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A Fresta

Frestas (foto de Wagner Vinhas)

Olho de céu, o menino escuta, varrendo o terreiro e sentindo a vassoura parar de repente. Olha de lado, num sobressalto; olha para trás, acima, e vê a prima segurando firme o cabo, enquanto se agacha. Segura o rosto dele, emoldurando-o com as duas mãos. Afasta-se um pouco, enquanto olha-o, tirando o seu rosto da sombra e lançando-o ao sol. Ele fecha os olhos, mas ela pede que os abra. Ele obedece, lento, as pálpebras trementes, a mulher à sua frente, metade do corpo recortado contra a luz, os braços estendidos e afagando sua cabeça: Parece um anjo. Recoloca-o então na zona de sombra e descanso, enquanto beija sua testa: Você tem olho de céu. Olha para o alpendre: Ele está cada dia mais lindo, prima.

E trabalhoso, a mãe fala e desce os degraus para abraçá-la. Aponta para o homem de costas, que tira os volumes da mala do carro: Grandão. A outra corre até o homem e abraça-o por trás, virando-o: A prima. Ele sorri, coloca o galão de vinho no ombro e caminha até os degraus: Tomar vinho. Nosso Senhor derrama sangue e a gente bebe vinho, fala e sorri. A mulher dá-lhe um tapa nas costas e ri logo em seguida. Ele para no último degrau, olha para trás: A beleza é de família? As duas gargalham e vão pegar as coisas do carro. Entram na casa.

A manhã inteira é a cozinha em preparações. No almoço, o menino toma suco de uva. Por enquanto você toma só isso, diz o homem e coloca o braço no ombro dele. Mais tarde você vai provar mais coisa, que tem muita delícia nesse mundo pra quem sabe apreciar, e respira fundo e pisca para as mulheres.

Vocês deviam passar a noite aqui, a mãe fala. A prima diz que o homem vai trabalhar no sábado de manhã. Mas Sábado de Aleluia? E a outra fala que pra vigilante não tem feriado, no Sábado de Aleluia também se rouba.  A mãe consente, dizendo logo depois que de qualquer jeito será uma pena, porque ninguém costuma aparecer no sítio, e é uma tristeza ficar sozinha ali.

Mas a gente tem a tarde toda pra se divertir, diz o homem, levantando-se e tirando a camisa. Vai à cozinha e volta com uma garrafa de vinho: Este é um pouquinho mais forte. A mãe toma de um gole o restante do vinho que está no copo e estende a mão: Então tô lascada. Ri. Tá nada, diz o homem, enchendo o copo dela. Estamos, diz a outra, gargalhando. In vino veritas!, diz o homem, levando o copo à boca. O vinho diz a verdade, explica às mulheres.

A mãe afasta a cadeira do menino, mandando-o ir catar as mangas caídas, levar as moles para o galinheiro e colocar as mais duras no cesto. E depois ir ver se alguma fruta-pão caiu do pé, no terreno depois do riacho. É para deixá-las em cima da pedra, cobertas com folha, pra irem pegar depois. Traga só duas. Diz isso e dá uma tossida, engasgada no riso por causa da dança que o homem faz agora, imitando o cabeleireiro da prima. Vai para o quarto e retorna envolto em um lençol como uma saia, uma toalha enrolada na cabeça. A mãe engasga-se e cospe o vinho na parede. Repreende a prima porque ela se levantou para lavar a mancha: Hoje não! Aponta para o homem: Dança. Olha para o menino: Já voltou!?

Ele sai, em meio aos risos e gritos dos três. Cata as mangas, distribui-as entre o galinheiro e o cesto. Ao atravessar o riacho, escolhe um ângulo por onde veja a face refletida e olha um momento para si, buscando ver nos olhos a mesma cor do céu atrás de sua cabeça. A luz mostra-se em pequenos pontos por entre o cabelo, os cachos dourados.

Levanta-se, vai até as frutas-pão caídas. Passa as palmas das mãos na superfície crespa do fruto, esfrega-as, forçando quando no centro da palma. Aperta mais forte, e a base de uma das mãos afunda no lado podre do fruto, úmido e amarronzado, que estivera virado para o chão. Pega areia, esfrega os dorsos, as palmas; esfrega-os no mato. Recolhe as frutas caídas e coloca-as sobre a pedra ao pé do morro, numa pirâmide que logo resvala. Desiste do empreendimento e as dispõe uma ao lado da outra. Cobre-as com folhas verdes, que retira dos arbustos. Cobre-as lento, tentando ocultar toda a crespância esverdeada. Sobre as folhas, deita pedaços de galhos, uma fortaleza de ramos ocultando o tesouro.

