chame a tristeza pra dançar

jardineira(Fábio, Grace, Audijan, Eu, Solange, Isabel, Luciano – Marcos estava tirando a foto)

 

Em 2012, fomos (um grupo de amigos) passar o carnaval no Rio de Janeiro. Um grupo lindo e muito heterogêneo — em comum, o carinho/amor mútuo e a vontade de celebrar os dias de festa.

Mas, já na primeira noite, logo após nos arrumarmos na casa e irmos  às ruas (estávamos no bairro de Santa Teresa), a alegria imensa do lugar e a empolgação nos rostos de todos e a beleza dos corpos, em vez de me alegrarem, encheram-me de uma tristeza imensa — o desejo de celebrar a festa deu lugar a uma repentina depressão. Eu não conseguia beber, eu não conseguia me incluir no grupo, eu não conseguia pular, eu não conseguia sambar, eu não conseguia dançar.

Voltei para a casa e, tremendo, chorei muito. Telefonei para o eMe (meu amiguirmão Milton Rosendo), dizendo que queria voltar, que ia ser um tormento estar tão triste no meio de tanta gente alegre, estar tão acabado no meio de tanta beleza desfilante, estar tão paralisado no meio dos corpos dançantes. Ele me disse que eu aguentasse, que não tomasse alguma decisão até o outro dia; que eu desse à vida a oportunidade de me surpreender.

No outro dia, fomos tomar café num restaurante. As ruas estavam cheias, quentes, divertidas — mas, eu não me divertia. Saindo do restaurante, passamos por um brechó. Lá, deparei-me com uma roupa engraçada que poderia me salvar. Confesso: no carnaval, só me divirto se me vestir de uma fantasia. Eu sozinho, sem personagem, sou pouco para muita alegria.

A roupa era uma “jardineira”. E vendo-a, logo foi-se construindo em minha cabeça o que eu seria nos próximos dias: uma jardineira. Comprei-a, levei-a para a casa, vesti-me com ela, coloquei uma peruca. E o lindo de tudo foi que meus amigos me compreenderam. Eles sabiam da minha tristeza mas não me violentavam exigindo uma alegria impossível. Eles não me violentaram querendo que eu sentisse o que eles sentiam. Sou grato, muito grato a eles. Meus amigos e minha irmã Solange, protetora mór — naqueles dias, todos se tornaram, de algum modo, meus protetores. Nossa outra irmã, a Sandra, não foi conosco — espero um dia estarmos os três juntos, em algum lugar, bebendo e dançando o carnaval, a tempestade.

Era o primeiro dia, e nós, todos fantasiados, saímos para o carnaval. À frente da casa, a fantasia ainda se construindo em minha mente, peguei uns galhos de planta e coloquei numa boina que passou a servir de vaso. Fomos.

Assumi a tristeza, caricaturando-a. Andávamos todos pela rua, e eu andava bem lento, com a cabeça pendendo para o lado, como pendiam os ramos do galho da planta.

Num trecho, uma moça, vendo-me andar tão cabisbaixo, saiu do lugar em que trabalhava e me perguntou por que eu estava daquele jeito, afinal, era carnaval. E eu lhe disse, fingindo a tristeza que realmente sentia: “foi a camélia que caiu do galho, deus dois suspiros e depois morreu”. Ela riu, alegrou-se, eu ri com ela, todos rimos. E então, meu carnaval inteiro, por todos os dias, foi a jardineira triste pela queda da camélia. E como jardineira, pendi a cabeça, ergui-a, dancei, bebi, paquerei, abracei, corri, pulei. Eu e meus amigos, eu e os desconhecidos repentinamente íntimos nas rodas do carnaval.

A tristeza estava comigo; mas era carnaval, e a imaginação me permitiu carnavalizá-la. Não conseguindo vencê-la, não podendo escondê-la, não tentando negá-la, abracei-me a ela e coloquei-a para dançar. A tristeza foi meu par; estando ela dentro de mim, coloquei-a para fora, usei-a como fantasia, vesti-a. Carnavalizando-a, converti-me em personagem, converti-a em alegria. E, sinceramente, uma real alegria.

 

 

 

 

 

“viado”

viado

Era a janela do quarto, e dava para a rua. Ele era um dos meninos mais bonitos da rua e entrou por ela e fechou-a. Tudo rápido, logo estava nu e me abraçava e esfregava o pinto em mim e tirava meu calção e se esfregava no meu pinto. Ele tinha uns 15 anos e iria casar-se pouco depois; eu não sei quantos anos eu tinha, mas tinha menos de dez, menos de nove, acho que foi antes de eu ver um rapaz ainda mais velho que ele mijando na parede e chamando minha atenção para eu ver ele balançar o pinto; foi antes de um dos meninos da minha idade correr atrás de mim, gritando pela rua, para me bater, sob os gritos dos maiores, que o apoiavam; mas foi depois de eu apanhar quase todos os dias na escola, durante o recreio, eu o mais novo da sala sendo jogado no chão em rodopio pelo menino mais velho, que segurava minha camisa e puxava-a e me rodava até que eu caísse, quando não apenas me empurrava, pelo simples prazer de me ver no chão, eu o mais novo da sala, mas o que era querido da professora e da diretora e tirava notas boas e gostava de fazer leitura em voz alta. Foi antes de eu ir à praia com uma amiga e um homem se masturbar sob um caminhão enquanto nós passávamos. Foi antes de eu sentir com mais ênfase a fúria dos machos. Ele entrou pela janela e fechou-a e ficou se esfregando em mim, nós dois no meio do meu quarto, ele mandando eu encostar o pinto na bunda dele e ele encostando o pinto na minha bunda, e depois nós dois frente um ao outro, até ele mandar eu botar a boca no pinto dele e de repente sair uma coisa e cair no chão e eu achar estranho que de repente o chão estivesse com gotas de catarro e eu me perguntar se ele estava doente, porque eu não sabia que saía catarro do pinto da gente, e eu achava catarro nojento, eu nem gostava de vitamina de abacate, porque o liquidificador parecia um monte de catarro. Daí ele vestiu o calção e eu fiquei olhando o chão. Ele foi pra janela, olhou se tinha gente por perto e pulou pra fora, e olhou pra mim e disse “você tá lascado; se você falar pra alguém eu vou falar que você é viado”. E eu o vi afastar-se e entrar na casa dele e eu fiquei me perguntando por que eu tava lascado, se foi ele que pulou a janela, se ele que me abraçou. E tive medo de que alguém olhasse pra mim e descobrisse o que havia acontecido, e nunca mais olhei para ele direito, e ele nunca mais olhou para mim direito, e guardei aquilo como um crime que eu tivesse cometido, porque eu tinha medo de que alguém soubesse e dissesse de novo aquilo que ele me disse de modo tão agressivo, porque mesmo dizendo baixo era agressivo: “viado”. E antes de o medo se estender para o resto dos anos, eu fechei a janela e olhei o quarto, olhei para os lados, olhei para o chão e fiquei tentando entender como podia ter sido aquilo de ali, em frente a meus pés, haver aquelas gotas de catarro.

Lygia Fagundes Telles ou A Arte da Surdina

18/06/2015 2 comentários
Lygia, 2012

Lygia, 2012

Hoje eu leio muito pouco ou quase nada, porque vivo tão ansioso que tenho de soltar fogos se consigo terminar um romance de 112 páginas. Mas, houve um tempo em que eu lia bastante, ou, como diria o povo de casa, eu vivia lendo. Minha mãe reclamava porque eu era um viciado e em casa não havia mais espaço para livros; minha avó dizia que eu parasse de ler, senão ia ficar abilolado. A ambas eu não dei ouvido: comprava livros e lia o tempo todo. E possivelmente fiquei abilolado.

Inquietação

Aos dezesseis anos, um romance me chegou às mãos e me marcou muito: As meninas, de Lygia Fagundes Telles. Livro que eu estava paquerando havia meses, mas nunca conseguia pegar: na revista do Círculo do Livro, dizia-se que o livro tinha uma linguagem refinada, exigente e um final irônico. Isso bastou para me atrair; além da capa, que para mim era estranha e bela. Eis a capa aqui abaixo.

