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traduzione, tradizione

pots flan pudim

Ao se falar sobre tradução, muitas vezes vem à língua a expressão “traduttori, traditori”. Há uns dias, pensando sobre o assunto — por não traduzir, apenas penso —, achei que “traduzione, tradizione” seria uma expressão que deveria ter seu lugar de relevo.

Não posso falar se a primeira expressão é realmente correta ou incorreta, deixando isso para os estudiosos da arte tradutória, que sabem das nuances da coisa, já havendo em muitas situações discutido a esse respeito (traduttori, traditori).
A mim, permito falar apenas a segunda expressão — tradução, tradição —, posto parecer tão afeita aos gostos, à passagem do tempo, a uma determinada época. Por vezes, uma tradição movida por gosto; por outras, movida pela circunstância de ter sido aquela tradução a única a existir ou aquela que nos chegou à mão. Alfredo Monte, por exemplo, fala em seu blog Monte de Leituras sobre como gosta da tradução de Crime e Castigo feita por Rosário Fusco, e  que por décadas foi a tradução mais celebrada do romance de Fiódor Dostoiévski no Brasil.

Apenas há um ou dois meses vim ler o livrão Odisseia, de Homero. Li-o na tradução de Christian Werner editada pela Cosac Naify. É a melhor tradução do livro? Eu jamais saberia dizer, podendo responder apenas que foi a que me apaixonou assim que li trechos divulgados na imprensa. Durante dias, li apaixonadamente a aventura de Odisseu. Durante dias, troquei mensagens com um amigo, pelo whatsapp, mandando fotos de trechos, fotos das construções sintáticas, das imagens. A Odisseia dita a mim pelo Christian Werner me encantou e encantou a esse meu amigo. E falamos dela a outras pessoas, e a coisa se espalha. E daqui a anos, quando eu pensar em Ítaca, estarei pensando na Ítaca de Homero dada a mim por Christian Werner.
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Do mesmo modo eu me lembrarei de Ao Farol, de Virginia Woolf, que me foi dado por Denise Bottmann, e de que falei a amigos, a alunos. A imagem do silêncio sendo quebrado pelas botinas da sra. McNab. A imagem da escuridão como que lambendo o interior da casa. Daqui a anos, o To the lighthouse de Virginia Woolf será aquele que me foi dado por Denise Bottmann. Um livro que levei comigo num fim de semana, para me ser companhia quando eu não conseguisse escrever — eu me recolhera para escrever —, mas que se tornou o centro dos dias, pois não conseguia parar de ler, mergulhando obsessivamente na vida dos Ramsay e de seus visitantes. Aquele início do romance; aquela parte intermediária, mostrando o passar do tempo; aquele belo, melancólico, elegíaco final. Nunca esquecerei. Aqueles dias foram uma leitura e uma experiência inesquecíveis.
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Paulo Henriques Britto me deu o final surpreendente de O Som e a Fúria, de William Faulkner. Não fosse ele me falando todas aquelas páginas, eu não teria visto o Benji e a flor de caule quebrado, tudo sendo como sempre foi, a agonia imutável. Meus amigos e alunos leem O Som  e a Fúria de William Faulkner dito a nós por Paulo Henriques Britto. Eu tinha de falar do livro a eles, um livro de leitura árdua, lenta. Passei seis meses para terminá-la. E para conseguir, porque o livro queria atenção integral, fui a uma pousada passar um fim de semana dedicado apenas ao livro. No final da leitura, tive de ir a um telefone público telefonar para a um amigo, contando-lhe sobre como era belo, impactante, terrível o seu final.

post o som e a fúriaQuando quero comentar sobre algo que se distingue dos demais, por vezes refiro-me a uma fala da Avó de José Cemí, no Paradiso, de José Lezama Lima, dado a nós por Josely Vianna Batista: “Hoje estou com vontade de fazer um creme, não como os que se comem hoje, que parecem de botequim, mas os que têm algo de flan, algo de pudim”.
Josely lançou uma nova tradução do livro. Encontrei-o numa livraria e busquei esse trecho. Eu prefiro como ele está na primeira tradução. Não terminei de ler o livro que tenho, mas não comprarei a nova tradução e também não comprarei a de Olga Savary — porque esse trecho em específico me disse muito. E confio na jovem Josely, confio no quanto de beleza ela pôde nos dar. Para mim, lembrar-me de Paradiso é lembrar-me dessa frase, e não quero perdê-la.

post paradisoE falando em beleza, vejo a imagem de Virgílio chegando ao porto de Brundísio, na voz de Herbert Caro dando-nos a voz de Hermann Broch em seu A Morte de Virgílio. E Vera Pedrosa me dando, na adolescência, o amor e a danação de Cathy e Heathcliif em O Morro dos Ventos Uivantes, da Emily Brontë — aí, a primeira tradição de que pude participar: diversos alunos do colégio lendo e comentando sobre o romance,  parando uns aos outros nos corredores e perguntando que livro era aquele sobre o qual tanta gente estava falando. Lembro-me agora de uma tarde em que ficamos sentados num corredor, à porta de um dos laboratórios de química, tratando das personagens, lendo trechos, falando das sensações.
post a morte de virgíliopost o morro 03

De Moby Dick, de Hermann Melville, dito a nós por Irene Hirsch, saiu o título de uma peça da companhia de teatro de que faço parte, por conta deste trecho: “O sol já tinha nascido. Em pouco tempo a tripulação subiu a bordo, de dois em dois ou de três em três; os armadores estavam atarefados; os imediatos trabalhavam ativamente; e muitos dos trabalhadores estavam ocupados trazendo a bordo as muitas últimas coisas. Durante esse tempo, o capitão Ahab permaneceu invisível no santuário de sua cabine”.

post moby dickNão fosse por Aulyde Soares Rodrigues, eu não teria ido ao abismo com Adrienne Mesurat, personagem do livro homônimo de Julien Green.

post adrienne mesurat

Por conta de Maria Deling, saí correndo do quarto do pensionato em que morava em São Paulo, para telefonar a uma amiga, falando que havia lido algo emocionante, de uma beleza que eu nunca tinha visto  —  e que ficou repercutindo na minha cabeça por anos. E ainda hoje repercute: Aschenbach admirando Tadzio em Morte em Veneza, de Thomas Mann. Trecho com que acabo esta postagem que quer apenas agradecer aos tradutores por nos darem suas traduções.

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Nota 1: enquanto escrevia, procurei na internet “traduzione, tradizione” e encontrei este site italiano sobre tradução: Traduzionetradizione.

Nota 2: de todos os livros, busquei as capas das edições que li (ou que comecei a ler). De O Morro dos Ventos Uivantes, a capa do livro que li não foi essa; mas a que postei aqui também é uma edição da mesma tradutora. Sobre esse livro, há neste blog uma postagem aqui: “O morro dos ventos uivantes” : nova tradução e coisas mais. E também relacionado ao livro há esta outra postagem, em que faço uma brincadeira musical unindo Emily Brontë, Hilda Hilst, Elvis Presley e Pet Shop Boys: Heathcliff is always on my mind.

Nota 3: sobre Adrienne Mesurat, há esta postagem: Adrienne Mesurat ou A Solidão Desesperada.

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