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paula d. no Espanador

Morte de Paula D. – Brisa Paim

morte de paula d.“ou talvez a gente tenha renunciado a algo enorme que de tão enorme não cabe na nossa cabeça, aí não podemos saber, e então sentimos um buraco lá dentro um buraco que é fundo e que as vezes dói porque um vazio é sempre sinal de que falta alguma coisa
A falta de alguma coisa é o nada
não, a falta é como um vazio que se enchesse.
e ele sai meio enfurecido mas antes fala você endoidou ficou biruta é esse é que fique mesmo em casa e tome uns comprimidos (…) leia alguma daquelas revistas femininas (…) compre talvez aquele pretinho básico
e eu sinto que o quarto vazio ficou mais cheio (…)”
Há alguns dias atrás saiu o resultado do Prêmio São Paulo deste ano e acompanhando os bastidores do evento percebia que a briga pelo melhor livro do ano tinha três favoritos que estavam brigando pela coroa, enquanto a briga por livro estreante me parecia uma caixinha de surpresas, o que aumentava um desejo secreto de ver o livro acima ser coroado como o vencedor desta. Para minha surpresa o melhor livro do ano fora para Minha Alma é Irmã de Deus de Raimundo Carreiro, zebra total, enquanto o livro estreante foi para Se eu fechar os olhos agora que dentro do mercado editorial seria a escolha mais lógica. Não posso comentar a respeito dos dois, pois não os li ainda, mas posso falar dos motivos que me fizeram adorar o livro acima cuja a melhor descrição seria o monologo de Molly Bloom revisitado e estendido. Coisa que não é para qualquer pessoa.

A comparação com a parte final de Ulisses não é por pouco, logo na primeira página você já nota que os pontos e vírgulas foram abolidos com precisão para criar um atmosfera até caótica de pensamentos, a diferença é que eles ainda existem mas com muita descrição, ao contrário do pensamento de Molly. A história é bem simples podendo ser dividida em três partes. Na primeira temos a raiz da narradora que discute com o marido a questão de colocar as suas três crianças na escola ortodoxa, em meio aos seus pensamentos e fala podemos sintetizar toda a vida da narradora sendo uma mulher casada, numa típica família patriarcal com três filhos, vinda de uma educação religiosa e que passa o tempo comprando roupas quando pode. Ela é uma típica DONA de casa.
A segunda parte se passa no escuro durante a insônia que a acomete naquela noite, com páginas pretas e letras brancas até o formato do livro é estilizado. Aqui a narradora só vai realmente pensar na vida que leva, guardando seus pensamentos mais secretos, alguns sexuais, outros indagadores até encontrar um livro chamado “Morte de Paula D.” que a atrai ao ponto dela encarnar a personagem do livro.
Na terceira parte já de manhã, a possessão que Paula D. fará nela será completa ao se trancar no quarto e começar um monólogo arrasador. Se no trecho acima já não havia nenhum discernimento entre a fala e o pensamento, o livro entra num vortex que mistura além disso, a lembrança, a reflexão, o desespero e talvez somente a imaginação, pois como não temos nenhum dado biográfico da personagem até esse ponto não podemos dizer se é ela mesmo ou a personagem Paula D. que ela começa a encarnar. Parece confuso não, e eu diria que tentar explicar de maneira cronológica essa parte é impossível ou se for possível, tira a sua magia.
A fala de Paula D. é uma viagem sensorial, cheia de som e fúria ao melhor estilo de Shakespeare. Sozinha trancada no quarto ela renega seu papel de mãe e esposa, começa uma viagem para se reencontrar consigo mesma. Revisita todo seu relacionamento com o marido desde de o momento em que eles se conhecem pelo olhar até o casamento, possivelmente a fonte das amarguras do presente. O romance não se atem só a isso, ele passeia por vários sentimentos. Em alguns momentos é engraçados, em outros melancólicos, em dado momento ela faz uma reflexão genial em outros ela desce em palavras pesadas a respeito do marido, que é no fundo a raiz de todo o mal-estar que a assola. Assumindo a personalidade de Paula D. ela se elege Mulher antes de Dona, Mulher, Mãe, etc. e essa verborragia de pensamentos é quase impossível de se largar quando se entra nela. Muito bem executado e ao contrário do que se pareça é muito fácil e rápido de se ler, fico triste com o fato de não ter ganho o Prêmio São Paulo, pois apesar de não ter lido o livro de Edney Silvestre que parece ser bem interessante, este pequeno romance de Brisa Paim foi uma das coisa mais significativas de autores novos que li em tempos.
Somente para finalizar creio que seja muito bom a proliferação de Prêmios Literários no nosso país, esse livro só chegou a ser publicado por ter ganho o Prêmio Lego e a divulgação do Prêmio São Paulo com certeza torna essa autora baiana mais conhecida a cada dia. Vale a leitura.
(postado por Juliana Leuenroth)

 

originalmente em: http://espanadores.blogspot.com/2010/08/morte-de-paula-d-brisa-paim.html

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