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“a beleza imóvel”

…e eu, sempre fugindo por simples medo de amar, de repente me lembro do sublime que é amar e ser amado – aproveito esse instante que em poucos dias será novamente deposto em favor do surdo e cego temor que tem respostas prontas: imagina: se é difícil amar um homem ou uma mulher, se é difícil deixar-me ser amado, e vários medos emolduram essa coisa do afeto, o que não dizer de amar e ser amado por Deus, esse paroxismo…

Porque poemas e canções podem nos traduzir, traduzem-me:

:

MÓBILES

.

Que belo poema se poderia escrever.

Coisas espicaçadoras não faltam,

hortigranjeiros esperando transporte

e tudo que é necessário:

tenho que fazer o almoço.

Ou supostamente ético:

batia gente na porta,

Tialzi no corador virava as calcinhas todas

de modo a esconder o fundo.

Uma laranjeira rebrota,

preciosa árvore do mato dá espinhos,

folhinhas miúdas, flores cujas pétalas

são fios agrupados em contas de odorífero ouro.

Elas explicam o mundo como os pintinhos explicam,

perfeitos até as unhas, emplumados, vivos)

invencível delicadeza

que homem algum já fez com sua mão.

Surpreendido de noite com a mão nos ouvidos,

o moço dizia: não durmo, é a música do bar,

este galo seu que canta fora de hora.

Mentira. É por causa da vida que não dorme,

da zoeira sem fim que a vida faz.

Quer casar e não pode,

seu emprego é mau,

seu pâncreas, ingrato e preguiçoso.

Eu me casei e tenho a mesma medida de aflição.

O dia passa, a noite, saio da sombra e digo:

é só isso que eu quero,

ficar no sol até enrugar o couro.

Mas vai-se o sol também atrás do morro,

a noite vem e passa sobre mim

que longe de espelhos alimento sonhos

quanto a viagens, glórias,

homens raros me ofertando colares, palavras

que se podem comer, de tão doces,

de tão aquecidas, corporificadas.

A parreira verga de flores,

eu durmo inebriada,

achando pouca a beleza do mundo,

ansiando a que não passa nem murcha

nem fica alta, nem longe,

nem foge de encontrar meu duro olhar de gula.

A beleza imóvel,

a cara de Deus que vai matar minha fome.

(Adélia Prado, em Terra de Santa Cruz).

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