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chame a tristeza pra dançar

jardineira(Fábio, Grace, Audijan, Eu, Solange, Isabel, Luciano – Marcos estava tirando a foto)

 

Em 2012, fomos (um grupo de amigos) passar o carnaval no Rio de Janeiro. Um grupo lindo e muito heterogêneo — em comum, o carinho/amor mútuo e a vontade de celebrar os dias de festa.

Mas, já na primeira noite, logo após nos arrumarmos na casa e irmos  às ruas (estávamos no bairro de Santa Teresa), a alegria imensa do lugar e a empolgação nos rostos de todos e a beleza dos corpos, em vez de me alegrarem, encheram-me de uma tristeza imensa — o desejo de celebrar a festa deu lugar a uma repentina depressão. Eu não conseguia beber, eu não conseguia me incluir no grupo, eu não conseguia pular, eu não conseguia sambar, eu não conseguia dançar.

Voltei para a casa e, tremendo, chorei muito. Telefonei para o eMe (meu amiguirmão Milton Rosendo), dizendo que queria voltar, que ia ser um tormento estar tão triste no meio de tanta gente alegre, estar tão acabado no meio de tanta beleza desfilante, estar tão paralisado no meio dos corpos dançantes. Ele me disse que eu aguentasse, que não tomasse alguma decisão até o outro dia; que eu desse à vida a oportunidade de me surpreender.

No outro dia, fomos tomar café num restaurante. As ruas estavam cheias, quentes, divertidas — mas, eu não me divertia. Saindo do restaurante, passamos por um brechó. Lá, deparei-me com uma roupa engraçada que poderia me salvar. Confesso: no carnaval, só me divirto se me vestir de uma fantasia. Eu sozinho, sem personagem, sou pouco para muita alegria.

A roupa era uma “jardineira”. E vendo-a, logo foi-se construindo em minha cabeça o que eu seria nos próximos dias: uma jardineira. Comprei-a, levei-a para a casa, vesti-me com ela, coloquei uma peruca. E o lindo de tudo foi que meus amigos me compreenderam. Eles sabiam da minha tristeza mas não me violentavam exigindo uma alegria impossível. Eles não me violentaram querendo que eu sentisse o que eles sentiam. Sou grato, muito grato a eles. Meus amigos e minha irmã Solange, protetora mór — naqueles dias, todos se tornaram, de algum modo, meus protetores. Nossa outra irmã, a Sandra, não foi conosco — espero um dia estarmos os três juntos, em algum lugar, bebendo e dançando o carnaval, a tempestade.

Era o primeiro dia, e nós, todos fantasiados, saímos para o carnaval. À frente da casa, a fantasia ainda se construindo em minha mente, peguei uns galhos de planta e coloquei numa boina que passou a servir de vaso. Fomos.

Assumi a tristeza, caricaturando-a. Andávamos todos pela rua, e eu andava bem lento, com a cabeça pendendo para o lado, como pendiam os ramos do galho da planta.

Num trecho, uma moça, vendo-me andar tão cabisbaixo, saiu do lugar em que trabalhava e me perguntou por que eu estava daquele jeito, afinal, era carnaval. E eu lhe disse, fingindo a tristeza que realmente sentia: “foi a camélia que caiu do galho, deus dois suspiros e depois morreu”. Ela riu, alegrou-se, eu ri com ela, todos rimos. E então, meu carnaval inteiro, por todos os dias, foi a jardineira triste pela queda da camélia. E como jardineira, pendi a cabeça, ergui-a, dancei, bebi, paquerei, abracei, corri, pulei. Eu e meus amigos, eu e os desconhecidos repentinamente íntimos nas rodas do carnaval.

A tristeza estava comigo; mas era carnaval, e a imaginação me permitiu carnavalizá-la. Não conseguindo vencê-la, não podendo escondê-la, não tentando negá-la, abracei-me a ela e coloquei-a para dançar. A tristeza foi meu par; estando ela dentro de mim, coloquei-a para fora, usei-a como fantasia, vesti-a. Carnavalizando-a, converti-me em personagem, converti-a em alegria. E, sinceramente, uma real alegria.

 

 

 

 

 

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