante 15 anos.

Universidad de Salamanca – 2013

Diabolô dialoga com as temáticas como perda da infância, abusos sexuais, voyeurismo, além de ter uma história sólida, bem ambientada. Esses temas marcam a tua literatura?

Marcam sim, e muito. Na verdade, marca meus textos a perda da inocência, seja por que via for. Quanto à história “sólida, bem ambientada”, isso é uma obsessão. Preciso construir um mundo físico, não necessariamente explicitado, mas pelo menos aludido. É preciso que haja solidez, quase fisicalidade. Minha cabeça é muito fluida, volátil, volúvel, muito gasosa ou aquosa, e preciso de algo sólido. Como tenho dificuldade de apreender esta coisa redemoinhando aqui dentro, preciso ao menos segurar um objeto sólido, para que haja algo em que eu possa acreditar.

Tento escrever com essa preocupação porque preciso acreditar em algo, preciso acreditar naquele mundo que escrevo, ele não pode parecer vago demais. Se nem aquilo que escrevo tiver presença física ao ponto de eu dizer “é”, eu tô ferrado.

De certo modo, isso é porque busco fugir de mim, do que seria eu, ao escrever – busco, mas não sei se consigo. Sempre tive dificuldade em me querer e isso se manifesta também na literatura. Por isso, geralmente não gosto quando meu texto parece ser um fluxo de minha consciência, uma confissão. Claro, há textos literários maravilhosos que são dessa natureza, mas sempre tentei fugir de escrever assim, porque não me agradava me ver nos textos, eu sempre buscando que fossem “um outro para bem além de mim”. Apesar disso, sei que isso tudo é bobo e em vão. Um dos contos de “Diabolô” que agrada mais as pessoas é justamente um que quase não entrou lá – entrou porque amigos me disseram para mantê-lo: “Manual do como manusear”. Aquilo é extremamente confessional, eu estava tentando dizer a mim mesmo algo, e no final, tive de desdizer. Eu estava numa paixão da porra, e precisei escrever aquilo. Quando terminei de digitá-lo, eu estava tremendo, realmente tremendo, tendo espasmos e chorando, lacrimejando muito em frente ao computador, as mãos tesas e tremendo sobre o teclado.

Sei que possivelmente meus melhores textos, no futuro, serão aqueles em que eu não tenha medo de me querer. Um dos romances que estou escrevendo trata justamente dessa relação entre autor escritor e autor objeto da escrita. Preciso me libertar desse temor e ver que eu também posso ser matéria de minha arte, ver que eu não sou de todo desinteressante. Algo que me ajudou nisso foi o período em que fiz a série de performances “Hóstia”. Aquela exposição foi lasca. Eu sofri muito, eu passava mal, tinha dores de cabeça, febre, porque a exposição é muito grande. Ali, eu era um ator que recitava os próprios textos. Ali, tive consciência de uma coisa no trabalho de um ator que não é alguém de ego enorme, mas é alguém que abre mão do próprio ego para que a personagem exista. Na performance, no palco, não estou ali porque quero me mostrar, mas porque preciso mostrar algo, e esse não é eu. São palavras, são alguém… É doloroso e é solitário.

O Diabolô (2011) chegou a ser considerado como um dos destaques entre os lançamentos daquele ano. Você ainda colhe os frutos do livro? O que ele te possibilitou no meio literário?

Fiquei muito contente com a resenha que o Alfredo Monte escreveu em seu blog, o Monte de Leituras. O Alfredo foi um leitor muito importante para mim. Ele leu o livro antes de ser publicado e suas observações me ajudaram muito. Alfredo fez uma resenha sobre o livro  e também o citou como um dos destaques ficcionais do ano de 2011 .

Também foi falado sobre o livro no programa Leituras da TV Senado, apresentado pelo Aguinaldo Tadeu, com comentários de Maurício Melo Júnior a respeito de obras literárias.

A publicação de “A ceia” na Machado de Assis Magazine rendeu-me contato com uma agente literária alemã. Há alguns anos, ela me procurou, interessada em um romance meu para tentar colocá-lo no mercado europeu. Eu lhe falei do livro de contos, mas ela me disse que as editoras e o mercado não queriam contos e sim romances. Então, quando eu tiver escrito, enviarei para ela – o que não posso é forçar um romance apenas por causa da possível publicação na Europa ou por causa de algum prêmio cujo período de inscrição vai até um determinado mês. Os livros sairão quando for a hora deles.

Eu disse isso acima, mas disse com muita dúvida, afinal há tantos livros escritos rapidamente, numa sentada… Tenho dúvidas se o que digo é real ou é desculpa para a preguiça, se é real ou é mais uma das muitas sabotagens que faço comigo mesmo. Mas, atualmente há dois romances sendo gestados simultaneamente, e sairão quando for a hora. De repente, posso parir gêmeos. Sobre eles, digo apenas que se passam em Maceió. Tudo meu se passa aqui em Alagoas, principalmente no Prado – o Prado é minha principal geografia.

São Paulo, 2014

Tanto o livro de poesia como o de contos têm temáticas que giram em torno da infância. Essa referência é intencional ou o tema é um problema e você tenta tratá-lo na literatura? Como foi a tua infância?

Rapaz, a infância é o sopro que o vidraceiro dá sobre o vidro líquido. Infância é lasca.

Veja: acho lindo quando vejo pessoas (adolescentes, jovens adultos, adultos) que se gostam muito, pessoas que não estariam nas capas de revista de “beleza” e se acham bonitas. Olho para elas e digo: que massa, que inveja delas, como isso é lindo, alguém simplesmente ver-se no espelho e dizer: “eu me amo, eu me comeria, eu daria pra mim”. Muitas dessas pessoas, quando crianças, ouviam os pais dizerem que elas eram lindas, que eram isso, que eram aquilo. Agora vai a mãe ficar falando o tempo todo: tome remédio, tá muito magro, você é burra, você nunca vai acertar isso… breu, breu, breu. Lascou foi tudo. A pessoa vai precisar de muita força pra soprar forte de dentro e reenformar o vidro.

Minha infância foi rica, rica de tudo: Praia do Sobral, rua de barro, quadrilhas juninas, ida a pé até o centro, cinema São Luiz, cinema Lux (entrando sem pagar, escondido), cinema Ideal (a Paixão de Cristo, o cinema lotado, e a Fernanda Montenegro de Samaritana)… foi ter medo de sair de casa porque algum menino mais velhos iam me bater, porque um adulto ia me chamar de viado, porque um menino da minha idade ia ser instigado pelos mais velhos para correr atrás de mim e me bater… foi ser apaixonado pela vizinha dos 04 aos 14 anos de idade, e ela dizer um dia, quando eu tinha entre 09 e 11 anos, logo após ela começar a namorar com o menino mais belo da rua: “eu gosto dele pra namorar, mas gosto de você pra sarrar” e eu me ver ali, naquele instante, como objeto e como alguém que não poderia ser assumido e/ou mostrado para os outros… foi muita sexualidade desenfreada, adultos nus na frente de crianças, crianças soltas na rua… A infância foi um caldeirão e tinha tanta coisa lá, que não sei distinguir os gostos. Só sei que nada existe igual àquilo.

O livro de poesia Ouriço, ainda sem lançamento previsto, contém dez poemas que trazem imagens sobre sexo, paixão e outras sensações entre dois homens. A homossexualidade hoje é um tabu na literatura? Aproveita para falar sobre a obra.

Rapaz, sexo é uma coisa, né? Ora é proibido, e ninguém pode falar a respeito, ora é “o barato da hora”, e ganha programa televisivo em horário nobre da TV aberta.

Poxa, sexo é uma força enorme, é nossa maior força material – sendo assim, alguém/ algo que vise a dominar as pessoas vai sim querer culpabilizar o sexo ou enfraquecê-lo, domá-lo. Geralmente, as pessoas que mais me meteram medo ou que me pareceram mais fortes foram justamente as mais liberadas sexualmente. Uma pessoa liberada sexualmente é indomável.

Então, demoniza-se isso, de modo a sequer podermos falar palavras relacionadas a esse âmbito.

Uma vez, dando aula num cursinho, eu disse um “palavrão”. Pouco depois, recebi um bilhetinho de um aluno ou uma aluna, reclamando do palavrão. Então, respondi algo mais ou menos assim: “A palavra que eu disse refere-se a uma parte do corpo humano. É apenas uma palavra para dizer essa parte. Escutem: se a pessoa que me escreveu o bilhete não consegue se relacionar com um nome de uma coisa, então não sei como ela poderá se relacionar com a coisa”.

O livro terá muita nudez, imagética e verbal. E minha busca nos poemas, e a busca minha e de Vanessa Motta nas fotos, foi a de tratar do corpo masculino e do sexo entre homens de modo a expressar a beleza que há ali.

Como digo nuns versos do livro: “quanto de leveza / pode haver sob o áspero // o peito do ouriço, acaso, tem espinhos?”.

O livro busca – talvez – mostrar o que há de delicado sob a capa ríspida que nossa cultura exige que se jogue sobre o homem.

Mesmo morando em Alagoas, você é um escritor conhecido nacionalmente, chegou a ter um conto publicado na revista Litro, da Inglaterra, junto com os escritores João Paulo Cuenca, Adriana Lisboa e Angélica Freitas, entre outros. Como foi essa experiência?

Homem, isso que você falou de eu ser conhecido nacionalmente me provocou foi riso – sério! Sou conhecido nada, rapaz. Sou conhecido como todos nós somos conhecidos nestes tempos de redes sociais. Todos já “ouvimos falar de”, “já vimos algo de”, daí a ser conhecido acho que vai uma boa distância.

