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A Motora Beleza

No meio de dias sem um sorriso – o cotidiano me dominando com rédeas apertadas -, ganhei um presente de uma amiga. A Danda Almeida me enviou pelo facebook um vídeo de um flashmob com trecho da 9ª Sinfonia de Beethoven.

Foi gostoso ver as reações das pessoas. Algumas vezes, eu fechei os olhos e imaginei a sensação de estar caminhando por uma rua e deparar-se com aquela música, e com os músicos, e com a multidão embevecida.

O poema de Schiller e a música de Beethoven são realmente, em seu conjunto, uma das mais belas expressões de elogio à vida.

Ode à Alegria

Ó, amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais prazeroso
E mais alegre!

Alegria, formosa centelha divina,
Filha do Elíseo,
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Tua magia volta a unir
O que o costume rigorosamente dividiu.
Todos os homens se irmanam
Ali onde teu doce vôo se detém.
Quem já conseguiu o maior tesouro
De ser o amigo de um amigo,
Quem já conquistou uma mulher amável
Rejubile-se conosco!
Sim, mesmo se alguém conquistar apenas uma alma,
Uma única em todo o mundo.
Mas aquele que falhou nisso
Que fique chorando sozinho!
Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza:
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.
Ela nos deu beijos e vinho e
Um amigo leal até a morte;
Deu força para a vida aos mais humildes
E ao querubim que se ergue diante de Deus!

Alegremente, como seus sóis voem
Através do esplêndido espaço celeste
Se expressem, irmãos, em seus caminhos,
Alegremente como o herói diante da vitória.

Abracem-se milhões!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Irmãos, além do céu estrelado
Mora um Pai Amado.
Milhões, vocês estão ajoelhados diante Dele?
Mundo, você percebe seu Criador?
Procure-o mais acima do Céu estrelado!
Sobre as estrelas onde Ele mora!

Há muitos anos, disseram-me que essa sinfonia seria uma reflexão musical sobre a Criação, desde o Big-bang até o universo formado, quando o Criador, olhando o que havia criado, contemplaria em júbilo tudo aquilo, e festejaria junto com as criaturas.

Nos meus 19 anos de idade, quando me mudei para São Paulo, eu costumava, no apartamento de meu tio Newton, ficar ouvindo música enquanto estava sozinho. Uma das coisas que eu mais escutava era a 9ª Sinfonia. No momento do coral, eu fechava os olhos e ouvia extasiado – muitas vezes, ouvia tomado de uma tristeza sem fundo; uma tristeza que as coisas muito belas nos dão. De certo modo, a tristeza de não ser nossa aquela beleza.

Mas, essa música não deve ser apenas ouvida à distância, como se contemplássemos algo do outro – ela deve ser ouvida para nos lembrar a participação nessa beleza. A beleza das coisas miúdas. A beleza clichê de saber-se vivo.

A beleza e a alegria que senti quando (acho que no Natal de 1993), passando em frente ao Teatro Municipal de São Paulo e indo pela Barão de Itapetininga, me deparei com um som crescendo tímido até se impor e exigir minha presença contente: num coreto (acho que havia um coreto improvisado), algumas crianças cantavam Adeste Fidelis. Parei, ouvi-as – e saí de lá agradecido por estar vivo para apreciar aquilo. Saí de lá cantarolando e desejando silencioso um Feliz Natal para todos.

Diversas vezes, a minha decisão em fazer arte partiu de não querer ser espectador do Belo, mas de querer ser partícipe dele. Ser escritor é muito árduo, porque a beleza criada está fora do autor – ela passeia pelas mãos dos leitores, mas são as palavras que passeiam. Ser ator alimenta um pouco mais essa sede de ser belo – mas, contra esse ofício depõem a fugacidade do instante e a inevitável solidão após o instante.

Uma vez, eu adolescente, vi na televisão uma apresentação de balé. Ao fim, eu chorava convulsivamente.

Por muitos anos, minha busca maior foi a de ser santo – a de fazer de minha vida uma obra de arte. Depois, coloquei isso de lado e passei a querer fazer obras de arte. Não sei o que buscarei amanhã – mas, a Beleza está no centro de minha busca.

É um exercício constante a busca de não olhá-La como algo externo. E talvez ajude nisso ouvir a Sinfonia Coral; ouvi-la de olhos fechados, deixando que o corpo celebre a simples e enorme beleza de estar no mundo.

enJoy!

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  1. André Ferreira
    18/11/2012 às 19:01

    Gosto demais de tudo o que vc escreve em seu blog. Parabéns, obrigado pelo presente.

    • niltonresende
      18/11/2012 às 19:06

      que bom, andré.
      fico grato pelo comentário e pela visita.

      =] . abraço .

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