Edição pelo Círculo do Livro

Edição pelo Círculo do Livro

Pois então: a revista elogiava o livro, que me parecia meio difícil, e eu adorava ir atrás dos livros difíceis — os difíceis e grossos, apesar de nunca terminá-los. De tanto eu falar nele, a amiga de minha irmã lembrou-se de que havia o livro na casa de uma prima dela, e que ia pedir emprestado, mas a prima havia falado que o livro era chato demais, complicado de ler. Ok, que ela havia achado chato — eu queria ler mesmo assim. Mas, a prima mudou de endereço, foi morar longe. Finalmente, encontrei um exemplar na biblioteca do Sesc. Eu sempre ia por lá para pegar textos teatrais, que eu achava arretados, porque eu era ao mesmo tempo leitor e ator: lia e imaginava as cenas, modos de interpretar as personagens. Um dia, viajando de Maceió a São Paulo para um encontro nacional de escoteiros, levei comigo O tartufo, de Molière, e O rinoceronte, de Ionesco. Levei-os comigo, mas li coisa alguma, afinal, era um encontro de escoteiros!, com pioneirias, cantos, festas, coisas e coisas; além disso, não devolvi os livros no prazo, levando uma multa. Pois: nessa biblioteca, encontrei um exemplas de As meninas. Não o li; peguei emprestado e apenas folheei por uns dias, paquerando-o. Numa das folheadas, vi a expressão “nhenhém”. Achei aquilo o máximo, pois era uma expressão falada por Miro na novela Selva de pedra, sucesso na televisão. Miro, um malandrão vivido por Miguel Fallabella, falava “nhenhém” quando queria se referir a “sexo” — então o livro devia ser uma maravilha, porque tinha sexo lá dentro, e com uma linguagem diferente do que eu já havia lido, uma coisa meio parecida com o jeito mesmo de falar. Eu mostrava o “nhenhém” para o povo do colégio, que achava aquilo muito massa. Mas, devolvi o livro. E depois vi que o “nhenhém” do livro era uma outra coisa, sendo um modo de a personagem Ana Clara referir-se à amiga Lorena, evocando seu jeito fresco de ser.

Tempo depois, ganhei-o numa promoção do Círculo do Livro. Lembro-me de quando chegou e eu fui andando até o quarto enquanto abria o pacote. Abri-o, cheirei o livro, me deitei perpendicularmente na cama, apoiando a cabeça num travesseiro que eu colocara encostado à parede, e comecei a leitura: “Sentei na cama. Era cedo para tomar banho. Tombei para trás, abracei o travesseiro e pensei em M. N., a melhor coisa do mundo não é beber água de coco verde e depois mijar no mar, o tio da Lião disse isso mas ele não sabe, a melhor coisa mesmo é ficar imaginando o que M. N. vai dizer e fazer quando cair meu último véu. O último véu!, escreveria Lião, ela fica sublime quando escreve […]”. E eu já estava seduzido: o começo que coincidia comigo deitado na cama, o que não era grande coisa, mas eu julguei ser; a linguagem coloquial, a pontuação diferente da dos outros livros; as referências sexuais.

Por dias, as meninas foram minhas companheiras: no quarto, com a empregada batendo na porta porque precisava entrar para varrer o chão, e deitado no chão, entre a cama e o guarda-roupa, isolando-me o mais possível, e abrindo a porta apenas sob a condição de o quarto seria varrido bem rápido; caminhando na rua; em pé ou sentado nos ônibus — num deles, cheguei a um dos pontos altos do livro, já no final, faltando um ponto para minha descida. Antes de descer, fechei as páginas, agoniado sem acreditar no que estava lendo. Levantei-me, doido pra caminhar para casa a fim de continuar a leitura.

Eu amo as meninas, Ana Clara, Lia, Lorena, e amo As meninas. Durante a leitura, tive contato com personagens muito vívidas, com ambientes muito bem descritos, com comuns e terríveis dores do cotidiano, com uma juventude à época da ditadura militar. Além de um livro com grande apuro em sua linguagem. Após lê-lo, procurei por outras obras. Uma de minhas irmãs trouxe do colégio um exemplar da coleção Para gostar de ler; nele, os contos “Dezembro no bairro” e “Natal na barca”. Eu nunca havia lido contos. Depois, comprei Filhos pródigos, na última prateleira de uma das estantes da finada livraria Segal, estante encostada na parede. Livro encardido, edição de 1978. Comecei a ler já no ônibus: “A medalha”. Ao terminar o livro, ficava a sensação de entender nada daquilo. Eu ficava meio me perguntando o que havia acontecido ali. Havia as histórias, havia os eventos, a moça sofrendo preconceito no conto “O espartilho”, mas era como se algo faltasse acontecer. Ainda na Segal, depois, viria a encomendar Verão no aquário.

Aos poucos, fui lendo toda a obra. Os romances eram mais palatáveis, as coisas estavam mais visíveis. Os contos, esses eu lia sem saber por quê. Havia neles algo que me atraía, mas eu ainda não compreendia.

Col. Literatura Comentada - série 1980

Col. Literatura Comentada – série 1980

Bom investimento foi o Literatura comentada dedicado a ela: nele, li trechos dos romances que não conhecia, contos de livros que eu ainda não tinha. .Ano seguinte, comprei A metamorfose nos contos de Lygia Fagundes Telles, da Vera Maria Tietzmann Silva, dissertação de mestrado publicada em livro. Caramba!, aquilo foi um acontecimento. Ela me mostrava coisas que viviam sob as palavras, para além das histórias, o que tornou a obra mais fascinante ainda. Os contos de Lygia passaram a ter um motivo claro para minha admiração: a artesania, a linguagem cuidada como quem erige uma construção em que todas as suas partes não apenas estão erigindo o prédio ou compondo-lhe a aparência — essas partes também falavam sobre o prédio, como se os tijolos dissessem o que eles são e os que são as  janelas e as portas e os que transitam por ali. E isso sem deixarem de ser tijolos, janelas, portas. Característica não apenas da obra de Lygia, mas era primeira em que eu via isso.

Depois, aos 29 anos, tornei-me professor do 1º ano do Ensino Médio, dando aulas de Redação e Arte & cultura. Durante uma das aulas, li o conto “Venha ver o pôr do sol”, podendo ser ali professor e ator. Como julgo que um professor é alguém que ama tanto uma coisa que não consegue guardar para sim, dar aula tornou-se um exercício da paixão. Li o conto, conversei sobre ele com os alunos. Depois, levei para eles uma súmula do que eu já havia lido sobre ele, no livro da Vera Tietzmann e em artigos acadêmicos. Os olhos da pivetada cresciam à medida que a superfície do texto ia sendo tomada pelo que havia sob ela. Depois, durante todo o ano, eu lia outros contos. Até hoje, toda minha primeira aula é com “Venha ver o pór do sol”, um conto que não é apenas uma bem tecida trama de vingança, mas uma teorização ficcional sobre a leitura do texto literário, sobre nosso comportamento no encontro com o texto.

Analisando esse conto e mais outros, tive a justificativa para admirar a obra de Lygia. Mas, eu não sabia que havia ainda uma outra, distinguindo-a então dos outros autores. Eu não me conhecia o suficiente para ver que meu fascínio adolescente por aqueles contos devia-se a uma recôndita identificação para com suas personagens: mentirosas, medrosas, inseguras, dissimuladas, carentes, cruéis… Procurando, nas aulas para o Ensino Médio (e algumas para o Fundamental), tratar das questões da forma e das questões humanas que nos eram dadas por essa forma, fui vendo que eu adolescente lia aquilo por espelhamento, talvez para um dia me salvar.

O conto “A medalha”, exímio amálgama de drama e ambientação, objetos, gestos,  tornou-se modelar no sentido de equilíbrio entre a preocupação formal e a preocupação com o drama humano. Esse conto salvou a relação entre mim e minha mãe. Analisando o texto, lendo o ambiente como elemento narrador do subterrâneo do conto, enxerguei-me na protagonista, Adriana. Por conta do que estava velado sob aquela história de terrível embate entre mãe e filha, mudei minhas atitudes, pois eu não queria continuar sendo como Adriana e não queria que minha história com minha mãe terminasse do mesmo modo.  E não falo do que está imediatamente apreensível na fábula, pois a melhor compreensão das personagens precisa que também se veja  como é caracterizada a casa em que o embate se dá, como ela é e o que está nela. Apenas depois de analisar os detalhes do ambiente eu pude entender que drama era aquele.