A publicação na revista foi algo que aconteceu assim: eu queria publicar no meu blog um conto meu traduzido para outro idioma. Pesquisei nomes de tradutores profissionais, pedi sugestões – a Denise Bottmann sugeriu-me alguns nomes, dentre eles, o da australiana Alison Entrekin. Li entrevistas dela, gostei do currículo, pois ela já havia traduzidos livros do Chico Buarque, Cristóvão Tezza, Paulo Lins, e estava traduzindo “Perto do coração selvagem”, da Clarice Lispector (depois, ela veio a traduzir os contos completos da Clarice para o inglês, na edição que foi tão elogiada internacionalmente).

Bem, olhei para ela e pensei: “é essa”! Escrevi-lhe um email, tratamos de questões de preço, escolhemos o conto a ser traduzido. A experiência foi muitíssimo interessante, as conversas via Skype atrás de possíveis soluções para as construções do texto original foi algo muito gostoso.

Após ter terminado o trabalho, Alison disse que poderia ser bom eu não publicar no blog, mas tentar publicações em revistas estrangeiras. Sugeriu-me uns nomes, dando destaque a alguns deles. Tempos depois, “A fresta”, como “The crack”, saiu na Litro. Mas, nunca sabemos até onde chegamos, até que distância nosso nome alcança. O palpável e muito gostoso é, por exemplo, receber pelo whatsapp uma mensagem de alguém dizendo que leu um conto e gostou muito – e mandar junto à mensagem uma foto do livro. Isso sim é palpável, isso sim é real.

Poxa, quantas vezes vi, vimos ou vemos nos jornais títulos como “a grande revelação da literatura”, “o novo nome da literatura”, e a pessoa meses depois nunca mais é citada? Deus me proteja da ilusão de acreditar em algo assim. Quero solidez, que de vago basta eu.

Além de escritor, você também é roteirista, dramaturgo, ator e preparador de elenco. A experiência no teatro e no cinema te ajudou de alguma forma a construir suas narrativas?

Muitas vezes me cobrei e me cobro por essa multiplicidade; muitas vezes me digo ou me dizem: faz monte de coisa, faz nada direito; faz de tudo, nada fica ótimo; faz isso e aquilo, nunca se aprofunda.

“Que porra: Charles Dickens foi escritor e ator” – é o que fico me dizendo – para deixar de pensar nisso como um problema.

Na verdade, todas essas coisas lidam com algo que é o seguinte: a criação de personagens. Eu trabalho com criar/ ser/ dar vida/ ajudar a dar vida a personagens, seja como escritor, ator, diretor, preparador de elenco… O que eu quero e preciso fazer é criar personagens, não pela simples vontade se ser personagens, mas por conta da grande riqueza que temos em nós, do grande arsenal de afetos, do imenso açude de vazios e quereres. E materializar isso é uma maravilha.

Qual sua impressão sobre a literatura nacional contemporânea? Ainda há bons escritores e muito para ser dito?

Tudo que é contemporâneo é um pouco difícil de ser apreendido, pela muita proximidade. Na verdade, tudo parece difícil de ser apreendido, seja por estar perto ou por estar longe. Claro que há bons escritores e boas escritoras. E claro que há muito para ser dito. E mesmo que não se diga algo novo, é interessante ver como uma determinada pessoa falou sobre algo muitas vezes já tão batido.

A literatura nacional contemporânea é muito diversa, e isso é bom. Há livros para todos os gostos, e isso é bom. Há escritores e escritoras jovens e que possivelmente nos darão ótimos livros futuramente. Há quem lançou livros não incríveis, mas que vem amadurecendo. É bom isto de escrever mesmo sem nos dar uma obra-prima, e ir amadurecendo enquanto escreve e lança novos livros.

Melhor isso do que o medo, melhor isso do que esperar escrever o “imenso novo grande indiscutível livro” que a pessoa nunca consegue escrever.

O que é ser escritor em 2017 morando num dos estados com maiores índices de analfabetismo do país?

A questão não é “ser escritor” em Alagoas, mas ser alguma coisa em Alagoas. O analfabetismo é apenas um dos tentáculos do enorme polvo que é Alagoas, e que joga constantemente tinta sobre nós, para nos confundir, aturdir… para empreender fuga, ficar inapreensível.

Qual a sua impressão sobre a literatura alagoana, essa galera nova que vem surgindo e nomes já consagrados. Costuma ler esses autores conterrâneos?

Gosto de que esteja havendo muita gente publicando. Gente escrevendo, sempre houve. E também havia gente publicando, mas apenas quem tinha grana para pagar edições particulares. Com os editais e com o advento da internet, mais pessoas podem publicar e mostrar seus trabalhos. Isso é bom.

Temos uma grande diversidade, temos diversos modos de escrever literatura, dialogando com diversas pessoas que escreveram antes de nós, dialogando mesmo que seja para dizer “não”.

