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A faca

A faca
é lâmina,
é vítrea.
Se espessa,
é mínima,
aguda.

Apóio-me
inteiro
no fio
e corto
a carne,
seus talhos,
as folhas
vermelhas
e fundas,
tiradas
do caule,
de carne,
a um tempo
bem quente,
bem úmida.

Intenso
caminho
no fio
e mancho
os pés:
rubor;
uns gritos
de prata;
a pele,
que fina
se rasga.

Um corvo,
de bico
no vinho,
tão ébrio,
faz vezes
de hiena,
cantando
um canto
que talha,
de talhe
bem fundo,
os ares,
mantendo
em grito
suspenso
tal feito
da triste
cantiga
que faz
que eu pise
mais forte
o fio,
a lâmina
de corte.

Além,
teria
um rio,
um prado,
um canto,
um lar.
Uns olhos,
um belo
sorriso,
candente,
por sobre
o mar,
e além,
e dentro,
e em torno,
bem antes,
também
depois,
ali,
após
a lâmina,
que agora
eu piso
e repiso,
cortando
a carne,
a pele,
em tiras
por sobre
a prata.
A pele,
que grita,
que dói.

As lágrimas
me caem
dos olhos,
ardendo
na face
gretada.
Um sol
me lambe
um lado;
e o outro
é treva,
mais nada.
Também
é braços
puxando-me
a veste ,
o corpo,
minh’alma.

Eu sinto
o fio
da lâmina:

a vítrea,
aguda,
salgada.

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