Início > Sem categoria > O Fingimento do Urso ou “A fotografia do meu antigo amor dançando tango”

O Fingimento do Urso ou “A fotografia do meu antigo amor dançando tango”

Assumo: não sou crítico literário – sou um leitor que diz suas impressões sobre algo que leu. Não sou crítico porque não tenho os aparatos do crítico – fui/sou preguiçoso, e a preguiça não condiz com um crítico, que tem de ter investido em sua formação o suficiente para poder criticar. Tenho amigos críticos, mas eu não o sou.

Tem sido difícil conseguir levar uma leitura a cabo. Nos últimos anos, li por completo uns cinco livros, apenas. Felizmente, foram livros que me agradaram. Em 2010, li A caixa preta, do Amós Oz; em 2011, reli a morte de paula d., da Brisa Paim. Agora em 2012, acho que estou voltando a uma rotina de acabar um livro e começar um outro: Esperando Zilandada Tamara Sender;  Os passos em volta, do Herberto Helder (ainda inconcluso, por ser um livro de contos e por eu gostar de ler muito lentamente os livros de contos); O papagaio de Flaubert, do Julian Barnes. Eu ia começar agora Os moedeiros falsos, do André Gide – mas resolvi deixá-lo para mais tarde, porque toda a minha fidelidade agora tem de ser para com minha tese de doutoramento e para com a ficção que estou escrevendo no momento.  Os livros do Gide e do Helder eu ganhei de presente num amigo secreto. Eu os ganhei do Rodrigo Portella. Aproveito para dizer que o início de Os moedeiros falsos me impressiona (e impressiona também o Rodrigo, que me confessou isso certa vez). Eis: “É o momento de acreditar que ouço passos no corredor”, disse consigo Bernard (trad. de Mário Laranjeira).

Deixei para mais tarde o romance do Gide, mas estou terminando de ler um outro livro de contos: A fotografia do meu antigo amor dançando tango, de Diego Moraes. E esta postagem é sobre esse livro. É sobre ele porque estou lendo-o agora, e preciso aproveitar enquanto está quente. Eu me prometi uma postagem sobre A caixa-preta, sobre Esperando Zilanda, sobre O papagaio de Flaubert, sobre Os passos em volta, mas deixei o tempo passar, e agora teria de reler os livros para conseguir escrever sobre eles.

Agora já sei: tenho de escrever mesmo sem ter terminado a leitura, ou assim que terminar. Do contrário, breu.

Então, enquanto está quente, falo do livro de Diego Moraes.

(Confesso: nos últimos dias, tem sido difícil falar das coisas, dar-lhes qualquer qualificação, adjetivá-las, discorrer sobre elas. Percebi – e um amigo me ajudou a perceber isso – que minha linguagem está muito viciada, que uso o mesmo adjetivo para as mais diversas situações, que eu talvez sequer saiba dizer por que isto ou aquilo me agrada ou desagrada.  A crise – estou vivendo um momento agudo de crise da palavra, de crise das ideias e de suas representações).

O livro do Diego Moraes: começo dizendo que discordo do texto que está na orelha do livro.  Não gosto de textos longos em orelhas de livros, quando o autor ainda está estreando, ainda está mostrando-se. Prefiro que a obra apresente o autor, que a obra se apresente. Para mim, é melhor que haja uma sinopse do livro, em vez de elogios que, sabemos, geralmente vêm de amigos. Pior quando o texto fala mais sobre o autor do que sobre a obra – e quando fala aspectos não muito interessantes. Esse é o caso da orelha de A fotografia do meu antigo amor dançando tango.

Digo isso porque ela quer convencer que o livro deve ser lido porque (segundo ela) Diego Moraes é interessante.  Além disso, diz que ele é um cineasta, e não um escritor.  Ao fim da orelha (depois de muitos dados biográficos), tem-se o seguinte: “Leiam Fotografia do meu amor dançando tango. Mas o melhor seria filmá-lo”. Para mim, temos aí uma sequência de erros. E um deles é o vício de julgar atraente um livro que se aproxima do cinema – cinema é cinema; literatura é literatura (por mais que ambos possam dialogar). Os critérios para se julgar um filme não são os critérios para se julgar um livro.