Tenho lido algumas das pessoas que estão publicando por aqui. Leio menos do que deveria, mas é que tenho há anos uma enorme dificuldade para dar cabo de qualquer leitura. Minha ansiedade só me tem permitido ler mensagens no whatsapp, capas dos livros que eu gostaria de um dia ler, ou placas de carro – para ver se o Über é aquele carro que tá chegando perto de mim.

Mas, há umas pessoas que eu não poderia deixar de citar. Gosto muito dos livros do Sidney Wanderley, gosto da poesia dele. Gosto da prosa da Arriete Vilela – a poesia dela não me pega, mas a prosa eu acho que tem uma força danada, uma coragem danada. Parece que a Arriete, na poesia, edulcora as coisas, enquanto na prosa ela arremete sem dó. Na primeira edição do Prêmio Lego, tivemos três nomes que têm de ser ditos aqui, alfabeticamente: Brisa Paim, Milton Rosendo, Tázio Zambi.

“A morte de paula d.”, é uma paulada, é uma porrada, na linguagem e no tema. Acho difícil uma mulher ler aquilo e ficar impassível. E não falo isso porque seja “livro para mulheres”, mas por causa do que se conta ali, por causa do drama da narradora. Acho que a possibilidade de identificação é enorme, e certamente trará consequências para quem o ler. Ela também é ótima poeta, e espero ver lançados os seus poemas. O Milton Rosendo é um poeta monstruoso, ele é um monstro! “Caos-totem”, recém lançado, é um livro que eu amo desde que escutei os primeiros poemas dele, ao telefone. Eu torcia muito pela publicação desse livro , tanto que não consegui escrever sobre “Os moinhos”, porque, quando foi lançado, eu já havia lido “Caos-totem”. O Milton ficava puto comigo por causa disso. Acho que ele é um dos maiores autores da nossa língua. Mas, “Moinhos”, por sua característica antologizante, não é um livro tão grande quanto o seu autor. Ele é uma amostra do que ainda viria. Nesse livro, estão em gérmen o que o Milton publicou ou publicará após sua estreia. Há poemas incríveis, lindos, que nos humilham, mas é um livro que carrega poemas escritos em diferentes fases, e com qualidades distintas. É um livro bastante heterogêneo, no que diz respeito aos tipos de poemas e a suas qualidades, mas ali há muita coisa que muitos de nós lamentamos não termos escrito. Quanto ao Tázio, eu gosto demais de “Retráteis”, que, para mim, é um romance, e não um livro de contos. É uma prosa muito densa, quase mesquinha. Tázio nos dá muito com muito pouco. As elipses, ali, dão nó na nossa cabeça. Um dia, eu disse a ele, e já disse a outras pessoas, que, ao ler o livro, eu me disse que, possivelmente, João Cabral de Melo Neto, se escrevesse prosa, escreveria daquele jeito. Gosto mais da prosa do Tázio do que dos poemas. Os poemas dele parecem querer alguma evanescência. Por isso, gosto tanto de “Retráteis” e da sua natureza meio pétrea.

Gosto de “Baroque.doc”, do Ari Denisson, premiado na segunda edição do Lego. Gosto por causa do modo como ele brinca e gosto por causa do enorme domínio técnico que o Ari demonstra ter. É um livro para se ler com um riso na cara e também com uma admiração pela técnica. Mas, já me perguntei algumas vezes se ele conseguirá sair do compasso da técnica e do riso. Acho que um próximo livro de poemas poderá me responder isso.

Os editais da Imprensa Oficial permitiram que muitos autores fossem publicados. Gosto muito das obras de alguns deles. De outras, não gosto, não me pegam, mas sei que devem ser boas, porque há pessoas que gostam bastante, e pessoas que são leitoras exigentes. Tento me vigiar para não dizer que um livro é bom ou ruim, mas apenas que gosto ou não gosto. Meu gosto não é critério para a qualidade de algo. Sempre me parece o seguinte: uma pessoa que elogia muito aquilo de que ela gosta está, na verdade, tentando elogiar-se como quem é boa leitora, como quem sabe reconhecer o que é bom etc.

Sobre os publicados pela Imprensa… Gosto do livro “Das horas”, do Bruno Ribeiro, que me parece ter encontrado uma dicção bem própria. O Bruno escreve com uma economia invejável, com imagens certeiras e belíssimas. Ele me parece o mais lírico de nossos poetas. Mas, de um lirismo nada fácil, nada raso, nada convencional. Há o Sérgio Prado Moura, que estreou com “Apuê”, um livro de contos que, para mim, ainda não é um grande livro, mas é um livro “correto”, e que mostra que o Sérgio nos dará ótimos livros. Os seus textos atuais têm bastante força, a sua linguagem está cada dia mais densa. E ele também se tem aventurado na seara dos poemas – alguns de seus hai-cais são deliciosos. Richard Plácido, com “Entre ratos & outras máquinas orgânicas”, nos deu uma poesia deliciosamente desagradável, umas pauladas, umas imagens… Richard tem uma força enorme. Há outros que li ou folheei, e são elogiados e têm qualidade, mas cujos livros não são “do tipo que me pega”, mas sei que preciso/devo dar atenção, porque são bons, têm qualidade, e preciso ter coragem e deixar de lado a preguiça e a mesquinhez de ler apenas o que se afina com meus gostos imediatos: Ana Maria Vasconcelos, Arthur Buendía, Gabriela Hollanda, Magno Andrade. Eles são um pessoal que conheço e de que gosto muito, mas cujos primeiros livros não me deram onda. E agora, escrevendo isto, me pergunto se eu não deveria relê-los ou lê-los com mais atenção – “sim”, eu me respondo que “sim”.

Cito agora uma frase que acabei de ler, frase de uma entrevista do António Lobo Antunes: “É uma chatice. Há escritores de quem eu gosto que não são bons, e há escritores bons de quem eu não 
gosto…”. Acho isso arretado demais. Arretado. A questão do gosto é algo que precisamos sempre levar em conta.

Continuando: há também quem ainda não teve seus textos publicados em livro, mas a cujos escritos eu tive acesso, e torço para que sejam editados. Há a Amanda Prado, que tem um livro de contos inéditos, com uma prosa que acho incrível, de uma força pouco encontrada entre os que escrevem narrativas por aqui. Há muita gente escrevendo, e isso é muito bom. Da Lyslei Nogueira, por exemplo, já vi textos que me mostraram uma prosa que era como se alguém quisesse dar um golpe econômico e fatal.

E há o Wibsson Lopes, cuja ficção ainda está sendo gestada, mas que nos tem dado textos de crítica publicados regularmente na internet. Acho até que ele poderia ser um dos entrevistados aqui. Não como escritor de ficção, mas como leitor e crítico.

Casa do Sol, entre 1998 e 2003

Você morou uma época da sua vida em São Paulo e chegou ter contato com as escritora Hilda Hilst e Lygia Fagundes Telles.

Meu contato com a Lygia vem desde março de 1987, quando li o romance “As meninas” e me apaixonei – eu estava prestes a completar 17 anos. Depois, fui lendo toda a sua obra. Nesse mesmo 1987, tentei entrar em contato com ela, através de sua editora. No final do ano, Lygia me mandava livros. Daí, começamos a nos corresponder. Em 1990, conheci-a pessoalmente.

Hilda, eu conheci quando li “A obscena senhora d.”, num exemplar que comprei no Sebo Nossa Senhora da Conceição, que ficava perto da Santa Casa de Misericórdia, e era administrado pelo seu Roberto. Li em 1988. Não sabia da amizade entre ela e a Lygia. Li e gamei.

Em 1990, na Bienal do Livro, Lygia me apresentou à Hilda. Levei o livro, ela autografou, colocando nele o seu endereço e telefone e me dizendo para ir visitá-la. Algumas semanas depois, eu fui.

A partir de então, sempre ia à Casa do Sol. Dos cachorros que moravam lá, o de que eu mais gostava era o Marujo. Ele me reconhecia quando eu chegava, e ficava festivo. Foi lá que pela primeira vez comi lentilhas – no final do ano, na virada do ano, havia lá o costume de se comerem lentilhas. Íamos ao quintal, abraçávamos a figueira, fazíamos nossos pedidos, celebrávamos.

A casa era muito frequentada. Mas, perto de ela morrer, quase ninguém aparecia por lá. Ela morreu em 2004. Nos dois últimos anos, eu costumava visitá-la, visitar Olga e Mora Fuentes, seus grandes companheiros.

No réveillon anterior à queda da Hilda, fui a Campinas – a queda que depois lhe trouxe complicações na saúde. Decidi que passaria lá a virado do ano. Foi jóia. Tenho fotos dessa noite. Fui porque queria, de certo modo, me isolar do mundo, pensar em Deus, cuidar da parte espiritual, mas o corpo não me deixava quieto. Eu estava na Casa do Sol, e pensava nas festas em São Paulo, pensava na Avenida Paulista. Decidi então que no ano seguinte eu passaria o réveillon em São Paulo, e iria para a Casa do Sol no outro dia. Fiz como pretendido, e no ano seguinte, após o réveillon, telefonei para a casa da Hilda, dizendo que iria visitá-los, então recebi a notícia de que ela havia caído durante a noite, e estava no hospital. Nunca mais eu a vi lúcida. Na última vez que a visitei, ela estava deitada numa cama de hospital em Campinas, sedada e com pneumonia. Fomos visitá-la eu, Olga, Mora Fuentes.

