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Assim expira o mundo / Não com uma explosão, mas com um suspiro

 

Daqui a pouco, despedimo-nos de 2010 ao som de bombas de artifício. Despedimo-nos em estardalhaço, pois sempre fazemos tudo em estardalhaço.

Achamos lindo o espetáculo das cachoeiras, mas nos esquecemos de como as águas correm silenciosas sob a terra.

Então, se não há grito e espetáculo de cores, parece que nada aconteceu. Se não temos os sinais visíveis ou audíveis, parece que nada existiu. Porque precisamos afagar os sentidos. Porque parece serem apenas eles a medida das coisas.

Não suportamos o silêncio. Não suportamos a pequenez, mas o espetáculo.

No entanto, nem tudo é espetáculo.

2010 vai-se aos poucos, desde que começou. Nós vamos também, desde o primeiro inspirar. E a vida é o que existe entre a primeira tosse e o último suspiro.

(Kurtz, personagem de Marlon Brando em Apocalypse Now, The Hollow Men)

 

OS HOMENS OCOS – T. S. Eliot


“A penny for the Old Guy”
(Um pêni para o Velho Guy)

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam – se o fazem – não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II

Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo

– Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular

III

Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.

E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam as pedras quebradas.

IV

Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos

Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos à fala esquivos
Reunidos na praia do túrgido rio

Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.

V

Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada

Entre a idéia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
A vida é muito longa

Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino
Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o

Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro.

(tradução:  Ivan Junqueira)

(pescado em http://www.culturapara.art.br/opoema/tseliot/tseliot.htm)


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  1. 31/12/2010 às 16:13

    lindíssimo post!

    • niltonresende
      31/12/2010 às 16:36

      esse poema é incrível.
      denise, Bom 2011. ainda não li “walden”.
      é daqueles que tenho medo de ler, como “a cidade e as serras”, “testamento para el greco” (medo de dar uma de hilda hilst e abandonar tudo e todos).
      num dos próximos posts, pretendo pescar algo do seu “lendo walden”.
      =]

      Bom 2011.

  2. 20/01/2011 às 23:12

    ih, achei a cidade e as serras tão bobinho! pelo menos em comparação a uma ilustre casa de ramires… e para quem aprecia hollow men e sente a coisa no apocalipse, qualquer serra vira colininha 😉

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