(mais à frente, falarei das revisões de Lygia sobre seus textos
— para a gravação deste vídeo, usaram uma versão do conto anterior à que estava em voga quando da filmagem)

Nas aulas, falei de como esse conto interferiu na minha relação com minha mãe. Alguns anos depois, uma aluna do Ensino Médio me disse que o mesmo aconteceu na casa dela. Depois, dei aulas em faculdades, onde lia os contos, claro. Passados uns cinco anos, em outra faculdade, há numa turma uma ex-aluna minha e também sua mãe. Numa oportunidade, cada uma em um momento, elas me disseram que “A medalha” havia sido importante para que a relação delas não ruísse.

Então, devo a essa obra minha formação humana e minha formação profissional, o reconhecimento que alcancei. Uma obra tecida com sutilezas que só fui conhecer e/ou perceber 10 anos depois, 20 anos depois. Hoje, 28 anos após começar a ler essas histórias com personagens tão mesquinhas e pequenas e admiráveis, pois, como disse um dia Urbano Tavares Rodrigues, “os anjos de Lygia são demônios, os demônios são anjos”.  Ela nos dá personagens cruéis, mas de modo a não nos permitir julgá-las. A sua arte, dando-nos o avesso das pessoas, é uma arte da compaixão. Mas sem açúcar.

[…] em cada personagem que amassa (mais do que inventa) com os dados da sua experiência cotidiana, com sua rara receptvidade mediúnica e seu instinto de raiz. […] contos compostos de escritos com sagaz economia de meios e lacunas intencionais, que solicitam o leitor a implicar-se na ação e a perfazer ele próprio a história em meio de sinais alusivos […].  

(Urbano Tavares Rodrigues, Suplemento Literário de O Estado de S.Paulo, em 1972).

Em 1999, Urbano Tavares Rodrigues, agora comentando A noite escura e mais eu, afirma: “Lygia não é uma educadora. É uma cética carregada de amor”. Por isso não há “lições de vida”, explícitas “morais da história” — o leitor, com seu arcabouço, seja generoso e se dê ao texto, para enfim poder, de certo modo, tê-lo. O seus contos não gritam, apenas sussurram. E o que sussurram não é agradável.

Muitas vezes, ao ler um de seus contos, vamos logo julgando as personagens. No entanto, uma leitura mais atenta, vagarosa, uma leitura com vontade de descoberta, em que se preste atenção ao que está sendo sussurrado num objeto de cena, esse tipo de leitura nos vai dizer que nosso julgamento foi falho porque errado ou porque inconcluso.

Agora, estendo-me sobre alguns aspectos da obra de Lygia Fagundes Telles, “meu contista preferido”.

 

A construção do cânone pessoal

Em 1938, aos 15 anos de idade, estreava na literatura a atual decana de nossos autores: Lygia Fagundes Telles, nascida em São Paulo em 19 de abril de 1923.

Nesse ano de 1938, ela publicou seu primeiro livro de contos, Porão e sobrado, e começou a colaborar para o jornal Folha da Manhã. Em suas duas primeiras colaborações, os contos “Cai-cai” e “Historia do rojão”, publicados respectivamente em 04 de dezembro de 1938 e 20 de agosto de 1939, o leitor deparava-se com características que futuramente estariam presentes nos textos da maturidade da autora: a presença de temas desagradáveis, do erotismo e da preocupação com a criação de personagens “vivas, nítidas”.  Durante toda sua carreira, teremos uma autora buscando dar conta de temas que aparecerão de modo reiterado, com personagens vivendo situações semelhantes, com a linguagem tentando outras maneiras de dar conta de similares questões humanas; durante toda sua carreira, teremos uma autora às voltas com a revisão de seus textos (em especial, os contos) e a não reedição de alguns de seus livros. Marco dessa sua característica foi a publicação do livro Antes do baile verde (1970), trazendo contos inéditos e contos publicados anteriormente, revisados pela própria autora para essa nova edição, dando início à criação de um cânone pessoal, ao renegar alguns textos e alterar aqueles que permaneceriam. Desse modo, esse livro nos aparece como uma espécie de crítica à própria obra — crítica que se dá não apenas em relação à revisão dos contos, mas também do próprio livro, cuja configuração alterou-se por mais de uma década, até atingir a forma atual.

1ª Edição - Editora Bloch, 1970

1ª Edição – Editora Bloch, 1970

O conto “Os mortos”, publicado pela primeira vez no livro O cacto vermelho (1949), fez parte de Antes do baile verde até sua 8ª edição (1983), pela Livraria José Olympio Editora. A partir da publicação do livro pela Editora Nova Fronteira, esse conto não foi mais publicado, e alguns fatores parecem servir de justificativa para isso: o tom melodramático, grandiloquente, presente nesse conto de 1949 e que o  tornava destoante dos outros contos do volume; o fato de ele se assemelhar bastante a um conto mais recente, Apenas um saxofone  (1968), no qual também temos uma mulher na situação-limite de assumir a culpa pela perda do homem amado. Comparando-se os dois textos, temos trechos semelhantes, daí  Os mortos parecer uma espécie de gérmen de Apenas um saxofone, incorrendo em redundância a presença de ambos num único volume e contribuindo a presença daquele conto para um decréscimo da qualidade do conjunto, por não mais atender às exigências estéticas da autora, que durante as quatro primeiras décadas de sua carreira foi-se obstinadamente construindo, lapidando, aparando as arestas.

Companhia das Letras, 2009

Companhia das Letras, 2009

Nesse aparar de arestas, ela buscou, por exemplo, distanciar seu modo narrativo daquele percebido em autores que foram  influências muito marcantes, leituras importantes para sua formação, como é o caso de Edgar Allan Poe. Em seus primeiros livros, não raro o leitor vai-se deparar com contos de tom grandiloquente e bastante vocativo. Com o passar do tempo, no entanto, foram sendo limadas as influências recebidas, mantendo-se delas o que não datasse sua obra, o que não desse a ela algum ranço de coisa muito antiga, embora ainda se perceba uma pontinha de alguma dessas farpas estilísticas assomando em um ou outro conto. De autores de literatura de terror do século XIX, ficou então, no lugar da linguagem quase cópia (como presente em alguns de seus contos renegados), a atmosfera, a agonia, o senso de mistério, a ambiguidade, a certeza do impalpável. Aspectos esses presentes não apenas nos textos cuja fábula toca o âmbito do sobrenatural, mas também nos flagrantes do cotidiano, todos eles geralmente sob esses signos (agonia, mistério, ambiguidade, impalpabilidade), todos eles revolvendo o que há sob a superfície das aparências, apontando alguma rachadura nas estruturas das relações.

 

Literatura de risco

Algo importante a se considerar na produção de Lygia Fagundes Telles é o fato de a autora estar sempre colocando seus textos à prova, estar sempre os mantendo em perigo, sejam eles contos ou romances. Ela parece assumir o risco de dar ao leitor textos cujas maiores qualidades poderão não ser percebidas de imediato ou não ser percebidas ou só serem percebidas se o texto for considerado em relação ao conjunto da obra, por conta de o leitor dar-se conta de elementos que se repetem, pois formam seu mundo simbólico próprio ou dialogam com símbolos já cristalizados em nossa cultura. Mas, tenhamos o seguinte: isso não torna os textos ilegíveis, pois a produção de Lygia Fagundes Telles não é enigmática ou criptografada. Ela apenas — apenas? —lança um véu sobre a própria obra, um véu sobre algumas qualidades da obra, permitindo a possibilidade da falência de algo que pode ser o grande trunfo de um texto; ela joga arriscadamente com a possibilidade de esse véu não ser levantado. Uma frase de Ricardo, personagem do conto “Venha ver o pôr do sol”, serve de resumo a respeito disso: “Não sei onde foi que eu li, a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da noite, está no crepúsculo, nesse meio-tom, nessa ambiguidade. Estou-lhe dando um crepúsculo numa bandeja e você se queixa”.