Mas, o pior é a orelha esconder do leitor a grande verdade: Diego Moraes É um escritor.  E é um leitor.
Diego não é o neófito que a orelha pretende apresentar, dando-nos sempre um motivo para que não queiramos lê-lo. Afinal, duvido muito que uma pessoa se interesse em ler um livro cuja orelha diz isto sobre seu autor:  
Eu não entendia como sua vontade de escrever poderia ser tão diametralmente oposta à sua falta de leitura e de conhecimento literário. 
Porque na época Diego Moraes havia lido pouco e talvez nunca tivesse (até então) lido um único livro inteiro. Só que nele a ignorância se revelava não como defeito, mas qualidade. Pois do pouco que sabe Moraes extrai muito, e este “muito” chega às mãos do leitor sem os filtros teóricos do bom-senso ou do bom-gosto.
Esta falta de verniz literário cede às suas narrativas este ritmo abrupto, ingênuo, e conciso, que têm uma aparente falta de acabamento que Moraes aprendeu das lições que tomou de John Fantes. Aliás, “1933 foi um ano ruim” talvez tenha sido o único livro que Moraes leu inteiro.
[…]
De resto, Moraes escreve para se vingar – de ex-namoradas, de antigos e novos desafetos […]. E a vingança é o melhor combustível para a escrita. Sobretudo para Diego Moraes, que é um sujeito deliciosamente paranoico – ótima qualidade para um escritor. Tanto que você não gostaria de tê-lo como vizinho. Mas, obviamente, adoraria tê-lo na prateleira de sua biblioteca.

Mas, a orelha em alguns momentos trata de aspectos dos contos de Diego:

Notem como suas narrativas acabam quase todas subitamente, como se ainda sofressem da falta de jeito dos rascunhos. Podemos chamar esta técnica de estética do coito interrompido, que Moraes aprimorou intuindo contos cinematográficos para seus textos breves e enlouquecidos.
Em seus diálogos, por exemplo, Diego Moraes chega a atingir a perfeição entre imagem e ritmo. Só que esta perfeição não foi alcançada no estudo das peças de Beckett, mas assistindo aos filmes da Sessão da Tarde, a partir dos quais Moraes esmerilhou sua esgrima fraseada de interrupções (leiam Anais Nin do Butantã e concordem comigo).
[…]
O que temos então em Fotografia do meu amor dançando tango é uma colagem híbrida de narrativas que passeiam entre a Sessão da Tarde e a literatura consumida às pressas. 

Lendo tudo isso, apenas posso dizer que o autor da orelha subestimou o livro que tinha em mãos, subestimou o seu autor, deixando-se levar pela imagem da pessoa Diego Moraes – deixando-se talvez engabelar-se por essa imagem.
Qual a qualidade que se pode esperar de um livro cujos textos “passeiam entre a Sessão da Tarde e a literatura consumida às pressas”?!

O livro de Diego pode, sim, ser lido rapidamente, pela concisão dos textos e pelo seu ritmo, mas está longe da superficialidade que o autor da orelha usou como parâmetro para tratar da obra.
O livro A fotografia do meu antigo amor dançando tango foi escrito por um autor que sabe o que está fazendo – e faz muito bem. Um autor esteta, que toma as rédeas de uma técnica e utiliza-a para nos dar textos breves e de uma beleza acachapante (eis-me aqui adjetivando. Por isso, daqui a pouco eu vou parar de falar e colocarei trechos dos contos, para que eles digam por si).

Os diálogos são esteticizados e com muita dificuldade seriam filmados ou levados ao teatro – isso porque eles irão exigir um conceito em torno, que dê conta da estética presente nos contos, que têm um falso coloquialismo, uma falsa simplicidade.  Isso porque Diego Moraes (o Urso Congelado – ele tem um blog com esse nome) é um falso marginal. Ou talvez fique melhor tratarmos de fingimento, em vez de falseamento. Ele finge nos contos e finge nos textos que ele diz serem peças teatrais (ele também escreve peças), mas que são contos mais longos, porque mantêm as mesmas características dos contos:  a brevidade, os diálogos beirando o nonsense, as descrições/narrações/rubricas que são inserções poéticas em meio aos diálogos (eles também já cheios de poeticidade, embora valendo-se de uma poética do desespero).

