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Os Heróis de Hoje ou Os Indiferentes

rainha

“13 de agosto

Afirma-se que se o poema de Homero ressurge em Joyce sob uma forma degradada é por ser o nosso mundo incapaz de gerar outra Odisséia.  Sugeriria igualmente Julia Marquezim Enone, com mordacidade e desencanto, não sermos hoje capazes de engendrar heróis como os de ontem? Hipótese admissível e que o exame da nossa realidade atual parece consagrar. Os últimos heróis nacionais surgiram há meio século e desde então caíram no esquecimento, na rotina ou na dubiedade. Quando morreram, a notícia apenas perpassou por nós  — como perpassa a brisa — e pode ser que algum tenha expirado sem que o país soubesse. Um deles, remanescente de um pequeno grupo de dezoito que saíra à rua em 1924, de armas na mão, dispostos a morrer e talvez invocando uma bala inimiga, no coração se possível, para que o fluir da vida não negasse o fulgor daquele instante único, vinte anos depois cruzaria o país, envolto na sua legenda ainda clara e que, antes de todos, começaria a esquecer. Nem sequer do fumo da segunda Guerra nasceriam heróis. Muitos foram mortos e jazem em Pistóia, enterrados junto com os seus nomes, ninguém sabe onde estão os mutilados e os nomes dos que os comandavam nada significam para nós. A ação política tem levado muitos ao exílio, à morte e aos negócios — e a verdade é que, de todos, só os últimos conservam ainda certo fulgor mítico. isto não deve surpreender. Os heróis nacionais, hoje, todos circunscritos à televisão e ao esporte profissional, ganham num dia o que ninguém come em um ano. Agravando o desacerto, esses nossos mitos, sem um único exemplo discordante, professam indiferença absoluta por todos os problemas que afligem os humanos. Nenhum, como o peso-pesado Cassius Clay, arriscaria a carreira e o título por nada neste mundo — uma causa, ou um princípio, ou uma idéia, ou uma teimosia. A neutralidade, luxo e equívoco, é sua norma e isto em nada os fere no conceito geral.”

A rainha dos cárceres da Grécia, Osman Lins – Edições Melhoramentos, 1976, pp. 170-171.

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