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“Passou”

Há alguns anos, eu costumava, a esta época, enviar por e-mail uma crônica que eu acho linda – uma crônica do Rubem Braga: “Passou”. Ela está no livro A borboleta amarela, uma coleção de textos de um dos nosso mais sensíveis cronistas – talvez, o maior escritor brasileiro nesse gênero.

Neste ano, resolvo dividi-la novamente, como um bálsamo de que necessitamos neste momento em que mitologicamente agarramo-nos a Jano e tentamos nos lembrar do que fizemos ou deixamos de fazer, para vislumbrar um futuro melhor.

 

Fiquei pensando se deveria colocar isto hoje ou no “último dia”, mas optei por hoje. Assim, há mais tempo para lentamente pensarmos que “passou”; mais tempo para aceitarmos o abraço; mais tempo para aceitar o bálsamo – pois nem sempre estamos afeitos a bálsamos.

Beijos em todos.

Bom Natal – que a Festa, tão enorme, é comemorada até o dia 06 de Janeiro, quando, segundo a Tradição, Jesus teria recebido a visita dos Reis Magos, que representariam a totalidade das raças conhecidas à época da escrita do Evangelho. Três reis, levando para o Menino simbólicos presentes:  ouro, representando Sua nobreza; incenso, representando Sua divindade; mirra, uma erva perfumada e amarga, representando a humanidade de Cristo, ao mesmo tempo que o sofrimento enfrentado por Ele ao assumir incondicionalmente o amor.

Um Belo 2012.

Rubem Braga: PASSOU (A borboleta amarela)

O ano passou. Não sei se vós, leitor amigo, ou vós, distinta leitora, o passastes bem. Eu, como já passei muitos, os tenho passado de todo jeito, e ainda hoje esse segundo que vem depois da meia-noite me perturba. Já passei ano só, em terra estranha, ou, o que é mais amargo, na minha; ou andando como um tonto na rua ou afundado num canto de um bar ruidoso; tentando inutilmente telefonar; dormindo; com dor de dente. E quando digo de todo jeito estou dizendo também de jeito feliz, entre gente irmã ou nos braços de algum amor eterno – braços que depois dobraram a esquina do mês e da vida, e se foram, oh! provavelmente sem sequer a mais leve mágoa nos cotovelos, apenas indo para outros braços.

Passam os anos, passam os braços; mas fica sempre, quando a terra dá outra volta em si mesma, essa emoção confusa de um instante. Conheço pessoas que fogem a esse segundo de consciência cósmica, afetando indiferença, indo dormir cedo – como se não estivessem interessadas em saber se esta piorra velha deste planeta resolveu continuar girando ou não. É singular que entre tantas festas religiosas e cívicas nenhuma chegue a ser tão emocionante e perturbe tanto a humanidade como esta, que é a Festa do Tempo. É como se todos estivéssemos fazendo anos juntos; é o Aniversário da Terra.

Se a alma estremece diante do Destino, o espírito se confunde; reina uma tendência à filosofia barata; vejam como eu começo a escrever algumas palavras com maiúsculas, eu que levo o ano inteiro proseando em tom menor, e mesmo o nome de Deus só escrevo assim para não aborrecer os outros, ou para que eles me não aborreçam.

Já ao nome do diabo, não; a esse sempre dei, e dou, o “d” pequeno, que outra coisa não merece a sua danação. A ele encomendamos o ano que passou e a Deus o Novo. Que vá com maiúscula também, esse Novo; fica mais bonito, e levanta nosso moral.

E se entre meus leitores há alguma pessoa que na passagem do ano teve apenas um amargo encontro consigo mesmo, e viveu esse instante na solidão, na tristeza, na desesperança, no sofrimento, ou apenas no odioso tédio, que a esse alguém me seja permitido dizer: “Vinde. Vamos tocar janeiro, vamos por fevereiro e março e abril e maio, e tudo que vier; durante o ano a gente o esquece, e se esquece; é menos mal. E às vezes, ao dobrar uma semana ou quinzena, às vezes dá uma aragem. Dá, sim; dá, e com sombra e água fresca. E quem vo-lo diz é quem já pegou muito no sol nos desertos e muito mormaço nas charnecas da existência. Coragem, a Terra está rodando; vosso mal terá cura. E se não tiver, refleti que no fim todos passam e tudo passa; o fim é um grande sossego e um imenso perdão” .

Rio, Janeiro de 1952

 

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