A produção de Lygia — e tratemos agora de seus contos — tem a qualidade de poder ser lida por pré-adolescentes e de poder servir a investigações de estudiosos/pesquisadores da literatura. Diversos de seus contos foram/são publicados em livros escolares, sendo lidos em classe e tendo a atenção dos leitores dirigida para aspectos da fábula desses textos, o que coloca em evidência o poder de fabulação da autora e pode fazê-la parecer uma mera contadora de histórias.

[…] Nada mais contrário à índole desta literatura do que o escândalo, a algazarra.

São estórias em que a situação inicial é sempre em foco pequeno, em surdina, em espaço restrito, bem íntimo, às vezes. Nada de grandes angulares, de cena alentada, de palco escancarado. Nada de épico. Tudo muito pontual, muito preciso, muito na mosca. Nenhuma entrada que ameace drama [a não ser o drama antevisto nos objetos significativos]. Tudo muito disfarçado, tudo muito sorrateiro. […].

[E]la murmura, fala baixinho. Aproxima-se do leitor como seus gatos, de que ela gosta tanto. Parece até que são apenas estórias em torno daquelas mesas de barzinhos refinados, em fim de tarde de verão. Não as mesinhas da calçada, propícias ao chope, à algazarra, à voz elevada. Mas aquelas protegidas pelo ar-condicionado e pela luz indireta, nem um pouco solar. Não se engane com essa sinuosidade felina, felpuda. Não vá na conversa, não relaxe. Fique esperto. Porque, quando você menos espera, as unhas retráteis aparecem e, logo depois delas, o risco na carne, o filetinho de sangue escorrendo. Nada muito profundo, mas o suficiente para incomodar, na hora e por tempo extenso, cravadas na memória. O suficiente para se lembrar de que, nas próximas vezes, você não deve se aproximar tão desguarnecido e confiante, porque o bote pode vir, quando menos se espera, não se sabe de onde. A cada aproximação, um aprendizado, independentemente do conto que você escolha.

Fique esperto! Não confie no ron-ron de Lygia Fagundes Telles.

(Antonio Dimas, Garras de veludo, posfácio a Antes do baile verde, 2009).

No entanto, essa é a face aparente — sob ela, há o tenaz domínio da arte narrativa, evidenciado se atentamos para como se foi construindo seu cânone pessoal, se atentamos para a revisão que ela empreendeu em seus textos, tornando explícita, por exemplo, a consciência que, como autora, ela tem a respeito do corpo das personagens. Nas revisões, sutis mudanças gestuais mostram o domínio na construção da cena, sua duração, seu espaço, suas ações.

Os romances

Os seus romances podem ser divididos em dois grupos, se considerando o que foi dito acima sobre o véu a cobrir a grande qualidade do texto: Ciranda de pedra (1954) e As meninas (1973); Verão no aquário (1964) e As horas nuas (1989).

Editora Nova Fronteira

Editora Nova Fronteira

Num grupo, temos seus dois romances mais celebrados pelo público e pela crítica: o primeiro é um romance de formação em que se opta por uma narração cuja grande qualidade está justamente em sua simplicidade, com a autora manejando um instrumental já consagrado por autores como Henry James e dando-nos um belo e impactante drama; o segundo é um livro em que Lygia Fagundes Telles alcança o ponto alto de sua obra no que diz respeito ao uso da linguagem, tendo como sua grande característica o poder de emprestar a cada personagem narradora um modo específico de falar, ao ponto de abrirmos o livro em qualquer página e sabermos quem está narrando — essa qualidade de construir um livro com diversas vozes e conseguir dar a cada voz uma identidade própria, não apenas no âmbito das ideias, mas da própria sintaxe e do léxico, não é algo fácil de se encontrar, e As meninas  constitui-se possivelmente no ponto mais alto de nossa literatura no que diz respeito a esse aspecto.

Editora José Olympio, 1973

Editora José Olympio, 1973

No outro grupo, temos romances em situações peculiares: o primeiro está imprensado entre o romance de estreia e o romance de consagração, parecendo, por vezes, uma preparação ou uma peça de transição entre um e outro; o segundo é motivo de divergência entre críticos e leitores, ora sendo apontado como um livro falho ora como, dentre os romances, a obra máxima da autora. E é a respeito desses dois livros que  pretendo tratar agora, por servirem para o que se disse acima: o risco a que Lygia Fagundes Telles submete sua criação.

 

Linguagem e contaminação

Editora Nova Fronteira

Editora Nova Fronteira

O romance Verão no aquário é por vezes criticado por conta de sua linguagem, tida como artificial, pouco crível, principalmente se comparada com a empregada em Ciranda de pedra. Nesse livro, a protagonista, Raíza, tem uma relação conturbada com sua mãe, a escritora Patrícia. A todo tempo vivendo à sombra materna, Raíza chega a criticar os escritos de Patrícia, afirmando haver neles um tom “sublime”. No entanto, o próprio Verão no aquário tem esse tom: todo narrado em primeira pessoa, como se dito num divã, ele não tem uma linguagem fluida como a do romance que o precedeu ou como a do que o sucederia. Mas, parece não se dever isso a um possível defeito do livro, mas a uma ironia, a uma arriscada aposta da autora, como outras que ela faria em sua obra. Raíza critica a mãe, a linguagem de seus romances, mas é tão dependente da imagem materna que termina por cunhar sua fala com as mesmas características que critica. Assim, o romance não apenas critica um modo narrativo, mas reproduz esse modo. Na narrativa de Raíza, reproduz-se  um dos grandes problemas da protagonista: a distância entre o pensamento/desejo de algo e sua realização, tornando-se Verão no aquário uma narrativa crítica que cristaliza a distância entre consciência e ato, problema comum na produção de Lygia.

Isso tornará a acontecer em As meninas, onde a personagem Lorena, referindo-se aos rascunhos de um romance escrito por Lia (Lião), fala que a amiga “fica sublime quando escreve” — das três personagens narradoras, Lorena é a que tem a fala mais próxima de uma linguagem sublime.

O riso de si

1ª Edição - Nova Fronteira, 1989

1ª Edição – Nova Fronteira, 1989

As horas nuas é possivelmente o livro mais ambicioso e arriscado de Lygia: nele, como muito bem mostrado por Vera Maria Tietzmann Silva no livro Dispersos & inéditos: estudos sobre Lygia Fagundes Telles, a autora se autoparodia, dando-nos um romance em que temas, personagens, falas  presentes em textos anteriores reaparecem sob a forma da releitura, e releitura desencantada com o mundo, mas como se dita por um desencantado que risse de si próprio. Um livro em que uma das personagens principais, a atriz Rosa Ambrósio, ensaiando sua volta aos palcos, diz: “A decadência está na moda. Sou uma atriz decadente; logo, estou no auge”. E é a decadência que dará o tom ao livro: nele, tudo rui. Principalmente as certezas: em relação à narrativa feita por um gato, inteligente, arisco e invejoso (“Um gato que sonha com o homem como o homem sonha com Deus”); em relação à narração feita por Rosa, no mais das vezes ditando suas memórias sob efeito de álcool; em relação à narração em terceira pessoa, quando o foco é a psiquiatra Ananta Medrado, personificação do controle da razão sobre o instinto, mas cuja história é justamente a mais envolta em mistério, principalmente quando seu vizinho do andar superior parece-lhe metamorfosear-se em um cavalo. Como disse Nelly Novaes Coelho ao tratar desse romance, temos nele um exemplo da “falência da razão ordenadora”. E Lygia, por ser ficcionista e não ensaísta, dá-nos isso sob o véu da ficção, representado na fábula e no texto, sem explicitações.

 

O sussurro

A obra de Lygia Fagundes Telles é uma obra violenta, mas de uma violência do sussurro e no sussurro, e não do grito. Não temos nela grandes eventos em que se fere o cotidiano, como a ocorrência de crimes. A violência, aí dá-se através das relações cotidianas, do escamoteamento dos afetos, dos medos, da tentativa de proteger-se, da queda da inocência — este, um tema bastante presente, como por exemplo nos contos “O menino” e “O segredo”, em que temos a queda de dois ídolos: a mãe e o pai, respectivamente.

