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O oco : Esta sobra de ausências

Os santos varados por mil cargas. Os santos varados por mil cargas. Os santos. E a carne espicaçada. E as pernas estendidas, e os braços em um arco, e a cabeça descansada sobre o pano sobre o piso. As narinas esquentadas e cheirando a amônia doutras noites, instalada no tecido, qual vestígio de urina que se impregna na trama do estampado linha-a-linha. Essa uréia que escorre de seus poros toda noite, toda tarde, todo dia, mas mormente quando o escuro toma a sala e o entorno, e as lâmpadas, de sua casa e de outras, bem cansadas, se apagam, e se fecham as delas pálpebras, e as de todos, cada qual em sua cama, inflamado ou  tremido de algum seu próprio frio. E nos flancos, bem por sob, almofadas, duas delas, que se quer uma tal altura que as nádegas, acima de seu corpo, mais acima que o costume, sejam tal e tão tamanha forma altiva, que se um rosto, distraído ou seu contrário, passa ao largo dessa carne, logo ela todo mira, e se enche de desejo, e se enche de ternura ou então de uma adaga fria. Mas que ela, assim tão alta, ela assim tão carne dura, tão cruenta e olorosa, descansada e estremecida, seja alvo de um ataque, quer de um lobo ou de uma brisa. E se fecham-se os olhos, para quem essa mostrura de entregar-se em um prato de tecido iguaria assim dada, vez ou outra afagada pelos dedos de seu dono seu escravo, deslizados pelos montes, deslizados pelos sulcos logo abaixo, recortados qual contorno desse altíssimo-relevo, dessa elevada figura, erigida em altar todo isento de umas velas ou de febril lamparina que queimando-se em óleo fosse sobre a altitude algum feixe de uma luz que fizesse recortar-se no escuro desse átrio a imagem iluminada em moldura de um halo avermelhado de fogoso, quando em vez, se se recorta, é por ele, este homem, com seus olhos bem fechados, pensar que corta os muros, pensar que corta as portas, a faixa em névoa de prata que desce gelada e nua do único olho que o vê, o da engordada lua. E os dedos viram e mexem, muito tácteis e gulosos, só quereres, só querências, pesquisando os seus riscos, os seus pêlos, arredores, pesquisando o seu cu, projetando o seu oco, essa sobra de ausências. E por trás dos fios verdes, que se fazem de cortina, isolando a larga cama, todo o quarto, o rubro vaso de boninas, por detrás das contas-vidro, sob um bem denso tecido, negro, grosso, em dupla dobra estendido, sob essa manta escura, como de olhos cerrados, as imagens sacrossantas de José, de Terezinha, de Francisco, de Maria, de um Cristo ensangüentado; as imagens que de dia são taciturnos vigias. Peles-nácar, olhos verdes, olhos claros e escuros, uns cabelos escorridos, anelados ou cobertos de algum véu, mas intensos na vigília, cruz, espinho, livro, rosa, lírio, corda, beijo e fel.  Se o dia é amanhecido, são descobertos os rostos, umas mãos em prece postas, uns vestidos bem pintados de azul-esmaecido, umas túnicas vermelhas e um hábito terroso sobre cujo ombro pousa um pássaro de fino bico. Em seus lábios, dessas todas dispostas sacras figuras, o homem toca a boca ainda amarga da noite, pois é seu primeiro ato, ao levantar-se do sono, levantar também a manta larga escura que os cobria, sorrindo bem dadivoso em extremos de doçura, beijando as bocas, os pés, as mãos, as faces, as dobras, que os panos esculpidos têm nos vincos tal encanto que a língua se esmera em visitar-lhe os recantos, e as narinas quase ofegam quando o homem, em mesuras, se agacha ajoelhado, em pelo-sinal-da-cruz. Encaminha-se ao banheiro, passos lentos de cansados, e se senta sobre o vaso, aspirando o seu cheiro que deixara de ontem à noite, que deixara de ontem ao dia, vasto cheiro que o transporta para os bares de orla-mar, quando ele, vigioso, ia muito, vez e tantas,  sempre depois de um freguês, trancar-se no reservado, em semelhante dobrar-se ao que faz tão matutino frente  às sacras figuras. E também assim mui dado ele lambe os respingos que percebe pelo vaso, que percebe pelo piso; umas gotas de urina, uns acúmulos de saliva. Também neles ele molha a ponta de um de seus dedos e esfrega rente ao cu, e enfia uma parte, e remolha, e repõe a sua ponta, em bem lentos vaivens. Noutros dias, se com tempo, toma do cesto de lixo e revolve os papéis, procurando se num deles se percebe o esporro de algum homem. E se o encontra, lambe, cheira, passa a língua, prensa os lábios, umedece de saliva pra que a crosta amoleça e o gosto fique claro. Em ainda outros momentos, se o banheiro é bem largo e tem nele uma vassoura, leva-a ao reservado e molha a sua ponta com urina ou saliva que há dentro do vaso, e depois bem se empina enfiando parte do cabo em sua carne rebolosa, engolindo os gemidos de ato tão prazeroso, pois é sem se esperar que o reservado ao lado recebe um seu cliente. E quando esse então sai, ele vai ao outro vaso, catar pingos e respingos, uns acúmulos, umas gotas, cheirando-os e engolindo-os.

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  1. 06/04/2011 às 20:44

    vc me deixa impressionado!

    • niltonresende
      06/04/2011 às 22:51

      que bom, magno. beijão.

  2. 20/05/2011 às 11:06

    Puxa, Milton, há tempos sem atualizar o meu blog, só agora vi o seu comentário, obrigado. O seu é muito legal, dei uma espiada agora, mas vou ler mais, mais tarde… Vamos trocando umas figurinhas…
    abraço

  3. 20/05/2011 às 11:07

    Ops, Nilton, desculpa, errei o nome…

    • niltonresende
      20/05/2011 às 19:45

      oxe, o mundo troca meu nome. ainda mais, havendo o milton rosendo =] é nossa sina essa troca.
      e se trocam-se os nomes, troquem-se as figurinhas também.

  4. 11/09/2011 às 22:56

    A ilustração me lembra de Charles Handy, “The Empty Raincoat”.

    • niltonresende
      11/09/2011 às 23:00

      é, Dr., lembra mesmo.
      eu não achei os créditos da imagem que usei =/ .

      abraço.

  1. 24/02/2011 às 21:26

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