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Ficção e Realidade : Quem? Onde? (tomando Thomas Mann por mote)

No monumental A cultura do romance, organizado por Franco Moretti e editado no Brasil pela CosacNaify em tradução da incansável Denise Bottmann, há um interessante texto de Thomas Mann, do qual eu coloco aqui alguns trechos.

Seu título é “Bilse e eu”. E foi escrito por conta de críticas a respeito de seu livro Os Buddenbrooks. Segundo elas, Mann teria exposto pessoas reais em seu romance, à maneira de Bilse em seu Una piccola guarnigione ( Romanzo di costumi militari).

Primeira Edição
(clique para ler uma crítica)

Sobre essa comparação, disse Mann:

“Sem dúvida estava convicto do que dizia. Ele [o autor da acusação] crê, antes de mais nada, que o gênero literário que designa de ‘romance à Bilse’ nasceu nos nossos tempos corrompidos, e que foi ele a descobri-lo e batizá-lo como tal.  O grau da cultura que logrou alcançar não lhe permite saber que em todas as épocas, ao lado da literatura propriamente dita, sempre existiu um outro filão literário, escabroso, uma – digamos – literatura à Bilse, que em determinados períodos conheceu notável florescimento e cujos produtos, sem nenhum valor artístico, mas não desprovidos de interesse para a história dos costumes, frequentemente conservavam sua aura de escândalo quando todas as referências pessoais comprometedoras já haviam esvanecido havia muito tempo antes. Ele ignora que, em comparação às flores venenosas que desabrocham nos livros de fofocas e nas memórias literárias do século XVIII, a ervazinha Bilse se revela extremamente inócua e inescrupulosa. Ele considera o senhor Bilse o pai de todo e qualquer escândalo e vê em mim seu pai espiritual. Assim sou aos seus olhos. Deus o acuda. Ele não duvida que meus esforços literários tenham recebido algum consenso única e exclusivamente porque nos Buddenbrooks retratei agradavelmente alguns tipos verdadeiramente burgueses de Lubeck: um fato, segundo seu modo de ver as coisas, que encheu de alegria maliciosa todo um público de leitores alemães, desde Maas a Memel.  Ele não vê  diferença alguma entre mim e o autor da Pequena Guarnição; não veria nem mesmo se quisesse. ‘Sustentarei minha asserção!’, diz. E se empertiga, orgulhosíssimo, na sua agressiva franqueza. E assim o deixaremos.”

 Ao dizer “desde Maas a Memel”, Mann refere-se a um dos versos da Canção dos Alemães em que se diz dos limites de terra onde era falado esse idioma: “Von der Maas bis an die Memel”. A terceira estrofe dessa canção é o Hino Alemão.

Mas, voltemos a Mann, que, no mesmo texto, diz ainda:

Thomas Mann

“Bilse e eu… há uma certa diferença, espero que se admita: a diferença, talvez, que existe entre desfaçatez e liberdade. Mas, quando falo em liberdade, refiro-me àquela independência, autonomia e solidão interior que é o pressuposto de toda criação nova e original. Ela não exclui de maneira alguma uma fraternidade humana e cordial: mas nela residem a dignidade e a nobreza do artista, e sobre ela não têm poder algum as deferências humanas e as cautelas sociais. Hoje em dia, fala-se muito em ciência ‘sem preconceitos’. Recusaremos a mesma ausência de preconceitos à bela e gaia ciência da arte? ‘O artista que não se sacrifica totalmente’, disse um poeta e pensador, ‘não passa de um servo inútil’. Palavras eternamente verdadeiras. Mas como posso me sacrificar totalmente sem sacrificar ao mesmo tempo o mundo, que é a minha representação? A minha representação, a minha experiência, o meu sonho, o meu tormento? Não falo de vocês, nunca, jamais, podem ter certeza, mas de mim, apenas de mim…
Leiam estas linhas! E tenham-nas em mente! É uma carta a todos vocês, um pequeno manifesto. Não perguntem sempre: ‘Quem é?’. Ainda hoje desenho meus homenzinhos, um conjunto de linhas que não representam ninguém a não ser a mim mesmo. Não digam sempre: ‘Este sou eu, aquele é fulano’. São apenas expressões do artista, para as quais vocês deram apenas o pretexto. Não estorvem com injúrias e intrigas a sua liberdade, pois apenas ela o torna capaz de fazer aquilo que vocês próprios amam e louvam, e sem ela o artista não passaria de um servo inútil.”

Mas, uso as palavras de Mann não apenas para expor esse problema de que ele trata; uso-as para quando as pessoas olham a obra e, em vez de ter a vista dirigida para o mundo, buscam ver no texto o seu autor, gerando perguntas tais como: “é você esse menino?”;  “aquela é sua avó, não?”; “como você era maldoso quando criança”;  “reconheço essa rua”…

Perguntas e afirmações desse tipo ouço-as quando algum leitor vem comentar sobre os contos de diabolô. E o que eu digo? Que ali há sentimentos que um dia senti ou percebi; que ali há uma geografia que eu já vi ou percorri. Pois, sim, ali há o bairro do Prado em Maceió, há seu cemitério; há o mercado cheio de lama; há as barbearias… Eu vou falar das vielas de Estocolmo? Há vielas em Estocolmo? Como são?

E as pessoas? Em quem eu me inspirei? Por favor, que eu informe, pois seria tão interessante saber da fonte, saber quem eu talvez tenha vampirizado para colocar na escrita. Vampirizo o mundo, sugo-o, ele que me suga.

Creio ser mais interessante, ao ler um livro, não buscar ali o autor, mas buscar ali a si mesmo. Do contrário, de que adianta passar horas aventurando-se em ler um livro se não for também para se auto-conhecer?

Parece-me haver, na verdade, um temor. Um medo de enxergar-se. Por isso, o olhar fito na direção do autor, para se desviar de si mesmo. Melhor que nas páginas esteja o horror do outro e não o do próprio leitor.

Mas, ao se deparar o leitor com um livro que se apresenta como uma obra de ficção, acho que ler e esquecer o autor, vendo apenas a história ali apresentada e suas personagens, podendo daí haver, talvez, uma experiência vicária, isso é para mim uma coisa tão mais sábia, tão mais bela. Tão mais corajosa.

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