São Paulo, 1990

Os anos em que visitei a Casa do Sol foram muito ricos e variaram bastante, porque nossa relação foi mudando à medida que eu mesmo mudava. De início, eu era um rapaz de 20 anos de idade e que queria ser ator: então, sempre que eu estava lá, a Hilda, à noite, me pedia que eu lesse trechos de seus textos. Adorava quando eu lia o começo de um dos textos de “Fluxo-Floema”, eu acho que era o “Osmo”. Eu amava ler os textos. Uma vez, a Lygia havia me dado um livro de sonetos do Shakespeare durante o Natal (ela sempre me dava livros no Natal: Shakespeare, Tchekhov, Ismail Kadaré, Philip Roth…). Levei o livro, e a Hilda me disse para ler um dos poemas. Eu li, achando que estava arrasando. Ela me tomou o livro das mãos, dizendo: “Você não sabe ler poesia”. Depois, leu o poema a seu modo. Confesso que, naquele momento, não vi diferença alguma entre nossas leituras, mas certamente havia diferenças, só que eu ainda não era capaz de perceber.

Outro momento interessante era quando ela lia trechos dos livros que estava escrevendo: “Bufólicas”, “Contos de Escárnio”, “Cartas de um sedutor”. “Bufólicas”, ela tinha planos de que fizéssemos uma apresentação no teatro. Falando em teatro, adaptei “A obscena senhora d.” durante uma noite em que dormi lá. Amanheci tremendo, a experiência foi muito forte. Amanheci chorando. Mais tarde, mostrei a ela. Ela gostou muito. Pediu que eu mostrasse a adaptação a dois grupos que estavam montando espetáculos baseados nele: um era de Santa Catarina; o outro era formado pelo José Mayer e por sua esposa – mas, eu não dei valor a isso, e levei o texto para o grupo de teatro da faculdade.

Sobre “Cartas de um sedutor”, eu estou no livro. Há um trecho em que o narrador fala de uma pensão e das pessoas que moravam lá. Era a pensão em que morávamos eu e o Jurandy Valença, e as coisas sobre a pensão eram as histórias que contávamos para ela. Num trecho do livro, está isto: “Digo: um colar de anêmonas te circunda a cara e aos meus olhos ganhas definitivamente uma moldura. Olha-me lânguido… É, isso é bonito. E Valença e Resende que chegaram há pouco repetem juntos, pausados: um colar de anêmonas te circunda a cara e aos meus olhos ganhas definitivamente uma moldura…”.

Na primeira versão, ela colocou mais ou menos assim: “Digo: um colar de anêmonas te circunda a cara e aos meus olhos ganhas definitivamente uma moldura. Olha-me lânguido… É, isso é bonito. E Jurandy e Nilton que chegaram há pouco repetem juntos, pausados: que massa…” – e o texto continuava, mas eu, no cotidiano, falava “massa” tantas vezes, que um dia a Hilda me disse, repreendendo-me: “Não aguento mais ouvir essa palavra. Vou até cortar do livro, não aguento mais” – e cortou, huahuhauhaua. De início, ela achou tão “massa” a palavra, eu falando, que colocou no livro – mas o excesso fez com que começasse a detestar, haha. Desde então, eu ficava sempre me vigiando para ver se uma “massa” não me escapava da boca. Me vigiava também para não coçar o saco. Um dia, ela me disse: “Para com essa mania de ficar coçando o saco. Por acaso você faz isso na frente da Lygia?”.

Só uma vez estivemos juntos os três, e foi quando fomos apresentados. Nas outras vezes, estávamos juntos por telefone, quando Hilda telefonava para Lygia e ficávamos nos alternando ao telefone. Eu não sei dirigir, não tenho habilitação. Elas duas nunca foram ótimas no volante. Hilda disse, um dia, que seria um desastre se dessem um fusca para cada um de nós e nos colocassem dentro do Maracanã. Ia ser um acidente terrível, com certeza.

Sobre literatura, ela me falava que eu lesse os grandes, os que trabalhavam a linguagem. E me falava de três romances: “Grande sertão: veredas”, do João Guimarães Rosa; “O pássaro da escuridão”, da Eugenia Sereno; “A madona dos páramos”, do Ricardo Guilherme Dicke.

Em poesia, ela amava Jorge de Lima. A primeira vez que folheei “Invenção de Orfeu”, foi no exemplar dela, uma edição antiga da Coleção Prestígio, da Ediouro.

Nossas conversas, com o tempo, foram mudando de tom. Tive minha experiência mística, e depois disso ficávamos falando sobre Deus. Havia encontros em que ficávamos em silêncio um em frente ao outro, apenas sentindo a presença um do outro. Quando ela estava no hospital, e eu estava na Casa do Sol, as pessoas estranharam quando eu falei que a morte seria para ela o grande evento, e que não poderíamos ficar tristes. Estranharam, olharam-me assim assim. E eu disse que toda a obra dela era uma grande pergunta a Deus, e agora finalmente ela O encontraria, então não poderíamos nos entristecer, porque seríamos egoístas.

Ah, eu gosto de perfumes, ela gostava de perfumes, e me dava uns de presente. Sobre a mesa do escritório, havia um boião com um perfume muito gostoso. Às vezes, quando eu entrava lá, ela colocava uma mão dentro do boião, molhava-a e passava-a em mim, perfumando-me. Isso era uma delícia.

