Início > Sem categoria > Ingênua, mas Firme !

Ingênua, mas Firme !

Acabo de ler uma postagem de um blog que eu acompanho, o Leituras Brontëanas.

Nela, há a referência a diversos livros que vêm sendo editados no rastro de alguns clássicos, mas sem a força desses mesmos clássicos, tentando reproduzir aspectos deles, mas em contextos bastante distintos – e, no mais das vezes, com personagens mais frágeis do que as que povoam livros escritos há mais de um século.

São livros que, feitos como pastiche daquelas obras, tão fortes à sua época, tornam-se balas açucaradas.

A postagem em questão chama-se Jane Eyre e os tais tons de cinza (ou Parem de mexer com os clássicos!), e trata de como uma série de livros “inspirada” na obra de Charlote Brontë reduz seus protagonistas e dá ao leitor uma ideia errônea de suas personalidades.

Eis aqui a postagem na íntegra:

Jane Eyre e os tais tons de cinza (ou Parem de mexer com os clássicos!)

 

Há um tempo tenho ouvido falar sobre a trilogia “Fifty Shades of Grey” que nada mais é do que a nova queridinha do mercado editorial. Inicialmente, a tal história nasceu como umafanfiction da “saga” Crepúsculo – que dispensa apresentações – mas, tomou proporções enormes na internet e acabou gerando outra história completamente diferente, porém, igualmente desprezível.

Resumindo grosseiramente, Cinquenta Tons de Cinza conta a história de um figurão lindo, atormentado pelo passado e bilionário (eles sempre o são) Christian Grey e de uma mocinha ingênua e boboca (e elas sempre são bobocas), Anastasia Steele. Os dois se envolvem em um tórrido romance, permeado por inúmeras fantasias sexuais, “segredos sombrios” e outras tantas intempéries que atrapalham a plena realização do satisfatório – ou não – final feliz. Não por menos, o livro foi tachado como “pornô para mamães”, pois, segue a mesma linha crepusculística de narrativa, mas com uma pimentinha pra ninguém reclamar das coisas.

Eu não tenho problemas com os guilty pleasures da vida. Aliás, todo mundo tem ao menos um. Seja um livro, uma série, um filme, uma bandinha…

O que realmente me incomoda é a insistência de alguns autores, como a própria Stephenie Meyer e agora essa tal E.L. James, em querer comparar seus pseudo-romances com ícones da literatura. Ambas já declararam terem se inspirado em Jane Eyre – principalmente no personagem de Rochester – para criarem suas histórias. Porém, a diferença ideológica e da própria natureza dos personagens é gritantemente distinta. O que temos visto são escritores picaretas que, sabendo do anseio de fãs órfãos de narrativas ricas e complexas, pegam ideias soltas e as relacionam com grandes histórias, simplesmente para ganharem publicidade.

Recentemente, devido ao sucesso da trilogia de James, outras atrocidades têm surgido como Jane Eyre Laid Bare de Eve Sinclair – reconto da história de Brontë em roupagem erótica – que será publicado em agosto desse ano pela Macmillan. Se Charlotte estivesse viva, seus advogados estariam em polvorosa nesse exato momento…

Mr. Rochester, o que você acha dessa ideia?

Eu entendo a sua raiva, sir.

Na Revista Veja de 6 de junho de 2012 foi publicada uma matéria interessante sobre o sucesso da tal trilogia e o mais instigante é percebermos (citando a chamada do artigo) que “a despeito de décadas de feminismo, ser subjugada e dominada por um macho alfa ainda é a suprema fantasia feminina”.

No detalhe da imagem, podemos ver que Jane Eyre é considerado como precursor das histórias de amor e dominação. Mas, conforme vemos em destaque, Jane pode até ser considerada ingênua – devido à sua própria criação e princípios – mas é firme. Em nenhum momento ela se deixa dominar por Rochester, ainda que sua paixão por ele seja mais revolta do que um mar em meio à tempestade. Jane, ao contrário das “inocentes” personagens que vemos nos bestsellers de hoje, é sim um exemplo de uma mulher que sabe seu valor e tem plena consciência de quem é.

Recomendo muito a leitura da matéria, que pode ser lida na íntegra no Acervo Digital da Veja.

Coloquem vampiros, lobos, sexo explícito, triângulos amorosos e o que mais quiserem. O clássico sempre irá vencer, pois, é atemporal.

Meus parabéns ao pessoal do Leituras Brontëanas.

Anúncios
  1. 24/06/2012 às 21:36

    Essas comparações que as próprias autoras fazem me parecem uma daquelas estratégias que consiste em dizer que o que você faz é algo tão bom ao ponto de convencer os outros. Então nada melhor do que comparar lixos bem vendidos a clássicos da literatura. Serve até mesmo para que os leitores daqueles se sintam mais “cultos” e possam de uma forma distorcida justificarem seus “guilty pleasures”.
    Eu até cheguei a ler a chamada dessa matéria da Veja enquanto estava na fila de espera do supermercado e fiquei abismada com a visão dualista entre dominação sexual e feminismo. Como se uma feminista não pudesse apreciar esse tipo de fantasia. Pelo contrário, na cama não existe ideologia, só o prazer independente da sua forma.
    Mas enfim, apesar de todos os males feitos à Emily Brontë, acho que nada supera os feitos à Jane Austen: http://www.wordofthenerdonline.com/wp-content/uploads/2012/04/PPZ.jpg

  2. 24/06/2012 às 22:11

    E raios, eu escrevi “Emily Brontë”, mas quis dizer “Charlotte Brontë”. Meu subconsciente não esconde o meu favoritismo entre as irmãs.

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: