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Manual do como manusear

Sê breve, até ínfimo. E nunca mostres teu olhar.

Em o mostrando, pouco antes pouse-se ele noutra cousa, algo sólida, algo fria; algum móvel pelo quarto, ou um naco dalgum giz. Deixa um pedaço de branco sobre o móvel, esse aparato seco, semimudo, desfazente. Mas que não se mire ele se se buscam relações com aquilo do entremeio, o entre tu e o teu outro; nunca isso. Que se o olhe como cousa, fria e seca, fria e breve. Que se tenha isso apenas. Mas se é bastante extremo, bem sensível o teu agir, remove cada pedaço desse pequeno objeto, tão miúdo e alarmante, que pode dizer do futuro de nadas que está por vir. Olha atento para o móvel, mas cuida que sob ele não haja um velho tênis, par de meias ou afim, esse algo que talvez te dê arroubos de memória, um calo sob o solado, uma nesga de pele ao lado da unha ou o desagrado delicioso do cheiro que ali se evola em sins. Se tais sutis minudências se assomam gritando à mente, pousa o teu olhar em nada antes de mirar o outro. Mas que inspires o ar bem alto, sem dar a perceber, é claro. Inspira o mundo bem farto; e então, bem expiroso, livra-te de qualquer traço de olho piedoso ou doutro, um suplicante. Mira como te mira um de metal artefato, reluzente e espelhado, para que o outro se veja, mas não saiba de teu dentro, dos desvãos dessa tualma, posto que águas lubricosas mais afastam que animam do amante qualquer ato de entrega. Elas mostram-se qual ondas que se escarpam e se jogam como onças mui prestosas de engolir o incauto homem. Logo, digo que te guardes de expostas esmerezas, de cantares sonhos fartos. Se é onda de ressaca tua sede, quebra logo sua crista e engole esse homem que passeia a teu largo. E  encharca suas roupas e lambe a língua na pele e salga a boca e seus dentes. Mata-o; faz que ele, em ingênuo acordar, nem em sonho veja a onça, mas apenas sua sombra, cambiante e andarosa, resvalosa e cantante. E  essa onça, toda noite, vai entrar pelo seu quarto; um súcubo em afagos transformado. Sê onça, sê onda e escarpa. Mas que o olho nunca diga que no fundo de tualma, invés d’onça, mora um lírio e seu veludo. E que as pétalas, trementes, se maceram se o tocam — se tocam a pele do outro, que se afoga nessa praia, breve onda de quem finge, por saber que se o lírio não é onça faz-se em nada. E então seja sereioso o seu canto, mais rufares que algum silvo. Seja forte, seja extremo, seja farpa. E se tudo isso dito é debalde, por ser úmido o teu rosto se se vê de frente ao outro; se ele treme só em pensar nalgum toque; se a boca freme toda só de ver os outros lábios; se um riso faz-se largo, forte, terno, involuntário; se o ouvido ouve pêlos sob brisas; se o corpo do teu outro só exala cousas doudas de gostosas; e tualma, só em vê-lo, muito e toda se alarga — corre aos montes, que é morte essa onda que se dobra caudalosa. E percebes o engano de achares que era o outro estendido sob o corpo da água — que o mar, que tu fizeste, sobre ele mesmo é vaga. E se afoga nele, sempre, todo o que incauto nada: vela, proa, leme, lume, todo propício aparato; braço e perna e nado é nada. Mas não fujas dessa praia. E nem sejas breve, ou ínfimo. Nem escondas teu olhar. Melhor morrer sob as ondas do que, sendo tu tão peixe, não teres provado o mar.

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