No ano em que fui passar o réveillon em São Paulo, para depois visitar a Hilda, levei um perfume para presenteá-la. Mas, ela não iria poder usá-lo. Dei-o então à Olga. Era um perfume suave, gostoso, daquele que tem cheiro de banho tomado.

Tenho saudades dela.

Tenho saudades de muita coisa, e também tenho saudades de muitos livros. Uma tarde, visitando a Lygia, ela disse que estava se desfazendo de parte da biblioteca, e iria me dar uns livros. Daí, deu-me algumas obras que foram importantes para sua formação. Deu-me a obra completa do Jorge Luís Borges em espanhol, editada pela Emece; a obra completa de Edgar Allan Poe, em capa dura, livros grandes, acho que em dois volumes, com toda a prosa, poesia e ensaios; coletâneas de contos norte-americanos, com Melville, Faulkner… Ela me deu caixas de livros, que dias depois eu iria vender em sebos de São Paulo, porque eu estava tendo uma experiência religiosa e queria ser santo e não tinha dinheiro e precisava ajudar no sustento da família com quem eu estava morando e queria ser santo e os livros eram algo tão importante que eu teria de abrir mão deles como abri mão de fotografias e cartas e tudo que me ligasse à minha vida antes de quando eu disse para mim que queria ser santo. Breu: vendi todos os livros que ganhei da Lygia, vendi todos os meus livros que minha mãe levou a São Paulo, numa sacola enorme… Porque naquele período eu tinha ganas de absoluto, eu disse não a tudo que pudesse me desviar do que eu perseguia naquele momento.

Já disse à Lygia sobre isso, há alguns anos. E ela me entendeu.

Ainda não disse à minha mãe que me dói muito quando eu a imagino viajando de Maceió a São Paulo para atender os caprichos do filho de 21 anos de idade, que de repente quer com ele os principais livros que estavam na sua estante. Eu não disse, ainda, porque tenho medo de bater o tapete e de repente a poeira nos sufocar. Olha, eu me esbofetearia muitas vezes se eu pudesse me encontrar comigo naquele idade. Eu era um idiota arrogante, arrogante com minha família, com meus amigos. Arrogante com minhas irmãs, minha mãe, meu pai… Minha mãe levou os livros que estavam na minha estante-escrivaninha, que eu ganhei dela aos 16 anos de idade, quando passei pela primeira vez no vestibular. Até hoje eu tenho esse móvel, que é a coisa/ lugar mais importante de minha casa. Durante a adolescência, eu deitava no chão e estirava as pernas, apoiando-as no móvel. Eu e minhas irmãs brincávamos de adivinhar onde estavam os livros – eu sabia a localização de todos, pois eu limpava os livros semanalmente. Deitava-os sobre a cama, limpava-os, e depois ia rearrumando-os nas prateleiras, cheias dos livros comprados por mim, por meu pai…

Eu me desfiz dos livros que a Lygia me deu, mas a literatura dela, com os autores de que gostamos, está tão encravada em mim, que não sai mais. Uma tarde, no apartamento dela, ela tocou minha mão e me disse: “Você pegou o bastão” – referindo-se a uma corrida de revezamento em que ela já tivesse feito sua parte e eu agora pisasse os pés na pista. Eu respondi: “Peguei, Lygia”.

Sobre meus escritos, eu nunca fui de mostrá-los a elas. Eu sempre quis que meus livros vencessem sem a intervenção delas. Quando escrevi meus primeiros poemas, eu os mostrei à Hilda. Antes disso, passei um tempo deprimido, sofrendo por amor. Ela me lia trechos engraçados de seus novos livros, e eu não conseguia rir, porque ali havia sexo, havia corpos, e tudo que estava ligado a sexo me fazia sofrer. Numa leitura de um trecho do “Cartas de um sedutor”, ela parou, rindo, olhou para mim, esperando que eu também risse, e perguntou o que eu achei. Eu falei: “Hilda, eu não consigo rir”. Ela explodiu: “Ah, vá ler Almanaque do Pensamento, porra”. Anos depois, mostrei a ela alguns poemas que escrevi naquele período. Ela me disse: “Nilton, você amou”. Sobre a prosa, a Lygia havia lido o “Diabolô”. Então, me telefonou para falar sobre ele. Ela me disse que eu havia “cavalgado as palavras”. E depois de falarmos mais um pouco, ela baixou a voz e falou, imitando o garoto do conto “A ceia”: “Ganhei, ganhei”. Poxa, ouvir a Lygia repetindo para mim a fala do garoto foi algo muito louco, muito bom. De vez em quando, tento escutar de novo, fecho os olhos e busco aquele momento, busco a Hilda passando perfume no meu rosto, busco a Lygia sorrindo para mim enquanto a Hilda autografa o meu “A obscena senhora d.”.Eu as amo muito.

