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Tortura / Torturas

Minha amiga Brisa Paim mostrou-me há pouco um site com depoimentos de mulheres que foram torturadas nos porões da ditadura militar no Brasil. Depoimentos terríveis, de certo modos resumidos nesta fala:  ‎”o objetivo da tortura é esse: vilipendiar você como pessoa, que seu corpo e sua vontade percam o controle e você se sinta um montão de carne, ossos, merda, dor e medo” (MARISE EGGER-MOELLWALD, ex-militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), era estudante de Ciências Sociais quando foi presa no dia 24 de outubro de 1975, em São Paulo (SP). Hoje, vive na mesma cidade, é socióloga e trabalha como consultora em gestão pública e desenvolvimento de políticas sociais).

É preciso coragem ou força ou frieza para conseguir ler os depoimentos, que podem ser lidos aqui. Depoimentos que tratam de como se buscava destruir o outro: ‎”o objetivo deles era destruir a sexualidade, o desejo, a autoestima, o corpo”.

Na década de 80, foi lançado um livro que revelou ao Brasil a realidade dos porões da ditadura: Brasil: Nunca Mais, prefaciado por D. Paulo Evaristo Arns.

Esta é uma descrição do que o livro traz:

“A questão da repressão política é quase sempre levantada a partir de denúncias dos atingidos, ou de relatos feitos por entidades que se dedicam a defesa dos direitos humanos. Mas a pesquisa “Brasil: nunca mais”, que deu origem ao título do livro, estudou a repressão exercida pelo regime militar a partir de documentos produzidos pelas próprias autoridades encarregadas dessa controvertida tarefa.Reuniu as cópias de quase todos os processos políticos que transitaram pela justiça militar brasileira entre abril de 1964 e março de 1979, especialmente aqueles que chegaram ao Superior Tribunal Militar. Isto não significa que em março de 1979 houvessem cessado por completo os crimes de tortura e atentados terroristas -haja vista o acidente terrorista do Riocentro em 1981 -mas era preciso fixar um período limite e assegurar um certo distanciamento histórico em relação aos fatos analisados; não se analisaram processos ainda em andamento. Por que usar os processos da justiça militar como fonte básica? Porque recuperar a história das torturas, dos assassinatos de presos políticos, das perseguições policiais e dos julgamentos tendenciosos a partir dos próprios documentos oficiais que procuravam legalizar a repressão política daqueles 15 anos, era produzir um testemunho irrefutável. Nos 21 capitulos deste livro os pesquisadores alternaram os conteúdos mais impactantes das denúncias com passagens analíticas que mostram as origens do aparelho repressivo, sua estruturação e a relação entre torturas na fase de inquérito e o comportamento conivente das autoridades judiciárias. Queriam evitar tanto o enfadonho das descrições intermináveis, quanto o erro de falar daquelas torturas e daqueles crimes como se fossem desligados de todo um sistema político construído no Brasil a partir de 1964. O grande objetivo do livro é que ninguém termine sua leitura sem se comprometer, em juramento sagrado com a própria consciência, a engajar-se numa luta sem tréguas, num mutirão sem limites, para varrer da face da Terra a prática das torturas.” (James Wright).

O download desse livro pode ser feito no site do DHnet (Direitos Humanos na Internet), na página especialmente dedicada a essa publicação e ao assunto de que ela trata: Brasil Nunca Mais DHnet.

Procurando vídeos a esse respeito, encontrei um produzido por alunos de um colégio:

Encontrei também um documentário rodado no chile, com depoimentos de exilados brasileiros sobreviventes:

“O terror quem faz no Brasil é o Governo. Embora a propaganda tente nos conceituar como terroristas.”

A tortura não é algo novo, e pode manifestar-se de diversos modos. Inclusive no cotidiano, quando alguém exerce o bullying sobre uma pessoa.

Pode acontecer também quando tentam, de diversos modos, tornar a nossa mente uma coisa amorfa, totalmente moldável. Quando fazem tornar-se diluída a nossa vontade, de modo que ela desapareça e nós sejamos reféns apenas dos desejos ou da vontade do outro.

Há as torturas terríveis e chocantes porque são um paroxismo, como as que aconteceram durante a ditadura e nos regimes totalitários.

Mas, há aquelas diluídas que desejam o mesmo: destruir nossa vontade. Agora, valendo-se de outros instrumentos.
É torturado constantemente, por exemplo, o povo alagoano, por conta daqueles que deveriam estar cuidando da população: aqueles envolvidos com o governo estadual, com as administrações municipais. Todos esses são torturadores.

A cidade de Pão-de-Açúcar está à beira do Rio São Francisco, mas sofre com falta d’água por conta de não haver uma política preocupada com o abastecimento d’água.

Retirantes – Candido Portinari

Quando viajo por Alagoas,  vejo cidades idênticas a como eram há 30 anos. E durante esses 30 anos essas cidades tiveram prefeitos e vereadores. Então, o que eles fizeram durante esse período?

Há anos, alguns aposentados do Estado na área da saúde esperam receber seu FGTS, que estava retido e ao qual eles tinham direito. Muitos sonhavam com esse dinheiro, que os ajudaria a pagar dívidas, a viver com mais dignidade. Eram 15 mil reais, 60 mil reais… E eles receberam 4 mil, 2 mil… Coagidos, claro. Porque era isso ou era nada.
Mas,  nossos (nossos?) vereadores tiveram seus salários aumentados. Nossos políticos legislam em favor próprio. Eles criam as leis já pensando nas brechas para se valerem delas como bem entenderem.

Somos torturados. Somos mastigados geração após geração.

Temos nossa vontade destruída.

Temos gerações famintas e analfabetas servindo de certeza da reeleição das dinastias de vampiros que reinam aqui.

Somos torturados cotidianamente.

Cotidianamente fazemos a vontade deles.


Por isso, finalizo esta postagem com um trecho do conto Mário e o Mágico, do Thomas Mann, que a Cia. Ganymedes adaptou para o teatro.  A peça chama-se O Mágico, e este é um trecho dela, no qual Cipolla, o ilusionista, o “mágico”, coloca alguém para dançar a música que ele toca; a música da humilhação. É um trecho aproveitado da tradução feita por Claudio Leme a partir da versão francesa do texto de Mann (Mario et le Magicien):

“Baila!!! Uma alma não pode viver de não querer. Não querer fazer alguma coisa é insuficiente pra preencher uma vida. Não querer alguma coisa está bem próximo de não querer coisa alguma, e, logo, de acabar fazendo o que uma outra vontade impõe.  Baila!!!!!!!! “


E é isso que fazemos dia após dia, ao deixarmos eles nos manipular;  ao não nos revoltarmos; ao reelegê-los; ao eleger seus comparsas; ao fingirmos que nada acontece: bailamos.

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  1. André
    29/05/2012 às 00:56

    A omissão da classe média alagoana, que não quer sair de sua zona de conforto, propicia o que você descreve neste artigo, que nada mais é que o terrorismo de estado.

    • niltonresende
      29/05/2012 às 01:03

      pois é, andré.
      uma omissão que apenas agora está sendo minimizada (agora, não sabemos por quanto tempo), porque ela se sentiu diretamente atingida.

      como se não fosse terrível a coisa inteira, o complexo que permite estar Alagoas na situação em que se encontra.

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