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Um furacão não é só vento

Cyclone – Barry Moser

Algo que vem tomando as redes sociais é a crítica a manifestantes que, aproveitando os protestos contra o aumento nas tarifas de ônibus, estariam diluindo esse primeiro protesto, a sua força, puxando a brasa para outras questões. Alguns são criticados como coxinhas, almofadinhas que estariam ali apenas porque o sapato apertou no seu calo; outros porque não teriam entendido a real da questão, contribuindo para um desvio do foco inicial.

Não falo dos coxinhas ― interessam-me os que, da multidão, bradam por causa de outros problemas além do aumento na tarifa dos ônibus. Difícil dizer que não é verdadeira e espontânea sua manifestação; difícil dizer que, na manifestação, eles não gritem contra o mau uso dos impostos, as leis eleitorais, os problemas na saúde. Devemos falar para eles que o trem deles não é este, que deverá passar mais tarde, e eles ali não poderão gritar o nome do outro itinerário? Ou há um grande itinerário, com diversos pontos de parada?

 

Acredito na possibilidade da diminuição da força do protesto por conta da diluição das reivindicações, mas não se pode criticar um povo por gritar suas fomes. Há, claro, além dos coxinhas, inúmeros partidos políticos, forças midiáticas, empresários tentando desvirtuar o que está sendo construído; há os opositores da Dilma, querendo tirá-la do cargo para assumirem eles o poder; mas, há também um povo faminto e que, muitas vezes, não sabe dar nome a suas fomes.

As manifestações são algo como estar uma pessoa num ônibus ― ônibus sempre lotado, desconfortável, e que essa pessoa toma há anos, nos mesmos horários.

Um dia, alguém pisa no pé dessa pessoa; ela solta um grito e reclama do pisão no pé. Se ela fala apenas nesse instante, há apenas a reclamação sobre o pisão; se ela continua falando, daqui a pouco diz de o como ônibus está lotado, diz de seu desconforto, reclama dos desodorantes vencidos, fala mal da empresa em que trabalha e do patrão, fala que os pais dela bem poderiam ter escolhido outro emprego quando jovens, para que ela tivesse nascido numa família mais abastada… reclama que é uma pessoa insegura por causa do pai sempre repressor… E o que era apenas uma reclamação sobre um pisão no pé transforma-se numa pública sessão em um divã escancarado.

Querer dizer quais fomes podem ou devem ser gritadas é desconsiderar que uma manifestação lida com uma massa e que é agregadora, é um ímã humano em movimento.

Se temos dificuldade em dirigir e digerir o torvelinho que é uma alma individual, como a presunção de fazer o mesmo com o furacão que é uma alma coletiva?

E um furacão nunca é só vento.

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  1. sandra maria neves dos santos
    25/06/2013 às 12:33

    Perfeito, Nilton. Quem insiste em entender o furacão sob a ótica da “razão pura”, esquece que o inconsciente também está no comando. E já sabemos disso, ou deveríamos saber, desde o Século XVIII… Sandra

    • niltonresende
      30/06/2013 às 19:02

      é, sandrinha.

      imagino uma pessoa gritando por uma fome, e uma pessoa falando: “não, aqui não pode. aqui é apenas para gritar por outra coisa”.
      entendo que se critique a organização do conjunto, mas não aceito que sejam criticadas as pessoas que ali gritam por alguma questão real.

      foi isso: apenas fiquei triste por ver muitos criticando as pessoas que estavam ali.

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