No primeiro, um menino vai ao cinema com a mãe, deparando-se com uma troca de carinhos entre ela e seu amante. Um drama que se vai construindo lentamente, através das ações e da própria ambiência, em que os objetos também contam a história. O uso dos objetos, em sua obra, adquire um importante status, pelo fato de eles nos darem, como elementos narradores, as possíveis informações escamoteadas pelas personagens. Esses elementos exteriores estão ali para nos permitir uma porta de entrada na intimidade cerrada das pessoas que habitam o mundo lygiano.

Dentre estas qualidades, como uma das mais típicas e, do ponto de vista literário, mais importantes na carreira de L. F. T., o hábil contraste, o bem calculado desequilíbrio entre o peso dos acontecimentos narrados e o modo de comunicá-los. É bem característico de sua prosa, um frêmito escondido e que apenas adivinhamos dentro da ilusória placidez exterior.
E tal contraste, tal desequilíbrio, não são atingidos apenas através de um moderado uso da linguagem, da frase comedida, de uma sóbria adjetivação, de uma pontuação exata (porém de um vigor ardiloso e solerte). Há sempre um gesto breve, uma evocação, uma alusão, que se introduzem na cena e lhe dão um timbre próprio, às vezes irônico, às vezes poético, quase sempre pungente.

(Osman Lins, A evolução de Lygia Fagundes Telles, 1961).

No segundo conto, uma menina está brincando com uma amiga, e sua bola cai no terreno de uma casa em que moram mulheres que parecem ser prostitutas. Há um breve diálogo entre a menina e algumas das mulheres que vivem ali. Nada demais é dito, mas a garota sai dali com a informação de que aquelas mulheres conhecem seu pai. Sai dali após o diálogo fatal:

— Espera — ela disse. — Espera aí um pouco, queria que você me prometesse uma coisa, vai me prometer? Não diga a ninguém que esteve aqui. Promete?

— Prometo.

— Mas eu queria que você jurasse.

— Eu juro.

— Então vai ser o nosso segredo. Sabe o que é um segredo? Segredo é uma coisa que a gente não conta, nem o pai, nem a mãe, ninguém  no mundo fica sabendo, mas ninguém mesmo.

— Eu não vou contar.

[…] ela voltou a mão até o copo de dados que apertava contra o peito. Falou baixinho.

— É bom a gente ter segredos. Você não tem segredos?

— Não.

— Nenhum? Imagina só, uma menina sem segredos — espantou-se e olhou para o chão, mas parecia aflita, como se tivesse perdido alguma coisa. — Eu tinha tantos segredos! Você vai ver como é bom guardar só com a gente essas coisas que ninguém no mundo fica sabendo. Se a gente morrer essas coisas morrem com a gente entendeu?

— Eu não vou contar.

Nesses dois contos, temos duas crianças que nunca mais serão as mesmas; neles, temos o flagrante do instante da queda. E a queda é sempre presente na obra lygiana: seus textos nos dão o instante após ou o instante imediatamente anterior a ela, fazendo-nos testemunhas disso.

Os títulos

A obra contística de Lygia tem três livros chave: Antes do baile verde (1970), Seminário dos ratos (1977), A noite escura e mais eu (1995). Sua obra não é extensa, se considerarmos tanto tempo dedicado à literatura.

1ª Edição - José Olympio Editora, 1977

1ª Edição – José Olympio Editora, 1977

Se alguém me perguntasse o que ler da contista Lygia Fagundes Telles, eu diria para ler esses três livros — e um ou outro conto esparso, como alguns presentes em A estrutura da bolha de sabão, livro publicado para reunir alguns textos editados em livros anteriores e que não haviam entrado em Antes do baile verde (como “A medalha”) ou que haviam sido publicados depois em alguns periódicos, como o conto que dá título ao livro (ótimo conto!).

1ª Edição - Editora Nova Fronteira, 1995

1ª Edição – Editora Nova Fronteira, 1995

Lendo os três títulos acima, o leitor perceberá a trajetória da autora: histórias mais ligadas aos flagrantes do cotidiano, em Antes do baile verde; histórias em que há bastante ocorrência de estados oníricos, estados de incerteza, em Seminário dos ratos. Mas, a incerteza está presente também nas narrativas do cotidiano; afinal, não é privilégio do sonho a imprecisão. Em Seminário dos ratos há também a presença de contos com fábulas próximas às de Antes do baile verde, mas a autora tenta novas linguagens para dizê-las. Sobre Seminário, o Caderno 2 do Estado de S.Paulo disse, quando do lançamento do livro: “resultado de dois princípios na vida da escritora: o princípio da sedimentação de experiências literárias e o princípio do jogador que arrisca tudo em cada rodada. […] múltiplos universos de personagens, múltiplas adequações de estilo”.

Por fim, temos A noite escura e mais eu, em que o sussurro torna-se ainda mais baixo; em que, por vezes, terminamos a leitura sem sabermos bem a respeito de que tratava o conto — como se a autora tivesse apurado seu modo ao ponto de torná-lo ainda mais sutil. Exemplo disso é o belo e muito estranho“A rosa verde”.

 […] A noite escura e mais eu. A noite escura é a morte. quem a pressente e a governa no seu livro (ou por ela se deixa governar) e a sofre, sorrindo, em cada linha é Lygia, a sibilia a supernarradora, habilíssima feiticeira da palavra, que se desdobra em múltiplas narradoras, atribuindo a cada uma delas uma voz adequada, consoante a idade, o estatuto social e cultural.

(Urbano Tavares Rodrigues, A ambiguidade e a ironia na obra da escritora, Caderno 2, 1999).

Se ela fosse uma educadora, teríamos “lições de vida”, explícitas “morais da história”. Mas isso ela não nos dá

Atentando aos nomes dos livros, podemos enxergá-los como chaves de leitura do mundo ficcional de Lygia Fagundes Telles, que diriam as seguinte “dicas” ao leitor: (Antes do baile verde) o que acontece antes do baile verde, ou seja, o que acontece antes de a morte dar o tom para a vida; (Seminário dos ratos)o que acontece quando o que jazia sob a superfície vem à tona e contamina a existência, quando sai do esconderijo aquilo que teimamos em esconder; (A noite escura e mais eu) o que acontece quando a pessoa é tomada pelo sentimento de solidão que acomete os místicos, prescindindo, no entanto, da fé e da esperança de salvação que poderia servir como unguento. As personagens lygianas são personagens danadas, e praticamente não há, em suas histórias, o que nos dê a possibilidade de enxergar para elas alguma redenção. Se muito, apenas nós podemos nos salvar através delas.

[…] personagens “enredadas” presas na proverbial ciranda petrificada, no aquário (não por acaso os títulos dos seus romances iniciais, Ciranda de pedra, Verão no aquário). Apesar dos acordes dissonantes, é um mundo em que a estagnação e a decadência permeiam as relações de forma quase patológica, sinistra.

(Alfredo Monte, A poética do sorrateiro: “As meninas”, de Lygia Fagundes Telles, 2013).

São personagens diabólicas, no sentido de experimentarem uma profunda cisão interior. Por isso, por esse diabolismo, os objetos surgem como um elemento que vem em auxílio de fornecer aos textos alguma natureza oposta a isso (simbólica, em oposição a diabólica) — os objetos são; e isso de “ser” as personagens de Lygia não conseguem alcançar.

Grande exemplo disso está presente no conto “Anão de jardim”, último conto de A noite escura e mais eu — ou seja, último conto da obra contística de Lygia, pois os livros escritos após esse foram livros cujos textos pertencem ao gênero de “invenção e memória” (título de um dos livros). Para mim, “Anão de jardim” é um grande fecho de sua obra de contos, por trazer, encapsulados no drama da personagem principal, todos os dramas presentes anteriormente: Kobold, um ser que tem consciência, mas não tem qualquer ato à altura dela. Na personagem e na ambiência do conto, temos uma representação do ser decaído: no jardim de uma casa cujos donos morreram ou mudaram-se, um anão de pedra está prestes a ser destruído. Enquanto isso, ele conta sua história, tecendo impropérios contar os homens e rezando a Deus para que Ele lhe dê um corpo humano:  “Imploro o inferno do corpo (e o gozo) que inferno maior eu conheci aqui empedrado”.

