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Preparação de elenco, a primeira vez (porque I can’t keep it in)

Minha primeira relação profissional com o cinema foi através da preparação de atores, a convite da Lis Paim, para o filme Um vestido para Lia, de Regina Barbosa e Hermano Figueiredo.

Lia

A relação minha e de Lis (produtora de elenco e assistente de direção) com a jovem Fabrícia Avelino (Lia) foi muito enriquecedora. Foram dias de alegrias, temores, certezas, dúvidas…

Tínhamos conosco uma adolescente talentosa, mas que nunca tinha feito um trabalho em vídeo; uma menina cheia de energia, mas que costumava andar com o olhar baixo.

Lembro-me de “exercícios” que foram utilizados (pensados à noite, antes de dormir, por causa de questões/problemas com que tínhamos nos deparado durante o ensaio do dia; pensados de imediato, no calor do problema ou no frio do frio na barriga); exercícios para que o andar fosse menos tímido, para que os braços fossem mais soltos, para que houvesse alguma musicalidade no corpo; para que o olhar estivesse de acordo com a personalidade de Lia, menina forte, longe de qualquer apatia. Era preciso também arrumar um jeito de postar as mãos, os braços, os antebraços, na caminhada e na corrida; e também precisávamos encontrar um modo de pisar.

Mestre Benon, Preta, Naéliton Santos, Fabrícia Avelino

Não estávamos desconstruindo a Fabrícia, mas construindo a Lia, valendo-nos de elementos já possíveis no corpo daquela menina.

Num dos exercícios, numerei alguns pontos no espaço em que ensaiávamos, e Fabrícia tinha de caminhar e estar atenta aos números que eu falava: se eu falava “um”, ela tinha de dirigir-se até lá; eu falava “três”, ela ia até o ponto “três”. Nesse exercício, não treinávamos tanto a atenção dela, mas o modo de andar, o olhar, o modo como o corpo se comportava. Daí, ela percebeu a diferença entre andar a esmo e andar com um foco. Lia era uma personagem com um foco, um objetivo, um desejo, e esse exercício foi feito numa busca de imprimir ao olhar/corpo da personagem uma postura condizente com essa condição.

Fabrícia Avelino, Diva Gonçalves, Ane Oliva

Fabrícia é muito disciplinada e concentrada, e uma tarde nesse exercício foi o suficiente para que os modos do corpo de Lia começassem a se formar.

Outro exercício referiu-se a conseguir alguma graça numa cena bastante curta do filme, mas importante para a personagem: ela à margem da lagoa, com as fitas do guerreiro. Aí, buscamos imprimir leveza ao corpo, ao riso. No ensaio, ela iria correr pelo espaço em que ensaiávamos, mas, antes, seria necessário que houvesse um motor interno, e isso conseguimos através de música e dança.

Como eu e Lis ficamos muitos dias trabalhando juntos, tivemos tempo para, à noite, antes de dormir, conversar sobre muitos assuntos: cinema, literatura, música, amizade, comida, pessoas… Era comum colocarmos nossas músicas para tocarem em nossos notebooks. Foi num desses momentos que escutei I cant’ keep it in, do Cat Stevens, que, acho, eu já havia escutado nas atingas, mas agora vai estar sempre ligada à figura da Lis.

Agora, quando escuto I cant’ keep it in, I cant’ keep it in.

Dentre as músicas do set de Lis, uma outra (dentre várias) me chamou a atenção: Nantes, do Beirut.
Apaixonei-me por ela.

Um dia, estávamos no momento de imprimir ao corpo de Fabrícia/Lia mais leveza, menos timidez. No exercício de leveza, utilizei Nantes: coloquei uma venda em Fabrícia e dei play na música. Pedi que Fabrícia se esquecesse de nossa presença e apenas ouvisse a música, sentisse a música (vai aí o clichê). Pedi que fosse soltando o corpo, e que dançasse, se sentisse vontade; que sorrisse, se quisesse sorrir.

Instantes depois, tínhamos uma linda menina de olhos vendados e corpo ondulando, braços sinuosos, sorriso aberto. E um preparador de elenco chorando, vendo-a. E uma produtora de elenco emocionada, admirando-a.

Depois, tínhamos uma menina sem vendas nos olhos, correndo pelo espaço onde ensaiávamos, com a doçura e força e leveza sempre possíveis nos adolescentes, mas muitas vezes encobertas.

Ela colocou a música em seu pendrive, para escutá-la em casa,  e Nantes tornou-se, entre nós, o Tema de Lia.

Não à toa, ao término das filmagens, chorei muito quando, na kombi que levava a equipe para suas casas, tocou Nantes no aparelho de som.

Fechei os olhos e me lembrei de Fabrícia, de olhos vendados, dançando… de Lis, amiga e companheira durante todo o período de preparação… de todos os dias no set de filmagem, com toda a equipe.

Sempre que ouço Nantes, lembro-me daqueles dias, primeiros dias de algo que quero fazer muito, ainda. Os primeiros dias do futuro de minha vida.

Outra música do Beirut também me inspira a atuar, a dirigir/preparar atores, e é com ela que finalizo este post tão pessoal (porque é bom terminar com um sorriso): A sunday smile.

Performance circense de Nínive, na festa Popiparque III, ao som de A sunday smile (foto de Michel Rios)

Lembrar-me desses dias e do que fizemos e do que ainda pretendemos fazer só me faz sonhar ainda mais e sorrir, porque I cant’ keep it in.

Esta postagem começou como pretexto para divulgar um post da Ana Maria Bahiana, que cito abaixo. Mas, acabou virando outra coisa. Termino-a agradecendo a Lis Paim, Regina Barbosa, Hermano Figueiredo e toda a equipe de Um vestido para Lia. Agradeço aos atores Diva Gonçalves, Ane Oliva, Naéliton Santons, Bete Miranda.
Agradeço principalmente a Fabrícia, por ter sido uma escola, para mim.  Ela e os atores com que eu ainda viria  a trabalhar ensinaram-me que o diretor/preparador não deve apenas preparar o elenco, mas estar preparado para o elenco.
Num outro dia, quem sabe, falo sobre como um olhar foi decisivo para a escolha de uma atriz para um papel, e sobre trabalhar com uma mulher que nunca havia ido a um cinema, mas que engoliu a todos em um set. Afinal, uma mulher de 74 anos pode não saber coisa alguma sobre interpretação, mas sabe muitíssimo sobre humanidade – e personagens são pessoas.

Anita das Neves e Ivana Iza, em “O que lembro, tenho”, de Rafhael Barbosa

Fabrícia Avelino não parou após ser Lia, e agora é Luzia, num curta-metragem dirigido por Leandro Alves: Flamor.

Fabrícia Avelino (Luzia), em “Flamor”, de Leandro Alves

Pensei nesta postagem por causa de uma publicação que vi há pouco no blog da Ana Matia Bahiana, e cujo link coloco aquiNova presidente da Academia cria departamento para diretores de elenco.

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  1. Lis Paim
    07/08/2013 às 00:08

    Nil, que lindo. E que saudade desses dias alegres onde vimos essa borboleta se abrir. Obrigada por tudo que pude aprender com você. Fico feliz de ter estado ao seu lado no início dessa viagem viciante. Te amo, beijos

    • niltonresende
      07/08/2013 às 00:33

      Aprendemos. Apreendemo-nos. Obrigado. Te amo.
      BEijo.

      E que haja novos sets. Três, quatro, cinco, seis, sete sets, oito sets, muitos mais.

  2. Nando
    16/08/2013 às 00:52

    Oi Nilton!

    Que bom te ler. Muito interessante essa sua experiência de preparação de atores…e amei a música “I can’t Keep it in”, do Cat Stevens. Beijo

    • niltonresende
      16/08/2013 às 09:49

      obrigado, nando.

      =]. e cat stevens é lindo demais.
      beijo.

    • niltonresende
      16/11/2013 às 23:54

      sim,
      nando, o trabalho de preparação é algo de que gosto muito.
      e a música do cat stevens, porra!, é linda demais.

      beijo.

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