Na volta, agacha-se mais uma vez no riacho, mas agora há um céu avermelhado, com línguas de fogo cortando as nuvens, uma fogueira por trás de seu cabelo, como se o próprio menino estando em chamas. Levanta-se. Acelera o passo.

À casa, subindo os degraus, escuta as risadas, mas agora mais baixas, vindo de dentro do quarto. Põe-se na ponta do pé e espia por uma frincha na janela. O homem beija e alisa com a língua o joelho de uma mulher de pernas abertas, enquanto toca a mão nas carnes em meio aos pêlos, esfregando os dedos e forçando-os na entrada. Ainda mexendo com os dedos, ele sobe a língua até os peitos dela e chupa-os. A mulher coloca a mão no negócio dele, que está duro. O menino encosta-se à parede, pressionando o corpo e esfregando-se. O homem deita-se e a mulher se agacha para tocar a língua no negócio dele. A prima é que toca a língua no negócio do homem e bota na boca-o, chupa-o. Tenha vergonha!, ele escuta alguém dizer, ao mesmo tempo em que sente algo bater-lhe na cabeça. Algo duro e frio que lhe deixa a testa úmida e agora morna. Uma mornidão espalha-se por seu rosto, enquanto desferem-lhe tapas seguidos, muito fortes, conjugados com a voz da mãe, que ora grita ora sussurra, parando os tapas e apertando os cotovelos sobre as costas dele, forçando-os mais ao tomar seus cabelos e puxá-los, para voltar a gritar que ele tinha que ter vergonha, e que nem  trouxe o que lhe pediu, então ele tenta dizer que esqueceu, mas o rosto, pressionado contra a areia, porque rolara pelos degraus, não lhe dá condição de articular as palavras, e em sua boca a frase limita-se apenas à sibilância das sílabas, conseguindo abrir-se num arfar quando a pressão diminui no mesmo instante em que ouve a prima gritar: Você vai matar o menino!

Ele apoia os braços no chão e volta o rosto para o lado enquanto deixa cair a saliva com a areia que se juntara na boca, machucando os dentes quando eles trincavam esmerilhando-se sob a pressão. Aperta os olhos no esforço de enxergar. A mãe anda trôpega até a lateral da casa, e vê-se dela apenas um curvar-se, uma mão na barriga e a outra parecendo que vai à boca, o corpo tremendo. Volta aliviada. O homem desce da casa trazendo uma bacia com água, uma toalha sobre o braço. A mãe olha para os dois: Desculpa, gente. Desculpa. Entra à casa. O homem coloca a bacia no chão, à frente do menino. Colhe da água com as mãos em concha, jogando-a sobre o rosto dele. Lava-o. Na bacia, o menino tenta ver os olhos e o céu, mas abre-os com dificuldade, e agora, na água suja de areia, ele, a prima, o homem, tudo é da mesma cor avermelhada. O homem enxuga seu rosto, leva-o ao banheiro, tira sua roupa. Despe-se também e banha-o. Enquanto o menino se enxuga, banha-se o homem. Ele é grande e forte, e o negócio tem muito cabelo e não está duro como quando a prima botou na boca. Enrola-se rápido na toalha. Fica observando o homem. Vá deitar, ele diz.

Enquanto se veste, ouve a mãe reclamar porque os dois precisam ir, e eles falam que precisam ir. Ouve o ruído do carro afastando-se, o ruído da mãe fechando portas, apagando luzes e indo para o quarto. Ele caminha e estaca em frente ao quarto dela. Ela percebe-o e, deitando-se, manda-o ir dormir. Ele não se movimenta. Fecha essa porta!, ela grita e levanta-se, batendo-a com brusquidão. Ele baixa os olhos. Pouco depois, encosta na fechadura o rosto intumescido, mirando por entre ela. Silencioso, pressiona o corpo contra a porta.

(conto do livro diabolô,  Edufal, 2011).

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