As descrições/narrações/rubricas são impossíveis, impossíveis. Esse livro é cheio de beleza, e as rubricas não aparecem para apenas dar indicações a um possível encenador – elas têm existência própria, independente. Tudo no livro é escrito, é literatura – Literatura. E os textos não precisam ser aproximados a nenhuma outra linguagem para que suas qualidades sejam percebidas.

É um livro positivamente falso/fingido: é a obra de um falso/fingido marginal, é uma obra de uma falsa/fingida coloquialidade.  O autor se vale do que seria coloquial ou marginal e subverte essas categorias, que geralmente se pretendem acessíveis.
Podemos dizer, isto sim, que os textos de Diego Moraes passeiam entre os textos marginais ou coloquiais e os textos de autores considerados estetas da língua. Esse passeio os textos fazem. O outro, sugerido pela orelha, eles estão longe de fazer – o itinerário, aqui, é outro.

Voltando a tratar da orelha do livro, digo que, para mim, ela teria sido bastante útil se dissesse apenas isto (que está quase no término do texto): “São narrativas curtas, nas quais o autor não perde tempo com descrições, preferindo ir direto ao centro do tumulto no qual suas personagens respiram”. Disso, eu gostei.

Finalmente, coloco aqui trechos retirados dos contos:

– A gente não para de pensar nem um segundo: tipo submarino esquadrinhando cicatrizes alheias. (Abre um mar no espelho do banheiro, p. 13).

Dário: Respeita minha mulher seu filho da puta drogado do caralho!

Zumbidos amarelados. Socos desfocando para o chafariz do bicho morto. Silêncio de abatedouro sem patas. […]. (Anais Nin no Butantã, p. 19).

Fez silêncio de mãos partindo melancias num acampamento qualquer de 1977 […]. Algazarra. Flashs espalhafatosos ao luar. Gritinhos de bocetinhas ao embarcar. (Chuck Norris da vida real, p. 33).

Caminha assobiando blues até vislumbrar o grande Dramaturgo de coturnos com abas de fora. Anjos baleados brincam de mergulhar sorrindo na frente dele enquanto cães vão discutindo com Deus […]. (Sensibilidade, p. 42).

Paulo César: Antigamente respirava e sentia o gosto das cores, agora só vejo o vento enjoar de si mesmo e afrontar as vidraças. (Amizade de urso, p. 43).

Aqui, coloco um trecho de um dos contos, onde (creio) podem ser percebidas as características que citei mais acima:

Você não é Rocky Balboa

Diego:
Não sei o que é amar desde 2 de abril de 2005.

Paulo César:
Esboço para um conto?

Diego:
Saca aquele silêncio de noites perdidas e tudo o que sobra é a paisagem do trem cortando nuvens?

Paulo César:
Nunca entendo tuas metáforas, deve ser por isso que todo mundo te chama de “Sem pé nem cabeça”.

Diego:
É. Já falaram que sou um avião sem lugar pra pousar.

Paulo César:
Sei.

Diego:
Foda. Ela ouvia meus poemas sorrindo com a cabeça encostada nos meus ombros e fechava os olhos de tanta ternura no final da tarde.

Paulo César:
Cê precisa conhecer outra garota. Esquecer essa mulher, brother. Calçar tuas botas e escalar montanhas no Himalaia.

Diego:
Isso é coisa de corno chique.

Paulo César:
Sei lá. Tem algo de iluminação nisso.

Diego:
Quê?

Paulo César:
Em conversar com Deus em braile.
Silêncio de cavalos ruminando nos fundos da igreja.

Diego:
Esse papo de acampar perto do céu é coisa de veado, Paulo.

