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Entre o carneiro e o touro, a amizade: Lygia Fagundes Telles e Hilda Hilst

Hoje, em 19 de abril, Lygia Fagundes Telles completa 91 anos. Depois de amanhã, em 21 de abril, Hilda Hilst completaria 84 anos. Lygia é ariana, Hilda era taurina. Após uma espera de sete anos para que ambas existissem, apenas um dia ficou separando-as.

Hilda & Lygia

Em 1998, Hilda deu um depoimento sobre sua amiga de longa data — elas se conheceram em 1949, numa homenagem a Lygia, que já era uma contista premiada, pois seu livro “O cacto vermelho” havia recebido o Prêmio Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras. Conheceram-se em uma festa na Casa Mappin; Lygia conduzia “a bela Cecilia Meireles (usava um turbante negro, no estilo indiano)”, quando apareceu Hilda, “uma jovem muito loura e fina, os grandes olhos verdes com uma expressão decidida. Quase arrogante. Como acontece hoje, eram poucas as louras de verdade, e essa era uma loura verdadeira, sem maquiagem e com os longos cabelos dourados presos na nunca por uma larga fivela. Vestia-se com simplicidade. Apresentou-se: ‘Sou Hilda Hilst, poeta. Vim saudá-la em nome da nossa Academia do Largo de São Francisco’. Abracei-a com calor. ‘Minha futura colega!’, eu disse, e ela sorriu. Quando se levantou, bastante emocionada para fazer o seu discurso, ocorreu-me de repente a poética imagem da haste delicada de um ramo tremente de avenca […]” (Lygia Fagundes Telles sobre Hilda Hilst, no número 08 dos Cadernos de Literatura Brasileira do Instituto Moreira Salles, publicado em 1999).
Hilda, em seu depoimento, ao falar sobre a amiga, revela-a e revela-se. E é um trecho de sua fala que coloco aqui, como homenagem às duas mulheres e à amizade entre elas — como homenagem à literatura e à amizade.

Disse Hilda:
“Todo mundo fez tudo pra criar uma animosidade entre nós. Os nossos universos são parecidos, mas se expressam de modos totalmente diferentes. Por exemplo, eu nunca entendi o que quer dizer o ponto-e-vírgula. Eu perguntava pra Lygia, ela me explicava. Eu dizia: ‘Não entendo o ponto-e-vírgula’. Tanto é que nunca na minha vida eu escrevi com ponto-e-vírgula. Nunca entendi. Acho uma besteira. Pensei que não poderia escrever prosa porque não entendia o ponto-e-vírgula. Até que depois de 20 anos eu resolvi escrever.

Eu falo tudo claro. A Lygia se encobre. Quando ela está comigo, por exemplo, a Lygia sozinha, ela é ela. Mas ela tem um certo respeito pelo outro. Eu não tenho o menor respeito. Isto não é um defeito da Lygia, é um defeito meu. Mas ela teve também uma vida muito mais difícil que a minha. O pai dela era um jogador… Foi uma moça com a vida difícil. Eu sempre tive dinheiro e tal. Tudo isso é complicado de dizer.

Nós não falamos sobre literatura. É um assunto que nos irrita. Eu não falo porque gosto muito dela e tenho uma amizade profunda, afetiva mesmo, por ela. A gente não conversa sobre literatura. E somos muito tristes, o tempo todo. Telefono pra ela e digo assim: ‘Você acha normal a mulher que pariu num avião e teve a criança sugada pela turbina? Quer dizer que eu posso levar uma criançada na cabeça!’ Ela fala: ‘Como sugou!? Hilda, as pessoas estão loucas!’ A gente tenta falar coisas agradáveis, mas não consegue. Ou então a gente faz humor negro pra não ficar muito mal.

Ela sempre me disse que fica nua diante de mim. Eu também. Digo: ‘Lygia, eu estou péssima. Estou doentíssima, acho que vou morrer, venha me ver, pelo amor de Deus!’ Quero demais morrer segurando a mão da Lygia, porque sei que ela vai entender tudo na hora H. Ela vai dizer: ‘Hilda, fica calma e tal que é assim mesmo.’

A gente tem uma amizade, sei lá, pode ser até de outras vidas, embora sejamos muito diferentes. Aí Por exemplo, eu bebo muito, ela não bebe nada. Ela diz: ‘Eu vou beber um vinhozinho’. Mas eu já estou bebendo uma garrafa e vários uísques. Ela é muito ativa, é uma mulher mais velha do que eu, mas muito mais ativa. Ela vai ao Rio de Janeiro, corrige livros… Eu não quero corrigir livros nunca mais.

[…]

Hilda

Mas a gente ri muito. Ela diz coisas incríveis. Um dia ligaram pra ela dizendo que um conhecido nosso, meio distante, tinha acabado de morrer. Eu estava lá. Ela perguntou assim: ‘Mas, me diga uma coisa, ele estava bem?’ Aí o cara disse: ‘Lygia, ele estava morto!’ Ela tinhas distrações assim, ‘Mas como ele estava no caixão, ele estava bem?’ ‘Não, ele estava morto!’ Aí eu tinha ataques de riso, porque não era isso que ela queria dizer, ela queria saber se ele estava com uma parecença arrumada, porque tem aqueles bossa Oscar Wilde, caindo aos pedaços. Ela quis saber se a parecença dele era normal ou de assustar. Ela era distraída com essas coisas todas e eu ria muito. E outras coisas divertidíssimas.” (Hilda Hilst sobre Lygia Fagundes Telles, no número 04 dos Cadernos de Literatura Brasileira do Instituto Moreira Salles).

Lygia

Sobre dois importantes livros das autoras, há resenhas em Monte de Leituras: “A obscena senhora d.” (Hilda), “As horas nuas” (Lygia).
No mesmo site, o autor, Alfredo Monte, ao tratar do romance “Verão no aquário”, tece comentários sobre a amizade entre Hilda Hilst e Lygia Fagundes Telles, fazendo uma perspicaz aproximação entre essa relação e a que havia entre Herman Hesse e Thomas Mann — seus modos, suas obras, a recepção delas.

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  1. alfredomonte
    19/04/2014 às 10:33

    Uma amizade tão fascinante e cercada de equívocos quanto a de Thomas Mann e Hermann Hesse.

    • niltonresende
      20/04/2014 às 01:21

      e que você discute de modo muito perspicaz no ensaio sobre “Verão no aquário” =] ..

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