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O que não pode ser enterrado

O título desta postagem é aproveitado de um texto do blog do Alfredo Monte: Monte de Leituras.

Como um dos objetivos do trajeslunares é divulgar, coloco aqui mais um post tirado de um dos diversos lugares que costumo visitar – porque não se pode e não se deve deixar sob a mesa ou o tapete aquilo de que gostamos. A não ser que gostemos de modo possessivo, ciumento.

Sempre falo aos amigos que as duas coisas que quero sempre fazer são: escrever e atuar. No entanto, elas me dão muita agonia, porque não é fácil perseguir um ofício. É doloroso.

Costumo dizer que amo escrever e ser ator (e com ser ator, amo também dirigir atores). Mas, é um amor que dói. E sempre vai doer, porque é uma contínua tentativa de perfeição.

Mas, há outro ofício que sempre exerço: o de ser professor. Coisa que não busquei, que não amei como amo as duas outras coisas.  A relação com ser professor é diferente, é algo como: eu amo tanto a Literatura, amo tanto a Língua Portuguesa que não consigo ficar sem falar delas, não consigo deixar de falar sobre o que amo. Então, tornei-me professor. Porque sendo professor, levo para a sala de aula o de que gosto: filmes, peças de teatro, músicas, livros, fotografias, textos os mais diversos… a aventura humana… Sendo professor, em vez de ir atrás de fazer o perfeito, eu falo da busca de outros, o que também tem sua beleza.

Para mim, dar aula sobre algo é tentar dizer ao outro por que aquilo é passível de ser amado.

Isso porque é impossível enterrarmos o que amamos.

Mas, isso foi um prelúdio para divulgar um blog que costumo visitar sempre, e que acho bacana porque não tem ranço acadêmico e não se importa com agradar ou desagradar; é um blog de opinião – um blog de um leitor apaixonado.

Coloco um post em especial por dois motivos: pelo título e pelos autores de que trata (William Styron, de quem paquero A escolha de Sofia desde sempre; Thomas Mann, que é um autor-fetiche desde minha adolescência).

Eis:

Os mortos que não podem ser enterrados: duas resenhas-homenagens


(resenha publicada em 18 de novembro de 2006)

No primeiro dia do mês morreu um dos maiores escritores do século XX, William Styron, aos 81 anos, após anos de luta contra a depressão e a tentação do suicídio, o que causou uma drástica diminuição de títulos novos da sua já pouco prolífica obra. Esse drama foi contado no curto e impressionante Perto das trevas (Darkness visible), onde podemos ler: “A depressão, quando me dominou, não era uma estranha, nem mesmo uma visitante inesperada. Há décadas ela batia à minha porta”.

Já no seu romance mais famoso, o maravilhoso A escolha de Sofia (1979), um dos livros mais lidos e relidos pelo autor deste artigo ao longo dos últimos 20 anos, podia-se ter uma indicação dessa proximidade com as trevas. O narrador, Stingo, afirma: “Na minha carreira de escritor, sempre me senti atraído por temas mórbidos –suicídio, estupro, assassinato, vida militar, casamento, escravidão”.