O que acho muito interessante é ver as diferenças entre as duas. Uma vez, em 1991, Hilda me convidou para morar na Casa do Sol – eu iria sair do emprego e morar lá, ficar lendo, ficar escrevendo… Mas, havia um problema no qual eu não queria/conseguia pensar: minha família não tinha grana, e eu estaria totalmente à mercê da Hilda. No período em que morei em São Paulo, minha família aqui em Maceió passava por muitas dificuldades financeiras, e eu, lá em Sampa, alienava-me totalmente dessa situação. Eu vivia como um idiota deslumbrado e insensível que não estava atento aos enormes sacrifícios feitos pela minha família – inclusive, sacrifícios para que eu me mantivesse em Sampa. Quando Hilda me convidou, fui a uma agência da Telesp próxima à pensão em que eu morava, ao lado da Brig. Luiz Antônio, comprei umas fichas e liguei para a Lygia, de um orelhão público. Comprei muitas fichas, porque julguei que a conversa seria bem longa. Eu disse a ela sobre o convite da Hilda, e ela me perguntou o que eu iria ficar fazendo lá. Eu disse que ia ler, escrever… Ela disse que aquilo era romantismo. Eu disse que não, que seria ótimo… e eu disse que não era isso, que eu iria ler e escrever. Então, ela me perguntou a grande pergunta: “Nilton, me diga uma coisa: quando sua cueca rasgar, quem vai comprar uma nova pra você?” – isso me desmontou, isso me deu a real noção de tudo. E por causa da cueca, não fui morar na Casa do Sol. E depois eu fiquei contente por isso, porque certamente eu teria sido engolido pela presença da Hilda, e talvez tivesse me transformado num pastiche dela. Se eu tivesse ido morar lá, não teria tido a experiência religiosa que me marcou a vida. No fim, tudo foi melhor daquele jeito. E a conversa foi curta e certeira – saí da agência da Telesp com montes de fichas telefônicas. Quando a Lygia me liga até hoje me pergunta: “Nilton, e o emprego?”.

Na última conversa com Hilda, eu estava pensando em largar tudo para me dedicar à arte, então ela me disse o que Lygia já sabia e já havia me dito antes, quando me perguntou sobre a “cueca”: “Nilton, não largue o emprego”, me disse a Hilda. “Eu pude me dedicar inteiramente à arte porque tive sorte, fui uma herdeira. Mas são poucos que têm isso. Eu fui uma exceção. Não se torture por isso. Eu não sou um exemplo, sou uma exceção. São poucos os que podem se dedicar inteiramente à arte. Mas, esta casa aqui também é sua, você pode vir sempre que quiser; quem estiver aqui sempre vai deixar você vir aqui, se hospedar, ficar quanto tempo quiser, porque esta casa também é sua”. Foi nossa última conversa, e não retornei à Casa do Sol depois de sua morte.

Prestando atenção ao episódio do convite da Hilda para eu morar na Casa do Sol e à intervenção da Lygia para me impedir, constato o seguinte: Hilda se preocupava com eu estar num “lugar ideal para ser escritor”; Lygia sempre se preocupou e ainda se preocupa com eu estar “vivo e livre o suficiente para ser escritor” – o “teto todo meu” não me seria dado na casa de outra pessoa, mas teria de ser construído por mim mesmo.

Elas são duas das pessoas mais importantes da minha vida.

Qual o melhor momento para escrever. Costuma ter alguma rotina? Escreve diariamente? Quais são tuas influências?

O melhor momento para escrever é quando eu consigo escrever. Há tempos tento ter uma rotina, mas é difícil. Toda semana prometo conseguir, mas é difícil. Comprei uma máquina elétrica, para não ter de usar o computador, para poder ficar menos perto da internet – a internet me ferra direitinho.

As minhas influências são várias, na prosa e na poesia. Tudo que a gente lê vira influência. Mas, há os principais, né? Na poesia: Hilda Hilst, Jorge de Lima, T. S. Eliot, Cecília Meireles, Adélia Prado, John Milton, Homero, Carlos Drummond de Andrade, G. Manley Hopkins e alguém de que me esqueci. Na prosa: Lygia Fagundes Telles, Cornélio Pena, Henry James, Emily Brontë, William Faulkner, Graciliano Ramos, Thomas Mann, Charles Dickens e outros alguéns de que me esqueci.

Entrando na onda das listas, indica 5 livros lidos em 2016 e comenta um pouco sobre eles.

Não direi lista de lidos, porque há anos eu não consigo finalizar a leitura de um livro. Todos estão inacabados. Eu apenas beijo os livros, afago – trepar com eles, que seria muito bom, isso não acontece.

Para finalizar. Quais são os próximos projetos?

Publicar o “Ouriço”. Escrever os dois romances que estão me atormentando e me dando o prazer de estar pensando neles. Escrever os outros romances rascunhados. Atuar como ator, em cinema ou teatro. Dirigir algum filme. Ter menos medo, exercitar ter menos medo, até não ter medo, até restar apenas o medo do que possa realmente me destruir, e de que não deverei ter medo, mas apenas deverei evitar.

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