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O Legado do Lego ou Por que me alegro

Em 2007, houve o primeiro Prêmio Lego de Literatura, que, promovido pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Alagoas, contemplou diversas obras: Moinhos, de Milton Rosendo (poesia); Retráteis, de Tazio Zambi (conto); a morte de paula d., de Brisa Paim (romance); Coletânea de Peças Infantis, de Francisco Malaquias (teatro). Todas publicadas pela Edufal.
A leitura dos três primeiros livros dá-me, de imediato, a alegria de ver que não são meras expressões poéticas como as que por vezes guardamos em cadernos nas gavetas; ou umas estéreis, de quem conhece teorias literárias mas não tem talento para a realização artística, engendrando textos bem escritos, mas sem visceralidade. Tomando uma expressão do Paradiso, de Lezama Lima, digo que esses livros não são como as “sobremesas encontradas em qualquer botequim, mas têm algo de flan, algo de pudim”. Tratarei em outro texto dos livros de contos e poemas; aqui, dou atenção ao romance de Brisa, indicado ao Prêmio São Paulo de Literatura, na categoria estreante.

Soa falho enfatizar a linguagem ou a personagem de a morte de paula d., pois os dois aspectos se interpenetram. Apesar de a linguagem parecer uma ruptura com as narrativas tradicionais, é preciso lembrar que há escritores cultivando modos afins. Modos que chamam a atenção por não serem comumente adotados, mas cuja análise não se deve resumir a essa aparente novidade. A qualidade desse romance não se deve à adoção deste ou daquele modo narrativo, mas à adequação do modo à especificidade de um projeto literário.
No livro, temos uma mulher em uma agonia crônica. A narradora, inominada, toma consciência de si e de seu entorno e dá vazão a isso, num discurso de humor ácido e auto-irônico, por perceber que não poderá livrar-se da dor. Fragmentada a personagem pelo abismo entre a consciência e a ação, fragmenta-se sua narração. Por isso a ausência, por exemplo, dos travessões indicativos dos diálogos; sinais meramente gráficos que, no caos do pensamento-imaginação, artificializariam o texto. A própria autora já me afirmou não gostar deles, pois lhe dão a impressão de uma pausa estranha, entre cada fala, que interrompe a fluidez do que se narra.
E é importante a fluidez: uma vez no mundo criado por Brisa, não se consegue sair dele com facilidade. O encadear da história nos seduz, soltando-nos, ou melhor, deixando-nos presos a ela mesmo após o fim. Um fim que não há.
Leitores já comentaram do suicídio da personagem ao término do romance; mas não há esse suicídio, essa possível solução. Há a perenização da agonia. Não porque seja a narrativa circular, mas por ser esférica: uma esfera de interior fluido. Um fluido que é a voz da mulher que, doída, precisa aliviar-se, mas está presa na esfera, na coisa rotunda. E o que sai de sua boca (palavra-fluido-gás) serve apenas para aumentar a pressão dentro do bólido. E esse bólido-esfera é sua vida, seu entorno, sua própria consciência. Quando apenas saber não basta, nossa consciência torna-se uma câmara asfixiante em que nos debatemos infinitamente.
a morte de paula d., para além da possível identificação dele para com questões femininas, dá-nos questões humanas, afirmando-se como um representativo de sua contemporaneidade, pela gama de aspectos tratados, clamando para serem vistos com rigor: a diluição da identidade; a liberdade cerceada; a vontade adoecida; a coisificação. Aspectos tratados com humor, mas um humor quase desesperado, como quando a perdição é tão clara e iminente e já está tão instalada que só nos resta rir da miséria. E a personagem ri ao fim do livro, logo antes de assumir que sua vida não é apenas circular, mas rotunda. E que não há volta e nem alguma possível libertação.