Ficção e literatura

Muito se fala em metaliteratura, em narrações que discorrem sobre o ato de narrar. Em Lygia, isso está presente, mas a seu modo: na surdina. Há reflexão sobre o ato de escrever, mas isso se dá através das histórias, não apontando explicitamente para isso. Em “Venha ver o pôr do sol”, temos uma terrível história de assassinato, mas temos também um elogio à leitura; em “A caçada”, acontecimentos estranhos acometem um homem, mas há aí, também, uma representação do encontro entre a pessoa e um texto; em “O jardim selvagem”, uma menina lembra-se de estranhos eventos de sua infância, ao mesmo tempo que nos faz refletir sobre como o título se refere não apenas à fábula do conto, mas a sua própria tessitura.

Mestra da narrativa

Atentar para como se caracterizam os narradores em seus contos é ter uma aula de narração; lê-los é uma escola. Atentar para isso é ver como a escolha do narrador é importante para o que se conta e para o possível efeito que se pretende ter sobre o leitor. Lygia é mestra nisso, em ir muito além da simples distinção entre a história ser contada em primeira ou terceira pessoa — em seus textos, essas categorias de narradores são bastante exploradas. Ela é uma exímia escritora do narrador do tipo “showing”, aquele que mais mostra do que diz, em contraste com o do tipo “telling”, que diz bastante sobre as personagens e seus dramas. Enquanto este luta com a palavra para revelar a intimidade da personagem, aquele luta para que a intimidade não se explicite, mas esteja revelado nas ações, cenário, cenas; ou, de certo modo,que só se revele a partir da atenção do leitor para os detalhes narrativos.

Em “Venha ver o pôr do sol” temos uma sacana voz em terceira pessoa não onisciente que nos seduz e enreda até nos prender numa catacumba, junto a uma das personagens. Em “A medalha”, também uma terceira pessoa não onisciente não nos permite ter certeza sobre as falas da mãe de Adriana em relação à filha e em relação aos eventos imediatamente anteriores aos de que somos testemunhas; também por conta desse modo de narrar, vemo-nos praticamente impossibilitados de julgar as personagens, suas atitudes. Em “O menino”, a narração em terceira pessoa parcialmente onisciente dá-nos a visão do garoto, levando-nos a nos afeiçoar a ele e a julgar sua mãe; mas, uma releitura sem essa contaminação nos dirá que não podemos julgá-la, pois há mais fatores ali do que o exposto pela visão do garoto, fatores dados pelo narrador ao tratar do ambiente, da caracterização das personagens, do modo como transitam pelo ambiente. Em “O jardim selvagem”, a primeira pessoa contamina-nos de tal modo com sua visão dos fatos, com seus pensamentos não revelados, que ao fim do texto achamos que houve um assassinato; no entanto, a leitura criteriosa nos mostrará que a certeza é impossível, principalmente por ser todo o conto uma sequência de “disse me disse”, todo ele calcado em fofocas — a narradora do conto em momento algum foi testemunha dos principais fatos da história. Em “Tigrela”, temos um narrador übernaumconfiável (¬¬), uma vez que lemos/ouvimos uma narração em que se fala de um encontro num café, em que se bebia algo uísque; nele, a narradora fala muito pouco de si, atendo-se à história que ouve da amiga bêbada e que nos repassa — mais uma vez uma fofoca, não tendo como fator contrário à confiança o desejo de “ter algo interessante para contar”, como em “O jardim selvagem”, mas a ebriedade de uma das fontes de informação e a possível ebriedade da outra. Em “Um chá bem forte e três xícaras”, o narrador em terceira pessoa não onisciente dá-nos o drama das personagens apenas através de seus gestuais ou da ausência deles, através do ambiente, através dos silêncios. E por aí vai.
Como a interpretação dos contos está muito ligado a pequenas sutilezas no comportamento das personagens, lê-los é estar atento a como nos comportamos no cotidiano, transformando-nos em leitores do corpo. Uma das diversas revisões feitas no conto “As pérolas” (ela revisou todos os contos de Antes do baile verde, e isso mais de uma vez), mostra-nos isso através de uma ocorrência que novamente nos dá a interioridade da personagem através de seu gestual, concorrendo para isso uma pequena mudança, concernente ao tipo de roupão da personagem: antes, Tomás usava um roupão com bolsos laterais — “E por incrível que parecesse, ainda estava em suas mãos impedir. Crispou-as ferozmente”; agora, com um bolso frontal — “E estava em suas mãos impedir. Crispou-as dentro do bolso do roupão.”. Essa alteração no “corte da roupa” faz com que a personagem, em vez de ter as mãos uma de cada lado do corpo, o que lhe daria alguma altivez, coloque-as na frente, juntas, como se as guardando (elas) e guardando-se (ele) no regaço, num sutil sinal de fragilidade, desproteção. Isso demonstra a atenção para o detalhe e para a construção da situação-ambiente.

Literatura sobre cupins

Acredito que se Lygia Fagundes Telles fosse de outra nacionalidade e se não tivesse sido lida através dos livros didáticos, chegando de outra forma a muitos de nossos leitores, como chegam a eles os textos de tantos autores estrangeiros, a recepção de sua obra seria bem diferente. Mas, isso tem muito a ver com o risco assumido por ela, tem a ver com sua aposta: a de escrever uma obra cujas principais qualidades são percebidas quando nos permitimos enxergar, para além do prédio, o que há sob sua aparência, sua estrutura, a arquitetura do pântano. As rasuras na calmaria, os cupins roendo as estruturas.

Os livros de Lygia estão sendo publicados atualmente numa ótima coleção da Companhia das Letras, cujas capas trazem obras de Beatriz Milhazes.

as horas nuas companhia das letras

Sobre os livros de Lygia, indico a leitura destes textos de Alfredo Monte, de seu blog Monte de Leituras:

A poética do sorrateiro: “As meninas”, de Lygia Fagundes Telles

Uma prosa toda feita de delicadezas perigosas: Lygia Fagundes Telles

Raízes em águas paradas: os 50 anos de “Verão no aquário” nos 90 de Lygia Fagundes Telles

A tapeçaria e suas dimensões (sobre “As horas nuas”)

O teatro da inocência (sobre “A noite escura e mais eu”)

Inês não é morta, muito pelo contrário (sobre “Invenção e memória”)

Um clássico do romance brasileiro: “Ciranda de pedra”

E sobre “Meus contos preferidos”, há um texto descontraído do blog Livrada!, do Yuri.

Em minha dissertação de mestrado, analiso os contos “A medalha”, “Venha ver o pôr do sol” e “Anão de jardim”. Se tiver curiosidade e saco e paciência, peço que leia o capítulo sobre “Anão de jardim”.

A terra deu, a terra dá, a terra cria

O Grande Poder da Música Popular Alagoana Nordestina Brasileira Universal.

Mestra Hilda e Mestre Verdelinho

Mestre Verdelinho, falecido em 18 de março de 2010, é parte de nosso patrimônio e está cravado em nossa memória afetiva. Mostra disso é sua composição Grande Poder, gravada por diversos artistas e certeza de cantoria e de dança se tocada em algum show em Maceió ou em outra cidade alagoana.

Aqui, o Grande Poder (letra e gravações).