Parece ser um fardo dos escritores do chamado Deep South, herdeiros de William Faulkner. Styron certamente foi o mais brilhante deles, já a partir do primeiro romance, Deitada na escuridão (Lie down in darkness, 1951), história de uma jovem sulista, Peyton Loft, que se suicida em Nova York. O relato começa com seu cadáver voltando para casa e reconstitui toda a desagregação familiar que a transforma ao mesmo tempo numa mistura de Antígona e Ifigênia, partícipe e vítima do destino do clã. Mesmo com a atmosfera carregada, esse texto de estréia impressionava mesmo pelo fabuloso domínio técnico do autor de 25 anos. Deitada na escuridão está para sua obra como Os Buddenbrooks para a de Thomas Mann (como foi observado pelo  crítico marxista Carlos Nélson Coutinho, discípulo de Georg Lukács, na edição brasileira de  Realismo Crítico Hoje): se nada mais tivesse produzido, já garantiria espaço para ele dentro de uma geração assombrosamente talentosa (Truman Capote, Norman Mailer, Saul Bellow, J.D. Salinger, Paul Bowles só para citar os mais óbvios). Alguns anos depois apareceu o brevíssimo e austero A longa marcha, que mostrava a grotesca realidade da guerra sem precisar chegar a ela. Ele já teve duas traduções no Brasil (uma, como O preço da paz), só que está há anos fora de mercado. Mais absurdo ainda: o muito admiradoSet this house on fire (1960), para Lukács o equivalente de A montanha mágica nos EUA, sequer foi traduzido! Felizmente o mesmo não aconteceu com sua obra-prima As confissões de Nat Turner (1967), a qual, apesar do repúdio de intelectuais negros, ganhou o Pulitzer e é o mais cabal entrelaçamento entre o tema da escravidão com a problemática espinhosa da constituição de uma mentalidade religiosa contraditória na cultura afro-americana, ao dar a voz (num grande e também contraditório exercício narrativo em 1a. pessoa) a um escravo que liderou uma rebelião violenta no século XIX. Aqui nesta coluna Nat Turner entrou na lista dos 100 maiores romances do século passado. Ainda assim, o meu  favorito continua sendo a memorável história do encontro entre o aspirante a escritor e a não-judia sobrevivente (se é que se pode chamá-la assim, e considerando o final do livro) de Auschwitz, na Nova York de 1947, que embora tenha proporcionado a Meryl Streep um personagem à altura do seu talento (e lhe valeu o Oscar mais merecido que algum intérprete já recebeu), empobreceu no cinema:A escolha de Sofia é um romance caleidoscópico e fascinante, com suas idas e vindas temporais, algo que só encontra paralelo nos livros de Jorge Semprún, como Um belo domingo. Aí veio a deterioração psíquica, a necessidade de internar-se, após o uso indiscriminado de remédios como Halcion e Ativan. E, de vez, em quando, uma jóia como Uma manhã em Tidewater (1993), reunião de três narrativas. A mais bonita delas: Shadrach, na qual um negro quase centenário, com um falar incompreensível, aparece na propriedade de “brancos pobres” e faz com que o narrador, embrião do futuro escritor, tenha de traduzir a trajetória que o levou até ali, onde foi escravo, para morrer, despertando a família Dabney para sua própria história, perdida no empobrecimento crescente geração após geração.

(resenha publicada em “A Tribuna”  em 27 de agosto de 2005)

Por conta de Lima Barreto, que ocupou esta coluna nas últimas semanas (ver o post Gênio da Raça neste blog), quase que se deixa escapar uma data importante: a morte de Thomas Mann há 50 anos, em 12 de agosto (ele nasceu em 1875), na Suíça, numa espécie de exílio auto-imposto diante da guinada conservadora e totalitarista (após a guerra) do seu país de adoção, os EUA, depois de perder a cidadania alemã com a ascensão nazista.

O maior dos escritores já estreou com um romance genial: Os Buddenbrooks (1901), pelo qual ganhou o Nobel (em 1929) e que apresenta  seu mais inesquecível personagem, Thomas Buddenbrook, o qual, após elevar o prestígio sócio-comercial da firma da família, descobre, com a leitura de Schopenhauer, que tudo é “maya”, ilusão. A partir daí, tudo o que é sólido desmancha no ar.

Ainda nessa primeira fase, temos o revelador Tônio Kröger.  A  visão da arte como uma atividade perigosa e suspeita, essencialmente  desagregadora, que precisa ser refreada por uma vida exteriormente burguesa, é herdada de Nietzsche, e terá lugar até em O lobo da estepe (1927), de Hermann Hesse, cujo misantrópico protagonista, gosta de viver em casas burguesas e arrumadas.

Antes da Primeira Guerra, Mann ainda publica dois textos-chaves: Sua Alteza Real, onde aprimora seu estilo rumo a um realismo simbólico, e Morte em Veneza (a melhor novela do século XX, junto com A Metamorfose, de Kafka), na qual um grande e cansado escritor deixa-se levar pela beleza de um menino/anjo-da-morte, associado ao apelo do mar, o mundo informe, tentação suprema para quem sempre lutou para criar a forma.

