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Bach para me Salvach

claves musicais e suas formas

Após meses, volto a ouvir os Concertos de Brandenburgo. Isso por burrice – não em ter voltado a ouvi-los, mas em ter ficado meses sem o fazer.

Johann Sebastian Bach

Mas, vai, eu me perdoo: segundo o clichê, é preciso distanciarmo-nos das coisas para vermos sua beleza e a necessidade que temos delas. E eu preciso de Bach.

Preciso como se precisa ver uma linha destacada no meio de uma algaravia de traços. Se a música ordena, a música de Bach ordena-me.

Eu, apreciador das artes, não colocaria em minha sala de estar um quadro abstrato ou alguma obra que retratasse o caos. Preciso que haja na minha sala, isto sim, um quadro semelhante àqueles que sempre enfeitam as salas e cozinhas e corredores das avós: paisagens idílicas, flores, águas plácidas – no máximo da agitação, uma queda-d’água cristalina (todos os clichês da temperança, da calma, da explícita harmonia).

Eu não poderia ter outro tipo de quadro em minha sala; do contrário, não conseguiria repousar a cabeça ao repousar sobre a tela o olhar.

E é esse repouso que experimento ao ouvir Johann Sebastian Bach – em especial, Os Concertos de Brandenburgo.

Além da beleza mesma da composição, ainda vem como bônus a lembrança afetiva: umas tardes da adolescência, ouvindo os lp’s que meu pai comprava nas bancas de revistas e nos alfarrábios.

A ordem nessa composição de Bach funciona como se em minha cabeça as coisas fossem reorganizando-se, tomando alguma forma, elas que estariam antes adormecidas ou correndo ao léu.

Quase sempre ouço Os Concertos quando vou escrever algo – forma de buscar uma ordem que de modo algum consigo encontrar aqui dentro.

Sobre eles, escreveu Otto Maria Carpeaux:

A amplitude emocional da obra de Bach em conjunto é imensa: basta lembrar a solenidade majestosa das fugas, o misticismo gótico dos motetos, o sentimento comovido das árias e dos largos, o demoníaco de uma hora de rebeldia como no Concerto para piano em ré menor e a elegância aristocrática das suítes e o humorismo burlesco da Cantata dos camponeses e a inocente alegria paradisíaca como no Concerto para violino em mi maior. Bach resumiu tudo isso e muito mais. Mas não resumiu todas as possibilidades da música. Não encontro entre as obras de Beethoven algo tão perfeito como os Concertos de Brandenburgo. Mas não encontro entre as obras de Bach algo que tão intimamente tocasse o coração como o Concerto para piano n. 4 ou O Trio Arquiduque ou as variações da Sonata opus 111 nem abstrações tão transcendentais como o Quarteto opus 132 e as variações sobre a valsa de Diabelli nem uma despedida tão humana como a última obra, o Quarteto opus 135. Para variar, uma frase de Nietzsche: ‘Beethoven escuta e nota o que toca um músico celeste; Bach é esse músico celeste’. A arte de Beethoven é a mais alta música humana. A arte de Bach é menos humana porque é mais que humana. Os Concertos de Brandenburgo são um reflexo da ordem divina do Universo; uma mensagem do reino das idéias platônicas.

Há outros compositores que amo, claro. Há composições que me levam ao êxtase, como o Concerto N°1 para Piano, do Tchaikovsky. É algo excepcional, que arrebata. É eu ébrio, dançando sem coreografia alguma, jogando-me descalço sobre brasas. Gosto demais dessa composição, em especial aos 02:23 (e em diante). Como não se deixar levar por essa voragem?

Piotr Ilich Tchaikovsky

Toda essa composição é, em seu começo, uma ordem em que se pode perceber, sob a superfície, a agonia pedindo para emergir. Parece mesmo que por toda a introdução há uma pele de fina calmaria sendo espicaçada pela agonia, pelas paixões que tentam a todo custo romper o diáfano da ordem.

Eu não gostava de ouvir essa obra de Tchaikovsky após seus 05:00, justamente pelo irromper do que me pareceu sempre irracional. Mas agora, ouvindo enquanto escrevo, parece que entendo-a mais e aceito-a e julgo-a necessária também.

Então, o que parecia ser um louvor à ordem termina por ser um elogio à arte da música, seja ela apaziguadora ou despertadora da mais íntima paixão – pois são necessárias ambas, dependendo do instante.