O nosso Deus corrige o mundo pelo seu dominamento
Sei que a terra gira com o seu grande poder
Grande poder com o seu grande poder
Deus corrige o mundo pelo seu dominamento
A terra gira com o seu grande poder
Grande poder com o seu grande poder
A terra gira com o seu grande poder

A terra deu, a terra dá, a terra cria
A terra cria, a terra deu, a terra dá
A terra voga, a terra fica, a terra há
A terra acaba com toda má alegria
A terra acaba com inseto que a terra cria
Nascendo na terra, nessa terra há de viver
Morrendo na terra, para essa terra é de comer
Tudo que vive nesse mundo pra essa terra é alimento
Deus corrige o mundo pelo seu dominamento
Sei que a terra gira com o seu grande poder
Grande poder com o seu grande poder
Sei que a terra gira com o seu grande poder
Grande poder com o seu grande poder
A terra gira com o seu grande poder

Porque no céu a gente ver uma estrelinha
Aquela estrela começa a se mudar
Aquela estrela começa a passear
Tem uma mais acesa outra mais apagadinha
Tem uma maior tem outra mais miudinha
E ás seis horas da manhã ela começa a se esconder
Às seis horas da noite é que torna a aparecer
Só é quando ela brilha em cima no firmamento
É porque Deus corrige o mundo pelo seu dominamento
Home a terra gira com o seu grande poder
Deus corrige o mundo pelo seu dominamento
Sei que a terra gira com o seu grande poder

O homem aplanta um rebolinho de maniva
Aquela maniva com dez dias ta inchada
Começa nascer aquela folha orvalhada
Ali vai se criando aquela obra positiva
Muito esverdeada muito linda e muito viva
Embaixo cria uma batata que engorda e faz crescer
Aquilo dá farinha pra todo mundo comer
Para toda criatura vai servir de alimento
Deus corrige o mundo pelo seu dominamento
Sei que a terra gira com o seu grande poder
Deus corrige o mundo pelo seu dominamento
Sei que a terra gira com o seu grande poder

O meu amigo em você eu me confio
Eu me confio que meus olhos correm n’águas
Eu admiro uma piaba dentro d’água
Ela faz a morada não sente calor nem frio
Se o sol esquenta ela precura um sombrio
Na toca de uma barqueira pro mode se esconder
Arruma lodo começa a comer
Quer dizer daquele lodo vai servir de alimento
Nosso Deus corrige o mundo pelo seu dominamento
A terra gira com o seu grande poder
Deus corrige o mundo pelo seu dominamento
A terra gira com o seu grande poder

Mestre Verdelinho

Wado e o Realismo Fantástico

Déa Trancoso

Comadre Fulôzinha

Fogueira das Rosas

Informações sobre Mestre Verdelinho, aqui: Site da Secretaria de Estado da Cultura.

traduzione, tradizione

pots flan pudim

Ao se falar sobre tradução, muitas vezes vem à língua a expressão “traduttori, traditori”. Há uns dias, pensando sobre o assunto — por não traduzir, apenas penso —, achei que “traduzione, tradizione” seria uma expressão que deveria ter seu lugar de relevo.

Não posso falar se a primeira expressão é realmente correta ou incorreta, deixando isso para os estudiosos da arte tradutória, que sabem das nuances da coisa, já havendo em muitas situações discutido a esse respeito (traduttori, traditori).
A mim, permito falar apenas a segunda expressão — tradução, tradição —, posto parecer tão afeita aos gostos, à passagem do tempo, a uma determinada época. Por vezes, uma tradição movida por gosto; por outras, movida pela circunstância de ter sido aquela tradução a única a existir ou aquela que nos chegou à mão. Alfredo Monte, por exemplo, fala em seu blog Monte de Leituras sobre como gosta da tradução de Crime e Castigo feita por Rosário Fusco, e  que por décadas foi a tradução mais celebrada do romance de Fiódor Dostoiévski no Brasil.

Apenas há um ou dois meses vim ler o livrão Odisseia, de Homero. Li-o na tradução de Christian Werner editada pela Cosac Naify. É a melhor tradução do livro? Eu jamais saberia dizer, podendo responder apenas que foi a que me apaixonou assim que li trechos divulgados na imprensa. Durante dias, li apaixonadamente a aventura de Odisseu. Durante dias, troquei mensagens com um amigo, pelo whatsapp, mandando fotos de trechos, fotos das construções sintáticas, das imagens. A Odisseia dita a mim pelo Christian Werner me encantou e encantou a esse meu amigo. E falamos dela a outras pessoas, e a coisa se espalha. E daqui a anos, quando eu pensar em Ítaca, estarei pensando na Ítaca de Homero dada a mim por Christian Werner.
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Do mesmo modo eu me lembrarei de Ao Farol, de Virginia Woolf, que me foi dado por Denise Bottmann, e de que falei a amigos, a alunos. A imagem do silêncio sendo quebrado pelas botinas da sra. McNab. A imagem da escuridão como que lambendo o interior da casa. Daqui a anos, o To the lighthouse de Virginia Woolf será aquele que me foi dado por Denise Bottmann. Um livro que levei comigo num fim de semana, para me ser companhia quando eu não conseguisse escrever — eu me recolhera para escrever —, mas que se tornou o centro dos dias, pois não conseguia parar de ler, mergulhando obsessivamente na vida dos Ramsay e de seus visitantes. Aquele início do romance; aquela parte intermediária, mostrando o passar do tempo; aquele belo, melancólico, elegíaco final. Nunca esquecerei. Aqueles dias foram uma leitura e uma experiência inesquecíveis.
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Paulo Henriques Britto me deu o final surpreendente de O Som e a Fúria, de William Faulkner. Não fosse ele me falando todas aquelas páginas, eu não teria visto o Benji e a flor de caule quebrado, tudo sendo como sempre foi, a agonia imutável. Meus amigos e alunos leem O Som  e a Fúria de William Faulkner dito a nós por Paulo Henriques Britto. Eu tinha de falar do livro a eles, um livro de leitura árdua, lenta. Passei seis meses para terminá-la. E para conseguir, porque o livro queria atenção integral, fui a uma pousada passar um fim de semana dedicado apenas ao livro. No final da leitura, tive de ir a um telefone público telefonar para a um amigo, contando-lhe sobre como era belo, impactante, terrível o seu final.

post o som e a fúriaQuando quero comentar sobre algo que se distingue dos demais, por vezes refiro-me a uma fala da Avó de José Cemí, no Paradiso, de José Lezama Lima, dado a nós por Josely Vianna Batista: “Hoje estou com vontade de fazer um creme, não como os que se comem hoje, que parecem de botequim, mas os que têm algo de flan, algo de pudim”.
Josely lançou uma nova tradução do livro. Encontrei-o numa livraria e busquei esse trecho. Eu prefiro como ele está na primeira tradução. Não terminei de ler o livro que tenho, mas não comprarei a nova tradução e também não comprarei a de Olga Savary — porque esse trecho em específico me disse muito. E confio na jovem Josely, confio no quanto de beleza ela pôde nos dar. Para mim, lembrar-me de Paradiso é lembrar-me dessa frase, e não quero perdê-la.

post paradisoE falando em beleza, vejo a imagem de Virgílio chegando ao porto de Brundísio, na voz de Herbert Caro dando-nos a voz de Hermann Broch em seu A Morte de Virgílio. E Vera Pedrosa me dando, na adolescência, o amor e a danação de Cathy e Heathcliif em O Morro dos Ventos Uivantes, da Emily Brontë — aí, a primeira tradição de que pude participar: diversos alunos do colégio lendo e comentando sobre o romance,  parando uns aos outros nos corredores e perguntando que livro era aquele sobre o qual tanta gente estava falando. Lembro-me agora de uma tarde em que ficamos sentados num corredor, à porta de um dos laboratórios de química, tratando das personagens, lendo trechos, falando das sensações.
post a morte de virgíliopost o morro 03

De Moby Dick, de Hermann Melville, dito a nós por Irene Hirsch, saiu o título de uma peça da companhia de teatro de que faço parte, por conta deste trecho: “O sol já tinha nascido. Em pouco tempo a tripulação subiu a bordo, de dois em dois ou de três em três; os armadores estavam atarefados; os imediatos trabalhavam ativamente; e muitos dos trabalhadores estavam ocupados trazendo a bordo as muitas últimas coisas. Durante esse tempo, o capitão Ahab permaneceu invisível no santuário de sua cabine”.

post moby dickNão fosse por Aulyde Soares Rodrigues, eu não teria ido ao abismo com Adrienne Mesurat, personagem do livro homônimo de Julien Green.

post adrienne mesurat

Por conta de Maria Deling, saí correndo do quarto do pensionato em que morava em São Paulo, para telefonar a uma amiga, falando que havia lido algo emocionante, de uma beleza que eu nunca tinha visto  —  e que ficou repercutindo na minha cabeça por anos. E ainda hoje repercute: Aschenbach admirando Tadzio em Morte em Veneza, de Thomas Mann. Trecho com que acabo esta postagem que quer apenas agradecer aos tradutores por nos darem suas traduções.

