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Adélia Prado e sua Bagagem

Como este blog não é necessariamente de textos meus, mas de coisas que acho interessantes ou de coisas que amo, vai aqui a Adélia Prado, que eu amo.

Pesquei a entrevista a partir de uma tuitada feita por @autoreselivros (http://wp.me/pvIgZ-WS).

“[…] Eu vou fazer um livro só a minha vida inteira. Eu quero escrever Bagagem [seu primeiro livro] a vida inteira, a vida inteira. […] Por causa do limite da gente, né.  Eu só tenho essa vozinha, eu só tenho esse quadradinho aqui pra olhar o mundo.”

[Sobre se saberia dizer o que é Deus:] “Não, num sei não… Nossa Senhora… Não… […] E você tende e é atraído para uma coisa que é absolutamente inominável, inefável… A alma quer adorar, ela quer se prostrar, ela quer reverenciar algo maior do que nós, porque… tem graça eu me curvar diante de alguém que é do mesmo tamanho meu, tem o mesmo medo… o mesmo limite? Então eu preciso de algo que seja maior que eu.”

“É nessa experiência pequenininha, miserável, limitada, carente […] que eu vou dar uma resposta ao absurdo da minha existência e do mundo.”

“Todos os grandes livros fundadores das grandes religiões, eles são vazados em poesia. Porque fora dessa linguagem o religioso não se apresenta […], porque ele é poético por natureza.”

Entrevista realizada pelo jornalista e poeta Ramon Mello para o portal Saraiva Conteúdo.

Isto aqui  é do início de seu livro O homem da mão seca:

Empreitei subir alta montanha, a de sete patamares e aqui estaco, aos primeiros passos, eu que me julgava curada. O universo inteiro, Deus incluído, é este ponto doloroso no meu dente. Começo a explicar-me, já me enfado, atemorizada de me perder na compreensão e de não ser sincera. À soleira do inferno, adianta a mim e aos outros confessá-lo? Tudo piorou bastante porque Thomaz falou irritado: ‘você põe Deus demais em tudo. Se for o caso, toma anestesia geral’. Mas o que é isto? Eu não estou brincando. Nem Thomaz nem Gema, que pelo mesmo motivo provocou: tira Deus da jogada, Antônia.

Estou perturbada quanto a continuar refletindo, é capaz de eu achar um caminho e achá-lo antes da hora é de novo perder-me. A aflição de ontem já passou quase toda. De modo rigoroso não saberia responder se sofri de verdade ou de mentira, se tem conserto ou não tem. Sonho ultimamente com recém-nascidos, sou tomada de amor por eles, imensa ternura. Ontem, depois de chorar bastante, cansada como de um velório, dormi por uns minutos. Vi nitidamente a forma adorável na posição de um feto. Lembro bem o dorso, a curva das nádegas e a nuca-nuquinha, a cabecinha perfeita. Via-o pelas costas e outra vez digo: adorável. Vinha de arvoredos com o Thomaz e o nome do lugar me despertou desejos, vibrou coisas em mim sem parentesco com o inferno, tal qual a visão da criancinha. Mas do que vale dizer isto agora, eu que não sei desperdiçar nada  e quero tudo com utilidade e sentido?

Deus me cansa, pois me pede incessantemente o que não sou capaz de oferecer-Lhe: sem anestesia, deixa o dentista tratar seu molar sensível. Não posso, respondo, não dou conta, é impossível para mim. Vou destruir sua cidade, aleijar Thomaz, matar seu filho, deixar no purgatório a alma do seu pai. Pelo menos, mulher, pede o Espírito Santo. Eu não posso. Nem o Espírito Santo sou capaz de pedir, pois tenho horror de que venha e me dê coragem pra tratar meu dente com dor. Eu não quero, ter coragem me dá pavor. Eu só quero chorar. Rebeca e Thomaz me olham com piedade, são humanos. Eu não, eu sou divina, tenho a impotência absoluta.

“A vingança da poesia é essa: ela ser maior que a gente.”

Aceito de presente o livro Poesia Reunida, da Adélia, esgotadíssimo.

 

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