Nem sempre o que nos salva é a ordem – em diversos momentos, aquilo de que mais precisamos é o caos.

Por tudo isso, aproveito agora e ofereço um drink, mistura de Tchaikovsky e Bach, para nos salvach.

 

Neste site há diversas obras de Bach e de outros compositores: P.Q.P.BACH .

Eis alguns downloads dos concertos:

Os concertos de Brandemburgo e os concertos para violino

Os concertos de Brandemburgo e as suites orquestrais

O concerto para piano de Tchaikovsky

Mais uma vez o concerto para piano de Tchaikovsky

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  1. Brisa Paim
    12/06/2011 às 00:02

    Entendo o lance apolíneo-dionisíaco que você coloca. Já eu, escrevo ouvindo Sonic Youth (olha o caos instalado aí. Mas um caos lindo e harmônico). Ou Chopin (tem sido uma constante). Ou Satie. Semana passada quis fazer algo diferente (ui!) e tentei Caetano, mas não rolou, muito palavrório. O meu critério nº 1 pra escolher a trilha é que não seja nada muito dramático, grandioso, narrativo demais etc. Gosto de sons porosos, cheios de lacunas.
    Mas amanhã farei a experiência Brandenburgo.
    Beijo.

    • niltonresende
      12/06/2011 às 00:07

      sim, bri.
      já escrevi ouvindo satie, a gymnopedie n°1 (coisa mais linda).
      com palavras, só se tiver algo muito a ver com o sentimento que quero evocar (aí, é luiz gonzaga – umas coisas lamentosas -, elis regina cantando milton nascimento, ou uns antigões – pra trazer pra perto a infância). de palavrório, basta o que nos agonia, né.
      fale-me depois da experiência brandenburguense. tentarei sonic youth =] e ouvirei o tchaikovsky (concerto para piano) numa próxima investida.
      beijo. sempre.

  2. 16/06/2011 às 08:24

    coisa linda!

    tanto o texto quanto as indicações. é muito instigante a experiência brandenburguense!

    e tchaikovsky conheci há pouco. o que me fez procurar mais sobre ele foi o filme O Concerto – me emocionei muito com a musicalidade ele. Vi esse filme no cine sesi.

    abração, nilton!

    • niltonresende
      17/06/2011 às 12:25

      bruninho,
      eu não conhecia esse filme. vou procurá-lo.

      =]]]

  3. Dayana Mello
    30/06/2011 às 22:57

    Que belo texto, Nilton!
    Bach traz uma tristeza, algo de nostálgico. Eu sempre procuro, tento perseguir o som de sua música, tento acompanhar a harmonia, o tempo… Tudo vem de um lugar distante. Jaqueline du Pre o acompanhou muito bem:

    Quanto a Tchaikovsky, era desconhecido (até agora), apesar de ser bastante familiar o concerto que vc postou. Agora prestarei mais atenção.
    bjs

    • niltonresende
      30/06/2011 às 23:04

      oi, dayana.
      que bom ver você por aqui.
      vou ver/ouvir a jaqueline =].

      beijo.

  4. Ariana
    08/08/2011 às 09:56

    Nilton, também prefiro um quadro harmônico na parede da sala, no meu caso as pinturas de Waterhouse. Ia comentar sobre a arte-caos, aquilo que fica dormente dentro da gente (as vezes nem tanto), mas você já completou no fim do texto: precisamos da arte em todas as suas formas, mesmo que seja caótica.

    Como uma linguagem emocional, a música traduz de forma muito fiel nossas emoções. Sendo o homem tão vasto, o caos, a ordem, a alegria ou a tristeza, etc., são sentimentos inerentes a nós e a música traduz, externaliza. Deixa preto no branco. Um quadro na parede pode lhe inquietar, chocar, desagradar. Mas a música, ela acorda tudo, bagunça tudo, tira e bota no lugar, vira do avesso, para depois ordenar.

    E eu amo Tchaikovsky. É o meu preferido de todos todinhos. =) Adorei o post.

    • niltonresende
      06/04/2012 às 15:43

      ariana,
      só agora eu vi que nunca respondi.

      Waterhouse realmente lembra você. um mundo meio mítico, um mundo de fiordes, escócias diversas, ofélias boiando ou colhendo alguma flor.

      beijo.

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