Paulo César:
Então tu é mais bicha do que eu brother. Fica aí plantando de romântico e escrevendo contos barra pesada como se fosse o Stallone…

Diego:
O que tem de errado nisso?

Paulo César:
Farsa do caralho.
Paulo tosse até respingar gotículas de sangue na camiseta branca.

Diego:
Cê ta bem?
Paulo revira-se no chão como Apollo arrebentado no 13º assalto.

Paulo César:
Faz o seguinte: continua escrevendo e para de se lamentar por mulher, valeu?

Diego:
Certo.
Diego dá a mão e Paulo se levanta.

Paulo César:
Desculpa te chamar de imitador do Balboa. É que os personagens dos teus contos sempre ganham no boxe e voltam pro cais sozinhos e chorando de desgosto.

[…]

Em A fotografia do meu antigo amor dançando tango, os contos muitas vezes são como piadas, há um riso ecoando todo o tempo, mas um riso quase de dor. Inclusive há a piada sobre a própria literatura. O livro é bastante metalingüístico, isso com leveza e ironia. Lendo-o, parece-nos mesmo que há ali o Diego Moraes, falando através de mais de um alter ego (tanto que, por vezes, o livro me parece um romance – e os contos seriam capítulos dele, desse romance. E talvez isso seja bem interessante, porque há no conjunto dos textos a recorrência de personagens e de questões, como se o livro as reencontrasse em diversas situações, às voltas com os mesmos dramas. Como se o livro e o leitor reencontrassem as personagens e as questões. Talvez isso seja um problema num livro de contos, talvez não seja um problema – ainda não sei o que dizer. Mas, pelo menos, o formato questiona os modos mais comuns de se fazer um livro de contos. Não que isso seja novidade, mas Diego o faz com qualidade).

Talvez haja mesmo uma profunda identificação entre Diego Moraes e suas personagens – mas, que o leitor não procure isso, que o leitor não alimente isso, porque os contos sobrevivem a essa comparação. Eles não são bons porque talvez tenham algo de autobiográfico – eles são bons porque subvertem alguns modos já cristalizados de se fazer literatura, porque são ricamente humanos, porque são extremamente poéticos, porque são uma das melhores novidades surgidas em nossa literatura nos últimos anos.

Eu espero que o autor impeça, em próximas edições, que as orelhas de seus livros tentem agregar o valor do livro à sua biografia. Porque os textos não precisam de seu autor.  Ou, como cantaria Marina Lima agora, para Diego Moraes: “As coisas não precisam de você”.

Um texto sobre o livro do Diego Moraes, aqui, no blog do Bruno Bandido.

A fotografia do meu antigo amor dançando tango, Diego Moraes, Juiz de Fora: Bartlebee, 1a. edição (2012), 92 págs. ISBN: 978-85-64914-13-1 .

Para comprar o livro é só clicar:

e

Boa leitura!

Alfredo Monte escreveu sobre o livro de poemas de Diego Moraes, A solidão é um deus bêbado dando ré num trator. Conferir aqui, em seu blog Monte de Leituras.

Anúncios
  1. André
    30/09/2012 às 22:10

    um livro salva um mundo, salvou o meu ontem.

    • niltonresende
      30/09/2012 às 22:12

      salva sim, andré.
      o meu já foi salvo diversas vezes por um livro.

      =]. abraço. obrigado pela visita.

  2. Sandra Neves
    01/10/2012 às 12:14

    Aprendo bastante com suas críticas, Nilton.
    Pq só sei ler. E olhe lá…

    • niltonresende
      02/10/2012 às 10:49

      nada.

      cheiro.

  3. 11/09/2013 às 00:29

    Num momento em que meu sonho é voltar a fotografar, um livro chamado “Fotografia do meu amor dançando tango” deixa-me extremamente curiosa. Feliz por voltar ao blog e encontrar esse texto aqui. Aliás, feliz por encontrar vc, Nilton, seja no blog ou fora dele.

    • niltonresende
      16/11/2013 às 23:53

      elaine,
      procure o livro do diego. os livros.

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: