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Os contemporâneos moinhos de Rosendo

Lendo poetas e criando palavras, Milton Rosendo percorre, experimenta e reinventa a tradição lírica.

Por Eliaquim Teixeira[i]

 

A produção literária em Alagoas, por mais rarefeita que possa parecer, existe! Sim, existe, timidamente é bem verdade, fato que não se deve à ausência de autores, mas, em grande parte, à ausência de incentivos sistemáticos de órgãos como as Secretarias de Educação e de Cultura.

Em resposta à debilidade de políticas culturais, sobretudo no que concerne à escrita e à leitura, surgiram iniciativas como os projetos Alagoas em Cena, organizado pelo programa de incentivo à cultura do estado, que lamentavelmente gozou apenas de duas edições (2004 e 2006); e o Prêmio Lego de Literatura, organizado pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Alagoas em parceria com a editora desta última, cujas edições (2007 e 2009) têm revelado grandes escritores. Essas iniciativas funcionam como canos de escape, espaços de visibilidade, para as produções literárias de autores alagoanos que, na maioria das vezes, se utilizam de blogs para divulgação e criação de núcleos de discussão acerca de seus textos e de outros temas.

Uma das vozes desta safra de concursos literários é a do poeta Milton Rosendo, ganhador da 1ª edição do Prêmio Lego de Literatura com o seu livro de estréia Os moinhos (Edufal, 2009, R$ 15). Ler poetas e criar palavras é apenas uma possível definição acerca desse livro. A epígrafe de Cervantes, com os moinhos de vento de Dom Quixote, nos dá uma ideia da proposta estética presente na obra desse poeta. Se as leituras de Quixote o levaram a sair em batalhas imaginárias mundo afora, as leituras de Rosendo o permitiram incorporar o mundo afora em seus poemas.

Pensado em três partes, respectivamente “cadências”, “moagens” e “os caminhos circulares”, o livro parece resistir a qualquer leitura ordenada e sistematizada. Embora haja recorrências, não há uniformidade temática e formal, os poemas vão desde sonetos a poemas espacializados. Nas palavras do próprio poeta, “o que eu delineio é o tumulto” (p.108). É, todavia, justamente esse tumulto um importante procedimento de composição da obra. As três partes, mais do que títulos que dividem momentos da obra, são elementos norteadores, linhas de força, que se atravessam e estão presentes por todo o livro, de modo que a cada mudança de página se tem um foco de leitura.

“Cadências”, por exemplo, pode ser lida como referência aos diversos recursos formais empregados no tom de sua lírica. Aliterações, assonâncias, sinestesias, versos metrificados e livres, variações tipográficas e espacialização dos versos em “Constelação” (p.108), prosa poética, criação de sistemas de pontuação em “Cárcere” (p. 75) etc., são procedimentos que convergem para obtenção de musicalidade, para imprimir força às ideias e para evocar imagens inusitadas. Esta última proporciona aos que leem o livro belos exemplos, como o presente em “Falso retrato”: “Dialeto de relógio espatifando/ vogais ocas contra as paredes brancas.” (p.107).

Em “moagens”, tal como moinhos que, com a força do vento, movem engrenagens, o poeta move-se através de diálogos com inúmeros interlocutores para extrair sua lírica. A comunicação está presente desde as epígrafes de René Char, Carlos Drummond e T. S. Eliot, respectivamente nas três partes divisórias do livro, passando por momentos explícitos como o poema “Rosa-dos-ventos (poemas à maneira de…)” – em que Rosendo, mais do que um diálogo, incorpora e reproduz estilo e técnica de poetas do calibre de Eugenio Montale, Fernando Pessoa, Sylvia Plath e outros grandes – até alusões implícitas, diluídas, que passam despercebidas pela maioria dos leitores. Tome-se o verso feito à Rimbaud “Talvez, livre da palavra, eu pudesse traficar armas/ para o meu ódio” (p.38); ou ainda à Sá de Miranda “A verdade é que contigo/ ó eu outro que me olhas do espelho/ me desavim” (p.109). E os diálogos não terminam aí. Há claramente um percurso pela história da lírica com os versos alexandrinos de Homero, os sonetos de Petrarca e Camões, os poemas espacializados de Mallarmé, os versos livres de um Bandeira, o hermetismo de Celan, a poesia-objeto de um João Cabral, além do diálogo com Nijinsky e sua dança, Frida e suas telas, Calvino e suas cidades invisíveis, Duchamp e suas indagações sobre o que é arte, entre outros. Não será exagero dizer que um grande mosaico de artistas compõe este livro, este poeta.

Foto: Michael Kwolek/Reprodução

Os caminhos circulares”, tal como engrenagens que retornam ao mesmo lugar, é o espaço em que a poesia retorna para si mesma. São vários os metapoemas, isto é, poemas que refletem sobre a natureza da poesia. Talvez a recorrência de tantos metapoemas esteja atrelada aos longos anos de composição do livro, como um exercício de construção e desconstrução de quem busca maturação, dicção. Não à toa o livro inicia com “Fuga das palavras” e termina com “Rosa-dos-ventos”, poema que aponta para poetas em todas as suas direções, tal qual uma espécie de reencontro. Os poemas “Farsa”, vale salientar musicado pela banda Gato Zarolho, “As palavras e as larvas”, “Riverrun”, (river+run) poema com tom dos neologismos de James Joyce e Guimarães Rosa, são exemplos dessa ênfase reflexiva que, não se contentando, aparece ainda esparsamente noutros textos.

Assim, os temas que separam as partes não atuam como camisas de força, mas como elementos norteadores com que são demonstrados aspectos da obra, temáticas que se imbricam desordenadamente em todos os momentos. Existem, por exemplo, metapoemas no início, no meio e no fim, assim como outros temas. A mobilidade, circularidade dos moinhos e de tantos elementos, desemboca no amor, em memórias, no adultério, no niilismo, na subversão, no erotismo, na poesia, no reino inanimado; tudo parece se prestar à poesia. Essas temáticas ganham outros contornos, pois o poeta desloca e associa sentidos, percebe o mundo em suas sutilezas, tal como em “E o amor me parecia uma bolha de sabão com toda a sua frágil alvenaria” (p. 91).

Por vezes, tem-se a impressão de peças que se vão aglomerando, sujeito contemporâneo estilhaçado, imagens sobrepostas de um pintor cubista que costuma frequentar o surrealismo e espalhar inúmeras dosagens de hermetismo.  Esta última característica tende a cansar leitores/as pela nebulosidade semântica e a ausência de referencialidade, mas é também potencialização dos sentidos, camadas de leitura.

Enfim, para aqueles/as que possuem fôlego e são amantes de poesia, Os moinhos é uma obra altamente recomendável. Espera-se que resultados como este impulsionem outros projetos a fim de contribuir para a produção literária em Alagoas.

Texto publicado originalmente na seção Livros & Ideias do jornal Gazeta de Alagoas, em 17 de outubro de 2010.

 


[i] É mestrando em estudos literários do PPGLL, da Ufal. Participou do curso Jornalismo e Literatura, apoiado e patrocinado pelo programa BNB de Cultura 2010 e pela Ufal.

 

 

 

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