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O que há de verdade em tanta mentira : à maneira de nota de rodapé

Há pouco, visitando o site da editora Estação Liberdade (de catálogo sempre visitado e desejado), deparei-me com um título de Yasunari Kawabata: O mestre de Go (traduzido diretamente do japonês por Meiko Shimon).

Lendo a sinopse do livro, vi que eu já conhecia o Go, e que eu tive um mestre disso na minha infância: Manoel, meu avó materno. Baseando-me nas lembranças dele, eu criei o avô de “A ceia“: o seu costume de cheirar rapé, o seu corpo, o tabuleiro e o jogo de tentar cercar os feijões. Pois agora sei o nome do jogo, “o jogo que meu avô me ensinou e para o qual me convidou em tantas tardes”.

“Ganhei!”

Aqui, imagens do jogo e suas regras: na Wikipédia; na Ilha do Tabuleiro. Não me lembro de como jogávamos (se seguíamos a regra chinesa ou a japonesa),  mas foi esse o jogo que nos distraiu em diversos momentos. E também esse o jogo que nos unia (sim, nós dois não nos dávamos muito bem). Mas, antes que digam que o conto é autobiográfico, aviso que meu avô também aparece no conto “A canção e a sombra”, travestido de avó, quando conta a história da onça esperta e maravilhosa. Nos contos, estão meus avós, meu pai, minha mãe, minhas irmãs (elas aparecem nas fotografias de “Não é tempo de maçãs”)… está um anônimo vendedor de uma mercearia:

Após o jantar, havíamos comido paca e arroz de leite, eu adorava arroz de leite, fomos para o alpendre ouvir as histórias da minha vó, umas de mal-assombro, outras de fadas azuladas. Impressionou-me a da onça que virou cerca e, depois, pneu de caminhão. Pneu de caminhão? É, pneu de caminhão, disse a vó. Porque a onça era esperta e se disfarçava do que queria, cheia de artifícios para conseguir agarrar a presa que era o dono da fazenda, que tentava atravessar sua propriedade, mas havia-se deparado com a danada, um enorme pneu escondendo os dentes longos e finos como punhais. Tudo verdade!, a vó disse. E eu falei acredito, acredito, vó. E ria. E ela me olhava com a cara séria.

E agora, vendo minhas ficções, o passado olha para mim com um sorriso, denunciando as coisas, catalogando-as, e eu olho para ele com a cara séria, como se pedisse que ele não denuncie as coisas, mas deixe-as como estão e como agora realmente são, uma névoa quase sólida, embotando visão e tato.

Sobre essa relação entre ficção e realidade, e a relação estabelecida com o leitor, fiz uma postagem há alguns meses, valendo-me de um texto de Thomas Mann: Ficção e Realidade : Quem? Onde? (tomando Thomas Mann por mote). Aqui, reproduzo o que havia colocado nessa postagem, e o que sinto necessidade de repetir agora, quando falei do “jogo que meu avô me ensinou e para o qual me convidou em tantas tardes”:

[…] uso as palavras de Mann não apenas para expor esse problema de que ele trata; uso-as para quando as pessoas olham a obra e, em vez de ter a vista dirigida para o mundo, buscam ver no texto o seu autor, gerando perguntas tais como: “é você esse menino?”; ”aquela é sua avó, não?”; “como você era maldoso quando criança”; ”reconheço essa rua”…

Perguntas e afirmações desse tipo ouço-as quando algum leitor vem comentar sobre os contos de diabolô. E o que eu digo? Que ali há sentimentos que um dia senti ou percebi; que ali há uma geografia que eu já vi ou percorri. Pois, sim, ali há o bairro do Prado em Maceió, há seu cemitério; há o mercado cheio de lama; há as barbearias… Eu vou falar das vielas de Estocolmo? Há vielas em Estocolmo? Como são? 

E as pessoas? Em quem eu me inspirei? Por favor, que eu informe, pois seria tão interessante saber da fonte, saber quem eu talvez tenha vampirizado para colocar na escrita. Vampirizo o mundo, sugo-o, ele que me suga.

Creio ser mais interessante, ao ler um livro, não buscar ali o autor, mas buscar ali a si mesmo. Do contrário, de que adianta passar horas aventurando-se em ler um livro se não for também para se auto-conhecer?

Parece-me haver, na verdade, um temor. Um medo de enxergar-se. Por isso, o olhar fito na direção do autor, para se desviar de si mesmo. Melhor que nas páginas esteja o horror do outro e não o do próprio leitor.

Mas, ao se deparar o leitor com um livro que se apresenta como uma obra de ficção, acho que ler e esquecer o autor, vendo apenas a história ali apresentada e suas personagens, podendo daí haver, talvez, uma experiência vicária, isso é para mim uma coisa tão mais sábia, tão mais bela. Tão mais corajosa.

Agora, sabendo o nome do jogo, posso explicar melhor quando algum leitor me perguntar a respeito dele. Mas, no conto, ele continuará sem nome, porque aquele avô não sabia nomeá-lo, e nem aquele garoto e o homem em que mais tarde ele se tornaria. Dele, saberiam dizer apenas “o jogo de um tentar prender o outro”. Go.

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