Após um longo e obscuro ciclo, começa em 1924 o grande período de Mann como gênio da literatura, com sua maios apaixonante realização, A Montanha Mágica, caso raro de uma obra difícil, mas carismática e popular, ao ponto de a Nova Fronteira relançar neste ano mesmo uma reimpressão e ela se esgotar rapidamente em diversos lugares. Recentemente, esse romance inigualável  e seu protagonista, Hans Castorp ganharam uma bela homenagem de Harold Bloom em Como e por que ler.

O apelo do fascismo foi diagnosticado com precisão em Mário e o Mágico (1930). De 1933 a 1943, ou seja, da vida na Alemanha ao exílio nos EUA, foram publicados os quatro volumes de José e seus irmãos. O primeiro, Histórias de Jacó, é possivelmente o texto mais bonito e virtuosístico que Mann escreveu, ao ponto de eclipsar, talvez injustamente, os outros três. É o tipo de texto que seria escolha certa para a famosa hipótese da “ilha deserta” que sempre se propõe aos leitores. O mais incrível , no entanto, é que reelaborando a fábula bíblica, ele ainda escreveu uma obra-prima como Carlota em Weimar (1939), narrativa sobre o reencontro de Goethe e a inspiradora da heroína deWerther, e na qual a alma alemã é dissecada. E também a divertida farsa hindu, As cabeças trocadas (1940), além de outra  história tirada do  Antigo Testamento: A Lei, sobre Moisés.

Depois da Segunda  Guerra, ainda começou outro período glorioso para Mann: em 1947, ele  pôde rir por último na tola questão de ser um “artista ultrapassado”, ao publicar o moderníssimo, ao mesmo tempo sinistro e paródico, Dr. Fausto, para muitos sua obra suprema, e que realmente é a mais impressionante. O impacto da mistura de pacto com o demônio, alma alemã, música e nazismo foi tão grande que ele chegou a ser cogitado para um segundo Nobel.

Livre de qualquer amarra, ainda escreveu dois romances imperdíveis: O Eleito (1951), que disputa com Histórias de Jacó a taça no quesito criatividade na prosa e estado de graça com que foi escrito; e o incompleto (ficou só no primeiro volume) As confissões do impostor Félix Krull (1954), texto que o acompanhou a vida inteira e que representa sua incursão na “alta comédia”, aquela em que a vida é sonho e estamos no grande teatro do mundo.

Mann teve a sorte de ser esplendidamente traduzido no Brasil, especialmente por Herbert Caro e Agenor Soares de Moura. Teve a sorte de ter um admirador, Anatol Rosenfeld, que deixou ótimos ensaios sobre sua obra. Pena que as biografias sobre ele sejam lamentáveis: Nigel Hamilton, em Os irmãos Mann, procura sempre depreciá-lo, em favor de Heinrich Mann. E há uma ridícula e desonesta biografia de Donald Prater, Thomas Mann, que já é comprometida de saída pela maldisfarçada e inoportuna antipatia do biógrafo pelo biografado e pelo visível fastio que sua obra lhe causa. É realmente muito pouco para um criador tão raro e fascinante que, como se lê na capa da edição de estréia da “Entre Livros” (na qual foi o destaque), “desafia e seduz o leitor atual”. Sempre tachado de ultrapassado, Mann , como Flaubert, sempre acaba por ultrapassar, deixando para trás os detratores.

(originalmente em: http://www.armonte.wordpress.com/)

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  1. 03/01/2011 às 19:53

    Caro Nilton, você também é um caso de leitor especial, e um escritor especialíssimo, por quem tenho grande admiração. Feliz 2011. Abração.

    • niltonresende
      03/01/2011 às 21:37

      Valeu, Alfredo. Abração.
      Obrigado por tudo.

      =]

      Feliz Ano Novo.

  1. 19/01/2011 às 11:47

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