Morte Em Veneza 01Morte Em Veneza 02Morte Em Veneza 03


Nota 1: enquanto escrevia, procurei na internet “traduzione, tradizione” e encontrei este site italiano sobre tradução: Traduzionetradizione.

Nota 2: de todos os livros, busquei as capas das edições que li (ou que comecei a ler). De O Morro dos Ventos Uivantes, a capa do livro que li não foi essa; mas a que postei aqui também é uma edição da mesma tradutora. Sobre esse livro, há neste blog uma postagem aqui: “O morro dos ventos uivantes” : nova tradução e coisas mais. E também relacionado ao livro há esta outra postagem, em que faço uma brincadeira musical unindo Emily Brontë, Hilda Hilst, Elvis Presley e Pet Shop Boys: Heathcliff is always on my mind.

Nota 3: sobre Adrienne Mesurat, há esta postagem: Adrienne Mesurat ou A Solidão Desesperada.

Entre o carneiro e o touro, a amizade: Lygia Fagundes Telles e Hilda Hilst

19/04/2014 2 comentários

Hoje, em 19 de abril, Lygia Fagundes Telles completa 91 anos. Depois de amanhã, em 21 de abril, Hilda Hilst completaria 84 anos. Lygia é ariana, Hilda era taurina. Após uma espera de sete anos para que ambas existissem, apenas um dia ficou separando-as.

Hilda & Lygia

Em 1998, Hilda deu um depoimento sobre sua amiga de longa data — elas se conheceram em 1949, numa homenagem a Lygia, que já era uma contista premiada, pois seu livro “O cacto vermelho” havia recebido o Prêmio Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras. Conheceram-se em uma festa na Casa Mappin; Lygia conduzia “a bela Cecilia Meireles (usava um turbante negro, no estilo indiano)”, quando apareceu Hilda, “uma jovem muito loura e fina, os grandes olhos verdes com uma expressão decidida. Quase arrogante. Como acontece hoje, eram poucas as louras de verdade, e essa era uma loura verdadeira, sem maquiagem e com os longos cabelos dourados presos na nunca por uma larga fivela. Vestia-se com simplicidade. Apresentou-se: ‘Sou Hilda Hilst, poeta. Vim saudá-la em nome da nossa Academia do Largo de São Francisco’. Abracei-a com calor. ‘Minha futura colega!’, eu disse, e ela sorriu. Quando se levantou, bastante emocionada para fazer o seu discurso, ocorreu-me de repente a poética imagem da haste delicada de um ramo tremente de avenca […]” (Lygia Fagundes Telles sobre Hilda Hilst, no número 08 dos Cadernos de Literatura Brasileira do Instituto Moreira Salles, publicado em 1999).
Hilda, em seu depoimento, ao falar sobre a amiga, revela-a e revela-se. E é um trecho de sua fala que coloco aqui, como homenagem às duas mulheres e à amizade entre elas — como homenagem à literatura e à amizade.

Disse Hilda:
“Todo mundo fez tudo pra criar uma animosidade entre nós. Os nossos universos são parecidos, mas se expressam de modos totalmente diferentes. Por exemplo, eu nunca entendi o que quer dizer o ponto-e-vírgula. Eu perguntava pra Lygia, ela me explicava. Eu dizia: ‘Não entendo o ponto-e-vírgula’. Tanto é que nunca na minha vida eu escrevi com ponto-e-vírgula. Nunca entendi. Acho uma besteira. Pensei que não poderia escrever prosa porque não entendia o ponto-e-vírgula. Até que depois de 20 anos eu resolvi escrever.

Eu falo tudo claro. A Lygia se encobre. Quando ela está comigo, por exemplo, a Lygia sozinha, ela é ela. Mas ela tem um certo respeito pelo outro. Eu não tenho o menor respeito. Isto não é um defeito da Lygia, é um defeito meu. Mas ela teve também uma vida muito mais difícil que a minha. O pai dela era um jogador… Foi uma moça com a vida difícil. Eu sempre tive dinheiro e tal. Tudo isso é complicado de dizer.

Nós não falamos sobre literatura. É um assunto que nos irrita. Eu não falo porque gosto muito dela e tenho uma amizade profunda, afetiva mesmo, por ela. A gente não conversa sobre literatura. E somos muito tristes, o tempo todo. Telefono pra ela e digo assim: ‘Você acha normal a mulher que pariu num avião e teve a criança sugada pela turbina? Quer dizer que eu posso levar uma criançada na cabeça!’ Ela fala: ‘Como sugou!? Hilda, as pessoas estão loucas!’ A gente tenta falar coisas agradáveis, mas não consegue. Ou então a gente faz humor negro pra não ficar muito mal.

Ela sempre me disse que fica nua diante de mim. Eu também. Digo: ‘Lygia, eu estou péssima. Estou doentíssima, acho que vou morrer, venha me ver, pelo amor de Deus!’ Quero demais morrer segurando a mão da Lygia, porque sei que ela vai entender tudo na hora H. Ela vai dizer: ‘Hilda, fica calma e tal que é assim mesmo.’

A gente tem uma amizade, sei lá, pode ser até de outras vidas, embora sejamos muito diferentes. Aí Por exemplo, eu bebo muito, ela não bebe nada. Ela diz: ‘Eu vou beber um vinhozinho’. Mas eu já estou bebendo uma garrafa e vários uísques. Ela é muito ativa, é uma mulher mais velha do que eu, mas muito mais ativa. Ela vai ao Rio de Janeiro, corrige livros… Eu não quero corrigir livros nunca mais.

[…]

Hilda

Mas a gente ri muito. Ela diz coisas incríveis. Um dia ligaram pra ela dizendo que um conhecido nosso, meio distante, tinha acabado de morrer. Eu estava lá. Ela perguntou assim: ‘Mas, me diga uma coisa, ele estava bem?’ Aí o cara disse: ‘Lygia, ele estava morto!’ Ela tinhas distrações assim, ‘Mas como ele estava no caixão, ele estava bem?’ ‘Não, ele estava morto!’ Aí eu tinha ataques de riso, porque não era isso que ela queria dizer, ela queria saber se ele estava com uma parecença arrumada, porque tem aqueles bossa Oscar Wilde, caindo aos pedaços. Ela quis saber se a parecença dele era normal ou de assustar. Ela era distraída com essas coisas todas e eu ria muito. E outras coisas divertidíssimas.” (Hilda Hilst sobre Lygia Fagundes Telles, no número 04 dos Cadernos de Literatura Brasileira do Instituto Moreira Salles).

Lygia

Sobre dois importantes livros das autoras, há resenhas em Monte de Leituras: “A obscena senhora d.” (Hilda), “As horas nuas” (Lygia).
No mesmo site, o autor, Alfredo Monte, ao tratar do romance “Verão no aquário”, tece comentários sobre a amizade entre Hilda Hilst e Lygia Fagundes Telles, fazendo uma perspicaz aproximação entre essa relação e a que havia entre Herman Hesse e Thomas Mann — seus modos, suas obras, a recepção delas.

Não existe amor em SP – Criolo

Não existe amor em SP
Um labirinto místico
Onde os grafites gritam
Não dá pra descrever
Numa linda frase
De um postal tão doce
Cuidado com doce
São Paulo é um buquê
Buquês são flores mortas
Num lindo arranjo
Arranjo lindo feito pra você

Não existe amor em SP
Os bares estão cheios de almas tão vazias
A ganância vibra, a vaidade excita
Devolva minha vida e morra afogada em seu próprio mar de fel
Aqui ninguém vai pro céu

Não precisa morrer pra ver Deus
Não precisa sofrer pra saber o que é melhor pra você
Encontro duas nuvens em cada escombro, em cada esquina
Me dê um gole de vida
Não precisa morrer pra ver Deus

 

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