Por que não me alegro tanto

É irônico ter ido para um livro de ficção da Edufal a distinção de ter sido indicado ao maior prêmio literário do Brasil, pois sua linha editorial não prevê a publicação de romances, dramas, livros de poemas ou de contos. Um levantamento dos últimos livros desses gêneros publicados pela editora mostra-nos que foram editados por terem a chancela de alguma premiação. Foi assim com alguns contemplados no Projeto Alagoas em Cena 2006 e com os da primeira edição do LEGO.
Considerando a publicação dos livros do Alagoas em Cena, poderíamos dizer que a Edufal não se distingue de outras casas editoriais de Alagoas, em que basta o autor chegar com os originais em uma mão e o dinheiro em outra para ter sua obra publicada. Mas, a Edufal não é como outras casas editoriais em Alagoas: não publica qualquer livro; publica apenas alguns premiados. Na verdade, a editora não publica mais literatura, mesmo havendo na Ufal um curso de Letras. E temos o disparate de se valorizar o texto acadêmico em detrimento do literário; afinal, as dissertações e teses sobre literatura só existem porque alguma obra as precedeu. As teorias literárias existem porque os estudiosos se depararam com questões suscitadas nos textos literários. Esse problema, no entanto, não é apenas da Edufal, mas das editoras universitárias.
Não digo que a Edufal publique todo e qualquer livro, mas que volte a levar a uma comissão a função de avaliar textos literários de tantos quantos, em Alagoas, os propuserem, independente do aval de premiações. A Ufal tem pessoal preparado para avaliar essas obras, e poderia repensar sua linha editorial. Neste período de grande interesse da mídia em torno do livro a morte de paula d., a editora tem mostrado força e vontade. O livro foi reeditado, enviado para as livrarias; será relançado na Bienal do Livro de São Paulo; a diretora e os funcionários da casa estão sempre solícitos e mostram competência no trato para com a obra e sua autora, não ficando atrás de editoras maiores que também tiveram obras suas indicadas à mesma premiação. Isso mostra que a pequena editora está no mercado e tem condições de manter-se nele.
Por isso, aplaudo a nossa escritora e aplaudo a sua editora, mas não me esqueço de que a morte de paula d. é uma exceção em seu catálogo, e me vem à mente uma imagem: a de uma festa, em que a jovem é Brisa Paim, e a casa é a Edufal. Vou à festa, mas saio de lá como um vizinho fuxiqueiro, que diz a outros vizinhos, no dia seguinte: “a menina estava linda, radiante e merecedora de todos os aplausos e presentes, mas a casa… hum, a casa… tinha uns cômodos vazios, esperando serem preenchidos… uns vãos… uma profusão de paredes”. E finaliza: “façamos festas, mas não nos esqueçamos de embelezar a casa”.

(texto publicado na seção Livros & Ideias do Caderno B da Gazeta de Alagoas – 01/08/2010)

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  1. Henrique
    18/09/2010 às 08:14

    Amigo, realmente sinto o mesmo por aqui por Natal. Temos o exemplo do Pablo Capristano que depois de ser reconhecido por uma grande editora e ganhar alguns prêmios, a editora se encheu de luzes que logo se apagaram.
    Sinto que ainda falta muito senso de profissionalização e acessibilidade à leitura em nosso querido nordeste.
    Um beijo e saudades. Como vão os trabalhos? vamos pensar alguma coisa pra Ganimedes por aqui?

    • niltonresende
      18/09/2010 às 10:21

      sim, henrique. falta de profissionalização é a expressão. nem é má vontade, mas algum despreparo. e quanto à possibilidade de a ganymedes ir a natal… oxe, acertemos sim. a gente estreia a nova peça em dezembro. então, teremos o repertório com 03 espetáculos (caso a nova dê certo e não seja banida rsrs). vamos ver como poderia ser feito. saudades.

  2. 18/09/2010 às 19:52

    Gente, que alienação a minha. Não conhecia seu blog. E que bom conhecê-lo já com uma esclarecedora análise sobre a morte de paula d., livro que leio neste momento. Ao contrário da autora da obra, Brisa Paim, sou simpática aos travessões (muito mais do que às aspas, que tanto robotizam nosso Jornalismo). Mas a experiência de ler a morte de paula d. tem me transportado àqueles momentos mais angustiantes de reflexão sobre o que me cerca. E a narrativa, sem pontuações, ajuda. Uma leitura perturbadora, talvez semelhantes àqueles filmes, que, de tão marcantes, conseguimos assistir uma vez apenas. Abraços, Nilton!

    • niltonresende
      18/09/2010 às 23:35

      obrigado pelo comentário, acássia.
      não se esqueça de, quando acabar a leitura, deixar aqui a sua impressão final. beijão.

      e me entregue logo o exemplar do seu livro,“Por Trás dos Muros” , que eu ganhei no sorteio do twitter.

      :]

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